A QUE PERTENÇO?
A Cecília sempre teve ótimo gosto musical. Ela me apresentou Cascavelletes, Led Zeppelin, Rita Lee. Lembro quando ela disse: agora chegou a…
A QUE PERTENÇO?
A Cecília sempre teve ótimo gosto musical. Ela me apresentou Cascavelletes, Led Zeppelin, Rita Lee. Lembro quando ela disse: agora chegou a hora de ouvir The Great Gig in the Sky. Por isso, acenda as velas pelo quarto, apaga a luz e deita no tapete. A sensação foi tão forte, como se desse para sentir os dedos deslizarem pelas teclas do piano.
“And I am not frightened of dying…”
As chamas dançavam com a vibração da música. Por um instante as fronteiras geográficas foram rompidas e o espaço foi ocupado pela liberdade. Flertar com a morte é flertar com a liberdade.
Depois da música veio o silêncio mais alto de todos. Foi quando liguei o retroprojetor, coloquei tintas em um pequeno prato transparente e as joguei na parede com a fluidez guiada por uma agulha. As formas mudavam na parede até que o sono chegou sem avisar. Existe silêncio no adormecer?
Todas as noites os ouvidos estavam atentos à Cecília. A única referência era o rádio e ela era a comunicadora que me conectava ao mundo. Sempre com dicas fantásticas, parecia alguém a frente de seu tempo. Todas as noites eu queria fazer parte daquele mundo, ter referências quentes, viver de outro modo.
Certo dia Cecília disse que a rádio estava passando por mudanças e ela não faria parte dessa nova fase. Conferiu um ar alegre para aquela despedida e fechou o programa assim: obrigada a vocês que dividiram comigo as suas noites e dedicaram tanto carinho. Vou me despedir com a nossa rainha Rita Lee.
“Dance, dance, dance
Gaste um tempo comigo
Não, não tenha juízo
Dê-se ao luxo de estar sendo fútil agora”
Ela se foi sem que eu conhecesse nada além da sua voz, mas a semente já havia sido plantada.
O momento chegou.
Vencido alguns estágios da vida, cheguei ao lugar onde a efervescência acontecia. Senti-me feliz. Muito feliz. Extremamente feliz!
Durante o tempo que separou os pontos A e B, o modo de vida mudou. A vida passou a ser conectada, as fontes de informação se multiplicaram. As referências que eram difíceis passaram a estar a um clique de distância.
Por incrível que pareça, passei a me sentir desconectado. A facilidade de conexão parece ter eliminado a chance de criar vínculos. O mundo na janela tem grades invisíveis. Antes eu queria pertencer ao mundo com o qual flertei. Agora queria saber a que pertenço.
메타데이터
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