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Precisamos Defender Nosso Rolé

Todo santo dia, o acordar é precedido da última ação de guerra empreendida por aquele que foi colocado pela História como o atual império…

Flavio Braga in Um Blog de Nada · 2026-03-31 22:18 · 10 claps · 3.3 min read
#crônicas #humor #rio-de-janeiro #lingua-portuguesa #imperialismo
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Wiki topics: 😂 · Humor & Satire

Precisamos Defender Nosso Rolé

Todo santo dia, o acordar é precedido da última ação de guerra empreendida por aquele que foi colocado pela História como o atual império que fascina e amedronta a Humanidade. Um império que já é uma máquina de moer gente ao redor do mundo, com um poder além da sua máquina de guerra: se impõe política, econômica e culturalmente. Tanto assim o é que há inúmeros fervorosos fãs do seu “way of life” e da sua democracia levada por armas de última tecnologia às nações mais longínquas e de nomes mais impronunciáveis possíveis — porém, se por lá há petróleo ou algo que valha para manter a postura de valentão de filmes da Sessão da Tarde, lá estão eles.

Só que, tal qual a donzela que procura o amor verdadeiro, eles procuram o seu próprio atoleiro. Vietnã não foi suficiente. Há de se atolar de uma forma maiúscula para que entrem também na História com a derrocada mais vergonhosa.

Mas há também os imperialistas que fazem pouco barulho. E que seu barulho só é sentido quando olhamos sob a perspectiva do “como deixamos isso acontecer?”. Tal qual o que acredito que tenha acontecido com os povos indígenas que tiveram o primeiro contato amigável com os portugueses, nós inocentemente fomos aceitando as mudanças nas palavras do nosso cotidiano. O que fizeram com “molho à campanha”, “trabalho” e “ônibus” foi um tiro de advertência certeiro nas costas, digno de ações policiais bem cariocas. O “irmão” foi ferido, anda mancando, com auxílio de bengala, mas passa bem. Essas palavras foram substituídas, respectivamente por “vinagrete”, “trampo” e “busão”. “Mano” pegou até a página dois, mas confesso que é odioso e dói aos ouvidos escutar os mais novos falando “maaaanooo” como advérbio de intensidade ou como expressão de surpresa medido pela extensão das vogais.

Mas o que fizeram com o “ROLÉ” não tem perdão. É como queimar o altar da carioquice — embora acredite que não somos os únicos a usar o “E” aberto na referida palavra. Ver um carioca, que nunca saiu nem da Grande Madureira, falar “dar um rolê” para se referir a um passeio assaz aprazível até esvazia a vontade de passear. O acento circunflexo (vulgo “acento do vovô”) de “rolê” é um desconvite até para a saída mais homérica, daquelas que envolvem tiros de meiota pro alto, mulheres peladas, jogatina, pega de carro e funk de baile de corredor. Já “Dar um rolé” dá um tom apocalíptico até a uma ida à padaria.

Não aceito “rolê”. Não tem como. Eu, na condição de colonizado que se sentiu obrigado a defender o que é nosso como um Policarpo Quaresma suburbano, sinto que faltou tanto a nós, cariocas, e aos primeiros povos originários a ter contato com os portugueses, alguém que no tumulto gritasse para se ter cuidado, pois ser muito da amizade com os forasteiros ia dar ruim. Não que não se possa conviver com o diferente, longe disso, é preciso e necessário, pois conviver com o diverso é enriquecedor. Mas as imposições pelas armas ou pelos influencers é de uma natureza cruel, muito cruel. Ambos seduzem nosso olhar e os ouvidos. Há a maravilha em torno do brilho das armas e telas, o barulho dos tiros (por aqui, gostamos morbidamente) e as dancinhas e o estilo de vida. Mas ninguém notou que eram armadilhas. E estamos hoje, falando português, com direito a “rolê”. Inadmissível. É um poço sem fundo.

É preciso um Cacique Raoni entre nós para dizer ao imperialismo paulistano que “rolê bom é bife à rolê” e tudo que for diferente de “rolé” recusamos educadamente. Que essa liderança esteja disposta a fazer tour pelo mundo com algum equivalente do tempo presente ao Sting para denunciar esse “rolécídio” a todos povos do mundo, inclusive em São Paulo. Que sejamos capazes de corrigir nossos filhos pelo amor ou pelo terror a cada “rolê” falado, que os professores de Português forcem os pequenos projetos de farialimers que “aqui é rolé”, escrito a exaustão nos quadros de sala de aula Rio de Janeiro afora. Que surjam grupos que espalhem pela cidade cartazes como “ROLÊ É O CACETE, VIVA O ROLÉ CARIOCA” ou algo assim. Precisamos de ação. Precisamos resistir.

Ou é isso, ou nosso rolé vai ser bem mais ou menos a cada vez que nos referirmos a ele como rolê. Vocês querem que uma ida a praia, ao samba, um baile funk de favela ou ao Maracanã seja mais ou menos? Nem eu. Então criem vergonha na cara e abram o “É” do rolé pra ontem! Que os gritos de liberdade para o “E” aberto em “rolé” seja entoado a plenos pulmões com palavras de ordem que dêem ênfase ao chiado do nosso sotaque. Afinal, o chiado, junto com a normalização do crime organizado, faz parte do nosso charme.

Paz, Justiça e um Rolé como ele tem que ser.


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