Sobre um poema de Cabral.
João Cabral de Melo Neto adorava arquitetura e, segundo diz o próprio poeta pernambucano em entrevistas, o arquiteto franco-suíço Le…
Sobre um poema de Cabral.
João Cabral de Melo Neto adorava arquitetura e, segundo diz o próprio poeta pernambucano em entrevistas, o arquiteto franco-suíço Le Corbusier foi ponta-de-lança a sua poesia. Como unir a medida clara dum edifício com o organismo indomável do poema? "Fábula de um arquiteto" é um poema exemplar de como aplicar poeticamente o tempo e o espaço.
A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
2
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.
Antônio Carlos Secchin, doutor em Letras pela UFRJ, em nota na sua antologia poética de Cabral declara que este poema é dedicado à Corbusier. Não por acaso "Educação pela pedra", livro no qual a Fábula está incluída, foi lançado um ano após a morte do arquiteto. Dada a natureza das duas seções, poder-se-ia dizer que a primeira refere-se à arquitetura extrovertida em pilotis e terraço-jardim de obras como Vila Savoye, e a segunda à de Capela de Ronchamps e do Convento de La Tourette, introspectiva e "corpopulenta", como diz o poeta em outro verso exterior ao texto em questão. A primeira seção mantém constante palavras derivadas de abrir; a começar por "portas/ de abrir", ao eliminar o hífen, é o como se "de abrir" deixasse de ser uma tipologia de esquadria e passasse a ser especialidade da porta; pela configuração do verso, dá-se a impressão de penetrar no poema como se na galeria de portas abertas da Vila. Décima de pontuações bem localizadas, muito embora flúida, i.e., respeitando a sintaxe, em "livres: ar luz razão certa", elimina-se as vírgulas como se para montar um ideograma, provocando o leitor-flâneur fazer sua promenade nos espaços: palavras-coluna. Na segunda seção, permanece um assíduo claro-escuro, causa-consequência, bem determinados nas palavras iniciais e finais dos versos, com proeminência de radicais de natureza introspectiva (medo, muro, feto) cerceando a leitura-passeio paulatinamente à figura do embrião humano na "capela útero", como faz, ao transeunte, Le Corbusier em seu Templo de Ronchamps.
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