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Laranjas

Lívio Soares de Medeiros · 2024-02-10 16:20 · 0 claps · 1.4 min read
#crônicas #literatura #intertextualidade #machado-de-assis
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Laranjas

Há dias em que nos damos conta de parte do que somos de modo aparentemente súbito. Em momentos assim, algo de que vínhamos suspeitando vem à tona, fazendo com que enxerguemos com clareza alguma coisa que, até então, estava difusa. Dias atrás, tornou-se nítido para mim que sou um perdedor. Escrevo isso sem draminha, sem dramalhão.

São meus, os parâmetros de que me valho nesse veredito que a mim atribuo. Não me baseio em infrutíferos discursos de autoajuda nem em inócuas dicas propaladas pelo empreendedorismo. Fracasso ou sucesso não dizem respeito a comparações que fazemos com os outros, mas àquilo que cada um concebe para si, quando cotejados o que foi desejado e o que foi alcançado. Meu fracasso diz respeito a mim comigo mesmo, não a mim em comparação com os outros.

Aquilo que vislumbrei, aquilo com que sonhei, não realizei ou realizei pelas metades. Minha trajetória pode ser traçada com uma linha cuja gradação começa no topo da montanha e desemboca no rés do chão. Pela frente, uma platitude que precisa tomar cuidado para não cair em exagerado cinismo ou em triste resignação.

Meu caminho é o caminho de tantos, mais um caminho em meios a bilhões. Não inventei o êxito nem sou o criador da derrota. Nesse caldo existencial, faltaram-me generosas pitadas do tempero da disciplina e da pertinácia, sobraram doses de lassidão e preguiça. Dei-me conta, de maneira límpida, desse estado de coisas enquanto eu estava pegando pesos numa academia.

Ainda assim, nem tudo são “choro e ranger de dentes”, Mateus. Perto da academia, há uma feira. Terminados os exercícios, passei lá, comprei algumas frutas. Dentre elas, laranjas. Já em casa, lembrei-me de que, quando menino, eu tinha fascínio por descascadores de laranjas. O manejo do equipamento gerava duas obras-primas estéticas: a casa da laranja e o fruto descascado.

Ainda vou comprar um descascador de laranjas. Enquanto isso, com a faca na mão, comecei a tirar a casca da primeira laranja. Depois, da segunda, da terceira, da quarta… Todos os frutos estavam suculentos, apetitosos. Foram devorados com quase sofreguidão. Deles, não sobraram nem os bagaços. Ao perdedor, as laranjas.


메타데이터
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