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O segredo dos Ninfa — parte 2

Segunda parte do conto O Segredo dos Ninfa, que conta uma história dos povos que vivem no olimpo, como ninfas, centauros e sátiros

Rod Zandonadi · 2020-09-14 18:56 · 0 claps · 7.3 min read
#ninfas #contos-de-etherion #contos #literatura-fantastica #o-segredo-das-ninfa
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O segredo dos Ninfa — parte 2

Visitantes Hostis

Essa é a segunda parte do conto O Segredo dos Ninfa. Você pode ler a parte 1 aqui:

O Segredo dos Ninfa — parte 1

Boa leitura!

Se ao menos eu pudesse mantê-lo aqui em casa, sem que os outros o vissem, mas o estrago já estava feito. Deixei o banheiro para que ele se lavasse e encostei na porta fechada.

Aquele mortal ter aparecido ali foi o maior presente que poderíamos ter recebido. Mesmo que aquilo arruinasse todas as alianças que as ninfas tinham com os outros povos, valeria a pena. Ele tinha que ser o xéno. Não tinha como ter aparecido nos Caminhos Ermos se não fosse.

Eu sabia daquilo porque nenhum mortal consegue fazer a passagem. Pelo menos nenhum chega aqui em Etherion vivo.

Eu tinha muita coisa para pensar, muita coisa para organizar. Precisávamos realizar o rito do pertencimento antes que as outras raças os descobrissem. Olhei a noite nublada pela janela. Precisava que minhas princesas chegassem logo.

Ia para meu quarto, quando senti três poderosas presenças. Provavelmente eram do Círculo dos Cascos. Fiquei preocupada, pois se eles se deram ao trabalho de vir até aqui, bem, o garoto era realmente uma peça fundamental do Jogo da Floresta.

Eu precisava descobrir que peça ele era antes dos outros.

Desci as escadas para o rol de entrada. Sabia que estavam parados uns metros antes do meu território começar. Ninguém de nosso povo invade o território alheio sem que haja um convite formal ou uma declaração aberta de guerra. Esta última podia acontecer em instantes.

Ao sair pela porta não pude esconder minha surpresa. Não eram apenas membros do Círculo dos Cascos. Mas sim, seus líderes: Ciron, o centauro; Mika, o sátiro; e Likaor, o minotauro. Cada um era líder de seu povo e representava o que de melhor cada espécie possuía: a sabedoria dos centauros, a comunhão com a natureza dos sátiros, e a força dos minotauros. Os três juntos eram quase mais do que eu poderia lidar sozinha. Quase.

Eles me olhavam com expectativa e receio. Forcei — me a respirar devagar. Eles vieram me procurar, então, que fossem eles a se manifestarem. Passados alguns minutos de silêncio total, Ciron adiantou-se e curvou a cabeça.

— Saudações Loa.

Retribui o cumprimento

— Saudações Ciron. Como vão Mika e Likaor.

Ciron sorriu, embora o sorriso não chegasse aos olhos.

— Nos convida para seu lar?

Respirei fundo. Sabia que minha próxima palavra teria um preço muito alto. Ciron era um grande amigo. Nossos povos, os ninfa e os centauros, tinham muito em comum. Principalmente a magia da natureza. Meu coração se apertou quando respondi para ele:

— Não.

Pela reação de surpresa deles creio que não esperavam esta recusa. Os olhos de Ciron se tornaram tristes, o que só aumentou a dor em meu peito. Nenhuma raça ignora um pedido de um líder da Tríade, como os três eram chamados. Mas meu povo seguia um código diferente. Eu não estava abaixo deles na hierarquia do Povo da Floresta.

— E posso saber porque nos é negada a entrada em seu lar? — Questionou Likaor, com as narinas tremendo.

Mal sinal. Quando as narinas de um minotauro começam a tremer, as coisas não costumavam acabar bem.

Fitei os olhos de Likaor. Não podia demonstrar dúvida ou menos, senão ele atacaria. Minotauros não resistiam a um sinal de fraqueza.

— Porque jurei nunca mais abrir meu lar para um membro do Círculo dos Cascos — falei sentindo as mãos suarem.

Não era uma mentira.

Mika se espreguiçou. Molhou a mão na boca e deu uma pequena lustrada em seu chifre. Uma mania nojenta que não perderá nos últimos 300 anos.

— Bem, bem… As rosas brancas são lindas quando não se revertem de sangue. E sob que benção foi esse juramento? — ele quis saber.

— Sob a benção da Luz de Orion — disse.

Ele apenas assentiu. Juramentos eram sagrados, mas deviam ser feitos da maneira correta. Uma divindade deve ser invocada e sua propriedade, ou seja, seu poder, deve fazer parte do juramento. Orion era o gigante guardião da luz, e sob sua propriedade eu fiz o juramento décadas atrás. Isso ao menos impedia que entrassem e, uma vez dentro de casa, valessem de sua autoridade para me acusar ou investigar meu lar. Era uma maneira de ganhar tempo até pensar no que fazer com o humano de Midgard.

Mika ponderou olhando para o céu com seus olhos verdes, com um dedo indicador encostado nos lábios.

— O céu azul se esconde por trás das nuvens negras da imensidão do nosso céu. Creio que teremos que tratar do assunto aqui mesmo, companheiros.

— E que assunto seria? — perguntei fingindo inocência.

Todos sabíamos que essas frivolidades eram necessárias para o bom andar da carruagem. Ou seja, para evitar uma luta logo de cara. Bem, todos menos Likaor. Ele bufou e raspou o chão com seu casco. Tirou um machado de duas lâminas das costas que tinha no quase o seu tamanho.

— Viemos pelo xéno! O entregue e poupamos sua vida — ele gritou, apontando a arma para mim.

Ciron e Likaor suspiraram, dado o fim abrupto de qualquer esperança de negociação. Mas minotauros não eram conhecidos por sua paciência ou diplomacia, então, não era exatamente a primeira e nem seria a última vez que Likaor arruinava uma negociação que poderia ser pacífica.

Respirei fundo e ergui meus braços. Foi repentino demais e a Tríade não esperava isso. Projetei minha magia de tal maneira a impedir que tudo fora do meu domínio pudesse adentra — lo. Isso nos manteria seguros de tudo: viajantes perdidos, mudanças climáticas e o mais importante no momento: visitantes hostis.

Ciron tirou lentamente seu arco das costas. Era uma arma mística antiga, que segundo os relatos pertenceu ao rei Chiron, senhor dos centauros e um dos maiores mestres da arquearia entre os divinos antes da Separação.

— Por favor, Loe — ele disse. — Você entende que sua atitude te coloca como inimiga da Tríade, e desse modo, inimiga de todos os povos do Círculo dos Cascos?

Tive que rir.

— O Círculo dos Cascos nada mais é do que a soma das raças que caminham sobre cascos — retruquei. — Vocês se esquecem de quem eu sou.

Mika olhou para minha casa atrás de mim e suspirou novamente. Tirou suas lanças dos braços, e enquanto elas se expandiam em suas mãos, suspirou mais três vezes.

— O golfinho é um dos animais mais inteligentes do mundo marítimo, isso no mundo mortal — então ele me olhou e seus olhos brilharam. — Então, como senhora e mestra da Sociedade da Folha, você está abertamente se opondo ao Círculo dos Cascos?

Antes que eu pudesse responder, senti três poderosas auras se materializarem perto de nós.

— Na verdade — falou uma de minhas amigas — , você não sabe nada sobre golfinhos sátiro idiota. Você nunca conseguiria nadar em alto mar.

Olhei para o lado e sorri. Lia, a náiade mais instável e temperamental do Olimpo, que gostava de se vestir de shorts e blusinha verde limão. Em suas mãos estavam suas facas gêmeas, presente da Senhora da Caça.

— Não ouse apontar esse arco para mim, centauro — falou Nera, a nebulae, com tranquilidade. — Por mais mágicas que suas flechas sejam, seus ataques não são páreos para minha magia dos ventos.

Mika e Ciron trocaram os pesos dos pés, inquietos. Não eram tolos como Likaor. Sabiam que não teriam como enfrentar nós três juntas.

— Vocês não podem nos ameaçar, somos a Tríade! — bradou Likaor.

— Isso não significa nada para nós, minotauro — respondeu Alae, a dríade. — Somos as líderes da Sociedade das Folhas, e seu círculo, quadrado ou retângulo, seja lá o que for, não tem jurisdição em nosso território.

As três elevaram suas magias e as conectaram à minha. Juntas envolvemos nosso território, ou seja, toda a floresta, com nosso poder. Como consequência os membros da Tríade foram jogados para fora da orla da floresta.

Me aproximei de minhas amigas e elas se curvaram para mim.

— Minha rainha — disseram em conjunto.

Acenei com a cabeça e juntas fomos até o limite da floresta. Não demoramos, já que minha residência ficava perto da fronteira. Ao chegarmos, vimos a Tríade caída no chão, se recuperando de nossa investida.

Mika nos olhou com os olhos tristes, principalmente quando viu Nera.

— Quando o sol se põe, ele se entristece por não poder ver a lua. Creio que depois de hoje, nos encontraremos novamente no campo de batalha.

— Na verdade não, meu amigo — disse Ciron enquanto se levantava. — Não houve um ataque direto a nenhum de nós.

Likaor olhou com tanto ódio para Ciron que pensei que o atacaria ali mesmo.

— Como assim? A ninfa ergueu uma barreira mágica contra nós, e depois, nos expulsou da floresta junto com suas amigas orelhudas.

Lia ameaçou se adiantar diante daquele comentário, mas eu a impedi. Queria ver onde Ciron chegaria. Mas foi Mika quem respondeu, dando um meio sorriso.

— Ciron está certo, Likaor. A senhora Loa estava apenas protegendo seu lar de mudanças climáticas indesejadas quando ergueu a barreira.

Likaor ainda tentou retrucar.

— Mas fomos expulsos e…

— Um infeliz incidente — disse Ciron. — As senhoras têm o direito de proteger seu reino, principalmente quando estranhos de outro mundo são avistados perambulando por aí. Só estávamos dentro dos limites quando isso aconteceu, o que não faz da atitude delas uma declaração de guerra.

— As fêmeas dos escorpiões devoram os machos depois do acasalamento — falou Mika. — Nós nos retiraremos, senhoras. Mas tenho a impressão de que nos veremos novamente em breve.

Ele e Ciron, depois de nos olharem uma última vez, viraram e se foram.

Likaor ainda ficou ali, o corpo todo tremendo pela fúria. Ele chegou bem perto do limite de nossa magia o suficiente para seu corpo ser afetado, sendo impelido para trás.

— A Tríade e o Círculo podem encarar isso de maneira diferente, mas isso foi uma afronta ao povo dos minotauros — e dizendo isso, cuspiu no chão bem na nossa frente.

Então virou e se foi.

Ficamos um tempo em silêncio, absorvendo o impacto de tudo aquilo. Finalmente Lia falou o que estava na mente de todas nós.

— Vejamos o lado bom. Os minotauros, seres mais furiosos e donos de força bruta sem igual, declararam guerra contra nós. Mas pelo menos não estamos em guerra com o Círculo.

— Sim — concordou Nera. — Mesmo assim precisamos ficar atentas. Os sátiros e centauros serão chamados para lutar ao lado dos minotauros por causa do Pacto de Sangue. Se honrarão ou não o chamado, não sei dizer.

Alae olhou pra mim.

— O visitante é o escolhido?

As três me olharam com expectativa. Não dava mais para termos dúvidas, eu não podia mais ter dúvidas.

— Sim, ele é. E precisamos preparar tudo antes que Likaor volte com seu exército.

Elas olharam para o céu em silêncio, aquele céu escuro que não via o sol a eras. Sim, por elas, por meu povo, aquele rapaz seria o escolhido. Ele nos ajudaria.

Finalmente a dimensão de Midgard seria nossa.


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