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XANDÃO NO JOGO DOS RATOS

Há uma frase atribuída a Nietzsche segundo a qual temos a arte para não morrer da verdade. Pouco importa aqui se a citação é rigorosa. O…

Entretempos · 2025-12-24 14:52 · 0 claps · 5.4 min read
#stf #alexandre-de-moraes #politica #rede-globo #ratos
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Wiki topics: PHI · Philosophy

XANDÃO NO JOGO DOS RATOS

Há uma frase atribuída a Nietzsche segundo a qual temos a arte para não morrer da verdade. Pouco importa aqui se a citação é rigorosa. O ponto é outro: a realidade nua e crua pode ser insuportável, e a arte — pintura, música, literatura — surge como um remédio estético para a existência. Não como fuga, mas como forma de tornar a vida habitável. A arte permite dizer aquilo que não pode ser dito não porque seja tabu, mas porque sua crueza produziria escândalo até no mais podre dos homens. Nesse sentido, a arte sempre teve uma função ingrata: dizer o indizível. Se houve entre nós alguém que dominou essa técnica como poucos, esse alguém foi Raul Seixas.

Raul morreu cedo, em agosto de 1989, menos de um ano após a entrada em vigor da Constituição de 1988. Mas suas críticas permanecem atuais. Não porque o país não tenha mudado — mudou. Mudaram as normas, os textos legais, o vocabulário institucional. O que não mudou foi o projeto civilizacional brasileiro: o esculhambamento como método; a lei que vale para todos, mas nunca do mesmo jeito; a frouxidão institucional que serve para pisar na cabeça do pobre e para garantir que o rico receba, quando muito, um “ai, ai, ai, menino feio”.

Esse é o jogo que se joga no Brasil desde sempre. Não nas sombras, mas a céu aberto. Nas páginas dos jornais, nos editoriais ponderados, nas postagens indignadas em redes sociais. Raul chamava isso de jogo dos ratos. E alertava: para entrar nesse jogo, é preciso “transar” — isto é, negociar — como eles. Negociar com Deus e com o lobisomem ao mesmo tempo. Saber lidar com o sagrado e com o bestial. Porque a linguagem do poder por aqui é essa: invocam-se valores elevados para chafurdar na lama.

Claro, há formas e formas de jogar o jogo dos ratos. A mais vulgar é aquela em que o método aparece sem mediação: invoca-se o sublime e, logo em seguida, despeja-se o esgoto. É ruidosa, grosseira, quase caricatural. A mais refinada é outra coisa: invoca-se o sublime e deixa-se o esgoto subentendido. Nenhuma sujeira explícita, nenhum excesso verbal, nenhuma ruptura do tom civilizado. Apenas a manutenção elegante de um sistema em que tudo continua funcionando como sempre.

Para a elite refinada, jogar o jogo no modo vulgar é intolerável. E não porque isso exponha essas elites, não porque empodere o povo, não porque transforme em arma de destruição em massa aquilo que antes era manejado apenas por elas. O problema é outro: o vulgar captura o imaginário. Fecha sentido. Dá direção à justa revolta popular. Onde o vulgar aponta, o refinado perde margem de manobra.

O refinado, ao contrário, trabalha com o difuso. Ele não elimina a revolta; ele a mantém em suspensão. Sem objeto fixo, sem direção clara, pronta para ser utilizada quando convém, contra o inimigo da vez. Essa indeterminação não é falha: é método. É ela que permite que a indignação seja ativada, deslocada, reaproveitada conforme a necessidade do momento. E neste momento, sem sombra de dúvida, o inimigo da vez é Alexandre de Moraes. Xandão. O provocador geral dos instintos mais primitivos.

Quem acompanha meus escritos pode achar que há aqui alguma contradição. Afinal, não faz uma semana que sustentei que Alexandre de Moraes não fez outra coisa senão garantir a continuidade do arranjo no qual o jogo dos ratos é jogado (https://medium.com/@entretempos/o-que-a-esquerda-sabe-em-off-e-e-deveria-gritar-em-p%C3%BAblico-690a74ebf4f4). Que era erro analítico — e político — da esquerda tratá-lo como herói. E isso continua sendo verdade.

Moraes cumpriu uma função estrutural. Garantiu que o jogo continuasse sendo jogado sob as regras formais inauguradas em 1988. Não fundou nada novo. Não refundou o Estado. Não rasgou a Constituição. Ao contrário: operou dentro dela, com as ferramentas que ela oferece — ainda que até o limite do desconforto.

O ponto decisivo, porém, não está aí. O passo que ele deu — e que o tornou intolerável — não foi romper com a institucionalidade, mas algo mais grave para o projeto civilizacional brasileiro: romper com o esculhambamento como método. Como bem insinuou Malu Gaspar em artigo publicado em 27/11/2025, o Supremo Tribunal Federal — mais especificamente Moraes — tomou medidas excepcionais para garantir que o jogo continuasse sendo jogado. A palavra “exceção” aparece ali como alerta. Mas é preciso cuidado com o que ela significa.

A exceção instaurada por Moraes não foi a suspensão do Estado Democrático de Direito — a lei não deixou de ser aplicada. O que houve de excepcional foi o alvo da aplicação. Pela primeira vez, a força normativa do direito deixou de incidir apenas sobre os de sempre. Políticos de direita e militares de alto escalão — figuras historicamente blindadas pela institucionalidade frouxa — passaram a responder como qualquer outro cidadão. O pau que sempre bateu em Chico ameaçou bater também em Francisco. É aqui que o jogo refinado começa a ranger.

Malu Gaspar, evidentemente, não poderia declinar isso de forma direta. Tampouco poderia apontar a solução clássica para situações desse tipo, descrita por Giorgio Agamben em Estado de Exceção ao analisar a experiência romana: cessadas as condições que justificaram a exceção, o agente excepcional deve ser retirado de cena — não como punição, mas para evitar a cristalização do poder excepcional. No caso concreto, isso significaria algo óbvio demais para ser dito em voz alta: a renúncia de Moraes ao STF. Moraes, como era previsível, não fez esse movimento. Mas os ratos deixaram claro — em sua própria linguagem — que esse seria o gesto esperado.

Não por acaso, menos de um mês depois, em 21/12/2025, a mesma Malu Gaspar publica um “furo” jornalístico acusando Alexandre de Moraes de ter praticado advocacia administrativa junto ao Banco Central em favor do Banco Master. Não importa aqui se Moraes efetivamente fez lobby junto a Gabriel Galípolo para viabilizar a operação envolvendo o BRB. O que importa é que, caso tenha ocorrido, esse tipo de movimentação faz parte do jogo dos ratos como ele é jogado no Brasil — e isso não é novidade para ninguém. Desembargadores e ministros não são nomeados em nome de um Estado abstrato, mas a partir de interesses privados concretos — e, uma vez nomeados, respondem a esses interesses. Isso acontece em todas as esferas da federação, em todos os poderes. É cultura política sedimentada. No Brasil, não se faz simplesmente um pedido formal e se aguarda o resultado. Fala-se com alguém. Pede-se uma força. Comenta-se por alto. Isso é esculhambamento. Isso é institucionalidade frouxa.

Não se trata, portanto, de normalizar crime — no caso, o previsto no art. 321 do Código Penal. Trata-se de perguntar: por que este caso específico? Por que agora? E esse questionamento ganha contorno nítido no dia seguinte ao “furo”, quando Merval Pereira, também jornalista do Grupo Globo, publica um artigo cujo título dispensa hermenêutica: “Moraes precisa provar que acusações não são verdade”.

Aqui, o jogo refinado deixa de operar no subentendido. Um órgão de imprensa que se diz guardião do republicanismo, que clama pelo retorno à normalidade institucional e que denuncia condutas desviantes, rompe com tudo isso ao inverter o ônus da prova. Não é o acusador quem deve provar a culpa, mas o acusado quem deve provar a inocência. Não se trata de detalhe técnico, mas de uma mudança explícita de chave discursiva.

Este é o jogo do rato mais refinado: quando convém, o discurso é garantista; quando convém, é moralizante; quando convém, é procedimental; quando convém, é inquisitorial. Tudo sem nunca admitir a mudança de registro, tudo sem nunca anunciar a exceção — senão quando há necessidade de combater o inimigo da vez.

E o inimigo da vez não o é por pertencer a outro campo ideológico. Ele o é porque teve a audácia de manter aberta a possibilidade de responsabilização das elites deste país. Porque mandou prender golpistas e avisou que qualquer tentativa de libertá-los seria invalidada. Porque sinalizou, ainda que implicitamente, que o jogo passaria a ser jogado com o quadro normativo brasileiro, sem zonas de imunidade informal. E isso, meus caros, para quem vive do esculhambamento, é inaceitável.

A questão, portanto, não é se Moraes agiu dentro ou fora da lei. A questão é se a lei continuará valendo também para quem sempre esteve acima dela — ou se voltaremos ao arranjo em que ela vale apenas para quem nunca teve meios de escapar dela.


메타데이터
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