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A Cidade de Concentração — J.G Ballard

Tradução por Erich Ruy Alves

Erich Ruy Alves · 2024-08-18 18:12 · 0 claps · 25.4 min read
#jg-ballard #ficção-científica #ballard #distopia #cyberpunk
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A Cidade de Concentração — J.G Ballard

Tradução por Erich Ruy Alves

Nota da tradução: Algumas nomenclaturas, como as referentes à numeração e nomeação de ruas, foram adaptadas para melhor entendimento do público brasileiro. Da mesma forma, em casos relevantes, foi optada a conversão de certos valores numéricos para o Sistema Métrico como utilizado no Brasil.

Conversa de meio-dia na Rua do Milhão.

“Perdão, esse são os milhões do Oeste. Você quer a Rua 9775335 Leste.”

“Cinco dólares o metro cúbico? Venda!”

“Pegue um expresso para Oeste até a Avenida 495, cruze para um elevador da linha vermelha, e suba mil andares até o Terminal Plaza. A partir daí, siga para o sul e você o encontrará entre a Avenida 568 e a Rua 422.”

“Há um desmoronamento no condado de KEN! Cinquenta quarteirões por andares de vinte por trinta!”

“Escute isso — ‘FUGA EM MASSA DE PÍROS! POLÍCIA DOS BOMBEIROS ISOLA CONDADO DE BAY!’”

“É um lindo contador. Detecta até 0,005% de monóxido. Me custou trezentos dólares.”

“Você viu aqueles novos leitos interurbanos? Leva apenas dez minutos para subir três mil andares!”

“Noventa centavos o metro? Compra!”

“Você disse que a ideia veio até você em um sonho?” disse a voz. “Você tem certeza que ninguém deu ela a você?”

“Não,” M. disse categoricamente. A alguns metros de distância dele uma lâmpada direcional lançava um cone de luz amarela suja no seu rosto. Ele desviou os olhos do brilho e esperou enquanto o sargento se aproximava de sua mesa, batia os dedos na borda, e girava em torno dele novamente.

“Você falou sobre isso com seus amigos?”

“Apenas a primeira teoria,” M. explicou calmamente. “Sobre a possibilidade de voo.”

“Mas você me disse que a outra teoria era mais importante. Por que esconder isso deles?”

M. hesitou. Em algum lugar lá fora, um bonde manobrava e tinia ao longo do elevado. “Eu temia que eles não fossem entender o que eu queria dizer.”

O sargento riu amargamente. “Você quer dizer que eles teriam pensado que você é realmente louco?”

M. se mexeu desconfortavelmente no banco. O assento estava a apenas quinze centímetros do chão e suas coxas e músculos lombares pareciam placas de borracha inflamada. Após três horas de interrogatório, a lógica havia se desvanecido e ele tateou impotente. “O conceito era um pouco abstrato. Não havia palavras para ele.”

O sargento bufou. “Fico feliz em ouvi-lo dizer isto. Ele se sentou na mesa, observou M. por um momento, e então se aproximou dele.

“Agora veja,” ele disse confidencialmente. “Está ficando tarde. Você ainda acha que ambas as teorias são razoáveis?”

M. olhou para cima. “Não são?”

O sargento virou-se raivoso para o homem observando nas sombras próximo a janela.

“Estamos desperdiçando nosso tempo,” disse ele. “Eu vou entregar ele para o Psico. Você viu o suficiente, não viu, doutor?”

O cirurgião olhou pensativamente para suas mãos. Ele era um homem alto de ombros pesados, porte de lutador, com traços grossos e grosseiros.

Ele avançou, derrubando uma das cadeiras com seu joelho.

“Tem algo que eu quero verificar,” ele disse bruscamente. “Deixe-me sozinho com ele por meia hora.”

O sargento encolheu os ombros. “Certo”, ele disse, indo até a porta. “Mas tenha cuidado com ele.”

Quando o sargento saiu, o cirurgião sentou atrás da mesa e fitou vagamente para fora da janela, ouvindo o zumbido monótono que passava pelo enorme duto de ventilação de trinta metros que se erguia da rua abaixo da estação. Algumas luzes dos telhados ainda queimavam, e a duzentos metros de distância um único policial patrulhava lentamente sobre a passarela de ferro, suas botas ressoando na escuridão.

M. sentou no banco, cotovelos entre seus joelhos, tentando levar um pouco de vida de volta a suas pernas.

Eventualmente o cirurgião olhou para a ficha de acusação.

Nome: Franz M.

Idade: 20

Ocupação: Estudante.

Endereço: 3599719 Oeste R. 783, Nível 549–7705–45 KNI (Local).

Acusação: Vadiagem.

“Conte-me sobre esse sonho,” ele disse lentamente, dobrando ociosamente uma régua de aço entre suas mão enquanto olhava para M.

“Acho que você ouviu tudo, senhor,” M. disse.

“Em detalhes.”

M. se mexeu desconfortavelmente. “Não era nada demais, e o que eu me lembro não está muito claro agora.”

O cirurgião bocejou. M. esperou e então começou a recitar o que ele já havia repetido vinte vezes.

“Eu estava suspenso no ar sobre um terreno plano de campo aberto, algo como o chão de uma enorme arena. Meus braços estavam estendidos ao meu lado, e eu estava olhando para baixo, flutuando — ”

“Espere,” o cirurgião interrompeu. “Você tem certeza que não estava nadando?”

“Não,” M. disse. “Tenho certeza que eu não estava. Tudo ao meu redor era espaço livre. Essa era a parte mais importante. Não havia paredes. Nada além do vazio. Isso é tudo que lembro.”

O cirurgião passou o dedo pela borda da régua.

“Prossiga.”

“Bem, o sonho me deu a ideia de construir uma máquina voadora. Um dos meus amigos me ajudou a construí-la.”

O cirurgião assentiu. Quase que distraidamente ele pegou a ficha de acusação, esmagou-a com um único movimento de sua mão, e a jogou na lixeira.

“Não seja louco, Franz!” Gregson protestou. Eles garantiram seus lugares na fila do refeitório de química. “É contra as leis da hidrodinâmica. De onde viria sua flutuabilidade?”

“Suponha que você tenha uma palheta de tecido rígido,” Franz explicou enquanto eles passavam pelas escotilhas. “Digamos, uns três metros de largura, como uma daquelas seções de parede composta, com alças na superfície ventral. E então, você pula da galeria no Estádio Coliseu. O que aconteceria?”

“Você faria um buraco no chão. Por que?”

“Não, é sério.”

“Se fosse grande o suficiente e se mantivesse inteiro você desceria como um avião de papel.”

“Planar,” Franz disse. “Certo.” Trinta andares acima deles um dos expressos interurbanos passou rugindo, sacudindo as mesas e a cutelaria do refeitório. Franz esperou até eles alcançarem uma mesa e se sentarem, sua comida esquecida.

“E suponha que você esteja ligado a uma unidade propulsiva, como uma hélice de ventilador movida a bateria, ou um daqueles foguetes que eles usam nos Leitos. Com impulso suficiente para superar seu peso. E então?”

Gregson encolheu os ombros. “Se você pudesse controlar essa coisa, você iria…” Ele franziu a testa para Franz. “Qual a palavra? Você está sempre a usando.”

“Voar.”

“Basicamente, Mattheson, a máquina é simples,” Sanger, o professor de física, comentou ao entrarem na Biblioteca de Ciências. “Uma aplicação elementar do Princípio de Venturi. Mas qual o sentido disso? Um trapézio serviria seu propósito igualmente bem, e seria bem menos perigoso. Em primeiro lugar considere as enormes alterações que seriam necessárias. Dificilmente acho que as autoridades de trânsito verão isso com bons olhos.”

“Eu sei que isso não seria praticável aqui,” Franz admitiu. “Mas em uma grande área aberta deve ser.”

“Permitido. Eu sugiro que você negocie imediatamente com o Jardim Arena no Andar 347–25,” o professor disse caprichosamente. “Tenho certeza que eles adorariam ouvir sobre seu plano.”

Franz sorriu educadamente. “Não seria grande o suficiente. Eu estava realmente pensando em uma área de espaço totalmente livre. Em três dimensões, por assim dizer.”

Sanger olhou para Franz curiosamente. “Espaço livre? Isso não é uma contradição em termos? Espaço é um dólar o metro cúbico.” Ele coçou seu nariz. “Você já começou a construir essa máquina?”

“Não,” disse Franz.

“Nesse caso eu devo tentar esquecer tudo sobre isso. Lembre-se, Mattheson, a tarefa da ciência é consolidar conhecimento existente, sistematizar e reinterpretar descobertas do passado, e não perseguir sonhos loucos no futuro.”

Ele acenou com a cabeça e desapareceu entre as estantes empoeiradas.

Gregson estava esperando nas escadas.

“E então?” ele perguntou.

“Vamos experimentar esta tarde,” Franz disse. “Pularemos o Texto Cinco de Farmacologia. Eu conheço aquelas leituras de Fleming de trás pra frente. Eu vou pedir ao Dr. McGhee algumas autorizações.”

Eles saíram da biblioteca, e caminharam pelo beco escuro e mal iluminado que passava por trás dos enormes novos laboratórios da Engenharia Civil. Mais de 75 por cento dos alunos matriculados estavam nos cursos de arquitetura e engenharia, com apenas 2 por cento nas ciências puras. Consequentemente as bibliotecas de física e química eram alojadas na parte mais velha da Universidade, em dois barracos galvanizados praticamente condenados que já haviam abrigado a agora fechada Escola de Filosofia.

No final do beco eles adentraram o pátio da universidade e começaram a subir a escadaria de ferro que levava ao próximo andar cem metros acima. Na metade da subida, um PB de capacete branco os verificou superficialmente com seu sensor e acenou para que passassem.

“O que o Sanger achou?” Gregson perguntou enquanto eles subiam para a Rua 637 e caminhavam até a estação do Elevador Suburbano.

“Ele não serve para nada,” Franz disse. “Ele nem começou a entender o que eu estava falando.”

Gregson riu lamentosamente. “Eu não sei se eu estou.”

Franz pegou um ticket da máquina automática e subiu na plataforma para Baixo. Um elevador caiu na sua direção, seu sino tilintando.

“Espere até essa tarde,” ele retornou. “Você vai realmente ver alguma coisa.”

O gerente de piso no Coliseu rubricou as duas autorizações.

“Estudantes, é? Certo.” Ele sacudiu o polegar para o longo pacote que Franz e Gregson estavam carregando. “O que vocês tem aí?”

“É um dispositivo para medir a velocidade do ar,” Franz disse a ele.

O gerente resmungou e liberou a catraca.

No centro da arena vazia Franz desfez o pacote e eles montaram o modelo. Ele tinha uma ampla asa de papel e arame em formato de leque, uma fuselagem estreitamente estruturada e uma cauda alta e curva.

Franz o pegou e o lançou no ar. O modelo planou por seis metros e então deslizou até cair sobre a serragem.

“Parece ser estável,” Franz disse. “Vamos rebocá-lo primeiro.”

Ele tirou um carretel de barbante de seu bolso e amarrou uma extremidade em sua ponta.

À medida que corriam, o modelo levantou-se graciosamente no ar e seguiu eles por todo o estádio, a três metros do chão.

“Vamos tentar os foguetes agora,” Franz disse.

Ele ajustou as configurações da asa e da cauda e encaixou três foguetes lançadores de fogos de artifício em um suporte de arame acima da asa.

O estádio tinha cento e vinte metros de diâmetro e setenta e cinco de altura. Eles carregaram o modelo para um lado e Franz acendeu os pavios.

Houve uma explosão de chamas e o modelo acelerou pelo chão, dois metros no ar, um rastro brilhante de fumaça colorida sendo cuspida atrás dele. Suas asas balançavam suavemente de lado a lado. De repente a cauda explodiu em chamas. O modelo subiu bruscamente e fez um looping na direção do teto, estagnou pouco antes de atingir uma das luzes de sinalização, e mergulhou na serragem.

Eles correram até ele e apagaram com o pé as brasas incandescentes.

“Franz!” Gregson gritou. “É incrível! Realmente funciona!”

Franz chutou a fuselagem despedaçada.

“É claro que funciona,” ele disse impacientemente, afastando-se. “Mas como disse Sanger, qual o motivo disso?”

“O motivo? Isso voa! Não é suficiente?”

“Não. Eu quero um grande o bastante para me segurar.”

“Franz, calma. Seja razoável. Onde você poderia voar nisso?”

“Eu não sei,” Franz disse com firmeza. “Mas deve haver algum lugar. Algum lugar!”

O gerente de piso e dois assistentes, carregando extintores, correram pelo estádio até eles.

“Você escondeu aquele fósforo?” Franz perguntou rapidamente. “Eles vão nos linchar se acharem que somos Píros.”

Três tardes depois Franz pegou o elevador e subiu 150 andares até 677–98, onde o Escritório Regional de Imóveis tinha sua agência.

“Há um grande desenvolvimento entre 493 e 554 no próximo setor,” um dos funcionários disse a ele. “Não sei se é bom para você. Sessenta quarteirões por vinte por quinze andares.”

“Nada maior?” Franz questionou.

O funcionário olhou para cima. “Maior? Não. O que você está procurando? Um pequeno caso de agorafobia?”

Franz endireitou os mapas espalhados pelo balcão.

“Eu quero encontrar uma área de desenvolvimento mais ou menos contínuo. De duzentos ou trezentos quarteirões de tamanho.”

O funcionário balançou a cabeça e voltou ao seu livro de registro. “Você não foi para a Escola de Engenharia?” ele perguntou desdenhosamente. “A Cidade não vai aceitar. Cem quarteirões é o máximo.”

Franz o agradeceu e saiu.

Um expresso em direção ao sul o levou ao empreendimento em duas horas. Ele deixou o vagão no ponto de desvio e caminhou os trezentos metros até o fim do andar.

A rua, uma decadente porém movimentada avenida de lojas de roupas e pequenos negócios atravessando o enorme Cubo Industrial BIR de dez milhas de espessura, terminou abruptamente em um emaranhado de vigas e concreto arrancados. Um trilho de aço havia sido erigido ao longo da borda e Franz olhou por cima dele para dentro da cavidade, cinco quilômetros de comprimento, um quilômetro e meio de largura, e quase quatro quilômetros de profundidade, que milhares de engenheiros e demolidores estavam arrancado fora da matriz da Cidade.

Duzentos metros abaixo dele, linhas infindáveis de caminhões e vagões de trem levavam os escombros e detritos, e nuvens de poeira se espalharam em espiral pelas luzes de arco que brilhavam do teto.

Enquanto ele observava, uma cadeia de explosões rasgou a parede à sua esquerda e a face inteira subitamente escorregou e caiu lentamente em direção ao chão, revelando uma perfeita seção transversal de quinze andares da cidade.

Franz havia visto grandes empreendimentos antes, e seus próprios pais tinham morrido no histórico desabamento do Condado de QUA dez anos antes, quando três pilares fundamentais haviam quebrado e duzentos andares da Cidade haviam afundado três quilômetros abruptamente, esmagando meio milhão de pessoas como moscas em uma sanfona, mas o enorme abismo de vazio ainda deixava sua imaginação boquiaberta.

Ao redor dele, em pé e sentados nas saliências das vigas, uma multidão silenciosa olhava para baixo.

“Eles dizem que vão construir jardins e parques para nós,” um homem idoso comentou pelo cotovelo de Franz em uma voz lenta e paciente. “Eu ouvi até que eles talvez consigam uma árvore. Seria a única árvore de todo o condado.”

Um homem com uma camisa de moletom desgastada cuspiu sobre o trilho. “É o que eles sempre dizem. Com um dólar por metro, promessas são tudo com que eles podem desperdiçar espaço.”

Abaixo deles uma mulher que estava olhando para o ar começou a murmurar nervosamente. Dois transeuntes a pegaram pelos braços e tentaram levá-la embora. A mulher começou a se debater e um PB se aproximou e a arrastou para longe agressivamente.

“Pobre coitada,” comentou o homem na camisa de moletom. “Ela provavelmente morava em algum lugar por aí. Eles deram a ela noventa centavos por metro quando o tomaram dela. Ela ainda não sabe que terá que pagar dez dólares para tê-lo de volta. Agora eles vão começar a cobrar cinco centavos por hora só por sentar aqui e assistir.”

Franz olhou por cima dos trilhos por algumas horas e então comprou um cartão postal de um dos vendedores e caminhou pensativo de volta ao elevador.

Ele passou para ver Gregson antes de voltar ao dormitório dos estudantes.

Os Gregson moravam nos milhões do Oeste na Avenida 985, em um apartamento de três cômodos logo abaixo do telhado. Franz conhecia eles desde a morte de seus pais, mas a mãe de Gregson ainda olhava para ele com uma mistura de simpatia e suspeita, e enquanto ela o deixava entrar com seu sorriso habitual de boas-vindas ele notou que ela olhava de relance para o detector instalado no saguão.

Gregson estava em seu quarto, recortando alegremente quadros de papel e colando-os em uma grande construção frágil que vagamente lembrava o modelo de Franz.

“E aí, Franz. Como foi?”

Franz encolheu os ombros. “Só um empreendimento. Vale a pena ver.”

Gregson apontou para sua construção. “Acha que podemos tentar aqui?”

“Nós poderíamos.” Franz se sentou na cama, pegou um aviãozinho de papel ao seu lado, e o jogou pela janela. Ele nadou até a rua, desceu em uma ampla espiral e desapareceu na boca aberta de um duto de ventilação.

“Quando você vai construir outro modelo?” Gregson perguntou.

“Não vou.”

Gregson se virou. “Por que? Você provou sua teoria.”

“Não é isso que eu estou procurando.”

“Eu não te entendo, Franz. O que você está procurando?”

“Espaço livre.”

“Livre?” Gregson repetiu.

Franz assentiu. “Em ambos os sentidos.”

Gregson balançou sua cabeça tristemente e cortou outra folha de papel. “Franz, você está louco.”

Franz se levantou. “Veja este quarto,” ele disse. “Tem seis metros por quatro por três. Estenda suas dimensões infinitamente. O que você encontra?”

“Um desenvolvimento.”

Infinitamente!

“Espaço não-funcional.”

“Bem?” Franz perguntou pacientemente.

“O conceito é absurdo.”

“Por que?”

“Porque isso não poderia existir.”

Franz bateu na própria testa em desespero. “Por que não poderia?”

Gregson gesticulou com as tesouras. “É autocontraditório. Como a afirmação “Eu estou mentindo”. É uma aberração verbal. Interessante teoricamente, mas é inútil exigir dele significado.” Ele jogou as tesouras na mesa. “E de qualquer forma, você sabe quanto custaria espaço livre?”

Franz foi até a estante de livros e puxou um dos volumes. “Vamos dar uma olhada no seu atlas de ruas.”

Ele se voltou para o índice. “Aqui são mostrados mil níveis. Condado de KNI, quatrocentos mil quilômetros cúbicos, população de trinta milhões.”

Gregson assentiu.

Franz fechou o atlas. “Duzentos e cinquenta condados, incluindo KNI, juntos formam o 493º Setor, e uma associação de mil e quinhentos setores adjacentes compreende a 298º União Local.”

Ele interrompeu e olhou para Gregson. “Só por interesse, já ouviu falar?”

Gregson balançou sua cabeça. “Não. Como que — ”

Franz bateu o atlas na mesa. “Aproximadamente 4.1015 Grandes-Metros cúbicos.” Ele se inclinou na beirada da janela. “Agora diga-me: o que há além da 298º União Local?”

“Outras Uniões, eu suponho,” Gregson disse. “Eu não vejo sua dificuldade.”

“E além delas?”

“Mais outras. Por que não?”

“Para sempre?” Franz pressionou.

“Bem, até onde for o para sempre.”

“O grande diretório de ruas na velha Biblioteca do Tesouro na Rua 247 é o maior do Condado,” Franz disse. “Eu desci lá essa manhã. Ocupa três andares inteiros. Milhões de volumes. Mas não se estende além da 598º União Local. Ninguém lá tem ideia do que há lá fora. Por que não?”

“Por que eles deveriam?” Gregson perguntou. “Franz, aonde você quer chegar?”

Franz caminhou até a porta. “Desça até o Museu de Bio-História. Vou te mostrar.”

Os pássaros se empoleiravam em saliências rochosas ou gingavam pelos caminhos de areia entre as piscinas d’água

ARCHAEOPTERYX” Franz leu de um dos indicadores das gaiolas. O pássaro, magro e mofado, proferiu um coaxar doloroso, quando ele o alimentou com um punhado de grãos.

“Alguns desses pássaros tem os resquícios de uma cintura escapular,” Franz disse. “Minúsculos fragmentos de osso embutidos ao redor de suas caixas torácicas.”

“Asas?”

“Dr. McGhee acha que sim.”

Eles saíram por entre as fileiras de gaiolas.

“Quando ele acha que eles estavam voando?”

“Antes da Fundação,” Franz disse. “Trezentos bilhões de anos atrás.”

Quando eles saíram do Museu eles começaram a descer a Avenida 859. Na metade da rua uma densa multidão havia se reunido e pessoas lotavam as janelas e varandas sobre o Elevado, assistindo o esquadrão da Polícia dos Bombeiros arrombar uma casa.

As paredes divisórias no fim de cada quarteirão foram fechadas e pesados portões de aço selaram as escadarias para os níveis de cima e de baixo. Os poços de ventilação e exaustão estavam silenciosos e o ar já estava abafado e denso.

“Píros,” Gregson murmurou. “Deveríamos ter trazido nossas máscaras.”

“É apenas um susto,” Franz disse. Ele apontou para os detectores de monóxido que estavam por todo lugar, seus longos focinhos sugando o ar. As agulhas dos mostradores permaneciam seguramente em zero.

“Vamos esperar no restaurante em frente.”

Eles abriram caminho até o restaurante, sentaram-se pela janela, e pediram café. Este, como todo o resto do cardápio, era frio. Todos os aparelhos de cozinha estavam regulados para uma temperatura máxima de 35°C, e apenas nos restaurantes e hotéis mais caros era possível obter comida que fosse no máximo morna.

Abaixo deles na rua muitos gritos foram ouvidos. Os PBs pareciam incapazes de penetrar além do piso térreo da casa e começaram a afastar a multidão com cassetetes. Um guincho elétrico foi levado para o local e fixado às vigas abaixo da calçada, e meia dúzia de garras de aço pesadas foram carregadas para dentro da casa e presas às paredes.

Gregson riu. “Os donos vão ter uma surpresa quando voltarem pra casa.”

Franz olhava para a casa. Era uma habitação estreita e malcuidada espremida entre uma loja de móveis por atacado e um novo supermercado. Uma velha placa na frente havia sido pintada e evidentemente o proprietário havia mudado recentemente. Os atuais inquilinos haviam feito uma tentativa pouco animadora de transformar o cômodo do andar térreo em uma lanchonete barata.

Os PBs pareciam dar o seu melhor para destruir tudo e tortas e louças quebradas eram jogadas pelo pavimento.

“A multidão tá bem feia,” Franz disse. “Quer ir embora?”

“Espere.”

O barulho se dissipou e todos esperaram quando o guincho começou a girar. Lentamente os cabos se recolheram e tensionaram, e a parede frontal da casa inchou e se projetou para fora em movimentos rígidos e bruscos.

De repente houve um grito da multidão.

Franz levantou seu braço.

“Ali em cima! Olha!”

No quarto andar um homem e uma mulher vieram para a janela e olhavam para baixo freneticamente. O homem ajudou a mulher a sair até a beirada e ela engatinhou e agarrou-se a um dos canos de esgoto.

A multidão rugiu, “Píros! Seus Píros sanguinários!”

Garrafas eram arremessadas neles e ricocheteadas entre os policiais. Uma larga rachadura dividiu a casa de cima a baixo e o andar no qual o homem estava desabou e catapultou-o para trás, para longe de vista.

Então uma das vergas no primeiro andar estalou e a casa toda tombou e colapsou.

Franz e Gregson levantaram involuntariamente, quase virando a mesa.

A multidão avançou pelo cordão de isolamento. Quando a poeira baixou não havia nada além de um amontoado de alvenaria e vigas retorcidas. No meio disso estava a figura abatida do homem. Ele se moveu lentamente quase sufocado pela poeira, tentando se libertar dolorosamente com uma mão, e a multidão começou a rugir novamente quando uma das garras se enrolou e o arrastou para baixo dos escombros.

O gerente passou por Franz e se inclinou para fora da janela, seus olhos fixos no mostrador de um detector portátil.

Sua agulha, como todas as outras, apontavam para zero.

Uma dúzia de mangueiras jorravam no resto da casa depois de alguns minutos a multidão se movimentou e começou a se dispersar.

O gerente desligou o detector e saiu da janela, acenando para Franz.

“Malditos Píros. Podem relaxar agora, rapazes.”

Franz apontou para o detector.

“Seu mostrador estava morto. Não havia um traço sequer de monóxido em qualquer lugar aqui. Como você sabe que eles eram Píros?”

“Não se preocupe, nós sabíamos.” Ele sorriu obliquamente. “Não queremos esse tipo de elemento nesta vizinhança.”

Franz encolheu os ombros e se sentou. “Imagino que seja este um jeito de se livrar deles.”

O gerente olhou Franz desagradavelmente. “Isso mesmo, garoto. Essa é uma boa comunidade de cinco dólares.” Ele sorriu para si mesmo. “Talvez seis dólares agora que todos sabem de nosso histórico de segurança.”

“Cuidado, Franz,” Gregson o alertou quando o gerente havia saído “Talvez ele esteja certo. Píros de fato tomam conta de pequenas cafeterias e lanchonetes.”

Franz mexeu seu café. “Dr. McGhee estima que pelo menos quinze por cento da população da Cidade são Píros submersos. Ele está convencido que o número está crescendo e que eventualmente toda a Cidade vai pegar fogo.”

Ele afastou seu café. “Quanto dinheiro você tem?”

“Aqui comigo?”

“No total.”

“Uns trinta dólares.”

“Eu guardei quinze,” Franz disse pensativo. “Quarenta e cinco dólares; deve ser o suficiente para três ou quatro semanas.”

“Onde?” Gregson perguntou.

“Em um Superleito.”

“Super — !” Gregson interrompeu, alarmado. “Três ou quatro semanas! O que você quer dizer?”

“Só há um jeito de descobrir,” Franz explicou calmamente. “Eu não posso ficar só aqui sentado pensando. Em algum lugar há espaço livre e eu vou viajar no Leito até eu encontrar. Você vai me emprestar seus trinta dólares?”

“Mas Franz — ”

“Se eu não achar nada em algumas semanas eu troco de trilhos e volto para cá.”

“Mas a passagem vai custar…” Gregson calculou “… bilhões. Quarenta e cinco dólares não vão nem te tirar do Setor.”

“Isso será só para o café e os sanduíches,” Franz disse. “A passagem será de graça.” Ele levantou os olhos da mesa. “Sabe…”

Gregson balançou sua cabeça em dúvida. “Dá pra tentar isso nos Superleitos?”

“Por que não? Se eles perguntarem eu digo que estou voltando pelo caminho mais longo. Greg, você me empresta?”

“Eu não sei se eu deveria.” Gregson brincou impotente com seu café. “Franz, como pode haver espaço livre? Como?”

“É o que eu estou indo descobri,” Franz disse. “Pense nisso como minha primeira prova prática de física.”

A distância entre passageiros no sistema de transporte eram medidos ponto a ponto pela aplicação de a=√b²+c²+d². O itinerário percorrido de fato era responsabilidade do passageiro, e desde que ele permanecesse dentro do sistema ele poderia escolher qualquer rota que quisesse.

Passagens só eram checadas nas saídas das estações, onde sobretaxas necessárias eram coletadas por um inspetor. Se o passageiro não fosse capaz de pagar a sobretaxa — seis centavos o quilômetro — ele era mandado de volta para seu destino original.

Franz e Gregson entraram na estação na Rua 984 e foram até o grande console onde as passagens eram automaticamente distribuídas.

Franz inseriu uma moeda e apertou o botão do destino marcado como 984. A máquina roncou, tossiu uma passagem para fora, e o recipiente de troco devolveu sua moeda.

“Bem, Greg, adeus,” Franz disse ao se moverem até a barreira. “Vejo você em duas semanas. Eles estão me encobrindo no dormitório. Diga a Sanger que estou no Serviço de Incêndios.”

“E se você não voltar, Franz?” Gregson perguntou. “Suponha que eles te tirem do Leito?”

“Como? Eu tenho minha passagem.”

“E se você de fato encontrar espaço livre? Você voltará então?”

“Se eu puder.”

Franz deu um tapinha tranquilizador no ombro de Gregson, acenou e desapareceu entre os passageiros.

Ele pegou o Suburbano Verde local até o entroncamento distrital no condado seguinte. O trem da Linha Verde se deslocava a ininterruptos 112 km/h e a viagem durou duas horas e meia.

No Entroncamento ele trocou para um elevador expresso que o fez subir para fora do Setor em noventa minutos, a 640 km/h.

Mais cinquenta minutos em um intersetorial especial o levaram ao Terminal Principal que servia a União.

Lá ele comprou café e reuniu toda sua determinação. Superleitos corriam para leste e oeste, parando nessa e em cada décima estação. O próximo parou em setenta e duas horas, indo para oeste.

O Terminal Principal era a maior estação que Franz havia visto, uma vasta caverna quilométrica dividida em camadas por trinta andares. Centenas de poços de elevadores afundavam na estação e o labirinto de plataformas, escadas rolantes, restaurantes, hotéis, e cinemas pareciam uma réplica exagerada da própria Cidade.

Orientando-se por uma das cabines de informações, Franz subiu por uma escada rolante até a Camada 15 onde os Superleitos estavam atracados. Ao longo da estação havia dois gigantes túneis de aço a vácuo, cada um com sessenta metros de diâmetro, apoiados em intervalos de dez metros por pilares maciços de concreto.

Franz caminhou lentamente pela plataforma e parou pela passarela telescópica que se encaixava em uma das câmaras de ar.

Duzentos e setenta graus verdadeiros, ele pensou, o caminho todo, olhando para a parte inferior curva do túnel. Deve sair em algum lugar. Ele tinha quarenta e cinco dólares em seu bolso, dinheiro de café e sanduíches suficientes para três semanas, seis se ele precisasse, o tempo que fosse necessário para achar o fim da Cidade.

Ele passou os próximos três dias tomando café em alguma das trinta cafeterias na estação, lendo jornais descartados e dormindo nos trens Vermelho locais, que corriam jornadas de quatro horas em volta do setor mais próximo.

Quando finalmente o Superleito chegou, ele se juntou a um pequeno grupo de Policiais dos Bombeiros e oficiais municipais esperando na passarela, e seguiu eles para dentro do trem. Havia dois vagões: um leito que ninguém usava, e um de passageiros diurno.

Franz pegou um assento em um canto discreto perto de um dos painéis indicadores no vagão de passageiros, puxou seu caderno e se preparou para fazer sua primeira anotação:

1º Dia: 270º Oeste. União 4.350.

“Saindo para uma bebida?” um Capitão dos Bombeiros perguntou do outro lado do corredor. “Temos um intervalo de dez minutos aqui.”

“Não obrigado,” Franz disse. “Vou guardar seu lugar para você.”

Cinco dólares o metro cúbico. Espaço livre, ele sabia, traria o preço para baixo. Não havia necessidade de deixar o trem ou fazer muitas perguntas. Tudo que ele tinha que fazer era pegar um papel emprestado e observar as médias do mercado.

2º Dia: 270º Oeste. União 7.550.

“Eles estão economizando lentamente nesses Leitos,” alguém disse a ele. “Todo mundo senta no vagão de passageiros. Olha esse. Sessenta assentos, e só quatro pessoas nele. Não há necessidade de se mover por aí. As pessoas estão ficando onde elas estão. Em alguns anos não restará nada além dos serviços suburbanos.”

Noventa e sete centavos.

Em uma média de um dólar o metro cúbico, Franz calculou ociosamente, até agora vale cerca de $4.10²⁷.

“Está indo para a próxima parada, não está? Bem, adeus, jovem amigo.”

Alguns dos passageiros ficaram no Leito por mais de três ou quatro horas. No final do segundo dia, Franz sentia dor nas costas e no pescoço pela constante aceleração. Ele se exercitou um pouco andando para cima e para baixo pelo estreito corredor do deserto vagão dormitório, mas teve que passar a maior parte de seu tempo amarrado a seu assento à medida que o trem começava suas longas frenagens até a próxima estação.

3º Dia: 270º Oeste. Federação 657.

“Interessante, mas como você poderia demonstrar isso?”

“É só uma estranha ideia minha,” Franz disse amassando o rabisco e largando-o na rampa de descarte. “Não tem nenhuma aplicação real.”

“Curioso, mas me faz me lembrar de algo.”

Franz sentou-se ereto. “Você quer dizer que já viu máquinas assim? Em um jornal ou em um livro?”

“Não, não. Em um sonho.”

A cada meio dia de viagem o piloto assinava o registro, a tripulação entregava para seus substitutos em um Leito no sentido leste, cruzava a plataforma, e começava a viagem de volta para casa.

Cento e vinte e cinco centavos.

$8.10³³.

4º Dia: 270º Oeste. Federação 1.255.

“Um dólar por metro cúbico. Você tá no negócio imobiliário?”

“Começando,” Franz disse tranquilamente. “Espero abrir um novo escritório por conta própria.”

Ele jogou cartas, comprou café e pãezinhos do dispenser no banheiro, observou o painel indicador e escutou a conversa ao seu redor.

“Acredite em mim, chegará o momento em que cada união, cada setor, quase eu poderia dizer, cada rua e avenida haverá conquistado completa independência local. Equipados com seus próprios serviços de energia, aeradores, reservatórios, fazenda laboratoriais…”

O vagão continuou.

$6.10⁷⁵.

5º Dia: 270º Oeste. 17º Grande Federação.

Em um quiosque na estação Franz comprou um conjunto de lâminas de barbear e deu uma olhada no folheto publicado pela câmara de comércio local.

“Doze mil andares, noventa e oito centavos por metro, Rua Elm única, registros de segurança com fogo inigualáveis…”

Ele voltou para o trem, barbeou-se e contou os trinta dólares restantes. Ele estava agora a noventa e cinco milhões de Grandes-Metros da estação suburbana na Rua 984 e ele sabia que não podia atrasar seu retorno por muito mais. Na próxima vez ele iria guardar algumas centenas.

$7.10¹²⁷.

7º Dia: 270º Oeste. 212º Império Metropolitano.

Franz olhou para o indicador.

“Não vamos parar aqui?” ele perguntou a um homem a três assentos de distância. “Eu queria descobrir a média do mercado.”

“Varia. Qualquer coisa de cinquenta centavos por — ”

“Cinquenta!” Franz disparou, em um pulo. “Quando é a próxima parada? Eu tenho que descer!”

“Aqui não, filho.” ele estendeu uma mão para restringi-lo. “Aqui é a Cidade Noturna. Você tá mesmo no negócio imobiliário?”

Franz assentiu, se segurando para trás. “Eu pensei…”

“Relaxe.” Ele veio e se sentou oposto a Franz. “É só uma grande favela. Áreas mortas. Em alguns lugares chega a custar cinco centavos. Não há serviços, não há poder.”

Levaram dois dias para atravessar.

“As Autoridades da Cidade estão começando a fechar a área,” o homem disse a ele. “Enormes quarteirões. É a única coisa que podem fazer. O que acontece com as pessoas dentro é o que eu odeio imaginar.”

Ele mastigou um sanduíche. “Estranho, mas há muitas dessas áreas escuras. Você não escuta sobre elas, mas estão crescendo. Começa em uma rua de trás em alguma vizinhança qualquer de um dólar; um gargalo no sistema de coleta de esgoto, sem latas de cinzas suficientes, e antes que você saiba — quatro milhões de quilômetros cúbicos voltaram para a selva. Eles tentam um esquema de alívio, injetam um pouco de cianeto, e então — constroem em cima. Uma vez que fazem isso, elas estarão fechadas para sempre.”

Franz assentiu, ouvindo o zumbido monótono do ar.

“Eventualmente não haverá nada além dessas áreas escuras. A Cidade será um grande cemitério. Que pensamento!”

10º Dia: 90º Leste. 755º Grande Império —

“Espere!” Franz saltou de seu assento e encarou o painel indicador.

“Qual o problema?” Alguém no lado oposto perguntou.

“Leste!” Franz gritou. Ele bateu bruscamente no painel com sua mão, mas as luzes se mantiveram. “O trem mudou de direção?”

“Não, ele é direcionado para o leste,” outro passageiro disse a ele. “Você está no trem errado?”

“Deveria estar indo para oeste,” Franz insistiu. “Estava pelos últimos dez dias.”

“Dez dias!” o homem exclamou. “Você esteve neste Leito por dez dias? Para onde diabos você está indo?”

Franz avançou e agarrou o atendente do vagão.

“Para que direção este trem está indo? Oeste?”

O atendente balançou a cabeça. “Leste, senhor. Sempre esteve indo para o leste.”

“Você está louco,” Franz disse. “Eu quero ver o registro do piloto.”

“Acredito que isso não é possível. Posso ver sua passagem, senhor?”

“Escuta aqui,” Franz disse fracamente, toda a frustração acumulada dos últimos vinte anos se amontoando nele. “Eu estive neste…”

Ele parou e voltou para seu assento.

O cinco outros passageiros olharam para ele cautelosamente.

“Dez dias” um deles ainda repetia em uma voz assustada.

Dois minutos depois alguém veio e pediu a Franz a sua passagem.

“E é claro que estava completamente em ordem,” o cirurgião da polícia comentou.

Ele caminhou até M. e tirou o foco de luz de seus olhos. “Parece estranho mas não há regulação que previna alguém de fazer a mesma coisa. Eu costumava sair para umas viagens de graça quando era mais jovem, apesar de nunca ter tentado nada como sua jornada.”

Ele voltou para a mesa.

“Vamos retirar a acusação,” ele disse. “Você não é um vadio em nenhum sentido indiciável, e as autoridades de transporte não podem fazer nada contra você. Como essa curvatura foi construída no sistema eles não conseguem explicar. Agora sobre você. Você vai continuar essa busca?”

“Eu quero construir uma máquina voadora,” M. disse cuidadosamente. “Deve haver espaço livre em algum lugar. Eu não sei… talvez nos níveis inferiores.”

O cirurgião levantou. “Vou ver o sargento e pedir para ele te entregar para um dos nossos psiquiatras. Ele poderá te ajudar com esse sonho.”

O cirurgião hesitou antes de abrir a porta. “Olha,” ele começou a explicar simpaticamente, “você não pode sair para fora do tempo, pode? Subjetivamente é uma dimensão plástica, mas qualquer coisa que você faça a si mesmo jamais será capaz de parar aquele relógio” — ele apontou para o relógio na mesa “ — ou fazê-lo andar para trás. Da exata mesma maneira você não pode sair da Cidade.”

“A analogia não se sustenta,” M. disse. Ele gesticulou para as paredes em volta deles e as luzes nas ruas afora. “Tudo isso foi construído por nós. A pergunta que ninguém consegue responder é: o que estava aqui antes de nós construirmos isto?”

“Sempre esteve aqui,” o cirurgião disse. “Não exatamente estes tijolos e estas vigas, mas outros antes deles. Você aceita que o tempo não tem início nem fim. A Cidade é tão velha quanto o tempo e contínua com ele.”

“Os primeiros tijolos foram depositados por alguém ,” M. insistiu. “Havia a Fundação.”

“Um mito. Apenas os cientistas acreditam nisso, e nem eles tentam dar muita importância a isto. A maioria deles admite em particular que a Pedra da Fundação não passa de uma superstição. Nós falamos da boca para fora por conveniência, e porque isso nos dá um senso de tradição. Obviamente não é possível haver um primeiro tijolo. Se houvesse, como você explicaria quem o colocou, e mais difícil ainda, de onde ele veio?”

“Tem que haver espaço livre em algum lugar”, M. disse obstinadamente. “A Cidade deve ter limites.”

“Por que?” o cirurgião perguntou. “Ela não pode estar flutuando no meio do nada. Ou é isso que você está tentando acreditar?”

Franz afundou para trás frouxamente. “Não.”

O cirurgião observou M. silenciosamente por alguns segundos e caminhou de volta à mesa. “Essa sua fixação particular me intriga. Você está preso entre aquilo que os psiquiatras chamam de faces paradoxais. Suponho que você não tenha interpretado errado algo que ouviu sobre o Muro?”

M. olhou para cima. “Que muro?”

O cirurgião acenou com a cabeça para si mesmo. “Algumas opiniões avançadas sustentam que há um muro em volta da Cidade, através do qual é possível penetrar. Eu mesmo não finjo entender a teoria. É muito abstrato e sofisticado. De qualquer forma eu suspeito que eles tenham confundido esse Muro com as áreas escuras emparedadas pelas quais você passou com o Leito. Eu prefiro a visão aceita de que a Cidade se estica para todas as direções sem limites.”

Ele foi até a porta. “Espere aqui, e eu vou ver se consigo uma liberdade condicional para você. Não se preocupe, os psiquiatras vão esclarecer tudo para você.”

Quando o cirurgião saiu, M. encarou vagamente para o chão, exausto demais para se sentir aliviado. Ele levantou e se esticou, caminhando instável pelo quarto.

Lá fora as últimas luzes piloto se apagavam e o patrulheiro na passarela abaixo do telhado estava usando sua lanterna. Um vagão da polícia passou rugindo por uma das avenidas que cruzavam a rua, seus trilhos gritando. Três luzes se acenderam ao longo da rua e então uma por uma se apagaram de novo.

M. se perguntou porque Gregson não havia vindo até a estação. E então o calendário na mesa chamou sua atenção. A data exposta no folheto era de doze de agosto. Aquele era o dia que ele havia começado sua jornada.

Há exatamente três semanas atrás.

Hoje!

Pegue um Verde direcionado ao Oeste para a Rua 298, cruze na interseção e suba com um elevador Vermelho até o Andar 237. Caminhe para baixo até a estação na Rota 175, mude para um suburbano 438 e desça até a Rua 795. Pegue a Linha Azul até o Plaza, desça na 4 e na 275, vire à esquerda na rotatória e…

Você está de volta ao ponto onde você começou. $INFERNO.10^n.

J.G. Ballard © The British Library Board

J.G. Ballard © The British Library Board


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