A ascensão da extrema direita e a questão migratória na Itália
20 de junho de 2026
A ascensão da extrema direita e a questão migratória na Itália
20 de junho de 2026

Foto: BBC News Brasil/Getty Images
Por Lana de Angelo Côrte
N a última década, a Europa registrou um crescimento expressivo de sua população estrangeira, alcançando cerca de 87 milhões de migrantes internacionais, um aumento de aproximadamente 16% em relação a 2015 (ano de início da crise migratória). Nesse contexto, a Itália consolidou-se como uma das principais portas de entrada para a União Europeia, especialmente devido à sua posição privilegiada no Mar Mediterrâneo. Atualmente, o país abriga cerca de 5,5 milhões de residentes estrangeiros, que representam aproximadamente 9% da população nacional e segundo dados do Instituto Nacional de Estatística Italiano (Istat), mais de 380 mil imigrantes chegaram ao país em apenas um ano, reforçando a importância do fenômeno migratório na sociedade italiana contemporânea. Com o aumento desses fluxos migratórios, esse tema passou a ocupar um lugar central no debate político do país, uma vez que narrativas que desmoralizam os imigrantes e refugiados ganham maior espaço na esfera pública italiana.
Sendo assim, nota-se a contradição histórica que marca a trajetória da própria Itália que, após sua unificação tardia, concluída em 1871, o país passou a conviver com profundas desigualdades econômicas e sociais, enquanto o norte experimentava um processo gradual de industrialização e o sul permanecia predominantemente agrário, marcado pela pobreza, pelo desemprego e pela concentração fundiária, fatores esses que contribuíram para a precarização das condições de vida de milhões de italianos. Dessa forma, a emigração tornou-se uma alternativa para aqueles que buscavam escapar das dificuldades econômicas e construir uma vida mais digna, resultando em um dos maiores movimentos migratórios da história contemporânea, protagonizado pela Itália entre o final do século XIX e o início do século XX, quando milhões de pessoas partiram para diferentes partes do mundo atraídas pela promessa de emprego, acesso à terra e ascensão social.
Contudo, é importante recordar que a realidade encontrada por muitos desses migrantes italianos estava longe do cenário idealizado, já que, além de enfrentarem jornadas exaustivas de trabalho, baixos salários e relações laborais abusivas, também foram alvo de preconceito e discriminação. Ainda assim, conseguiram se estabelecer, reconstruir suas vidas e contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento econômico, social e cultural das sociedades que os acolheram, tornando ainda mais evidente o contraste e a hipocrisia presentes nos atuais discursos patriotas e anti-imigração que começaram a compor a política italiana.
Tais discursos nacionalistas sempre estiveram presentes na política italiana, tendo em vista que sua posição geográfica no Mediterrâneo faz do país uma das principais portas de entrada para imigrantes e refugiados vindos da África e do Oriente Médio. No entanto, essas manifestações de rejeição à imigração costumam se intensificar em períodos de grandes fluxos migratórios, como ocorreu após a Primavera Árabe, atingindo seu ápice durante a crise migratória de 2015, quando mais de um milhão de pessoas, principalmente da Síria, do Afeganistão e do Iraque, chegaram à Europa em busca de melhores condições de vida. Sob esse contexto, a Itália frequentemente se tornou o primeiro ponto de desembarque desses migrantes, assumindo grande parte da responsabilidade inicial pelo acolhimento e, diante desse cenário, partidos nacionalistas passaram a argumentar que a imigração estava fora de controle e que a União Europeia não oferecia apoio suficiente aos países da fronteira mediterrânea, fazendo com que temas como segurança pública, identidade nacional e proteção das fronteiras ganhassem cada vez mais espaço no debate político. Assim, a imigração deixou de ser tratada apenas como uma questão humanitária e passou a ser apresentada por determinados grupos políticos como um desafio à segurança nacional e à preservação da identidade cultural italiana.
A título de exemplo, destaca-se o partido Fratelli d’Italia, liderado por Giorgia Meloni, atual primeira-ministra da Itália, que também se beneficiou desse cenário e consolidou seu crescimento eleitoral. Fundado em 2012, o partido tem suas origens ligadas a correntes da direita italiana que sucederam o movimento pós-fascista surgido após a queda de Benito Mussolini e se define como nacional-conservador, defendendo o fortalecimento das fronteiras, a soberania nacional e um maior controle da imigração. Sua principal liderança, Giorgia Meloni, ao longo de sua trajetória política, realizou críticas ao multiculturalismo, propôs medidas mais rígidas para combater a imigração irregular e defendeu políticas voltadas ao fortalecimento da natalidade italiana, pautas que encontraram crescente apoio em um contexto marcado pelo aumento dos fluxo migratórios e pela expansão dos discursos nacionalistas no país.
Em contrapartida ao discurso rígido contra a imigração irregular, a própria realidade econômica e demográfica italiana revela uma situação mais complexa. Marcada por décadas de baixas taxas de natalidade, envelhecimento populacional e pelo histórico êxodo de milhões de italianos que deixaram o país entre o final do século XIX e o início do século XX, a Itália enfrenta atualmente uma redução gradual de sua população em idade ativa, o que tem gerado escassez de mão de obra em diversos setores da economia. Assim, apesar da retórica voltada para o endurecimento das políticas migratórias, o governo de Giorgia Meloni aprovou a entrada de centenas de milhares de trabalhadores estrangeiros com visto regular, reconhecendo a necessidade da imigração para suprir a falta de trabalhadores e sustentar áreas fundamentais da economia nacional. Tal cenário evidencia uma contradição cada vez mais presente na política italiana, já que, enquanto a imigração é frequentemente apresentada como uma ameaça à identidade nacional e à segurança do país, a manutenção do crescimento econômico e do mercado de trabalho depende, em grande medida, da contribuição dos próprios imigrantes.
Logo, a ascensão do Fratelli d’Italia e de Giorgia Meloni não pode ser compreendida apenas como um fenômeno eleitoral, mas como reflexo de um contexto em que a imigração passou a ocupar o centro do debate político italiano. Ao associar a defesa das fronteiras à preservação da identidade nacional, o partido transformou a questão migratória em um dos principais pilares de sua agenda, contribuindo para o fortalecimento de uma Itália cada vez mais receptiva aos discursos nacionalistas e às políticas de restrição migratória. No entanto, esse cenário também evidencia uma contradição significativa, já que o país enfrenta uma realidade demográfica marcada pelo envelhecimento populacional, pela baixa taxa de natalidade e pela escassez de mão de obra em diversos setores, tornando a imigração não apenas uma escolha política, mas uma necessidade estrutural para a manutenção da economia e da própria dinâmica social italiana.
Referências
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GOMES SIMA, Lucas et al. Itália decreta situação de emergência por crise migratória — Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB). Publicado em 16 de maio de 2023. Disponível em: [https://opeb.org/2023/05/15/italia-decreta situacao-de-emergencia-por-crise-migratoria/](https://opeb.org/2023/05/15/italia-decreta situacao-de-emergencia-por-crise-migratoria/). Acesso em: 19 jun. 2026.
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SPINDLER, William. 2015: The year of Europe’s refugee crisis | UNHCR/ ACNUR. Publicado em 8 de dezembro de 2015. Disponível em: https://www.unhcr.org/news/stories/2015-year-europes-refugee-crisis. Acesso em: 18 jun. 2026.
Lana de Angelo Côrte é graduanda de Relações Internacionais e integrante da Rede de Apoio ao Migrante Internacional (RAMIN) — Franca.
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