Confie na Mente #016
Um punkinho, um violão… (parte 2)
Confie na Mente #016
Um punkinho, um violão… (parte 2)

Se a primeira parte foi difícil selecionar, esta segunda parte da mistura foi exatamente o oposto porque a triagem já estava bem digerida pra colocar numa fila. Mas atenção: mais fácil não quer dizer menos pensada. O bim bom desta órbita entre o violão, a guitarra semi acústica e os pianos se encontrando com punks de carreira e outros de espírito continua. Talvez um pouco mais contida ou psicodélica… não deixou muito espaço para a sujeira, como foi idealizada inicialmente, e esta decisão fez todo sentido na narrativa. É sempre assim: desbastando, lapidando até encontrar uma síntese que percorra em harmonia por todos os seus 75 minutos.
OUÇA ABAIXO NO SPOTIFY (atenção: uma música a menos que no TIDAL)
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Para quem gosta de refletir na praça e comer um churros de mãos dadas com seu amor, segue a descrição completa:
Há muitos anos Juana Molina não tocava por estas bandas. E olha que há um par de CDs — esses fósseis que ainda amo e cuido — nas prateleiras de casa. Juana é uma atriz argentina, comediante, sim, comediante (basta catar uns vídeos no Youtube) mas talentosíssima. Suas explorações no folk com algum sotaque latino e muito olhar em outros campos abertos, sejam da Escócia, Inglaterra e Canadá, estão muito evidentes. O primeiro ato é agraciado com seu sopro leve e repleto de microtilintares. Mais recentemente, ou melhor, especificamente durante a pandemia, Thom Yorke e Johnny Greenwood fizeram um projeto novo, The Smile, com muita tangente no Radiohead mas soltando algumas madeixas ao vento para as trilhas sonoras, velhas companheiras de Johnny… um maduro pacto com o passado e o futuro deles. Confiaram na mente e não se deixaram sufocar seja pelo vírus nem pelas certezas num projeto que ajuda a renovar o Radiohead. A curiosíssima Julia Holter, que já passou por estas terras, encontra-se com um contrabaixo e outras cordas, para dar um passo a um mundo misterioso, como se em cada passo carregasse uma nova camada dela mesma, ou melhor, em muitas delas, com um flerte crescente ao tão pouco valorizado mistério do pop… ah o pop… floral, leve, cintilante. Este primeiro ato encerra-se com Dean Blunt (que volta e meia está nestas singelas misturas), como se Burt Bacharach se encontrasse com Isaac Hayes em um filme de Jane Campion.
O segundo ato começa polêmico: há uma relutância e uma teimosia que transitam para a inserção desta versão acústica de Taste of Cindy, do seminal primeiro álbum do Jesus and The Mary Chain… E se há esta aporia pode-se portanto dizer que o segundo ato não abre com ela mas que seja um interlúdio, uma espécie de estranhamento para o fluxo narrativo. Mea culpa.
E a força que falta a música anterior sobra aos acordes que abrem (finalmente) este segundo ato, com a voz simbiótica em harmonia com Patti Smith, neste disco “perdido” de seus anos 90 (uma excelente, riquíssima fase, pouco comentada por aí). O conjunto desta audição é hipnotizante, ou como diz-se na lingua inglesa, mesmerizing. Os acordes soam como se Lula Côrtes estivesse se encontrando com Richard Thompson em algum campo aberto do mundo. O respiro continua dando o tom a esta mistura, o poder de encher os pulmões de cada partícula presente no mundo e devolver em dobro é gigantesco. Aparentemente apenas, já que os cultuados e influentes Swans, talvez a banda mais punk em carreira e espírito nesta playlist, trazem uma trágica e bela canção sobre o quanto respirar no mundo hoje se tornou difícil e colérico, numa explosão política como se Woody Guthrie estivesse incorporado seus músicos para entoar uma luta de vida e morte. E se a morte é solitária para todos, o isolamento é o pai da tristeza. Assim que Animal Collective, brilha em um loop vocal obsessivo e repetitivo de Leaf House, no disco não menos espetacular Sung Tongs.
Se o ouvinte for atento e perceber que o respiro e a hipnose se tornaram um tema central nesta mistura até aqui , podem perceber que poucas bandas são mais polêmicas, difíceis e hipnóticas como os japoneses do Acid Mothers Temple, que encerram o segundo ato, respectivamente com uma balada espacial lisérgica (infelizmente apenas disponível na playlist do Tidal) para se abraçarem em seguida com um coletivo de artistas alemães de improv, que provavelmente foi determinante para que estes japoneses — e toda uma cena psicodélica e de noise do Japão surgisse anos depois —Amon Düül. São tão influentes que muitos dizem terem dado os primeiros passos para que o Krautrock surgisse também.
O terceiro ato vem com José González, figurinha conhecida no Brasil e colaborador de muitos projetos lounge eletrônicos e outros folks mais comerciais. A força desta música é que a gigantesca Teardrop, do Massive Attack com Elizabeth Fraser, que abre Mezzanine ganha um corpo muito proprietário e faz jus a original, mantendo sua densidade e construindo um lugar de tensão crescente. De trajetória completamente distinta mas incrivelmente potente, Sir Richard Bishop, co-fundador do Sun City Girls e um dos maiores aventureiros e experientes músicos do underground e do avant-rock, mergulha de cabeça no folk, como se tocasse com as entranhas de John Fahey num ritual antropofágico num disco em homenagem a Jack Rose. E tão ritualístico quanto simbiótico e comovente é o encontro dos irmãos de carreira Nick Cave e Warren Ellis, nesta trilha para o bom filme The Proposition (de John Hillcoat, o mesmo que dirigiu o excelente The Road). Os ventos sopram secos e a voz igualmente seca e rouca do falecido Mark Lanegan (fundador do Screaming Trees, lembra?) leva o feno até uma encruzilhada na meia noite para se encontrar com um Tom Waits disfarçado de um jovem Robert Johnson rogando sem pudores por um chocolate sem saber que atiça o Diabo por sua pecaminosa gula.
E o encontro no sarcasmo não poderia encaixar melhor que na figura do jovem Beck, que após a traumática morte de Kurt Cobain conseguiu trazer com seu primeiro e brilhante disco, Mellow Gold, um sorriso e uma inventividade redentores. Talvez Ty Segall, figura bastante recente e elogiada pela juventude de hoje em dia traga também este sorriso e esta irresponsabilidade inventiva que Beck já trouxe nos anos 90 e por isso eles caminham juntos nesta mistura: mestre e aprendiz? Quem se arriscaria a afirmar? Sinta-se a vontade, a liberdade que dá o tom aqui. Essa liberdade redentora que, este sim, mestre, trouxe para a música ao se aventurar para muito além dos três acordes, Joe Strummer cantando, um pouco antes de sua morte um de seus ídolos, Bob Marley. A playlist se encerra com uma espécie de canção de ninar, de um dos mais desgarrados e geniais músicos que o pós punk já trouxe, Jonathan Richman, com a sua então banda, Modern Lovers, ao vivo, levando todos para um sono leve e feliz. Uma boa noite.
Confie no sono e no sonho. Confie na liberdade e no tempo do agora que agora que você leu já não é mais agora. Confie na duração. Saia do shuffle. Toque na ordem. Confie na mente.
메타데이터
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