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✊🏽 A Exaustão Estrutural e a Luta Pela Validação Profissional

Nós, pessoas negras, atingimos o nosso limite há muito tempo. A exaustão de tentar dialogar ou buscar entendimento com a estrutura racista…

Angie Feliciano · 2025-10-29 15:08 · 0 claps · 2.4 min read
#racismo #mulher-negra #autoestima #preconceito #negros
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Wiki topics: ✊ · Equality & Identity

✊🏽 A Exaustão Estrutural e a Luta Pela Validação Profissional

Nós, pessoas negras, atingimos o nosso limite há muito tempo. A exaustão de tentar dialogar ou buscar entendimento com a estrutura racista já é uma realidade inescapável para muitos. Quem ainda não está cansado, talvez não tenha apreendido a gravidade sistêmica da situação.

Quando ousamos abrir um diálogo sobre racismo — uma violência que afeta a própria dignidade humana e o desenvolvimento profissional –, qualquer expressão verbal ou corporal mais intensa é imediatamente lida como hostilidade. O script é sempre o mesmo:

“Ei, calma, você está sendo muito agressiva.”

“Não estou! Estou tentando te explicar o impacto das suas ações.”

“Está sim! Não é para tanto, controle-se. Sua reação é desproporcional.”

Como abordar um assunto que nos violenta estruturalmente de forma amena? Sim, além de enfrentarmos o racismo — uma doença social que nos vitimiza –, somos compelidas a modular e controlar gestos e palavras para não “assustar” ou “desproteger” a sensibilidade frágil da pessoa branca em seu papel de comodidade.

Eu vivi uma situação particular, no exterior, que me afetou profundamente e me forçou a buscar uma reinvenção radical para proteger minha integridade psicológica e autoestima profissional.

Ao chegar na Alemanha, um ambiente que se pressupõe neutro em relação a certas dinâmicas brasileiras, fui desrespeitada por anos, e de forma insidiosa, por colegas de trabalho brasileiros. Sempre que eu apresentava minha experiência profissional, defendia meu papel na empresa, ou demonstrava conhecimento técnico, o que recebia em troca era um arsenal de brincadeiras depreciativas, dúvidas sobre minha competência, ridicularização sutil e um sistemático menosprezo.

Foram tempos difíceis, que culminaram em crises nervosas, ataques de pânico e, inevitavelmente, reações que o contexto exigia fossem enérgicas.

“Ah, então as mulheres negras realmente são agressivas,” comentou o racista que jamais experimentou a opressão severa que busca nos animalizar e nos desqualificar.

Fui rotulada como “raivosa” porque me recusava a me submeter a um teto de expectativas baixas. Recusei-me a atender à projeção racializada de quem acredita que uma mulher negra não pode ser pensante, ter formação de excelência, usufruir de boas oportunidades de emprego e, crucialmente, estar em um nível intelectual e de competência superior ao deles.

No Brasil, ou em qualquer dinâmica com brasileiros no exterior, é um mecanismo simples e confortavelmente racista nos encaixar nesse estereótipo de “pessoa raivosa”. Essa representação é mais uma face do racismo à brasileira: ela visa nos constranger, calar nossa voz e fazer com que sintamos vergonha das nossas emoções legítimas e da nossa dor profunda. É a tática de desviar o foco da violência racista para a reação da vítima.

🌟 A Virada da Validação e a Triste Consciência

Hoje, depois de alguns anos distante das pessoas que tentaram sistematicamente me diminuir, e agora trabalhando em uma universidade católica de prestígio em Munique, eu vejo com clareza o quanto sempre fui boa e qualificada como profissional. O problema, naquela situação, nunca esteve em minha competência, mas sim ora no racismo, ora no assédio moral contra o qual eu lutava.

Percebo o quanto, pasmém, sou tratada com respeito incondicional por colegas e chefes alemães que nunca duvidaram da minha capacidade técnica ou intelectual.

Ao mesmo tempo que essa validação me alegra profundamente — por finalmente ter o reconhecimento merecido em um ambiente de excelência — , também me deprime com uma ponta de melancolia. Penso em como fui tola e por quantas vezes acreditei no espelho distorcido que eles queriam que eu fosse. Por muito pouco, muito pouco, não permiti que o racismo e o assédio moral de alguns brasileiros me apagassem e me fizessem desistir da minha trajetória. A vitória é estar aqui, e a lição é que a excelência não precisa de permissão para brilhar.


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