A mudança de formato midiático e a evolução linguística associada
Ah, a metalinguagem! A mais nobre das funções linguísticas. Não é só o egocêntrico que adora falar de si mesmo, a linguagem também. Mas o…
A mudança de formato midiático e a evolução linguística associada
Ah, a metalinguagem! A mais nobre das funções linguísticas. Não é só o egocêntrico que adora falar de si mesmo, a linguagem também. Mas o que é metalinguagem? Ora, é usar a própria pra falar da própria. Usar um texto pra falar de texto, filme sobre filme, Gabi por Gabi, essas coisas. E é claro, usar blog para falar de blog. Ou quase isso.
Peço desculpa ao formato textual, mas preciso me manifestar em primeira pessoa para contar uma das memórias mais impactantes da minha infância, que embora seja completamente pessoal e de forma alguma substitua uma metodologia científica, complementa meu argumento e torna essa leitura mais interessante, algo que será abordado mais à frente.
Voltando à memória, por volta de 2006 (chuto eu), a professora comentou com a classe inteira que tinha alunos muitos famosos, um tinha aparecido em uma propaganda de TV, e a outra tinha foto publicada na internet. Como meras crianças, aquilo nos impactou profundamente. Todos queriam ser amigos das celebridades em ascensão do quinto C. O que ninguém entendia naquela época (talvez nem a professora) era que a tal imagem publicada era no Orkut. A importância desse fato só foi registrada pelo meu consciente muitos anos depois. Não era absolutamente nada demais ter uma foto no Orkut. Isso não torna ninguém famoso, torna?
A chamada internet 2.0 foi a mudança da internet como versão digitalizada das páginas amarelas (quem lembra?) para um lugar onde o usuário do outro lado da tela podia interagir com quem tava do outro lado da tela. De repente, a internet não era mais a enciclopédia Barsa. Claro que hoje, nos meados de 2023, é difícil sequer imaginar a internet como não sendo basicamente uma versão interativa de Habbo Hotel, mas essa brusca mudança de não-interação para interação mudaria para sempre a nossa forma de comunicação.
Imagine a Globo no alto dos seus anos 90. Você tem grandes personalidades que são portadores da mensagem sendo transmitida a milhões de receptores. É incrível, mas não é democrático. Você pode não gostar do Faustão, mas não é como se tivesse muita escolha entre ele e o Gugu. A televisão, até hoje, tenta fugir dessa síndrome de alimentador automático midiático que já não cai muito bem no gosto de uma população que cresceu com a alimentação regulada do algoritmo de sua rede social preferida.
É aqui que surgem os blogs. Legal, todo mundo pode publicar o que quiser na internet, mas quem vai ver isso? Quem serão os receptores? Claramente, algumas coisas vão ser mais recebidas que outras, algumas pessoas vão começar a se destacar pelo discurso na internet assim como fazem no meio real. Falando em receptadores, uma das coisas que mais mudamos nossa relação a partir dessa época foi a música. Do polêmico eMule à comunidade Discografias™ do Orkut, a música, de fácil conversão para o meio digital, foi uma das primeiras coisas que jogamos no nosso logo em breve arcabouço digital.
E como com a internet sendo terra de ninguém e de todos ao mesmo tempo, os blogs e músicos começaram a marcar território digital e viva! os receptores apareceram. Qualquer um com conectividade à internet era um possível consumidor. Rapidamente, uma pessoa numa RA do DF conhecia uma banda post-punk de samba escandinavo. Um blogueiro de assuntos nerds em São Paulo era lido por um sulista. Uma blogueira sexual compartilha suas histórias com um país inteiro. E tudo sem passar por um canal de TV.
Para quem pegou essa época, deve lembrar da frase blogueira da capricho. As mídias tradicionais, desde muito cedo, correm atrás desses novos influenciadores porque eles têm o que elas querem, um público de receptores já segmentado e que consume sua mensagem. Mas afinal, o que era uma blogueira da capricho? Era uma personalidade da internet cuja uma revista se aproveitava para vender cópias e alinhar seu público com os delas, mas isso não é importante, o que é legal aqui é a mídia usada.
Nesses primórdios da era de subcelebridades (ou como dizem hoje em dia, influenciadores), a mídia acessível na internet era majoritariamente texto, e algumas imagens, nada muito pesado porque a conexão era lenta e não aguentava muitos dados. Só quem viveu sabe o quão impactante foi se deparar com uma imagem pornográfica pela primeira vez na internet sendo carregada fileira por fileira de pixel, quase um strip tease, onde a pessoa sai de invisível para completamente nua. Esses tempos ficaram para trás, e resumindo muito a história, evoluímos.
Embora tenhamos a impressão que a cada 15 dias surge uma rede social nova, praticamente todas elas carregam algo em comum. Elas envolvem imagens e/ou vídeos. Quando o Twitter surgiu (descanse em paz), foto era tão raro que havia um outro site só pra isso, que se conectava a sua conta e postava um link com a imagem (Twitpic para quem quiser saber mais). E não, as imagens não apareciam na sua timeline. Você tinha que clicar em um link e visualizar em outra tab. E sim, era muito esforço stalkear alguém nessa época.
Hoje em dia, é bem difícil entrar um único tweet que não tenha pelo menos uma imagem ao scrollar sua timeline. O formato midiático mudou. E hoje em dia, continuamos a usar blogueira, mesmo que o máximo de blog (e por sua vez, língua escrita) seja a legenda do Instagram. Essa mudança de formato midiático trouxe mudanças praticamente cognitivas para nossa sociedade. Nosso tempo de atenção diminui quanto mais consumimos esse tipo de mídia, o que reflete inclusive na fagocitagem desse próprio tipo de mídia. Acredito que muitos vão preferir olhar um artigo no WikiHow do que um vídeo no YouTube cheio de propagandas e recados do patrocinador (ainda não sei como perguntar para o Chat CPT se encaixa nisso, mas com certeza um dia, eu volto nesse assunto).
Esse próprio texto (por falta de termo mais técnico) vai contra essa onda midiática, não por ideologia de superior de meio, mas por pura nostalgia. Eu quero ser blogueiro, e como não faço os requisitos da capricho, voltei as origens de um blogueiro raiz. Um beijo, Blogspot.
OBS: Amei que o Medium pediu pra eu colocar uma imagem de destaque para publicar. Mais um argumento pra lista.
OBS²: Claro que, enquanto mero escritor entusiasta, palpiteiro e bom de bico, nada do que eu disse aqui segue uma metodologia científica ou tente ser uma análise social ancorada teoricamente, mesmo que o estilo por vezes pareça, mas isso faz parte da graça.
메타데이터
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