← Back to list

a insurgência do afeto: bell hooks, luedji luna e o mergulho na imensidão do amor.

Ketson Lara

nous parlons d'amour aussi · 2026-05-29 15:48 · 0 claps · 4.2 min read
#bell-hooks #luedji-luna #amor #homossexualidade #negritude
Open on Medium ↗

a insurgência do afeto: bell hooks, luedji luna e o mergulho na imensidão do amor.

Ketson Lara

Esta é bell hooks (1952–2021), uma das pensadoras e escritoras mais importantes do nosso tempo.

Esta é bell hooks (1952–2021), uma das pensadoras e escritoras mais importantes do nosso tempo.

Existir para mim, é historicamente habitar a encruzilhada de múltiplas vulnerabilidades. A estrutura que bell hooks define como o patriarcado capitalista de supremacia branca sempre operou para interditar aos nossos corpos o direito à subjetividade, à ternura e ao afeto. O mundo lá fora foi desenhado para nos endurecer, nos ensinar a performar fortalezas impenetráveis de masculinidades ou nos reduzindo ao lugar do fetiche e da hipersexualização de nossos corpos negros. O amor, por muito tempo, me pareceu um território hostil, marcado por traumas e medos.

No entanto, decidi que a minha narrativa não seria ancorada na dor. Eu sou feito de intensidades. Para mim, o amor é tão imenso e abissal quanto o mar, e eu estou sempre disposto a mergulhar. Foi na busca por repensar o meu próprio prazer e restituir a minha humanidade que encontrei o encaixe perfeito entre os escritos de bell hooks e a estética poético-musical de Luedji Luna.

Ler bell hooks exigiu de mim uma profunda revolução interna. Quando ela afirma que o desmantelamento do sexismo não é uma tarefa exclusiva das mulheres, ela convoca a nós, homens: nós também precisamos passar pelo processo de conscientização para romper com a rigidez patriarcal e a homofobia que tentam nos colonizar por dentro. Quando compreendi isso, percebi que amar outro homem de forma plena, vulnerável e recíproca não era apenas um desejo; era, em si, um ato de sublevação política.

Ao inserir o amor na minha vivência gay e negra, entendi o que significa uma autêntica afirmação de vida. A prova de que o medo e as opressões ficaram no passado se materializa nas noites em que crio o nosso próprio universo, trancado no quarto. O cenário pode parecer banal, mas carrega o peso de uma revolução íntima. Eu e você, duas taças de vinho, a voz de Luedji Luna ecoando no ambiente, e eu ali, imerso na imensidão do meu pretinho.

Nesse espaço, nossos corpos negros não precisam da armadura que a sociedade nos cobra para sobreviver. Me lembro de uma sabedoria que bell hooks resgata: quando nos revelamos ao outro e descobrimos que isso traz cura, e não dano, percebemos que os relacionamentos íntimos são um refúgio num mundo de aparências, um espaço sagrado onde podemos ser nós mesmos, exatamente como somos.

O nosso quarto, bagunçado pelo suor e pelo vinho, é esse espaço sagrado. Ele é o nosso quilombo de cura.

o corpo-vulcão e a inundação do afeto

Quando nos despimos de nossas roupas e defesas, a exaustão que sentimos já não é a da sobrevivência cotidiana enfrentando o racismo e a homofobia lá fora. É o cansaço sublime e ofegante de tanto prazer. O peito arfando, a nossa pele melaninada e úmida colando uma na outra, o gosto do sal e os dedos dele perdidos em meus cabelos em um cafuné demorado… Nesse instante, deixamos de ser as estátuas de pedra que o mundo quer que sejamos e viramos carne, entrega e tesão.

É exatamente essa a poética que Luedji Luna canta em Lençóis: o afeto faz o nosso peito se fazer paz e o nosso corpo se tornar um “corpo-vulcão”. Essa lava metafórica afasta qualquer resquício de puritanismo moralista e nos devolve uma humanidade feita de carne, osso, sonho e prazer. O nosso sexo entre homens não é pecado, mas uma libertação. Quando nos amamos com essa intensidade farta, invocamos a energia vital que flui sob a superfície endurecida das coisas.

O ápice do nosso encontro úmido se traduz no verso-manifesto da canção Gamboa: “eu água e você dentro”. Ser água para ele e deixá-lo mergulhar em mim é aceitar a mais bela das vulnerabilidades. Não há mais margens seguras, apenas a profundidade de dois homens que se inundam de afeto.

debaixo d’água: onde o medo seca

Para bell hooks, o amor é uma visão de mundo. O amor que construímos juntos é a nossa cura. Toda essa vivência me faz compreender com exatidão a tese central do álbum Bom mesmo é estar debaixo d’água. Para mim, mergulhar nessas águas significa retornar à força matriz das potentes subjetividades negras, afirmando que bom mesmo é estar imerso no mar do amor. Estar debaixo d’água, envolto pelo suor e pelos braços do meu parceiro, é a certeza de que a turbulência se foi.

O passado pode até ter sido um Uanga, um feitiço que doeu e moeu o coração, mas o amor profundo, sexual e sagrado no qual escolhi mergulhar agora é, fundamentalmente, o mesmo que faz curar. O medo secou. Em nós, agora, na nossa masculinidade ressignificada e na nossa imensidão particular, só tem dança, alegria, água e amor.

o divã e a revolução: onde o amor se faz verbo

Admitir tudo isso, no entanto, não é um processo simples. Levar esse amor para o divã, falar sobre ele na análise, ainda me desperta profundas inseguranças. Historicamente, fomos autorizados a sentar diante de um analista para descarregar o trauma, para falar da dor do racismo, da solidão da homofobia e das marcas da rejeição. Parece quase um luxo, ou uma audácia, gastar o tempo da sessão para falar de felicidade. Às vezes, me pego travando, temendo que a fragilidade de me confessar apaixonado seja vista como uma fraqueza, ou que o fantasma do fim sabote a beleza do agora. Tenho medo de verbalizar o tamanho do que sinto e, de alguma forma, quebrar o encanto.

Mas é justamente aí que o amor se revela o maior revolucionário da minha vida.

Ele não é apenas um sentimento morno; é uma força política que subverte a lógica da minha própria história. Quando decido romper o silêncio da análise e falar sobre o prazer de ser amado por outro homem, estou operando uma cura em tempo real. Esse amor desorganiza as minhas defesas, chuta as portas das minhas inseguranças e reconstrói o meu chão. Ele é revolucionário porque me recusa o papel de vítima e me coroa como sujeito do meu próprio desejo. Amar, para mim, virou a maior insurreição contra um mundo que me queria endurecido. No fim, entre o divã e o nosso lençol bagunçado, entendi: o amor não é o meu ponto fraco; ele é a minha maior transgressão.

[embed]


메타데이터
post_id
7ab8afada68e
slug
a-insurgência-do-afeto-bell-hooks-luedji-luna-e-o-mergulho-na-imensidão-do-amor-7ab8afada68e
url
https://medium.com/@npaa/a-insurg%C3%AAncia-do-afeto-bell-hooks-luedji-luna-e-o-mergulho-na-imensid%C3%A3o-do-amor-7ab8afada68e
canonical_url
https://medium.com/@npaa/a-insurg%C3%AAncia-do-afeto-bell-hooks-luedji-luna-e-o-mergulho-na-imensid%C3%A3o-do-amor-7ab8afada68e
author_url
https://medium.com/@npaa
status
ok
fetched_at
2026-06-29 01:02:39