← Back to list

Feitas de látex e submissão

Love dolls e a mercantilização do desejo

Jhenifer Gonçalves · 2024-09-22 14:38 · 1 claps · 6.9 min read
#love-doll #boneca #capitalismo
Open on Medium ↗
Wiki topics: 💑 · Relationships

Feitas de látex e submissão

Love dolls e a mercantilização do desejo

As Love Dolls, conhecidas como bonecas sexuais ou bonecas do amor, são um exemplo de como o machismo e o capitalismo objetificam e sexualizam a imagem feminina.

(Foto: Stacy Leigh)

(Foto: Stacy Leigh)

Pigmalião, rei da ilha de Chipre, era um homem reservado. Detestava o comportamento imoral e escandaloso das mulheres que viviam perto de si e, por isso, gostava de ficar sozinho. Poderia dizer que era insensível às mulheres temperamentais, mas não à beleza e à feminilidade. Então, cansado de estar só, passou a se dedicar à tarefa de esculpir. Passava dias e noites talhando uma interminável pedra de marfim, buscando pela figura da sua mulher perfeita. Pigmalião se apaixonou perdidamente pela imagem que havia feito, a qual chamou de Galatéia. Implorou à Afrodite que lhe desse uma mulher idêntica à sua obra prima e, comovida pelo seu amor, a deusa cedeu vida à estátua.

A busca, quase etérea, em outros corpos/seres pela feminilidade permanece viva durante séculos e milênios. Da antiguidade, dos mitos lendários até o contemporâneo, homens encontram o amor (ou algo semelhante) e o prazer em robôs, estátuas, fantasmas, hologramas e até em sistemas operacionais.

A figura da boneca como refúgio sexual e/ou romântico teria surgido só em 1686, em um dos contos do escritor japonês Ihara Saikaku, sob o termo de love doll (boneca do amor). No conto, é apresentada a história de Komurasaki, uma jovem que se apaixona por Gensuke, um funcionário da loja que seus pais administram. Apesar de recíproco, o romance dos dois logo tem um fim.

Os pais de Komurasaki planejam um casamento para a filha com outro rapaz, e na noite de núpcias, Gensuke aparece como um fantasma, assustando o homem. A família de Komurasaki tem a ideia de criar uma boneca com a aparência exata da filha para enganar o espírito, que quando a vê, sente um incontrolável impulso sexual e acaba esquecendo de sua promessa de vingança.

Em determinado momento, as love dolls deixaram de ser apenas imaterialidade da ficção e se tornaram reais. A Orient Industry, empresa localizada em Tokyo, é a pioneira na criação das bonecas. Seu primeiro modelo foi lançado em 1977, onde a cabeça e os seios eram feitos de um plástico resistente e o dorso e as pernas, de um material inflável. Hoje, fabricadas em silicone ou látex, as bonecas podem ser encontradas em sites de varejo como o Alibaba e Aliexpress, com preços que vão de R$ 3.000,00 até R$ 17.000,00, dependendo da qualidade do material e da taxa de importação. Com o avanço da tecnologia, as love dolls passaram a se assemelhar ainda mais com a figura humana. São projetadas em tamanho e peso real de uma mulher adulta, podendo ter todas as suas características físicas escolhidas pelo comprador.

Love doll exposta em um showroom da empresa Orient Industry. O propósito é fazer com que os compradores conheçam mais sobre as bonecas antes de comprá-las. (Foto: Reprodução/Tokyo Weekender)

Love doll exposta em um showroom da empresa Orient Industry. O propósito é fazer com que os compradores conheçam mais sobre as bonecas antes de comprá-las. (Foto: Reprodução/Tokyo Weekender)

Love dolls: do Japão ao Brasil

A Mestre em Comunicação e Semiótica, Beatriz Aoki, que também estuda a relação (a qual ela chama de transdimensional) entre pessoas e objetos inorgânicos na sociedade japonesa, conta que o mercado das bonecas sexuais, em certas formas, consegue suprir uma realidade de solidão no país. “Tem muita gente que não sabe, não quer lidar com uma pessoa ou que teve experiências traumáticas e encontra nessas bonecas uma forma de se relacionar com o mundo”, relata.

Aoki explica que os donos das bonecas desenvolvem uma relação de afeto que atravessa o desejo sexual. Elas passam a ser vistas como amigas, companheiras e confidentes. É comum a atividade de levá-las para passear, para sessões de foto e até mesmo em encontros com outros donos. “As bonecas fazem companhia, elas não são apenas para o alívio sexual ou para a substituição de um humano. Eles querem efetivamente estar com as bonecas”, afirma.

Beatriz durante seu Doutorado no Japão, onde estudou o comportamento da sociedade japonesa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Beatriz durante seu Doutorado no Japão, onde estudou o comportamento da sociedade japonesa. (Foto: Arquivo Pessoal)

É possível enxergar essa conexão que abraça a esfera romântica lendo os relatos no site *Lovedoll Warehouse, *um espaço voltado para que os compradores compartilhem suas experiências. Entre os depoimentos, destaca-se o de um senhor que vive com as bonecas há mais de 20 anos. “Ainda me lembro da emoção quando a vi pela primeira vez. Pude ver a beleza curvada perfeita, a pele sem manchas e a aparência como se tivesse acabado de sair da tela de um computador. Mesmo que eu perca o desejo sexual, pensar na minha vida sem uma boneca do amor é impossível”, desabafa.

Outro depoimento leva o nome de “A melhor amiga que me entende”, onde um jovem que acabara de se formar na universidade conta que achou refúgio e compreensão nas bonecas. “Depois de me formar na universidade, comecei a trabalhar meio período em um restaurante de fast food. Eu economizei dinheiro e consegui comprar uma boneca. Quando chego do trabalho, posso contar tudo que ela me ouve sem dizer nada. Foi ela que me deu uma vida gratificante e continuaremos vivendo juntos”, compartilha o jovem.

Dado esse cenário, a empresa *Ningen Love Doll decidiu realizar uma pesquisa com os donos das love dolls *no fim de 2019, questionando suas opiniões sobre a melhor forma de descartar uma boneca que já não estava em boas condições. A maioria respondeu que gostaria de realizar um funeral e outra parte relatou que não conseguiam se desfazer das bonecas devido ao apego emocional. No ano seguinte, a empresa começou a investir nas cerimônias funerárias destinadas às bonecas.

A loja oferece três pacotes fúnebres, que vão de 30 mil ienes (R$1387,45) até 90 mil (R$4162,35). A opção mais barata inclui um funeral em grupo destinado a várias bonecas de uma única vez, um certificado e uma fotografia. O pacote intermediário oferece uma cerimônia privada para cada cliente, com direito a certificado, filme ou uma foto e a leitura de uma carta de despedida para a boneca. E por fim, a oferta mais cara, dá ao cliente o direito de participar de forma presencial do funeral da boneca e de guardar uma das partes do seu corpo como recordação, além de todos os outros benefícios citados.

Para Aoki, é comum que a população japonesa mercantilize não somente o prazer, mas também a companhia. Ela explica que no Japão, há bares denominados hostess clubs, onde a pessoa pode pagar para que alguém converse com ela na mesa. “É um mercado que vai muito além do prazer sexual, mas também para essa satisfação amorosa, para suprir uma necessidade de contato e afeto. A boneca é uma das opções”, afirma.

No Brasil, por outro lado, o ramo das love dolls ainda é pouco explorado. O número de lojas que se aventuram na venda das bonecas realistas ainda é pequeno, os motivos vão do alto preço para produzir até uma demanda ainda tímida. A empresária e dona da Bakos Store, Mônica Cruz, conta que começou no ramo há três anos e ainda vê que não há tanto investimento na área. “A Bakos Store atualmente é a pioneira no ramo das bonecas sexuais no país. Ainda não temos produção própria, então precisamos importar de outros vendedores internacionais. Conseguimos vender bem, em média são trinta bonecas por ano”, conta a empreendedora.

A boneca mais barata da loja custa R$ 12.000,00, pesa 44 kg e tem a altura aproximada de 1.68cm. A descrição se refere a ela como “boneca realística americana” e informa ao cliente que o seu rosto “possui sobrancelha, cílios realísticos, lábios grandes e cabelo em alto relevo” e que “tudo se assemelha muito à pele humana, deixando sua experiência próxima à realidade.”

“Beleza americana” representada em silicone. (Foto: Reprodução/ Bakos Store)

“Beleza americana” representada em silicone. (Foto: Reprodução/ Bakos Store)

Mônica conta que seus clientes normalmente são homens na casa dos 45 anos, ocupados com os negócios, sem tempo para relacionamentos, mas que ainda assim, gostam da ideia de ter alguém os esperando em casa. “Tive um cliente que foi buscar a boneca em um carrinho de feira e a caixa era tão grande que parecia um caixão. Quando ele chegou em casa, vestiu a boneca com roupas iguais às dele, tirou foto e me enviou. Ele agradeceu e disse que estava feliz da vida”, relata.

Mulher ou boneca?

A jornalista e antropóloga, Agnès Giard, diz que o mercado/uso das bonecas no contexto japonês ainda implica em uma realidade onde as mulheres devam “sofrer, oferecer-se, abrir-se, submeter-se e esperar”.

É pensando na possibilidade dos danos causados pelo relacionamento de humanos e robôs sexuais que a Campaign Against Sex Robots foi criada por um coletivo de acadêmicas britânicas, em 2015. A organização acredita que a comercialização de máquinas (que imitam a aparência feminina) voltadas para o prazer sexual, contribui para a desumanização de mulheres e crianças.

Coletivo de mulheres renunciam lugar de omissão e se posicionam contra indústria que sexualiza e mercantiliza o corpo de mulheres. (Foto: Reprodução/ Campaign Against Sex Robots)

Coletivo de mulheres renunciam lugar de omissão e se posicionam contra indústria que sexualiza e mercantiliza o corpo de mulheres. (Foto: Reprodução/ Campaign Against Sex Robots)

Em um dos debates propostos pela organização, a professora Kathleen Richardson explica que um ciclo vicioso foi sendo construído com a influência da própria indústria de bonecas (sexuais ou não) e da pornografia. Mulheres querem aparentar ser bonecas (usando cirurgias plásticas e maquiagem como caminho) e as bonecas são projetadas para que se pareçam cada vez mais humanas.

Para a Doutora em Letras e especialista nos estudos sobre a representação estética em bonecas, Luciana Borges, as love dolls são o retrato perfeito da inércia feminina que os homens buscam e desejam. “Suas posturas, seu aspecto físico e a projeção de uma personalidade fictícia estão de acordo com o que seu proprietário quer. É a fantasia da passividade perfeita, do controle absoluto sobre o corpo do outro, nesse caso, da outra”, afirma.

Para ela, as bonecas como simulacro de uma mulher real nunca trariam o perigo da insubordinação feminina, onde todas as mulheres, mesmo as silenciadas e submissas, seriam capazes de acessar em algum momento. “Existe algo fascinante e complexo sobre elas, que para mim, é justamente a capacidade de sair do estado imóvel, de corresponder exatamente aos desejos do seu parceiro naquele jogo de encenação”, conta.


메타데이터
post_id
7b2df3ec8d45
slug
feitas-de-látex-e-submissão-7b2df3ec8d45
url
https://medium.com/@kafkaezando/feitas-de-l%C3%A1tex-e-submiss%C3%A3o-7b2df3ec8d45
canonical_url
https://medium.com/@kafkaezando/feitas-de-l%C3%A1tex-e-submiss%C3%A3o-7b2df3ec8d45
author_url
https://medium.com/@kafkaezando
status
ok
fetched_at
2026-07-22 18:48:22