Seropédica além da universidade
Um roteiro de cultura, lazer e pertencimento
Seropédica além da universidade
Um roteiro de cultura, lazer e pertencimento
Seropédica costuma ser lembrada por um único motivo: a universidade. Todos os anos, milhares de estudantes chegam à cidade carregando malas, expectativas e a sensação de estarem começando uma nova fase. Mas, entre os caminhos da Rural, as ruas pouco exploradas e os encontros cotidianos, existe uma cidade que pulsa cultura, arte, lazer e coletividade.
Entre cafés, dança, livrarias e batalhas de rima, Seropédica revela experiências que ultrapassam os muros acadêmicos. Para quem vive a cidade, ou busca conhecê-la além da rotina universitária, pequenos espaços se transformam em pontos de encontro e pertencimento.
Esta reportagem multimídia percorre alguns desses lugares e iniciativas que movimentam Seropédica, mostrando como estudantes, artistas e moradores constroem novas formas de viver e ocupar a cidade.
Café Camponês
Entre os espaços que vêm contribuindo para a pluralidade do lazer em Seropédica, o Café Camponês se destaca como um ponto de encontro para moradores e visitantes. Localizado no bairro Fazenda Caxias, às margens da antiga Estrada Rio–São Paulo, o estabelecimento reúne cafeteria, restaurante e área de convivência em um ambiente voltado para quem busca momentos de descanso e socialização.
Em uma cidade que passou por intensas transformações após sua emancipação, em 1995, e que viu crescer o comércio e o setor de serviços, empreendimentos como o Café Camponês ajudam a ampliar as alternativas de lazer para além dos espaços tradicionalmente frequentados pela população.
O local oferece diferentes opções de cafés, doces, salgados e refeições, funcionando como um espaço de encontro para quem passa pela região. A origem do empreendimento também está ligada à relação da família com a bebida. Segundo Alba Afonso, gerente do Café Camponês, a ideia de abrir a cafeteria surgiu da paixão compartilhada pelo café: “Lá em casa todo mundo é apaixonado por café, todo mundo toma café desde pequenininho”. Além da proposta gastronômica, o ambiente chama atenção pela estrutura acolhedora, familiar, com varanda e áreas destinadas à permanência dos clientes, estimulando experiências que vão além do consumo e fortalecem a sociabilidade local.
A consolidação de cafeterias como o Camponês também acompanha uma tendência observada em cidades de médio porte, onde estabelecimentos gastronômicos passam a desempenhar papel importante na ocupação do espaço urbano e na criação de ambientes de convivência. Em Seropédica, esses locais contribuem para a construção de uma cena cultural e de lazer que valoriza a permanência das pessoas na cidade e incentiva o fortalecimento da economia local.
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Aulas CAC
O Centro de Arte e Cultura (CAC) é uma boa opção para aqueles que querem aprender e aprofundar mais de diversas atividades artísticas e culturais. O CAC traz diversas atividades gratuitas voltadas para diferentes públicos, oferecendo oficinas, exposições, apresentações e ações que incentivam a criatividade e o acesso à cultura para a população. Mais do que um espaço para a prática artística, o CAC funciona como um ponto de encontro entre diferentes manifestações culturais. Por meio de suas atividades, o centro busca democratizar o acesso à cultura e fortalecer os laços entre a universidade e a população do município.

CAC — Foto: João Coutinho (@joaoa.coutinho)
Para compreender melhor o impacto desse trabalho na comunidade, Isabela Arruda, que iniciou sua trajetória no espaço como oficineira e atualmente atua como produtora cultural voluntária, conta um pouco da sua experiência no CAC.
A relação de Isabella Arruda com o CAC começou em 2019, quando procurava uma oficina de desenho para se preparar para o ingresso em Belas Artes. Apesar de passar frequentemente em frente ao espaço, ela não sabia que o local oferecia atividades.
O primeiro contato como aluna acabou se transformando em uma trajetória de anos dentro do Centro de Arte e Cultura. Entre 2022 e 2025, Isabella atuou como oficineira e bolsista, ministrando aulas de desenho e pintura para crianças, jovens e adultos. Em 2026, passou a integrar a equipe como produtora cultural voluntária.
Ao longo dos anos, Isabella abriu diferentes turmas e trabalhou com públicos diversos, desde crianças até idosos, incluindo pessoas com deficiência. Essa convivência ampliou sua sensibilidade para compreender as necessidades individuais dos alunos e adaptar as atividades de acordo com cada realidade.

Isabella Arruda ministrando uma das oficinas — Foto: @fybrikolage
A trajetória de Isabella dentro do CAC reflete uma missão que, segundo a coordenadora Milena Amaral, está presente desde a criação do espaço. Há 19 anos, o Centro de Arte e Cultura atua na democratização do acesso à arte e à cultura em Seropédica e na Baixada Fluminense, oferecendo oportunidades gratuitas de formação, lazer e desenvolvimento pessoal.
Atualmente, o CAC disponibiliza mais de 50 oficinas em áreas como música, dança, artesanato, esportes, artes cênicas, entre outros. Além das atividades regulares, o espaço promove eventos culturais, ações formativas e campanhas solidárias ao longo de cada período letivo.
A coordenadora destaca que grande parte das pessoas procura o espaço inicialmente em busca de lazer, mas acaba encontrando muito mais do que isso. Segundo ela, a arte e a cultura estão diretamente relacionadas ao fortalecimento da autoestima, da saúde mental e da construção de novos conhecimentos.
A experiência observada por Isabella confirma essa visão. Durante o período em que atuou como professora, ela percebeu que as oficinas funcionavam não apenas como passatempo, mas também como um espaço de descoberta pessoal e profissional. Isabella acredita que as oficinas podem despertar vocações e abrir caminhos profissionais. Ao acompanhar seus alunos, percebeu que muitos encontraram no CAC uma oportunidade de descobrir interesses, desenvolver talentos e projetar novos futuros.


Fotos: Arquivo Pessoal Isabella
O crescimento do público nos últimos anos e a ampliação das atividades reforçam os planos para o futuro. Entre os objetivos da gestão está consolidar o Centro de Arte e Cultura como uma referência cultural para toda a Baixada Fluminense, por meio de novas parcerias, projetos e expansão das ações oferecidas à comunidade.
Para quem ainda não conhece o espaço, tanto Milena quanto Isabella compartilham uma mesma mensagem: permitir-se viver a experiência. Enquanto Isabella convida as pessoas a explorarem todas as possibilidades que o CAC pode proporcionar, Milena resume o espírito do projeto em uma frase que aponta para o futuro: “O CAC está de portas abertas e é apenas o início de uma grande jornada de um artista.”
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Batalha do K9
A Praça do Quilômetro 49, no coração de Seropédica, pulsa em um ritmo diferenciado pelo menos uma vez por semana. O barulho das buzinas e motores dos carros e caminhões que atravessam a antiga Estrada Rio-São Paulo se mistura ao som das batidas de música urbana e das rimas improvisadas. Nas noites de quarta-feira, mestres de cerimônia, mais conhecidos como MC’s, são cercados pelo público que se reúne para assistir à Batalha de rima do K9.

Foto: @l.en0n
De acordo com pesquisa realizada pela Casa Fluminense, a Baixada Fluminense possui as cidades com os piores indicadores de desenvolvimento humano e social do estado do Rio de Janeiro. No sentido de legitimar a territorialidade da região e de denunciar a violência e exclusão social, batalhas de rima surgiram na região, como foi o caso da Batalha do K9 em Seropédica.
A Batalha funciona em rodadas e conta com oito MC’s que se dividem em dois e duelam através de rimas. O vencedor é determinado a partir do voto da plateia e de dois juízes que analisam critérios como a construção da rima, réplica, flow, o uso de vícios de linguagem e a dicção do Mestre de Cerimônia. O coletivo surgiu em 2021 e apenas três pessoas participavam.
Aos poucos, o evento cresceu. Por vezes, a falta de apoio do público e de visibilidade impossibilitaram seu seguimento. Marcus Vinicius, conhecido como CJ BXD, é um dos participantes da Batalha. Ele comenta que a falta de visibilidade é a maior dificuldade que MC’s da Baixada Fluminense encontram “Um desafio? Ser visto. Muito difícil ser visto nas áreas da batalha. A gente não é do centro, a gente é do subúrbio”, explica.

CJ BXD — Foto: @caueg_rodrigues
Para a antropóloga Milena Ventura a falta de visibilidade é um problema fruto da pouca oferta de espaços culturais localizados em distâncias próximas “Na capital, temos muitos centros culturais com pouca diferença de distância entre si. Por outro lado, temos fora do centro do Rio poucos espaços culturais e muito espaçados”, comenta.
Com a falta de investimentos sólidos na cultura e lazer em Seropédica, coletivos como o da Batalha do K9 promovem a cultura como um instrumento de aprendizado e fortalecimento comunitário. Em meio aos desafios que a população da Baixada, em especial Seropédica, enfrenta ao buscar opções de lazer, o evento funciona como uma alternativa de espaço cultural.
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Casarão
Entre os espaços que ajudam a movimentar a vida cultural de Seropédica, o Casarão se destaca pela diversidade de atividades e pelo ambiente acolhedor que reúne moradores, estudantes e artistas da região. Localizado no Km 49, no bairro Boa Esperança, o espaço tornou-se um ponto de encontro para quem busca experiências culturais e opções de lazer fora dos circuitos tradicionais da cidade.

Foto: Luiz Fellipe Gustavo
Criado em 2018 por estudantes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o Casarão surgiu com o objetivo de ampliar as opções de cultura e lazer em Seropédica. A ideia era criar um espaço onde as pessoas pudessem aprender, criar, compartilhar experiências e fortalecer vínculos. Ao longo dos anos, o projeto cresceu e se consolidou como um ambiente de convivência, reunindo iniciativas voltadas à arte, ao bem-estar e à comunidade.
A programação do Casarão é marcada pela variedade, atraindo públicos distintos e incentivando a participação de moradores e estudantes. Entre as atividades estão aulas de pole dance, tecido e lira circense, além de sessões de terapia, encontros de clube do livro e brechós colaborativos, que transformam o local em um ponto de troca de experiências e convivência.
As noites de cinema ao ar livre também fazem parte da rotina do espaço. Com cadeiras espalhadas pelo quintal, pipoca e projeções realizadas em área aberta, as sessões reúnem o público para assistir a filmes e compartilhar momentos de risadas e reflexões. A iniciativa oferece uma alternativa cultural acessível e amplia o acesso ao cinema em uma região com poucas opções cinematográficas.
Outra atividade que integrou a programação do Casarão foi uma oficina de colagem artística, realizada pelo estudante de Arquitetura e Urbanismo da UFRRJ e artista independente Matheus Barbosa, conhecido como “Macaco Louco”. A atividade convidou os participantes a explorar a criatividade por meio da combinação de imagens, recortes e diferentes materiais, transformando elementos do cotidiano em novas narrativas visuais.



Fotos: Luiz Fellipe Gustavo
Para Matheus, a experiência de conduzir a oficina foi significativa. Esta foi a segunda vez que o artista realizou uma atividade do tipo, e o retorno do público reforçou sua motivação para continuar promovendo encontros criativos. “Eu amei oferecer a oficina. Já tinha realizado uma vez antes, mas é extremamente satisfatório ver pessoas de diferentes idades interagindo, criando juntas e compartilhando ideias. A colagem acaba se tornando uma ferramenta de expressão, e ver esse processo acontecendo é algo especial”, afirma.
Além das oficinas, aulas e sessões de cinema, o Casarão recebe rodas de samba, forró, batalhas de rima, feijoadas e outros eventos independentes. O espaço, criado por universitários com o objetivo de ampliar as possibilidades culturais da cidade, tornou-se um exemplo de como iniciativas coletivas podem transformar uma casa em um ponto de referência para a comunidade seropedicense.
Serviço
Café Camponês: Rua Tharsis e Paula n°43, Seropédica. Instagram @camponescafeteria
CAC: BR 465, km 7, 2007 — Seropédica/RJ. Instagram @cacbaixada
Batalha do K9: Estr. Rio São Paulo — Boa Esperança, Seropédica — RJ. Instagram @batalhadok9
Casarão: R. Edson Nascimento dos Santos, 45 — Boa Esperança, Seropédica/RJ. Instagram @casarao__
Reportagem por: Júlia de Moura, Laís Veiga, Thiago Rabetine e Luiz Fellipe Gustavo
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