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Resenha: “Entre Dois Mundos” (Emmanuel Carrère)

Nos últimos anos, dois fenômenos têm abalado o mercado de trabalho global: a chamada “uberização” e o avanço da informalidade. Empregos…

Guilherme Góes · 2025-07-23 02:17 · 0 claps · 2.9 min read
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Resenha: “Entre Dois Mundos” (Emmanuel Carrère)

Imagem — Imdb/divulgação

Imagem — Imdb/divulgação

Nos últimos anos, dois fenômenos têm abalado o mercado de trabalho global: a chamada “uberização” e o avanço da informalidade. Empregos formais e carreiras estruturadas estão cada vez mais escassos e disputados. Aqueles que não conseguem se inserir nesse mercado são empurrados para atividades em aplicativos — muitas vezes enfrentando longas jornadas, sem direitos trabalhistas ou benefícios — ou acabam recorrendo à informalidade, vendendo produtos ou alimentos nas ruas e eventos ou sobrevivendo de pequenos trabalhos pontuais, os populares “bicos”.

[embed]Como a terceirização e a uberização precarizam as condições de vida dos trabalhadores Tecnologia e benefícios a empresas fazem o país conviver com novas modalidades de emprego, gerando insatisfação e…www.brasildefato.com.br

Engana-se, porém, quem acredita que essa situação se restringe ao Brasil ou a países em desenvolvimento. Mesmo as grandes potências capitalistas, como a França, vêm enfrentando os efeitos dessa precarização. Apesar de sua posição como uma das principais economias da Europa, muitos franceses têm recorrido a plataformas digitais ou a atividades informais para garantir alguma renda, diante da retração das oportunidades de emprego convencionais. Nessas circunstâncias, trabalhadores enfrentam rotinas exaustivas, ausência de salário fixo, férias ou seguro-desemprego, exposição a riscos físicos (como acidentes e violência urbana), dependência de algoritmos para conseguir tarefas e, em muitos casos, assédio moral por parte de empregadores que cobram produtividade por meio da intimidação.

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Embora seja uma condição alarmante, essa precariedade costuma passar despercebida — especialmente pelas classes mais favorecidas. É justamente essa invisibilidade social que o diretor Emmanuel Carrère busca revelar em Entre Dois Mundos, filme inspirado no livro-reportagem Le Quai de Ouistreham.

A narrativa acompanha a jornalista Marianne Winckler (interpretada por Juliette Binoche), que decide se infiltrar no submundo do trabalho precarizado para compreender de perto as condições de vida de trabalhadores marginalizados. Para isso, cria um currículo fictício: afirma ser formada em Direito, mas ter passado 23 anos afastada do mercado por depender financeiramente da renda confortável do marido, tendo que procurar emprego depois do divórcio. Assim, assume a identidade de uma mulher de quarenta e poucos anos, sem experiência profissional, e se lança no mercado.

Marianne inicia sua jornada limpando residências e, posteriormente, passa a trabalhar como faxineira em um ferryboat que liga Ouistreham, na França, a Portsmouth, na Inglaterra. Nessa vivência, enfrenta o medo constante de demissão, o assédio moral cotidiano, a pressão por produtividade e o desgaste físico de longas jornadas sem nenhuma garantia trabalhista. As personagens que a cercam — interpretadas por trabalhadoras reais, e não profissionais de teatro — aprofundam o realismo da obra e reforçam sua potência crítica, conferindo autenticidade à denúncia social.

Mais do que retratar más condições de trabalho, Entre Dois Mundos também quebra noções infantilizadas e irreais que muitos brasileiros alimentam sobre a vida em países desenvolvidos. É comum imaginar que na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália, no Canadá ou no Japão seja possível viver de forma confortável com um salário mínimo. O filme, porém, desmonta essa ilusão: assim como no Brasil, trabalhadores de baixa renda em nações ricas — como no caso da França — mal conseguem arcar com suas despesas básicas, vivem em habitações compartilhadas para reduzir custos com aluguel e raramente têm acesso a lazer, cultura ou esportes.

Outro mito que a obra desconstrói é o da suposta valorização igualitária entre profissões nos países de primeiro mundo. Muitos brasileiros acreditam que trabalhadores braçais são respeitados em países de primeiro mundo do mesmo jeito que trabalhadores intelectuais ou em cargos de liderança, mas Entre Dois Mundos mostra que esses profissionais continuam sendo tratados com desprezo pelo público geral e sofrem abusos por parte dos empregadores, com pouca ou nenhuma proteção institucional. Ou seja: infelizmente, um trabalhador em condição de “subemprego” é marginalizado em qualquer lugar do mundo.

Apesar de abordar temas densos, o filme tem um ritmo acessível, equilibrando bem o drama com momentos de humor. A obra emociona, provoca reflexões éticas — como a escolha de Marianne de registrar a vida das colegas consentimento delas — e convida o espectador a questionar o papel da mídia, da empatia e dos limites da representação.

Entre Dois Mundos é, portanto, mais do que um retrato ficcional da precarização: é uma lente crítica sobre os bastidores sombrios das economias modernas.

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