Solidariedade entre mulheres
Projeto Solidárias empreende de forma independente visando a geração de renda para mulheres cuidadoras.
Solidariedade entre mulheres
Projeto Solidárias empreende de forma independente visando a geração de renda para mulheres cuidadoras.
Você provavelmente já ouviu a frase: “Tá cansada de quê? Você só fica em casa”. No entanto, o ‘só´ficar em casa’ engloba atividades que são invisíveis aos olhos de quem não as desempenha: limpar a casa, manter a organização, cozinhar café, almoço e janta, cuidar de filhos e outros parentes, prevenir doenças, cuidar da saúde e bem-estar de todos — e a de quem cuida, muito provavelmente, ficando de lado.
Esse trabalho é majoritariamente desempenhado por mulheres, que vêm sendo exploradas há tempos em uma lógica de constante desvalorização de suas atividades. Além dos trabalhos domésticos que são fundamentais, o trabalho do cuidado é também aquele que passa frequentemente despercebido, embora ele seja uma ocupação integral na maioria dos casos. Esse trabalho é historicamente associado às mulheres, muito pautado em um suposto ‘dom de maternar’ tratado como natural do gênero feminino. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em 2019 indica que mais de 75% das mulheres desempenharam, naquela semana de pesquisa, todas as atividades de cuidado citadas.
Fonte: IPEA (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continuada anual (2019)
Pensando na realidade do trabalho de cuidado que impossibilita muitas mulheres de exercerem atividades remuneradas, três mulheres se reuniram para dar vida ao Projeto Solidárias. As cuidadoras Lilia, Clara e Rosângela se conheceram no Coletivo Mulheres Cuidadoras e a partir dele idealizaram um projeto que fosse capaz de promover maior independência financeira e bem-estar a mulheres que dedicam suas vidas ao cuidado. Através da economia solidária, o projeto oferece um espaço para que essas mulheres expressem sua criatividade, gerem renda e construam uma rede de apoio mútuo.
A história do Solidárias se entrelaça com a realidade vivenciada por diversas mulheres do Coletivo Mulheres Cuidadoras: a sobrecarga do trabalho de cuidado. Essa realidade, muitas vezes invisível e subvalorizada, as priva de oportunidades de trabalho formal e as coloca em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Rosângela Silva, cuidadora de sua irmã e uma das idealizadoras do projeto, diz que desde que pode trocar com outras mulheres dentro do Coletivo se preocupava ao ouvir suas histórias, o que a mobilizou para a ideia inicial do projeto: “Pensava: como poderia ajudar essas pessoas que não tem como sair de casa pra trabalhar?”.
Rosângela é hoje aposentada, o que, segundo ela, lhe garante estabilidade financeira e mais tempo para se dedicar aos cuidados com a irmã. No entanto, relata que quando trabalhava formalmente vivia uma rotina complicada entre o trabalho dentro e fora de casa. Rosângela enxerga como essa divisão que viveu pode dificultar o acesso das mulheres ao trabalho formal. Mesmo aquelas que talvez consigam um trabalho remunerado, permanecem em jornadas duplas extremamente desafiadoras, segundo Rosângela: “Quando as mulheres arranjam emprego às vezes, não ficam muito tempo, porque é só uma crise da pessoa (que é cuidada) que elas encontram dificuldades para ir, e aí são mandadas embora. É muito difícil, manter um emprego porque o patrão não quer saber se você tem problema em casa, ele quer saber se você vai estar ali trabalhando”.
Bordados por Ana Maria Almada
Lilia e Clara compartilharam do sentimento de solidariedade de Rosângela e se somaram ao projeto. Lilia Palhares, é economista aposentada e agrega ao projeto com toda a parte financeira e organizacional, tendo atuado como compliance quando trabalhava. Lilia diz que é muito familiarizada com números e regras, e assume essa responsabilidade no Projeto. Já Clara Leal, também aposentada, teve sua formação voltada para a área do Direito. Participou de muitos grupos de saúde mental desde que começou a frequentar o Instituto de Psiquiatria da UFRJ para os tratamentos da irmã e desde então vem fazendo contatos, se envolvendo em palestras, congressos e ciclos familiares.
Para dar início ao projeto, as três precisavam de recursos para investir na marca Solidárias e começar a organizar a produção para fornecer o material necessário para as artesãs do projeto. Nesse início, a própria Rosângela e Vanusa França, integrante do Coletivo, doaram peças próprias para fazer duas rifas que, posteriormente, arrecadaram um total de 500 reais, valor que custeou investimento em materiais, sacolinhas, adesivos, entre outros, permitindo que pudessem realizar a primeira feira do projeto.
A Feira de Geração de Renda, organizada pelo Polo Geração de Renda do Instituto Municipal Nise da Silveira, foi um sucesso como pontapé inicial das Solidárias. Segundo Lilia, pelo menos 80% dos produtos foram vendidos e todas as artesãs puderam ser pagas adequadamente pelos seus respectivos trabalhos: “a gente saiu de lá pensando “isso pode dar certo, isso vai dar certo. o que a gente quer daqui pra frente?”

Lilia, Daniela Burstyn, Rosângela e Clara na primeira feira do projeto no Instituto Municipal Nise da Silveira (2023)
Agora a perspectiva futura para o projeto é de crescimento. O projeto Solidárias já conta com uma identidade visual planejada, desenvolvida por alunos da UFRJ especialmente para elas. Vanusa, artesã e também participante do projeto, relata que só pode voltar a costurar a partir dos investimentos que o projeto Solidárias pode oferecer, comprando e transportando materiais, além de emprestar objetos fundamentais como a própria máquina de costura. Segundo Vanusa: “Se não fosse a ajuda delas, ia ser difícil para participar. Eu que realmente queria muito poder participar, mas não tinha máquina, não tinha como fazer, como comprar os tecidos… “.
Além da geração de renda, segundo Ana Maria Almada, uma das artesãs do projeto, o trabalho de artesanato é também sobre se sentir útil, como uma forma de autocuidado: “Todo ser humano tem dons e a gente precisa desenvolver esses dons. Mas quando a gente fica sem condições financeiras de desenvolver, a gente enterra aqueles dons, é um dom vivo que você está enterrando porque não tem como investir nisso. Quando você tem um grupo que investe em você, aquilo te dá um novo sentido de vida. É um prazer estar produzindo e ser útil.”
메타데이터
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