# O TRISTE EPISÓDIO NA UNB — PARTE II
Dando continuidade ao texto sobre universidades públicas brasileiras, transcrevo abaixo a longa nota de rodapé em que Roberto Campos relata…
# O TRISTE EPISÓDIO NA UNB — PARTE II
Dando continuidade ao texto sobre universidades públicas brasileiras, transcrevo abaixo a longa nota de rodapé em que Roberto Campos relata em sua autobiografia como ele e o ex-secretário americano Henry Kissinger quase foram agredidos fisicamente na UNB e o impressionante paralelo com o livro “O ópio dos intelectuais”, de Raymond Aron — atualíssimo, apesar de ter sido escrito em 1955 :

“Além da afinidade intelectual, unia-me à Kissinger um bizarro sentimento de “solidariedade dos prisioneiros”. Tínhamos ficado ambos sitiados por quase duas horas no auditório “Dois candangos” da Universidade de Brasília. Era 18 de outubro de 1981. […]. Kissinger fora convidado pelo reitor da UNB, José Carlos de Azevedo, para proferir uma conferência sobre as relações Brasil-Estados Unidos.
Organizou-se um motim estudantil, que fazia um infernal barulho, no pátio da universidade, com o rufar de bumbos, charangas e reco-recos. Ao chegarmos à reitoria, passando depois ao auditório, um bloco de estudantes, misto de ideólogos e baderneiros, barrados pelos guardas de ingresso no auditório, passou a esmurrar as débeis paredes. Alguns carregavam faixas e outros gritavam slogans em que se misturavam acusações ao imperialismo americano, referencias ao Vietnã e protestos contra a falta de verbas para o ensino.
A conferência iniciou-se sobre grande tensão, ameaçada várias vezes de interrupção. Kissinger iniciou a palestra com um toque de humor “Estou — disse ele — acostumado a manifestações de estudantes de Harvard, mas parece que os estudantes brasileiros têm mais ritmo.” Terminada a conferência passamos à sala ao lado, verificando-se logo que os estudantes haviam bloqueado todas as saídas, chegando ao ponto de esvaziarem os pneus do carro da embaixada americana que transportara Kissinger.
O reitor da universidade havia de véspera pedido assistência do secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, recomendando a presença discreta de um dispositivo de segurança. Mas a policia praticamente se omitiu, entrando tardiamente em cena, através da formação de um corredor polonês para proteger os convidados da sanha dos estudantes, bem municiados de mísseis desagradáveis — ovos podres e tomates.
[…] Permaneci com Kissinger em uma sala contígua ao auditório em companhia com José Guilherme Merquior e alguns outros funcionários. Enquanto Merquior procurava entabular uma discussão histórico-filosófica, me preocupei em distrair Kissinger, relatando-lhe minha perícia em coisas da espécie. Durante o governo Kubitschek, eu fora queimado em efígie uma vez, e simbolicamente enterrado, outra por baderneiros da UNE, a propósito de causas sobre as quais os estudantes tinham sólida ignorância, como o petróleo da Bolívia ou a ortodoxia financeira do FMI, repelida por Juscelino. Para aliviar o ambiente, desfiei a Kissinger minha nutrida coleção de anedotas e limericks londrinos.
Kissinger reagia de bom humor, repetindo apenas “Será que vou encontrar alguém que pague meu resgate ?”. O paradoxo da situação é que Kissinger havia deixado o governo cinco anos antes e que as referências slogânicas estavam fora de foco, pois fora ele o negociador dos acordos de Paris, que ensejaram aos EUA seu desengajamento da frustrante intervenção no Vietnã. E a essência de sua palavra era um reconhecimento humilde da diminuição do “poder imperial” dos Estados Unidos em virtude do fortalecimento econômico da Comunidade Européia e do Japão, que tornava aconselhável uma politica externa de silhueta mais modesta. Uma renúncia, em suma, das veleidades imperialistas !
Após quase duas horas de espera, Kissinger teve que se retirar em um camburão da polícia, que chegara de marcha-a-ré à porta do edifício, sob o apupo de grupos de estudantes que uivavam : “Kissinger é ladrão, vai sair de camburão !”. Uma curiosa rima que misturava alho com bugalhos era “Kissinger é assassino, melhor condição de ensino”.
[…]penosas impressões ficaram do incidente… a gravidade da intoxicação ideológica da UNB, pois, conquanto se tratasse de um grupelho minoritário (200 a 300 estudantes), não houve nos dias seguintes, expressivos atos de contrição por essa selvageria estudantil. Não readquiri, desde então, respeito pela UNB, até hoje um reduto do pensamento marxista no Brasil, que parece até resistido à queda do muro de Berlim.
Coube-me o prazer de escrever o prefácio da tradução brasileira do livro de Raymond Aron, O ópio dos intelectuais, publicado pela Universidade de Brasilia. Escrito em 1955, O ópio dos intelectuais, é de surpreendente atualidade para a conjuntura brasileira, quase 40 anos depois. Os mitos que Aron buscava desmitificar àquela altura — e hoje desmitificados à luz da falência econômica do coletivismo — eram o mito da esquerda, o mito da revolução e o mito do proletariado.
No Brasil de hoje, se substituirmos a palavra “Revolução” pela expressão, ainda mais vaga, de “mudanças”, e o mito do proletariado pela “opção pelos pobres”, estaremos de volta à mitologia de Aron.”

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