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Por que Abraão foi escolhido como fundador da aliança entre Deus e o homens?

Como a vida de Abraão e os ritos da aliança revelam, de forma ainda velada, a ação da Santíssima Trindade na restauração do homem.

Marcos Marins Guimarães in A Economia da Trindade na História · 2026-04-25 14:51 · 0 claps · 30.8 min read
#cultura #teologia #cristianismo #bíblia #psicologia
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Por que Abraão foi escolhido como fundador da aliança entre Deus e os homens?

Como a vida de Abraão e os ritos da aliança revelam, de forma ainda velada, a ação da Santíssima Trindade na restauração do homem ?

(Imagem gerada por IA)

E se a história de um homem que viveu há milhares de anos pudesse explicar, com surpreendente precisão, por que tantas pessoas hoje se sentem divididas, inseguras ou incapazes de sustentar aquilo em que dizem acreditar? Antes de qualquer conceito religioso, a vida de Abraão apresenta uma experiência profundamente humana: alguém que é chamado a deixar o que conhece, a enfrentar decisões difíceis e a permanecer fiel quando tudo parece incerto. Este texto parte dessa história – simples na forma, mas extraordinária em suas implicações – para mostrar que aquilo que aconteceu com Abraão continua acontecendo, de outras maneiras, em cada vida humana.

Você não precisa conhecer as Escrituras para acompanhar essa reflexão. Ao longo deste texto, veremos como as escolhas de Abraão revelam algo essencial sobre todos nós: a dificuldade de alinhar o que pensamos, o que desejamos e o que realmente fazemos. Mais do que uma narrativa antiga, trata-se de um mapa da condição humana, que mostra como a falta de unidade interior nos conduz à desordem – e como essa unidade pode ser restaurada. Se existe algo que todos experimentam, independentemente de crença, é essa tensão entre querer, entender e agir.

O que torna essa história tão relevante não é apenas o seu conteúdo religioso, mas o fato de que ela toca diretamente o ponto central da existência humana: o modo como vivemos nossas escolhas. Ao acompanhar a trajetória de Abraão – suas decisões, seus conflitos e sua forma de responder ao que lhe é pedido – o leitor começa a perceber que não se trata apenas de um personagem distante, mas de um espelho. A pergunta que atravessa todo o texto não é apenas por que ele foi escolhido, mas o que, em sua vida, revela aquilo que falta – ou pode ser restaurado – na nossa.

I – Introdução: Um homem fiel

Abraão – inicialmente chamado Abrão – é uma das figuras centrais das Escrituras e ocupa um lugar decisivo na formação daquilo que viria a ser a história da aliança entre Deus e o homem. Ele viveu em um período muito antigo, em uma região conhecida como Ur dos Caldeus, um dos centros mais desenvolvidos do mundo oriental daquela época, marcado por intensa vida social, comércio e práticas religiosas diversas.

Posteriormente, Abraão se estabelece com sua família em Harã, para onde havia migrado sob a liderança de seu pai, Terá. Ali, sua vida poderia ter seguido o curso comum de um homem de seu tempo: preservar sua linhagem, administrar seus bens e manter as tradições recebidas. Ele não é apresentado, nesse momento, como um herói extraordinário, mas como alguém inserido em uma estrutura familiar e social estável, com vínculos, responsabilidades e um espaço definido no mundo.

Abraão ocupa um lugar singular não apenas na narrativa bíblica, mas em toda a história religiosa da humanidade. Para o povo judeu, ele é o patriarca, o pai da promessa, aquele com quem Deus estabelece a aliança que dará origem a Israel. No cristianismo, ele é reconhecido como modelo de fé, sendo apresentado como “pai de todos os que creem” (cf. Romanos 4:11). Já no islamismo, Abraão – conhecido como Ibrahim – é venerado como profeta e exemplo de submissão total a Deus. Sua figura, portanto, ultrapassa fronteiras culturais e religiosas: ele se torna referência universal para a compreensão da relação entre Deus e o homem.

O que distingue Abraão, contudo, não é uma condição inicial excepcional, mas algo mais profundo e menos visível: uma disposição interior que o torna capaz de escutar e responder. As Escrituras não o descrevem como alguém que buscava romper com sua realidade, mas como alguém que, quando interpelado por Deus, não se fecha. É essa abertura – silenciosa, mas decisiva – que transforma sua história.

É a partir desse homem, situado em sua realidade concreta e aparentemente comum, que se inicia um dos movimentos mais importantes de toda a história bíblica: o momento em que Deus fala e o homem responde.

A história de Abraão não começa com um feito extraordinário, mas com algo ainda mais decisivo: uma resposta. Deus fala – e Abraão obedece. Sem resistência, sem negociação, sem demora.

A ordem é clara e radical:

Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrarei. De ti farei uma grande nação, eu te abençoarei, engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.” (Gênesis 12:1 – 2)

Nessas palavras estão presentes três elementos fundamentais: ordem, obediência e promessa. Mas há algo ainda mais profundo que sustenta toda a cena: confiança. Deus confia em Abraão ao chamá-lo, e Abraão confia em Deus ao responder. Não se trata de uma relação distante, mas de uma proximidade real. A forma como Deus fala e a maneira como Abraão responde revelam uma intimidade rara: Abraão não hesita porque reconhece quem fala com ele.

E isso torna sua resposta ainda mais impressionante. O pedido divino não era simples nem simbólico. Significava romper com tudo aquilo que dava estabilidade à sua vida: sua terra, sua família, sua história. Era abandonar o conhecido para caminhar rumo ao desconhecido, sem garantias visíveis, sustentado apenas por uma promessa.

Abraão não apenas parte – ele entrega. Entrega sua segurança, seu conforto, suas referências. Coloca em risco não apenas a si mesmo, mas também sua esposa, seus bens, sua posição social. Obedecer a Deus, nesse caso, não é um gesto interior isolado; é uma decisão concreta que reestrutura toda a sua existência.

O texto bíblico registra essa resposta com uma sobriedade impressionante:

“Partiu, pois, Abraão, como o Senhor lhe havia dito.” (Gênesis 12:4)

Não há drama, não há explicação, não há resistência. Apenas ação. Essa simplicidade revela algo essencial: Abraão não obedece porque compreende plenamente, mas porque confia. Sua fé não nasce da evidência, mas da relação.

É por isso que ele se torna o ponto de partida de algo maior. Sua fidelidade não consiste na ausência de medo ou dúvida, mas na capacidade de não permitir que essas forças determinem sua resposta. Ele não precisa dominar o futuro – basta-lhe confiar naquele que o chama.

Nesse sentido, Abraão não é apenas um personagem da história da salvação. Ele é um paradigma. Nele vemos que a fé verdadeira não é uma ideia abstrata, mas uma disposição concreta da vontade: colocar-se em movimento quando Deus chama, mesmo quando o caminho ainda não está claro.

É nesse gesto – simples e absoluto – que começa a aliança.

II – Um homem sábio

A fidelidade de Abraão, já manifestada em sua pronta obediência ao chamado divino, é imediatamente submetida a uma prova que exige não apenas fé, mas discernimento. Ao chegar à terra indicada por Deus, ele não encontra estabilidade nem confirmação sensível da promessa, mas uma grande fome que ameaça sua subsistência e a de todos os que o acompanhavam. Diante dessa circunstância, Abraão não interpreta a dificuldade como negação da promessa, mas como parte do caminho que ainda não compreende plenamente. Por isso, age com prudência, sem abandonar a confiança em Deus.

Havia fome naquela terra; desceu, pois, Abrão ao Egito, para peregrinar ali, porquanto era grande a fome na terra.” (Gênesis 12:10)

Essa decisão revela que sua fé não é passiva nem irracional. Abraão compreende que a obediência a Deus não dispensa o uso da razão, mas exige que ela seja exercida com maior clareza. Ele desce ao Egito não como quem abandona a promessa, mas como quem busca preservar as condições para que ela se cumpra. É nesse ponto que sua sabedoria começa a se manifestar de forma mais explícita.

Ao aproximar-se do Egito, Abraão antecipa com precisão o que poderia acontecer. Ele sabe que Sara, sua esposa, era uma mulher de grande beleza e compreende que, em uma terra estrangeira, isso poderia colocar sua vida em risco. No entanto, sua preocupação não é simplesmente o medo da morte em si, mas a possibilidade de morrer antes que a promessa de Deus se realize. Para Abraão, a própria vida já não lhe pertence plenamente; ela está vinculada a um desígnio divino que precisa ser cumprido.

Quando estava para entrar no Egito, disse a Sarai, sua mulher: Ora, bem sei que és mulher formosa à vista; e acontecerá que, quando te virem os egípcios, dirão: Esta é sua mulher; e matar-me-ão a mim, e a ti te guardarão em vida.” (Gênesis 12:11 – 12)

A estratégia que ele propõe não nasce de covardia, mas de discernimento. Abraão não está tentando salvar a própria vida por apego desordenado, mas preservar a possibilidade de que a vontade de Deus se cumpra. Sua decisão é racional, pragmática e orientada por um fim superior.

Dize, pois, que és minha irmã, para que me vá bem por tua causa, e viva a minha alma por amor de ti.” (Gênesis 12:13)

Os acontecimentos se desenrolam exatamente como ele havia previsto, confirmando a lucidez de seu juízo:

Vendo-a, pois, os príncipes de Faraó, louvaram-na diante dele; e a mulher foi levada para a casa de Faraó. E ele tratou bem a Abrão por causa dela; e teve ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos.” (Gênesis 12:15 – 16)

É neste ponto que a prova se torna mais profunda e mais dolorosa. Abraão, que havia deixado sua terra, sua história e sua segurança, agora se vê diante de uma renúncia ainda mais radical: conviver com o fato de que sua esposa está nos braços de outro homem. Esse não é um sofrimento abstrato, mas concreto, contínuo e íntimo. Trata-se da dor de um homem que ama e que, justamente por amar, precisa suportar sem agir de forma desordenada.

Aqui se revela a verdadeira medida de sua sabedoria. Abraão não permite que o amor por Sara se transforme em princípio de desordem. Seu afeto não obscurece sua razão, nem o leva a decisões precipitadas que poderiam comprometer tudo. Ele não se torna refém de seus impulsos, nem de suas paixões. Ele suporta. Permanece. Espera.

Esse domínio interior não significa indiferença, mas ordem. Abraão ama, mas ama de modo ordenado. Sua vontade está submetida a um bem maior, e é isso que lhe permite suportar o sofrimento sem perder a clareza. Ele compreende, ainda que de modo imperfeito, que sua vida está inserida em um plano que ultrapassa sua própria experiência imediata. Não agir, nesse momento, não é fraqueza – é fidelidade.

É precisamente nessa fidelidade que se manifesta a ação de Deus:

Feriu, porém, o Senhor a Faraó com grandes pragas, e a sua casa, por causa de Sarai, mulher de Abrão.” (Gênesis 12:17)

Ao reconhecer o motivo das pragas, o faraó chama Abraão e o despede, devolvendo-lhe Sara e tudo o que possuía:

Então Faraó chamou a Abrão e disse: Que é isto que me fizeste? Por que não me disseste que ela era tua mulher? […] Agora, pois, eis aqui tua mulher; toma-a e vai-te. E Faraó deu ordens aos seus homens a respeito dele; e acompanharam-no, a ele, sua mulher e tudo o que possuía.” (Gênesis 12:18 – 20)

Abraão deixa o Egito preservado, e a promessa permanece intacta. Aquilo que poderia ter sido uma ruptura torna-se, na verdade, uma confirmação silenciosa de que sua vida está sob uma direção que ele não controla, mas à qual permanece fiel.

Nesse episódio, a sabedoria de Abraão não se reduz à capacidade de prever ou agir estrategicamente, mas se revela, sobretudo, em sua capacidade de ordenar suas emoções, submeter sua vontade e manter a clareza de seu juízo mesmo em meio ao sofrimento. Ele não é um homem dominado por instintos ou paixões, mas alguém cuja razão permanece orientada por um fim superior. Sua fé, longe de obscurecer o pensamento, o purifica e o fortalece.

Se, no primeiro momento, Abraão se revelou fiel, aqui ele se manifesta como verdadeiramente sábio: um homem que compreende, discerne e suporta, porque ama a Deus acima de tudo e, por isso, não permite que nada – nem mesmo aquilo que lhe é mais caro – o desvie da vontade que lhe foi confiada.

III – Um homem generoso

Se, nos momentos anteriores, Abraão se revelou fiel diante de Deus e sábio diante das circunstâncias, agora sua grandeza se manifesta na forma como se relaciona com os homens. A fidelidade e a sabedoria, quando verdadeiras, não permanecem fechadas no interior do sujeito; elas transbordam em justiça e generosidade. É exatamente isso que se torna visível na relação de Abraão com seu sobrinho Ló.

Durante sua estadia no Egito, ambos prosperaram significativamente. Seus rebanhos cresceram, suas posses se multiplicaram, e a terra já não comportava a convivência pacífica entre os dois grupos. Surgem então conflitos: os pastores de Abraão e os de Ló começam a disputar espaço, revelando que a abundância, quando não ordenada, pode gerar divisão.

Houve contenda entre os pastores do gado de Abrão e os pastores do gado de Ló.” (Gênesis 13:7)

É nesse momento que Abraão poderia exercer sua autoridade. Como tio, como líder e como aquele a quem Deus havia feito a promessa, ele tinha pleno direito de impor sua decisão. No entanto, sua resposta segue uma lógica completamente distinta.

Não haja contenda entre mim e ti, e entre os meus pastores e os teus pastores, porque somos irmãos. Não está toda a terra diante de ti? Peço-te que te apartes de mim; se escolheres a esquerda, irei para a direita; e, se a direita escolheres, eu irei para a esquerda.” (Gênesis 13:8 – 9)

Aqui se revela a profundidade de sua generosidade. Abraão abdica de seu direito para preservar a paz. Ele não age movido por interesse próprio, nem busca garantir para si as melhores condições. Sua prioridade não é a posse, mas a justiça; não é o ganho, mas a unidade.

Ló, por sua vez, escolhe segundo um critério puramente sensível:

Levantou Ló os seus olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada […] e escolheu para si toda a campina do Jordão.” (Gênesis 13:10 – 11)

A escolha de Ló é estratégica, mas não prudente. Ele opta pelo que parece melhor, sem considerar o ambiente moral em que se estabelece:

Habitou Ló nas cidades da campina e armou as suas tendas até Sodoma. Ora, eram maus os homens de Sodoma e grandes pecadores contra o Senhor.” (Gênesis 13:12 – 13)

Abraão, ao contrário, permanece livre. Sua generosidade não o empobrece – o liberta. Ele não é definido pelo que possui, mas pelo modo como se relaciona com aquilo que possui. Não se apega, não retém, não disputa. Sua vida não é orientada pela lógica da acumulação, mas pela ordem interior que já o governa.

Essa mesma disposição se manifesta de forma ainda mais intensa no episódio seguinte. Após uma campanha militar envolvendo diversos reis, Ló é capturado e levado como prisioneiro. Diante dessa notícia, Abraão poderia permanecer indiferente. Afinal, Ló havia escolhido seu próprio caminho e, recentemente, não havia agido com a mesma generosidade. Mas Abraão não é um homem vulgar.

Ouvindo, pois, Abrão que o seu irmão estava preso, armou os seus criados, nascidos em sua casa, trezentos e dezoito, e os perseguiu até Dã.” (Gênesis 14:14)

Aqui, sua generosidade assume a forma de risco. Abraão não apenas ajuda – ele se expõe. Coloca em perigo sua vida, seus bens e seus homens para resgatar aquele que havia se afastado dele.

E trouxe de volta todos os bens, e também a Ló, seu irmão, e os seus bens, e também as mulheres e o povo.” (Gênesis 14:16)

Esse gesto revela algo decisivo: Abraão não é movido por cálculo, nem por ressentimento. Ele não age para recuperar o que perdeu, nem para provar superioridade. Ele age porque é justo. Sua ação nasce de uma ordem interior que não depende das circunstâncias nem do comportamento do outro. Ele não se apega às terras, não se apega às riquezas e não se apega sequer à vantagem que poderia ter sobre Ló. Sua vida não é governada pelo interesse, mas pela virtude. Ele ama sem exigir retorno, ajuda sem medir custos, e age sem se deixar determinar pelo passado.

Nesse ponto, torna-se claro que a fidelidade de Abraão a Deus não é abstrata. Ela se traduz em justiça concreta diante dos homens. Sua relação com Deus ordena sua relação com o próximo. Ele não é apenas um homem que crê – é um homem que age segundo aquilo que crê.

Assim, Abraão se revela, ao mesmo tempo, fiel, sábio e generoso. Ele não apenas obedece a Deus, não apenas discerne corretamente – ele também se doa. E é justamente nessa síntese que sua grandeza se torna evidente: sua vida é orientada não pela busca de si mesmo, mas por uma ordem superior que o conduz à justiça, à caridade e à verdadeira liberdade.

IV – Um homem misericordioso

Se, até aqui, Abraão se revelou fiel diante de Deus, sábio nas circunstâncias e generoso nas relações humanas, é neste momento que sua humanidade atinge sua expressão mais elevada: a misericórdia. Não se trata mais apenas de obedecer, discernir ou agir com justiça, mas de interceder. E interceder não por si mesmo, nem por aqueles que lhe são próximos, mas por aqueles que não conhece – e, mais ainda, por aqueles que não merecem.

Quando Deus revela a Abraão sua intenção de destruir Sodoma por causa da gravidade dos pecados de seus habitantes, o patriarca é colocado diante de uma situação que poderia ser interpretada de forma simples: a justiça divina se cumpre, e ele, homem justo, permanece à parte. No entanto, sua resposta rompe essa lógica.

Disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que faço? […] Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito.” (Gênesis 18:17, 20)

Abraão não se cala. Ele se aproxima. Ele entra em diálogo com Deus.

Abraão, chegando-se, disse: Destruirás também o justo com o ímpio?” (Gênesis 18:23)

Essa pergunta marca o início de um dos momentos mais impressionantes de toda a Escritura. Abraão não contesta a justiça de Deus, mas apela à sua misericórdia. Ele não defende o pecado, mas busca salvar o pecador. E o faz com uma ousadia que revela não irreverência, mas intimidade.

Se porventura houver cinquenta justos na cidade, destruirás ainda assim o lugar e não o pouparás por amor dos cinquenta justos que nela estão?” (Gênesis 18:24)

A partir desse ponto, Abraão insiste. Ele retorna à questão, reduzindo progressivamente o número de justos necessários para que a cidade seja poupada: quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte, até chegar a dez.

E disse: Não se ire o Senhor, e falarei ainda só esta vez: Se porventura se acharem ali dez? E Deus disse: Não a destruirei por amor dos dez.” (Gênesis 18:32)

Seis vezes Abraão se coloca diante de Deus. Seis vezes ele insiste. E, em cada uma delas, há um risco implícito: o de ultrapassar os limites, o de parecer inconveniente, o de provocar a ira divina. Ele próprio reconhece essa tensão:

Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza.” (Gênesis 18:27)

Mas Abraão não recua.

Aqui se revela algo extraordinário: ele não intercede apenas por Ló, seu sobrinho, mas por toda a cidade. Ele não pede salvação para os seus, mas para todos. Mesmo sendo um homem justo, ele não se distancia dos pecadores para preservar sua própria integridade; ao contrário, ele se aproxima de Deus em favor deles.

Esse gesto revela uma profundidade humana rara. Abraão não ama apenas aqueles que lhe são próximos, nem apenas aqueles que são justos. Ele ama também aqueles que não conhece, aqueles que erraram, aqueles que se perderam. Sua misericórdia não é seletiva, nem condicionada.

Ele não ignora o pecado de Sodoma – mas também não desiste dos seus habitantes. Essa atitude não diminui sua fidelidade a Deus, mas a eleva. Porque o Deus ao qual Abraão é fiel não é apenas justo – é também misericordioso. E Abraão, ao interceder, começa a refletir essa dimensão.

Assim, Abraão se revela não apenas como um homem fiel, sábio e generoso, mas como alguém cuja alma já começa a participar de uma lógica mais alta: a de um amor que não se fecha em si mesmo, mas se expande, intercede e busca salvar.

E é nesse ponto que sua grandeza se torna verdadeiramente extraordinária: ele não apenas caminha com Deus – ele aprende a amar como Deus.

V – A presença da Santíssima Trindade na história de Abraão

Após revelar-se fiel, sábio, generoso e misericordioso, a história de Abraão atinge um ponto no qual não é mais apenas o homem que se revela – é o próprio Deus que se manifesta de forma mais profunda. E essa manifestação não é fragmentária, mas estrutural. É nesse momento que se torna possível entrever, ainda que de forma velada, aquilo que a tradição posteriormente reconhecerá como a Santíssima Trindade.

O primeiro desses momentos ocorre na chamada aparição junto ao carvalho de Mambré. A Escritura descreve a cena com uma precisão que, à primeira vista, pode parecer apenas narrativa, mas que carrega uma densidade teológica extraordinária:

Apareceu-lhe o Senhor nos carvalhais de Mambré […] levantou os olhos e viu três homens em pé diante dele.” (Gênesis 18:1 – 2)

O dado mais surpreendente não está apenas na presença dos três homens, mas na forma como Abraão os reconhece e se dirige a eles:

Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo.” (Gênesis 18:3)

Abraão vê três – e fala a um. Não há hesitação, não há confusão, não há tentativa de distinguir. Ele reconhece unidade na multiplicidade. E, ao longo do diálogo, os três falam como uma só voz, sem divisão de autoridade ou de intenção.

Essa cena não é ainda uma formulação teológica explícita da Trindade, mas é uma manifestação estrutural da unidade na distinção, na qual pluralidade e unidade coexistem sem ruptura. A tradição cristã verá aqui uma prefiguração da revelação plena: um só Deus em três pessoas.

O próprio lugar dessa revelação não é irrelevante. Deus se manifesta junto a um carvalho – um elemento que, na leitura posterior da história da salvação, pode ser compreendido como prenúncio do madeiro da cruz. A árvore, aqui, não é apenas cenário, mas símbolo de uma história que ainda se cumprirá: a de um Deus que entrará na história para restaurar aquilo que foi rompido.

No entanto, é em outro momento, mais silencioso e mais enigmático, que essa estrutura se revela de forma ainda mais profunda: o rito descrito em Gênesis 15.

Eu sou o Senhor, que te tirei de Ur dos caldeus, para dar-te esta terra para herdá-la.” (Gênesis 15:7)

Diante da promessa, Abraão pede um sinal – não por incredulidade, mas por desejo de compreensão.

Senhor Deus, como saberei que hei de possuí-la?” (Gênesis 15:8)

A resposta de Deus não vem na forma de um discurso, mas de um rito.

Toma-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho.” (Gênesis 15:9)

Abraão obedece:

E trouxe-lhe todos estes, e partiu-os pelo meio, e pôs cada parte em frente da outra; mas as aves não partiu.” (Gênesis 15:10)

Este gesto é decisivo. Os animais maiores são partidos – divididos. As aves, porém, permanecem intactas. A cena é interrompida pela presença de forças hostis:

As aves de rapina desciam sobre os cadáveres; porém Abrão as enxotava.” (Gênesis 15:11)

Aqui já se esboça uma dimensão de conflito: algo ameaça a integridade do rito, e Abraão participa ativamente, protegendo aquilo que foi preparado. Ele coopera, mas não controla o processo.

É nesse ponto que a leitura simbólica se torna reveladora.

Esse momento inicial do rito já permite entrever uma estrutura simbólica. Os animais que são partidos representam uma realidade que se encontra dividida. Aquilo que deveria ser uno aparece fragmentado, separado, incapaz de manter sua integridade. A leitura desse gesto, à luz do conjunto da revelação, permite compreender que essa divisão não é apenas material, mas remete à própria condição humana. O homem, que deveria viver em unidade interior, encontra-se, após a queda, marcado por uma cisão entre suas dimensões fundamentais.

A novilha, associada à força, à sustentação e à fecundidade, pode ser compreendida como símbolo do ser, da existência que sustenta tudo o que é. Essa associação encontra eco na própria linguagem sacrificial das Escrituras, onde os animais maiores estão ligados à expiação mais abrangente e à restauração da ordem fundamental. No ritual da expiação, por exemplo, lê-se: “E oferecerá o novilho do sacrifício pelo pecado, que é por si mesmo, e fará expiação por si e pela sua casa” (Levítico 16:6). O novilho aparece aqui como elemento que sustenta a reconciliação, ligado à base da existência ordenada diante de Deus. Nesse sentido, ele remete, por analogia, à dimensão do princípio, da origem, aquilo que fundamenta e dá consistência à realidade.

A cabra, por sua vez, ligada ao impulso, ao movimento e à vitalidade, pode ser interpretada como expressão da vontade, dos afetos e da inclinação que move o homem em direção ao que deseja. Essa associação se torna mais clara quando se observa seu papel nos ritos que envolvem transferência, escolha e direção da culpa. Em Levítico, lê-se: “E porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel […] e enviá-lo-á ao deserto” (Levítico 16:21). O bode aparece como portador de uma dinâmica interior, ligado ao movimento daquilo que o homem deseja, carrega e projeta. Ele simboliza, assim, a dimensão da vontade que pode tanto se ordenar quanto se desviar.

Já o cordeiro, cuja presença atravessa toda a tradição bíblica como figura do sacrifício e da mediação, aponta para a dimensão da inteligibilidade, da razão que ilumina, ordena e dá forma à experiência humana. No relato do Êxodo, o cordeiro pascal aparece como elemento central da libertação: “O cordeiro será sem mácula […] e tomarão do sangue, e pô-lo-ão em ambas as ombreiras e na verga da porta” (Êxodo 12:5,7). Esse sangue não apenas protege, mas marca, distingue, torna visível uma realidade invisível. Essa função de mediação e revelação atinge seu ápice no Novo Testamento, quando João Batista declara: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). O cordeiro, assim, não é apenas vítima, mas princípio de inteligibilidade da própria salvação, aquele por meio de quem o sentido do real se torna compreensível.

No interior do rito, a presença das aves introduz um elemento decisivo que não pode ser ignorado. A Escritura afirma que “as aves de rapina desciam sobre os cadáveres; porém Abrão as enxotava” (Gênesis 15:11). Essas aves não participam da aliança, não são oferecidas, mas tentam se apropriar daquilo que foi preparado para Deus. Sua ação é de invasão, de corrupção, de destruição da ordem estabelecida.

Essa imagem encontra paralelo em diversas passagens bíblicas nas quais as aves que devoram representam forças espirituais que roubam, corrompem e impedem a realização da obra divina. Na parábola do semeador, Cristo explica: “Vêm as aves e comem a semente” (Mateus 13:4), e em seguida interpreta: “Vem o maligno e arrebata o que foi semeado no coração” (Mateus 13:19). A identificação é direta: aquilo que as aves fazem no plano visível corresponde à ação do maligno no plano invisível. Do mesmo modo, no Apocalipse, as aves são associadas ao juízo sobre a corrupção e à presença de forças que se alimentam da ruína: “Vinde, ajuntai-vos à grande ceia de Deus, para comerdes a carne dos reis…” (Apocalipse 19:17 – 18). Essas imagens convergem para uma mesma estrutura: as aves de rapina representam aquilo que se opõe à ordem de Deus, que se aproveita da morte e da desordem, que tenta impedir a consumação daquilo que foi preparado. Nesse sentido, é coerente compreendê-las, por analogia, como figura das forças demoníacas que procuram destruir a obra salvífica.

Em contraste, a rola e o pombinho ocupam uma posição distinta no rito. A Escritura observa que esses não são partidos (Gênesis 15:10), o que indica que não participam da mesma condição de ruptura que atinge os demais elementos. Sua integridade sugere uma realidade que permanece preservada, não sujeita à mesma divisão. Essa distinção encontra fundamento na simbologia constante dessas aves ao longo da Escritura.

O pombinho, em particular, aparece como sinal de presença divina e de mediação entre o céu e a terra. No relato do dilúvio, é a pomba que retorna com um ramo de oliveira, sinalizando o restabelecimento da vida e da paz: “E voltou a pomba a ele à tarde; e eis que trazia no bico uma folha de oliveira” (Gênesis 8:11). A pomba é mensageira como os anjos são mensageiros de Deus. No Novo Testamento, essa mesma imagem atinge sua plenitude no batismo de Cristo: “E o Espírito de Deus desceu como pomba e veio sobre ele” (Mateus 3:16). A pomba, portanto, não é apenas um animal, mas um símbolo recorrente de mediação, de comunicação entre o divino e o humano, de presença que não se corrompe.

A rola, por sua vez, aparece associada à pureza, à simplicidade e à oferta humilde. Nos ritos levíticos, ela é aceita como sacrifício acessível, especialmente para aqueles que não possuem grandes recursos: “Se não tiver recursos para um cordeiro, então trará ao Senhor duas rolas ou dois pombinhos” (Levítico 5:7). Essa associação à pureza e à simplicidade reforça sua posição como elemento não corrompido, que permanece íntegro mesmo em meio à limitação humana.

À luz dessas passagens, torna-se possível compreender, de forma coerente, a distinção presente no rito de Gênesis 15. As aves de rapina, que descem para devorar e são repelidas por Abraão, correspondem às forças que tentam destruir, corromper e impedir a obra de Deus. Já a rola e o pombinho, que permanecem íntegros e não são partidos, podem ser compreendidos como símbolos de uma ordem que não participa da ruptura, uma mediação preservada, que mantém a ligação entre o divino e o humano. Nessa estrutura, é possível reconhecer, por analogia, a oposição entre aquilo que se rebela e destrói e aquilo que serve, media e preserva – distinção que, na tradição teológica, se expressa na diferença entre anjos fiéis e anjos decaídos.

Assim, o rito não apenas representa a divisão interior do homem, mas também o campo de tensão em que essa divisão se insere: de um lado, forças que procuram desagregar e impedir a restauração; de outro, uma ordem que permanece íntegra e que participa, de algum modo, da mediação da ação divina.

Dessa forma, o rito estabelece uma distinção clara: de um lado, as aves de rapina, que descem para devorar e são repelidas, representam os demônios que procuram destruir a obra salvífica; de outro, a rola e o pombinho, que permanecem íntegros e não são partidos, representam os anjos fiéis, que participam da ordem divina e permanecem incorruptos. Essa oposição não é apenas simbólica, mas estrutural: ela revela que a história da salvação se desenrola em meio a um campo de tensão real entre forças que buscam destruir e forças que, pela graça de Deus, preservam e servem à sua vontade.

O rito atinge sua máxima profundidade no momento em que a Escritura descreve a passagem do fogo entre os animais partidos. Após toda a preparação realizada por Abraão, após sua vigilância contra as aves de rapina e já em estado de profunda obscuridade, ocorre algo que desloca completamente o centro da ação. O texto afirma: “E sucedeu que, posto o sol, houve trevas espessas; e eis um forno de fumaça, e uma tocha de fogo, que passou por aquelas metades” (Gênesis 15:17). Esse detalhe, aparentemente simples, contém uma das revelações mais decisivas de todo o rito.

Na prática das alianças antigas, passar entre os animais divididos significava assumir o compromisso de fidelidade sob pena de sofrer o mesmo destino daqueles corpos. No entanto, aqui não é Abraão quem atravessa. Ele não passa entre as partes. Ele não assume a restauração daquilo que foi dividido. É Deus quem passa sozinho. Esse gesto revela, com clareza, que a recomposição da unidade não pode ser realizada pelo homem. Aquilo que foi rompido – não apenas no plano exterior, mas na própria estrutura interior do ser humano – não pode ser restaurado por seus próprios meios.

A passagem da tocha de fogo entre a carne partida dos animais indica, de forma simbólica e profunda, que apenas Deus pode restaurar aquilo que foi dilacerado pelo pecado. O homem, desde a ruptura originária, encontra-se dividido em suas dimensões fundamentais: sua vontade não se orienta plenamente para o bem, sua inteligência não apreende a verdade com clareza absoluta e sua própria existência não se sustenta em perfeita unidade. Essa divisão não é apenas moral, mas estrutural. O ser, o conhecer e o amar já não operam em harmonia espontânea.

É precisamente nesse contexto que o gesto divino adquire todo o seu significado. Ao atravessar aquilo que está partido, Deus não apenas confirma uma promessa externa, mas revela sua intenção de intervir no interior da própria condição humana. Ele se compromete a restaurar a unidade que o homem perdeu. Aquilo que está dividido – a vontade, a inteligência e a própria integridade do ser – não será reunificado por esforço humano, mas por ação divina.

Essa passagem permite compreender que a salvação não é apenas um direcionamento moral, mas uma restauração ontológica. O homem não precisa apenas escolher melhor ou pensar com mais clareza; ele precisa ser restaurado em sua própria estrutura. E essa restauração não pode ser produzida por ele mesmo. Ele pode preparar, como Abraão preparou; pode proteger, como Abraão protegeu; pode obedecer, como Abraão obedeceu. Mas não pode atravessar a divisão e recompor a unidade. Esse ato pertence exclusivamente a Deus.

Assim, o fogo que passa entre os animais partidos torna-se sinal de uma verdade central: somente Deus pode unificar no homem aquilo que o pecado fragmentou. Somente Ele pode restaurar a harmonia entre vontade, inteligência e ser. Somente Ele pode devolver ao homem a unidade que o torna verdadeiramente imagem de Deus. O homem coopera, mas não realiza. Ele responde, mas não inicia. A aliança, nesse sentido, não é fruto da capacidade humana, mas da fidelidade divina que entra na história para refazer aquilo que o homem não conseguiu preservar.

VI – A unidade do rito à luz da Escritura e da tradição

Ao alcançar o ponto mais profundo da história de Abraão, torna-se necessário deter-se com maior atenção no rito descrito em Gênesis 15, não apenas em seu valor histórico, mas em sua densidade teológica. O texto apresenta, em seu sentido literal, um rito de aliança típico do mundo antigo, no qual animais são divididos e dispostos frente a frente como sinal de compromisso solene. Esse nível não pode ser ignorado: a Escritura narra um acontecimento real, situado em uma tradição concreta. No entanto, a própria tradição cristã sempre reconheceu que o texto sagrado não se esgota em seu nível literal, podendo ser lido também em sua dimensão espiritual, desde que essa leitura permaneça ancorada na unidade da revelação.

Santo Agostinho, ao tratar dos sentidos espirituais da Escritura, especialmente em De Trinitate (II, 10 – 11) e em suas reflexões sobre o Gênesis nas Quaestiones in Heptateuchum, indica que certos episódios veterotestamentários, embora históricos, são também portadores de estruturas que apontam para realidades mais profundas. Ele não oferece uma interpretação detalhada dos animais de Gênesis 15 como categorias antropológicas, mas estabelece o princípio fundamental que aqui se aplica: os elementos visíveis podem remeter, por analogia, a estruturas invisíveis, especialmente quando considerados à luz da totalidade da revelação.

É nesse horizonte que se propõe a leitura aqui desenvolvida. Trata-se de uma interpretação que não se apresenta como exegese histórico-crítica, mas como exercício de teologia espiritual ancorado na analogia da fé. Ou seja, não se afirma que o texto “diga diretamente” aquilo que será interpretado, mas que, quando lido em continuidade com o restante da Escritura e com a tradição teológica, ele permite reconhecer correspondências estruturais que enriquecem sua compreensão.

A escolha dos animais no rito não é arbitrária, e sua recorrência ao longo da Escritura permite estabelecer conexões que não são meramente subjetivas. A novilha, por exemplo, aparece associada à expiação ampla e à restauração da ordem fundamental. Em Levítico 16:6, o novilho é oferecido para fazer expiação pela casa, indicando sua ligação com a base da ordem restaurada diante de Deus. Em Números 19:2, a novilha vermelha é utilizada em um rito de purificação que visa restaurar a integridade ritual do povo. À luz dessas passagens, torna-se plausível sugerir que a novilha, no contexto simbólico do rito, remeta à dimensão do fundamento, daquilo que sustenta e restaura a própria condição do ser diante de Deus.

A cabra, por sua vez, aparece com destaque no rito do bode expiatório, em Levítico 16:21, onde carrega sobre si as iniquidades do povo e é enviada ao deserto. Essa função não se limita a uma imagem moral externa, mas revela uma dinâmica interna: aquilo que o homem deseja, projeta e acumula como desordem é colocado sobre o animal. Em Levítico 4:23 – 24, o bode também aparece em contextos de oferta pelo pecado individual, reforçando sua ligação com a dimensão da inclinação humana que pode se desviar. Por isso, sugere-se que a cabra possa ser compreendida, por analogia, como expressão da dimensão volitiva, da inclinação que orienta o agir humano, seja para o bem, seja para a desordem.

O cordeiro, finalmente, possui uma base simbólica ainda mais sólida. Em Êxodo 12:5 – 7, ele é o centro do rito pascal, marcando as casas e tornando visível uma proteção invisível. Em Isaías 53:7, o servo sofredor é comparado a um cordeiro levado ao matadouro, indicando sua função de mediação silenciosa. Essa linha culmina em João 1:29, quando Cristo é identificado como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Aqui, o cordeiro não apenas participa de um rito, mas revela o sentido do próprio ato salvífico. Por isso, sua associação com a dimensão da inteligibilidade não se dá por redução, mas por participação: ele é aquilo por meio do qual o sentido da salvação se torna compreensível.

É importante reconhecer que outras interpretações simbólicas são possíveis. A novilha poderia ser associada à paciência, o cordeiro à inocência e a cabra ao pecado, como frequentemente ocorre na tradição moral. No entanto, tais leituras, embora legítimas, não articulam com a mesma coerência a estrutura interna do rito com a dinâmica mais ampla da revelação. A leitura aqui proposta procura integrar os elementos não apenas em seu valor moral, mas em sua capacidade de expressar uma estrutura mais profunda da condição humana e da ação divina.

Essa estrutura torna-se ainda mais clara quando colocada em relação com a tradição teológica da imagem da Trindade na alma. Santo Agostinho, em De Trinitate, identifica no homem uma tríade – memória, inteligência e vontade – que reflete, de modo imperfeito, a vida divina. São Tomás de Aquino aprofunda essa leitura ao mostrar que o conhecer procede do ser e que o amar procede do conhecer, estabelecendo uma ordem interna entre fundamento, inteligibilidade e inclinação. À luz dessa tradição, pode-se sugerir que o rito de Gênesis 15 permite entrever, de forma simbólica, uma estrutura análoga: aquilo que no homem aparece dividido – ser, conhecer e querer – encontra-se no rito representado por elementos distintos, aguardando uma unidade que ainda não se realiza plenamente.

É nesse ponto que a conexão com a Trindade se torna mais explícita. Não se afirma que o rito revele diretamente as três Pessoas divinas, mas que ele permite reconhecer, por analogia, uma estrutura na qual fundamento, verdade e amor – tradicionalmente associados ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo – aparecem em estado de ruptura no plano humano e de perfeita unidade no plano divino. O rito, assim, não descreve a Trindade, mas aponta para a necessidade de uma restauração que só pode ser compreendida plenamente à luz dela.

O momento decisivo do rito confirma essa leitura. Após toda a preparação realizada por Abraão, não é ele quem atravessa os animais partidos. A Escritura afirma que, na escuridão, um forno fumegante e uma tocha de fogo passam entre as partes (Gênesis 15:17). No contexto das alianças antigas, esse gesto significava assumir a responsabilidade pela restauração da unidade. Aqui, porém, Deus o realiza sozinho. Isso revela que a recomposição daquilo que foi dividido não pertence ao homem, mas à iniciativa divina.

Assim, o rito manifesta uma verdade central: o homem pode preparar, vigiar e responder, mas não pode restaurar por si mesmo a unidade perdida. A divisão que marca sua condição – entre vontade, inteligência e ser – não é superada por esforço próprio, mas pela ação de Deus que atravessa a ruptura. Nesse sentido, o rito não apenas confirma a promessa feita a Abraão, mas antecipa a lógica inteira da salvação.

O ganho teológico dessa leitura torna-se então evidente. Ao integrar o sentido literal do rito com sua dimensão simbólica e com a tradição teológica da Igreja, torna-se possível compreender de modo mais profundo a figura de Abraão e o significado da aliança. Abraão não é apenas o homem que recebe uma promessa, mas aquele que participa de um processo no qual a condição humana fragmentada é colocada diante de Deus para ser restaurada por Ele. A aliança deixa de ser apenas um pacto histórico e se revela como expressão de uma dinâmica mais profunda: a iniciativa divina que reconduz o homem à unidade para a qual foi criado.

VII– Conclusão

Ao percorrer a história de Abraão, torna-se possível responder, com clareza e coerência, à pergunta que orienta todo o texto: por que ele foi escolhido como fundador da aliança entre Deus e os homens. A escolha não se explica por um privilégio arbitrário, nem por uma superioridade natural, mas por uma disposição interior que, ao longo de sua vida, se revela de forma progressiva e consistente. Abraão é escolhido porque, nele, a resposta a Deus encontra uma forma concreta, estável e ordenada. Ele não apenas ouve – ele corresponde.

Essa correspondência se manifesta, em primeiro lugar, na sua fidelidade. Quando Deus chama, Abraão não hesita. Sua fé não depende de garantias sensíveis, mas de uma confiança que se traduz em movimento. Ao deixar sua terra, ele inaugura um modo de existência em que a vontade humana se orienta por um bem que a ultrapassa. Não se trata de uma renúncia vazia, mas de uma adesão que reorganiza sua vida em função da promessa recebida.

Essa fidelidade não permanece isolada. Ela se prolonga na sabedoria com que Abraão enfrenta as circunstâncias. No Egito, ele não abandona a promessa nem se entrega ao desespero. Discernindo com clareza a realidade, age de modo prudente, preservando sua vida não por apego, mas porque compreende que ela está vinculada a um desígnio divino. Sua razão não é obscurecida pela prova, mas fortalecida por ela. A fé, longe de anular o pensamento, ordena-o.

A mesma ordem interior se manifesta na sua generosidade. Diante do conflito com Ló, Abraão abdica de seus direitos para preservar a paz. Ao resgatar o sobrinho, arrisca tudo sem exigir retorno. Ele não se define pelo que possui, mas pelo modo como se relaciona com o que possui. Sua liberdade diante dos bens revela que sua vontade não está submetida ao interesse, mas orientada pela justiça.

Essa dinâmica atinge seu ponto mais elevado na misericórdia. Quando intercede por Sodoma, Abraão ultrapassa os limites da justiça estrita e se coloca diante de Deus em favor de homens que não conhece e que não merecem. Ele não nega o pecado, mas se recusa a abandonar o pecador. Nesse gesto, sua humanidade se abre para uma forma de amor que não é seletiva nem condicionada. Ele começa a refletir, ainda que de modo imperfeito, a própria misericórdia divina.

É nesse percurso que se torna possível compreender a profundidade de sua escolha. Em Abraão, a vontade, a razão e a própria existência começam a se ordenar novamente em torno de um único princípio. Aquilo que, no homem, aparece frequentemente dividido – o querer, o pensar e o ser – encontra nele uma integração real, ainda que não plena. Sua vida não é perfeita, mas é orientada. E é justamente essa orientação que o torna apto a ser princípio de uma aliança.

Os acontecimentos mais profundos de sua história confirmam essa estrutura. Na manifestação junto a Mambré, Abraão reconhece unidade onde há distinção, respondendo a três como a um só Senhor. No rito de Gênesis 15, ele prepara, protege e coopera, mas é Deus quem atravessa a divisão e assume a restauração. Esses episódios revelam que a aliança não nasce da capacidade humana, mas da iniciativa divina – e que o homem participa dela na medida em que se dispõe a corresponder.

Assim, em Abraão, torna-se visível aquilo que a Escritura afirma desde o princípio: o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Essa imagem, obscurecida pela desordem, não é anulada, mas pode ser restaurada. Abraão não é apenas um homem escolhido; ele é um homem no qual essa imagem volta a se tornar operante. Sua fé ordena sua vontade, sua vontade sustenta sua razão, e sua vida adquire unidade. Ele não apenas crê – ele se torna um ponto de referência.

É por isso que sua figura ultrapassa seu próprio tempo. Abraão não é apenas o início de um povo, mas um modelo para todos os que desejam compreender o que significa viver em aliança com Deus. Nele, a resposta humana se encontra com a iniciativa divina, e a história deixa de ser apenas sucessão de acontecimentos para se tornar lugar de revelação.

À luz da tradição de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino, torna-se possível reconhecer em Abraão não a presença ontológica da Trindade, mas a sua imagem operante na alma humana, tal como ambos os autores descrevem. Agostinho, ao refletir sobre a alma, identifica nela uma estrutura tríplice – memória, inteligência e vontade – que, sem se confundirem, permanecem unidas em um só sujeito.

Tomás, por sua vez, aprofunda essa leitura ao mostrar que o conhecer procede do ser e que o amar procede do conhecer, formando uma ordem interna que reflete, por participação, a vida divina. É precisamente essa estrutura que começa a se tornar visível em Abraão. Sua existência, sustentada pela fidelidade à promessa, manifesta uma memória viva de Deus; sua inteligência, capaz de discernir mesmo nas provas, revela uma razão iluminada; sua vontade, ordenada pelo amor que o leva a obedecer, a renunciar e a interceder, expressa uma inclinação ao bem que unifica toda a sua vida. Assim, sem que haja qualquer identidade entre o humano e o divino, Abraão se torna um ponto de transparência no qual o homem, ao ser ordenado interiormente, passa a refletir, de modo analógico, aquela unidade de ser, verdade e amor que, em Deus, é perfeita e indivisível.

A escolha de Abraão, portanto, não é um mistério fechado, mas uma resposta aberta: Deus o escolhe porque, nele, o homem começa a voltar a ser aquilo para o qual foi criado. E é justamente por isso que sua história permanece viva – não como memória distante, mas como convite permanente à restauração daquilo que, em cada homem, ainda busca unidade, verdade e amor.

Marcos Marins Guimarães

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