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“Os Jovens já têm Voz, falta Estrutura para Escutá-los”, diz Paulo Lima, Fundador da Viração

Em entrevista, o educomunicador reconta os mais de 20 anos da organização, revela como a autonomia juvenil já fez a ONG recusar…

Educommartinbarbero · 2026-05-19 02:26 · 0 claps · 8.4 min read
#entrevista #educomunicação #educomunicación
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“Os Jovens já têm Voz, falta Estrutura para Escutá-los”, diz Paulo Lima, Fundador da Viração

Em entrevista, o educomunicador reconta os mais de 20 anos da organização, revela como a autonomia juvenil já fez a ONG recusar financiamentos de R$ 500 mil.

Por: Ana Luisa Bremer e Luis Nascimento

O que acontece quando decidimos que os adolescentes não são apenas o público-alvo de um projeto, mas os donos dele? Para a Viração Educomunicação, a resposta foi uma revolução metodológica que já dura mais de duas décadas. Fundada com a missão de transformar a comunicação em ferramenta de emancipação política e cidadania nas periferias, a organização desafiou a lógica do terceiro setor ao dar poder real de deliberação às juventudes.

Nesta entrevista exclusiva, para Clayton Scarcella e Sandra Roza, Paulo Lima, um dos idealizadores da Viração, reflete sobre os desafios de debater temas sensíveis, como gênero, racismo e crise climática, detalha as práticas de acessibilidade para jovens neurodivergentes e relembra o impacto de ver o modelo de participação da ONG ser “copiado” pelo UNICEF. Em tempos de desinformação, polarização e avanço da Inteligência Artificial, ele defende: “Paulo Freire continua valendo para o Gemini ou para o ChatGPT”.

Entrevista: Paulo Lima

1. A Viração discute temas sensíveis com adolescentes e jovens (meio ambiente, saúde, política e participação cidadã, diversidade, igualdade de gênero e sexualidade). Como é trabalhar esses assuntos com eles/elas/elus? Muito se fala sobre dar voz aos estudantes (na verdade, ouvidos para escutá-los), mas como as práticas educomunicativas podem ser desenhadas de forma a garantir acessibilidade universal? Como a Viração pensa a mitigação de barreiras para incluir também jovens com deficiência e neurodivergentes nos processos de produção midiática? Pode explicar um pouco?

Paulo Lima: Em relação a esses temas que você citou (a questão ambiental, a afetividade, a violência, o racismo), são todos temas difíceis, na verdade. Isso porque são temas que fazem sentido para essas juventudes, essas adolescências e essas infâncias, já que fazem parte da realidade delas e deles. A Viração parte justamente disso: da experiência concreta deles, e não de conceitos abstratos. Nós procuramos, antes de tudo, fazer um mapeamento de quais são as necessidades que tocam de perto essas pessoas com as quais trabalhamos, isto é, essas juventudes.

E aí o papel educomunicativo, na minha opinião, é o de criar um espaço de escuta. Um espaço de escuta segura; um ambiente no qual cada um possa se expressar sem julgamentos ou juízos de valor, e onde o conflito e a problematização das ideias sejam vistos como parte do processo, e não como um problema.

Essa dinâmica de “dar voz” a essa galera, na verdade, é uma expressão que deveria ser extirpada do nosso linguajar, porque os jovens já têm voz. O que faltam são, muitas vezes, processos, estruturas, mecanismos e instrumentos que os escutem de verdade e que transformem essa escuta, sobretudo, em ação. A educomunicação que a Viração pratica ao longo desses anos pode ser apresentada como uma prática que realmente inverte essa lógica: os jovens não são objetos da comunicação; eles são sujeitos produtores de comunicação, de conteúdo e de sentido.

Sobre a acessibilidade em relação aos jovens com deficiências e aos neurodivergentes, ao longo da nossa história viemos experimentando várias frentes. Produzimos materiais em múltiplos formatos: em áudio, em recursos visuais, em texto simplificado, utilizando linguagens diversas e, sobretudo, construindo a partir dessas juventudes com deficiências e neurodivergências.

A primeira coisa que temos de fazer é entender como criar metodologias flexíveis que não dependam de um único canal de expressão (que contemplem não só a escrita, mas também a imagem, o áudio, o corpo, o movimento e a arte). Se temos essa multiplicidade de possibilidades de expressão, podemos, sem dúvida, criar canais e espaços para que os jovens com deficiência e os neurodivergentes consigam se expressar e, sobretudo, exercitar o direito humano à comunicação.

Para isso, precisamos formar uma equipe capacitada, competente e empoderada para reconhecer diferentes formas de comunicação e participação. Sempre procuramos trabalhar junto a organizações sociais que atuam diretamente com jovens, crianças e adolescentes com deficiências e neurodivergências. A acessibilidade, na verdade, não é a mera adaptação de um processo padrão. Ela é uma cocriação, é um processo dinâmico que deve ser visto, revisto e avaliado a cada instante, porque o que dá certo em um projeto pode não funcionar em outro. Portanto, não podemos ligar o piloto automático nessa questão. É uma pauta muito importante para todas as organizações que trabalham com a defesa dos direitos humanos.

2. Ao iniciar um novo projeto, principalmente em um novo território, sobre um tema em que, muitas vezes, os adolescentes e jovens não foram ouvidos antes, o que vocês mais ouvem deles? Quais temas eles mais querem compartilhar/expressar?

Paulo Lima: Ao iniciar um novo projeto, principalmente em um novo território, sobre um tema no qual, muitas vezes, os adolescentes e os jovens não foram ouvidos antes, a dinâmica muda. Quando estamos escrevendo um projeto para um potencial doador ou financiador, preferimos deixar 50% das atividades em aberto. Por quê? Porque queremos cocriar essas atividades com o nosso público participante, seja ele composto por crianças, adolescentes ou jovens. Entramos em um acordo com o financiador para dizer: “Queremos cocriar esse projeto com o público que vai se beneficiar dele”.

A partir daí, a realidade se transforma. O que ouvimos desses jovens e adolescentes que participam e que, de repente, nunca tiveram experiências de participação afetiva e efetiva nesse sentido? Antes de tudo, eles ficam perplexos. Dizem: “Ah, eu não sabia que podia dizer alguma coisa e que isso que estou dizendo seria levado a sério. Eu não sabia que poderia também decidir algo neste projeto. Não sabia que poderia, inclusive, cocriá-lo e ser uma pessoa ativa nesse processo”.

Essa participação é muito desafiadora, porque eles nunca foram acostumados a participar, ou seja, a tomar parte e decidir sobre as coisas. Desde o começo da Viração viemos batendo nessa tecla e tentando ir mais a fundo. Tanto é que criamos os Conselhos ViraJovens por todo o Brasil, nos quais os adolescentes e jovens podiam decidir sobre a produção de uma revista (desde a escolha do tema até a edição final e a capa, por exemplo). E não só isso: deliberavam até mesmo sobre o financiamento daquela revista e daquele projeto.

Chegamos, inclusive, a recusar financiamentos de R$ 100.000, R$ 200.000 e R$ 500.000 (risos) que potenciais financiadores nos ofereceram, porque eles não estavam de acordo com a nossa carta de princípios, que foi escrita com a participação dos próprios adolescentes e jovens. Como equipe e diretoria, abrimos a discussão para os ViraJovens; eles se manifestaram e a decisão deles foi muito levada em conta. Foi por meio dessa autonomia que dissemos não a alguns financiamentos de potenciais financiadores, por exemplo.

Portanto, os temas são os mais variados e dependem um pouco do foco de cada projeto. O que nós abrimos é a oportunidade e a possibilidade de que suas ideias e propostas sejam levadas realmente em consideração.

3. Quais foram os maiores desafios institucionais nessa caminhada e como a Viração enxerga a evolução do conceito de educomunicação diante da plataformização da sociedade?

Paulo Lima: Os desafios foram muitos ao longo de todos esses anos em que estamos nessa caminhada educomunicativa. Antes de tudo, a própria equipe de educomunicadores foi sendo formada e construída pouco a pouco, levando em conta as necessidades dos adolescentes e dos jovens. Para ilustrar, fomos a primeira organização social de educomunicação a lançar um edital para contratar, especificamente, uma pessoa trans para integrar a nossa equipe. Também fomos uma das primeiras organizações a lançar um edital específico para pessoas negras, pois queríamos escurecer a nossa equipe. Ela sempre foi marcada pela diversidade étnico-racial, sexual, de orientação e de vertente religiosa. Essa diversidade sempre foi um desafio que buscamos responder ativamente.

Outro ponto crucial, que no começo foi um desafio e depois se tornou o cartão de visitas da Viração, é a participação afetiva e efetiva. Criamos um método para favorecer a participação real dos jovens por meio da produção de revistas e de projetos ao longo desses anos. O impacto foi tamanho que grandes organizações passaram a, entre aspas, “copiar” o nosso modelo. Há quase 10 anos, por exemplo, o UNICEF Brasil, uma organização multilateral das Nações Unidas, implementou um conselho jovem (o Young Board). Trata-se de um conselho feito por e para adolescentes e jovens que ajuda a diretoria adulta do UNICEF Brasil a avaliar suas metas, objetivos, plataformas e projetos. Esse modelo de participação juvenil da Viração acabou sendo transplantado, adaptado e implementado em várias outras situações, inclusive em revistas que nasceram a partir da nossa experiência pelo país afora.

E como aconteceu a evolução do conceito de educomunicação diante da plataformização da sociedade em meio a todas essas mudanças? Quando começamos, nós nos comunicávamos por cartas com os adolescentes e jovens espalhados pelo país. Chegamos a ter 24 conselhos jovens em 27 estados da federação, todos conectados por cartas. Depois, passamos para as plataformas de internet. As ferramentas tecnológicas nos ajudaram muito a otimizar a capacidade de resposta com as juventudes brasileiras.

Por sete anos, coordenamos o U-Report, que é uma plataforma automatizada de interações de propriedade do UNICEF. Por meio do Facebook, Instagram e WhatsApp, dialogamos com cerca de 180.000 adolescentes e jovens cadastrados. Trata-se de um potencial imenso de sensibilização e engajamento, e que no Brasil foi implementado pela Viração. Procuramos utilizar essas plataformas digitais e a internet de uma forma muito cocriativa, buscando responder ao desejo de participação e otimizando o tempo, os recursos e as energias da equipe e dos participantes.

Tudo isso é fundamentado em uma filosofia freiriana, baseada também em Mario Kaplún e em tantos outros pensadores que norteiam a nossa ação. Paulo Freire, Kaplún e outros teóricos dão conta dessa realidade porque oferecem uma base conceitual que nos ajuda a navegar e a nos orientar neste mundo revolucionário das novas tecnologias e da inteligência artificial. Os princípios e os fundamentos são permanentes. Quando aprendemos, desde o começo, que educação é fazer uma leitura do mundo para transformá-lo e comunicá-lo, essa máxima continua valendo para o ChatGPT, para o Claude, para o Gemini ou para qualquer outra ferramenta de última geração que venha a surgir. O nosso papel continua sendo o de ajudar crianças, adolescentes e jovens a terem princípios, colocando o processo e as pessoas, com seus desejos e sonhos, sempre em primeiro lugar, acima da tecnologia.

4. Paulo, por que você acredita que adolescentes e jovens devem ter mais espaço para se comunicarem e se expressarem no mundo? Na experiência da Agência Jovem de Notícias, como a Viração tem lidado com o desafio de fomentar um jornalismo feito por jovens em uma era marcada pela desinformação e pela polarização política? Quais são as barreiras e oportunidades para que esse diálogo educomunicativo ocorra de forma efetiva?

Paulo Lima: Acredito piamente que sim: os adolescentes e os jovens devem ter mais espaços para se comunicarem e se expressarem no mundo. E não estou falando apenas de espaços cibernéticos promovidos pelas novas tecnologias; falo de espaços físicos e institucionais. A educomunicação tem a ver com mudança, uma mudança de sistemas que, de repente, eram antidemocráticos ou que não promoviam uma democracia e uma participação efetivas.

Dentro da escola, por exemplo, é fundamental que haja mais espaço para a comunicação e a expressão. Na empresa e no mercado de trabalho também, o que se conecta diretamente com os modelos de gestão. Como funciona a gestão de uma organização social ou de empresas do primeiro, segundo ou terceiro setor? É estruturada de cima para baixo? As pessoas que estão ali são colaboradoras legítimas ou são tratadas apenas como mão de obra?

Quando falamos em educomunicação, estamos falando em mudança de atitude, de comportamento e de estruturas. Por isso, defendo que precisamos abrir frentes para que crianças, adolescentes e jovens possam se expressar e ter suas opiniões levadas em conta.

Na experiência da Agência Jovem de Notícias, que já tem mais de 20 anos, o grande desafio tem sido o de permanecer relevante e incrementar esse espaço que criamos em parceria com várias organizações do Brasil, da América Latina, da Europa e da África. Para combatermos a desinformação e as fake news, o único caminho eficaz é oferecer e criar espaços de narração, uma narração alternativa e inovadora.

Precisamos sair da polarização e escutar as diversas opiniões, que são múltiplas. Não podemos cair na tentação de ignorar os diversos tons de cinza que compõem a nossa realidade; o mundo não é apenas preto e branco.

Nós contribuímos, antes de tudo, por meio da formação. Capacitamos quem deseja colaborar com a Agência Jovem de Notícias para que desenvolvam a habilidade de narrar e criar narrativas inovadoras. Não podemos simplesmente repetir o que o mainstream midiático já faz, pois esse não é o nosso papel. O nosso propósito é estruturar uma nova forma de ler e contar o mundo.

Fonte: https://revistas.usp.br/comueduc/pt_BR/article/view/110449/112707; https://educomusp.wordpress.com/2013/05/06/educomunicadores17/


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