← Back to list

A Crise do Capitalismo e as Novas Configurações Discursivas da Auto-Ajuda

Como a auto-ajuda se reconfigura frente às crises do capitalismo?

Ezra Ahava · 2024-06-05 06:53 · 0 claps · 3.7 min read
#capitalismo #autoajuda #neoliberalismo #subjetividade #pensamento-positivo
Open on Medium ↗

A Crise do Capitalismo e as Novas Configurações Discursivas da Auto-Ajuda

Como a auto-ajuda se reconfigura frente às crises do capitalismo?

A crise do capitalismo tem desencadeado uma série de transformações não apenas no âmbito econômico, mas também no modo como os indivíduos se percebem e se relacionam com o mundo. Nesse contexto, a literatura de auto-ajuda emerge como um fenômeno que busca responder às angústias e incertezas do sujeito neoliberal.

A literatura de auto-ajuda tem suas raízes nos Estados Unidos, a partir dos anos 30, dentro dos marcos do pensamento positivo. Inicialmente, esta literatura desenvolveu um discurso mais especializado sobre o funcionamento da psique, adotando uma linguagem emprestada da psicologia e do psicanálise. Este movimento conferiu à auto-ajuda um ar de credibilidade e cientificidade que antes não possuía​​.

A crise do capitalismo, particularmente a partir da década de 1930, introduziu elementos mágicos na literatura de auto-ajuda, buscando oferecer uma espécie de “eficácia simbólica” para o sucesso e a felicidade. Este fenômeno pode ser comparado ao uso da magia na Alta Idade Média, como uma resposta às crises do cristianismo. Na auto-ajuda, a magia se manifesta através de mantras, orações e práticas que lembram rituais religiosos, constituindo o que Torres chama de “tecnologias mágicas do eu”.

O conceito de “tecnologias mágicas do eu” é introduzido para descrever a maneira como a auto-ajuda moderna incorpora elementos que remetem à magia e ao misticismo em suas práticas e discursos. Este termo é especialmente relevante na análise de como a auto-ajuda se reconfigura em resposta às crises do capitalismo, buscando oferecer aos indivíduos formas de lidar com suas ansiedades e inseguranças através de mecanismos que transcendem a racionalidade científica tradicional.

Historicamente, o pensamento mágico sempre teve um papel na tentativa de lidar com crises de sentido e inseguranças ontológicas. Na Alta Idade Média, por exemplo, a magia servia para responder à crise do cristianismo, oferecendo um sentido em um período de grande incerteza. Analogamente, na crise do capitalismo, especialmente a partir da década de 1930, a auto-ajuda começa a incorporar práticas que podem ser vistas como “mágicas”, na tentativa de proporcionar aos indivíduos uma sensação de controle e poder sobre suas vidas, como por exemplo:

  • Mantras e Afirmações: Repetições verbais destinadas a influenciar a psique do indivíduo, funcionando de maneira similar a encantamentos. Por exemplo, repetir afirmações positivas diariamente é uma prática comum em muitos programas de auto-ajuda.
  • Visualizações: Técnicas que incentivam os indivíduos a visualizar seus objetivos e sonhos como se já estivessem realizados. Esta prática é baseada na ideia de que visualizar o sucesso pode ajudar a manifestá-lo na realidade.
  • Rituais e Rotinas: A criação de rotinas diárias que incluem meditação, yoga, ou outras práticas espirituais que prometem alinhar a mente e o corpo com os objetivos desejados.
  • Objetos de Poder: Utilização de objetos simbólicos, como cristais ou talismãs, que supostamente possuem propriedades energéticas capazes de influenciar positivamente a vida do indivíduo.

As “tecnologias mágicas do eu” funcionam como um meio de oferecer aos indivíduos um senso de agência e controle em um contexto de incerteza e crise. Elas permitem que as pessoas sintam que têm poder sobre suas circunstâncias, mesmo quando as causas de suas dificuldades são estruturais e sistêmicas. Ao incorporar elementos mágicos, a auto-ajuda se torna mais atraente e acessível, prometendo resultados que transcendem as limitações da racionalidade e da ciência convencional.

As “tecnologias mágicas do eu” são uma resposta adaptativa da auto-ajuda às crises do capitalismo, oferecendo soluções que parecem imediatas e tangíveis para ansiedades e inseguranças profundas. No entanto, ao fazer isso, elas também podem perpetuar a lógica neoliberal de auto-responsabilidade e despolitização das causas estruturais das crises sociais e econômicas.

Criticamente, essas tecnologias podem ser vistas como uma forma de desviar a atenção das verdadeiras causas das crises individuais, que muitas vezes estão enraizadas em problemas sociais e econômicos mais amplos. Ao focar na transformação individual através de práticas quase mágicas, a auto-ajuda pode reforçar a ideologia neoliberal que coloca a responsabilidade do sucesso ou fracasso exclusivamente no indivíduo.

Com a evolução do neoliberalismo, a auto-ajuda passou por significativas transformações discursivas. Nos anos 80, o coaching emerge como uma vertente específica, infiltrando-se na produtividade empresarial e reforçando a ideia de que o pensamento positivo é crucial para o sucesso pessoal e profissional. Além disso, a auto-ajuda expande seu alcance para além das questões financeiras, abordando temas como saúde e amor, e utilizando novos formatos de mídia como a televisão​​.

Na era neoliberal, a auto-ajuda assume o papel de possibilitadora da autenticidade do sujeito, ajudando-o a resistir à anomia social. Esse discurso se apresenta como um amortecedor para os impactos da neoliberalização, promovendo a construção de um “retrato emocional” do indivíduo. Esta abordagem tem um papel fundamental na manutenção da subjetividade neoliberal, garantindo que o sujeito se mantenha funcional e produtivo mesmo em meio às incertezas e crises do capitalismo contemporâneo​​​​.

A literatura de auto-ajuda se reconfigura constantemente para atender às demandas do capitalismo em crise, adaptando seus discursos e práticas às necessidades dos indivíduos em um mundo cada vez mais incerto. Ao incorporar elementos de magia e cientificidade, a auto-ajuda se posiciona como um recurso essencial para a manutenção da subjetividade neoliberal, funcionando como um “catecismo” moderno que guia o sujeito em sua busca incessante por sucesso e felicidade.

Referências:

Torres, M. (2019). Neoliberalismo y subjetividad: Una genealogía de la felicidad y de la autoayuda moderna (Primera edición). Universidad Pedagógica Nacional.


메타데이터
post_id
7d01827faede
slug
a-crise-do-capitalismo-e-as-novas-configurações-discursivas-da-auto-ajuda-7d01827faede
url
https://medium.com/@ahavaezra/a-crise-do-capitalismo-e-as-novas-configura%C3%A7%C3%B5es-discursivas-da-auto-ajuda-7d01827faede
canonical_url
https://medium.com/@ahavaezra/a-crise-do-capitalismo-e-as-novas-configura%C3%A7%C3%B5es-discursivas-da-auto-ajuda-7d01827faede
author_url
https://medium.com/@ahavaezra
status
ok
fetched_at
2026-07-15 06:49:47