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Mangueira

Para além de uma Escola de Samba

Beatriz Froes · 2019-06-14 18:16 · 0 claps · 7.1 min read
#cartola #paulinho-da-viola #chico-buarque #escolas-de-samba #paisagem-sonora
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Mangueira

Para além de uma Escola de Samba

(foto: http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/centro-cultural-cartola)

(foto: http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/centro-cultural-cartola)

Onde tudo começou

De uns tempos para cá, quando se escuta sobre Mangueira, automaticamente as pessoas associam somente com a Escola de Samba. Entretanto, o bairro tem um histórico muito antigo e um acervo cultural muito grande. Sendo assim, é de grande importância apontar esses pontos marcantes na construção do Rio de Janeiro como cidade.

Tudo tem início em 1599, quando os negros vieram trazidos da África para o Brasil, em condições precárias para serem vendidos para nos mercados de escravos. Mesmo depois de conseguir sua independência, os negros continuaram escravizados e tentando de alguma forma sua liberdade. Com isso, muitos fugiam ou compravam sua alforria.

Na época, no fundo do palácio do imperador — atual Quinta da Boa Vista — eleva-se um morro, que era chamado Pedregulho. Uma das suas características eram as mangueiras (árvores) que ali tinham, e os escravos que conseguiam liberdade, aproveitavam para se esconder.

Em 1852, foram erguidos nele os postes das linhas telegráficas e o nome foi adotado, passou a chamar-se morro do Telégrafo. Quando, em 1861, foi instalado o serviço de transporte ferroviário na cidade, havia uma fábrica de chapéus, entre as estações de São Cristóvão e São Francisco Xavier, naquele terreno coberto por mangueiras.

Como o trem, fora das estações, só fazia rápidas paradas para os passageiros saltarem, o jeito era avisar o condutor que ia descer lá nas mangueiras. Quando foi inaugurada a estação, em 1889, um ano após o tão esperado fim da escravidão, seu nome só podia ser este, Estação Mangueira. Nome com que passou a ser conhecida toda a região. O nome Telégrafo permaneceu identificando uma parte do morro

Na então Estação Mangueira, casas onde moravam muitos militares e alguns civis, construam em outro local. E foi a partir daí que teve início sua ocupação.

Toda essa história é encarregada pela representação da escola de samba Mangueira, onde tem um espaço no próprio bairro. Toda a história, que tem grande importância na cultura do Brasil, é passada para a sociedade como forma de resistência e lembrança de onde tudo começou.

Centros culturais

Fundada em 2001, o Centro Cultural Cartola é uma organização sem fins lucrativos que reúne a mais variada gama de pessoas devotadas à causa da cultura brasileira e do desenvolvimento social. Intelectuais, artistas, produtores culturais e formadores de opinião que se uniram para promover o desenvolvimento cultural e social de nossa gente.

O Centro Cultural Cartola alia à sua atuação a defesa da cultura brasileira uma série de iniciativas de cunho social, visando combater a pobreza, a marginalização da população carente, a exclusão social e falta de esperança no futuro. Tem como atividades: atividades para crianças, adolescentes e terceira idade; oficinas de música; oficinas de dança; oficinas de artes plásticas; oficina de artes manuais; oficinas profissionalizantes; exposições; teatro; pesquisa e lazer.

( https://www.museusdorio.com.br)

( https://www.museusdorio.com.br)

Outro espaço cultural foi a Quadra da Mangueira, onde serve como espaço para a escola de samba local, que também tem fatores históricos. Foi fundada em 28 de abril de 1928, na rua Visconde de Niterói.

A Mangueira foi a primeira escola que criou a ala de compositores, incluindo mulheres. Mantém, desde a sua fundação, uma única marcação, com o surdo de primeira, na sua bateria. Marcelino Claudino, o Maçou, introduziu as figuras do mestre-sala e da porta-bandeira no Carnaval. No símbolo da escola, o surdo representa o samba; os louros, as vitórias; a coroa, o bairro imperial de São Cristóvão; e as estrelas, os títulos.

Uma das figuras mais emblemáticas da Mangueira é o sambista Jamelão, que foi o intérprete oficial da escola de 1949 até 2006, e que se tornou uma verdadeira autarquia do samba carioca, com seu jeito mal-humorado e sua voz potente — o maior intérprete de Samba-Enredo de todos os tempos.

Segundo a própria escola de samba, a Estação Primeira de Mangueira foi fundada no dia 28 de abril de 1928, por Cartola, Zé Espinhela, Saturnino Gonçalves, Euclides Roberto dos Santos (Seu Euclides), Marcelino José Claudino (Maçou da Mangueira), Pedro Caim (Paquetá) e Abelardo da Bolinha. Carlos Cachaça foi reconhecido como fundador, apesar de não estar presente durante a reunião de fundação.

Após parceria com a Xerox do Brasil e a Petrobras, na década de 1990 a Mangueira também montou uma Vila Olímpica e passou a disputar campeonatos esportivos, principalmente no Atletismo e no Basquete, onde disputou o Campeonato Brasileiro de Basquete Feminino.

Homenagens musicais

Além de todos esses aspectos culturais, a Mangueira foi muito homenageada no ramo da música. Cantores como: Cartola, Tom Jobim, Paulinho da Viola e Chico Buarque, entre outros. Cada música tem um pouco de história sobre o morro e tudo o que tem por trás dele.

Bastaram menos de sete anos para que a Mangueira recebesse a sua primeira homenagem em forma de canção. Data de 1935 a música intitulada apenas como “Mangueira”, parceria do baiano Assis Valente com o carioca Zequinha Reis. Lançada pelo Bando da Lua, a música foi revisada com sucesso por Elis Regina, Elizeth Cardoso, Carlos Galhardo, Aracy de Almeida, Célia, Zé Renato, Dilermando Pinheiro e o grupo Demônios da Garoa, entre vários outros. Seus versos iniciais são definitivos: “Não há, nem pode haver/ Como Mangueira não há/ O samba vem de lá/ A alegria também/ Morena faceira, só Mangueira tem”.

A união de bambas da tarimba de Herivelto Martins e Heitor dos Prazeres não poderia resultar em outra coisa: um clássico da música brasileira. Foi o que os dois criaram com “Lá em Mangueira”, samba lançado em 1943 para saudar a Estação Primeira. A primeira gravação da música foi feita pelo Trio de Ouro, integrado pelo próprio Herivelto, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas. Posteriormente, Heitor dos Prazeres foi outro intérprete da canção, que ainda ganhou registros de Zeca Pagodinho, Martinho da Vila e Os Originais do Samba. “Lá em Mangueira/ É que o samba tem seu lugar”, afirmam os versos.

“Mundo de Zinco” .Antônio Nássara ajudou a organizar, em 1932, o primeiro concurso de escolas de samba do Rio de Janeiro. Vinte anos depois ele compôs, ao lado de Wilson Batista, um samba para Mangueira, escola que contava com sua torcida. Visualizando a história do morro, os versos finais da música são em tom de despedida e deixam clara a intenção dos compositores de exaltarem a glória do samba, os malandros e as cabrochas. Interpretada por Jorge Goulart, foi premiada como samba mais bonito daquele ano. De acordo com o jornal “Última Hora”, pela “letra inspirada, bonita e fácil de ser apanhada pelo povo”.

Assim como os estádios de futebol são conhecidos por apelidos propagados pelo povo, as escolas de samba têm os seus hinos informais. É este o caso de “Exaltação à Mangueira”, samba composto em 1956 por dois moradores do morro. Enéas Brites e Aloísio da Costa trabalhavam com cerâmica e, durante um intervalo para o almoço, compuseram o clássico que seria puxado na avenida por ninguém menos do que Jamelão, um dos grandes ícones da agremiação. Chico Buarque e Beth Carvalho também regravaram os versos, que exaltam: “Mangueira teu cenário é uma beleza/ Que a natureza criou…”.

Fundador da Estação Primeira de Mangueira, nome escolhido em razão do pioneirismo do trânsito ferroviário que interligava a Central do Brasil ao subúrbio carioca, onde a nata do samba se encontrava, Cartola foi também o responsável por escolher as cores de verde e rosa para a agremiação, uma homenagem ao Rancho do Arrepiado, do qual seu pai fazia parte. Curiosamente, o compositor chegou a admitir em entrevista que o seu estilo de samba, mais lento e melancólico, pouco combinava com a alegria da avenida. O que não o impediu de compor a bonita “Fiz Por Você o que Pude”, em 1967.

A história de Nelson Cavaquinho com a Mangueira é, no mínimo, curiosa, já que o compositor travou amizade com Cartola, Cachaça e demais bambas quando dava uma ronda no morro, pois pertencia à cavalaria da polícia militar na época. Boêmio incurável, ele deixava o serviço de lado para se divertir com os amigos que, em tese, deveria estar vigiando, sendo que num desses episódios conta-se que o cavalo escapou sozinho, deixando-o à deriva. Um dos filhos mais celebrados pela escola, Nelson retribuiu o carinho em 1968, com “Sempre Mangueira”, parceria com Geraldo Queiroz lançada por Clara Nunes.

Até hoje há fanáticos que não perdoam o fato de Paulinho da Viola, portelense de coração, ter criado a melodia para uma das canções mais emblemáticas em saudação à Mangueira, muito embora ele tenha feito, em seguida, “Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida” para a Portela. Hermínio Bello de Carvalho escreveu a letra de “Sei Lá Mangueira” logo após a sua primeira visita ao morro, inebriado com o que havia visto na companhia de Cartola e Carlos Cachaça. Lançada por Elizeth Cardoso em 1968, a música foi inscrita no IV Festival de Música Brasileira da Record, quando foi defendida por Elza Soares.

Sérgio Cabral uniu duas de suas paixões para criar a letra de “Os Meninos da Mangueira”, uma parceria com o instrumentista Rildo Hora. Dessa maneira música brasileira e história se encontram nos versos que homenageiam as grandes figuras da escola, como Cartola e Carlos Cachaça. A canção foi lançada, em 1976, pelo cantor Ataulfo Júnior, filho de Ataulfo Alves. Dado o seu incrível sucesso, recebeu 12 regravações no mesmo ano, dentre elas as de Eliana Pittman e Jair Rodrigues. Depois, continuaria a ser cantada por Alcione, Sandra de Sá e outros. “A velha guarda se une aos meninos lá na passarela…”.

Tido e havido como indiscutível poeta da música popular brasileira, Chico Buarque nunca escondeu duas de suas maiores paixões, uma no futebol e outra na avenida. Torcedor do Fluminense e da Mangueira, o compositor foi tema da escola em 1998, com um desfile que valeu à agremiação o título de campeã. Antes, em 1987, Chico havia transformado esse amor em música, através de “Estação Derradeira”, lançada no álbum “Francisco”. Diferentemente de outras canções feitas em homenagem, Chico expõe as mazelas da região, sem deixar de observar as belezas que já o encantavam desde a sua infância.

A sofisticação da música de Tom Jobim aliada à poesia de Chico Buarque se pôs a serviço da mais celebrada escola de samba em canções: a Estação Primeira de Mangueira. Desse encontro nasceu “Piano na Mangueira”, lançada por Chico no álbum “Paratodos”, em 1993. Posteriormente, seria regravada pelo próprio Tom, Gal Costa, Leila Pinheiro, Zimbo Trio, Hamilton de Holanda, Jamelão e muitos outros. A letra destaca as figuras folclóricas do morro, como o malandro que se veste de branco e chapéu de palha, e a cabrocha que “pendura a saia no amanhecer da quarta-feira”. Para completar, sobe o piano!

Playlist: *https://www.deezer.com/br/playlist/6032450124*


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