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Punks de São Paulo: memória e luta anarquista

Por Beatriz Estevam, Cecilia G. Baldes, Gabriela M. Tagliaferro, Luíza Claudino, Maria Eduarda Vittori e Raissa Oliveira, alunas do JOS1F

JOS1F Cásper 2026 · 2026-06-10 20:17 · 0 claps · 12.4 min read
#punk #música #são-paulo #historia #cultura
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Punks de São Paulo: memória e luta anarquista

Por Beatriz Estevam, Cecilia G. Baldes, Gabriela M. Tagliaferro, Luíza Claudino, Maria Eduarda Vittori e Raissa Oliveira, alunas do JOS1F

"Se punk é o lixo, a miséria e a violência, não precisamos importá-lo da Europa, pois já somos a vanguarda do punk em todo o mundo" Chico Buarque de Holanda

Laura "Maternal" Felicio no show do Ratos de Porão, no evento do Coletivo Rock ABC, em 2023 / Fonte: Registro pessoal

Laura "Maternal" Felicio no show do Ratos de Porão, no evento do Coletivo Rock ABC, em 2023 / Fonte: Registro pessoal

N o meio da multidão, se mover não é opção. O cheiro que exala é de suor e cerveja quente, além dos cigarros e diversos tipos de fumo. A única coisa que se vê ao olhar acima das cabeças das pessoas são garotos de moicano e garotas de roupa de couro se jogando de cima do palco para a plateia. Depois de meia hora de pancadas constantes, já não se sente mais nada no lado direito do corpo, mas, olhando, se vê uma união. No mínimo vinte pessoas, todas em sincronia, como em uma dança, batendo seus corpos uns nos outros, no famoso “pogo”, ou mosh pit, “bate-cabeça”, entre outros nomes.

Mesmo sendo um dia de frio extremo, ali no meio o calor era insuportável, todos suavam como loucos gastando toda sua energia ao assistir a banda Ratos de Porão, e, enquanto isso, João Gordo, vocalista, soltava fumaça de sua cabeça ao cantar um dos grandes hinos do movimento punk, “Aids, Pop, Repressão”.

João Gordo, da banda Ratos de Porão, na Virada Cultural / Foto: Cecilia G. Baldez

João Gordo, da banda Ratos de Porão, na Virada Cultural / Foto: Cecilia G. Baldez

No Centro Cultural Tendal da Lapa, grandes nomes do punk foram convidados para tocar na Virada Cultural, como Cólera, Inocentes, Invasores de Cérebros etc., o que chamou muita atenção dos membros do movimento, e até mesmo de quem apenas “curte o som”. As filas de entrada, separadas por sexo, eram quilométricas, chegando a causar uma certa confusão na revista e checagem das identidades. Ao entrar, um mar de pessoas pulando ao som de “Juventude Perdida”, do álbum Descanse em Paz, que está celebrando quarenta anos de lançamento.

O show em si ainda mantém a energia, brutalidade e jovialidade do punk paulistano da década de 80, com a revolta contra o sistema muito presente, além do som de guitarras rápidas, vocais violentos (comparados com gritos, por aqueles que não gostam) e letras denunciantes. Esse cenário traz lembranças de 1982, quando ocorreu o primeiro festival punk em São Paulo, no Sesc Pompeia: O Começo do Fim do Mundo.

O Começo do Fim do Mundo

Entre apresentações de bandas amadoras, gritos, chutes e cacetetes, terminava o evento que marcaria para sempre o movimento punk. O festival O Começo do Fim do Mundo aconteceu em novembro de 1982 no SESC Pompeia, Zona Oeste de São Paulo, e está registrado na história da cena punk brasileira. O evento reuniu cerca de vinte bandas de punk rock e serviu como pontapé inicial para a estruturação da cena musical no estado.

Apesar do sucesso entre os jovens do movimento, o festival terminou com muita violência, o que aumentou a revolta da plateia contra o sistema e, principalmente, acirrou a rivalidade entre as grandes gangues punks do Grande ABC e da capital paulista, que aterrorizavam o bairro com o “barulho”: a música.

O Começo do Fim do Mundo, 1982 / Foto: Reprodução

O Começo do Fim do Mundo, 1982 / Foto: Reprodução

Em entrevista exclusiva, João Gordo, vocalista da lendária banda Ratos de Porão, explicou sobre a repressão policial contra os punks que estavam no festival. A presença dos militares causou confusão, muitos integrantes do movimento foram presos, outros, feridos. João não estava presente no Começo do Fim do Mundo, mas reconhece sua importância:

“Foi a maior repressão, que ninguém entendeu nada. Um grande equívoco que deu o empurrão, né, pro grupo que a gente é hoje”

[embed]Entrevista exclusiva com João Gordo, no Central Panelaço

Punk como é: visual, ideologia e repressão

O punk no Brasil começou no fim dos anos 70, muitos dizem que o movimento é oriundo de São Paulo, outros de Brasília. Foi por meio dele que os jovens que se viam ignorados pela sociedade e pelo governo conseguiram se expressar musicalmente. O movimento buscou ser reflexo de uma sociedade violenta e desigual, que sofria diariamente as consequências da ditadura militar.

Em um contexto histórico de repressão, o acesso à informação era pouco, os integrantes faziam tudo por conta própria, como suas próprias revistas, as chamadas fanzines, festas e até mesmo os instrumentos. João Gordo recorda:

“Era difícil porque não tinha informação, né, meu? A gente tinha que correr atrás de informação. Não tinha instrumento, né? Acho que a maioria, quem tinha banda, na maior parte não tinha instrumento. Pelo fato de ser tão difícil”.

O visual também era uma forma de protesto. A estética do punk brasileiro foi uma resposta à exclusão e aos padrões tradicionais, até mesmo do punk londrino, pois eles não seguiam à risca a métrica das roupas com estampa xadrez, no estilo Vivienne Westwood. Com a contracultura, usavam o corpo como meio de expressão. Roupas rasgadas e surradas, piercings e tatuagens eram usados para apagar a maquiagem que o padrão perpetuava.

O visual mudava de gangue para gangue, bairro para bairro e cidade para cidade, sendo os punks do ABC mais “sujos”, sem muitos acessórios e rebites, estilizando suas roupas, já usadas, com o DIY (Do It Yourself/Faça Você Mesmo). Esse estilo também incomodava a polícia, que reprimia os punks, como lembra João Gordo:

“A polícia descia o cacete, né? Via a gente parado na São Bento lá, já de mão na cabeça. Tinha aquela história de ser fichado como desocupado, vagabundo”.

[embed]

Durante a ditadura militar, o governo também proibiu as músicas. Um dos maiores nomes da cena, Ratos de Porão, teve oito letras censuradas, como “Corrupção” e “Oprimido”. Mesmo apresentando um discurso revolucionário e anarquista, João Gordo aponta que poucos integrantes do movimento eram realmente politizados:

“A maioria dos cara não era politizado porra nenhuma, cara. O negócio dos caras era cheirar cola e brigar. Gritar anarquia, não sabia o que era direito, sabia ir contra o sistema, contra a polícia, mas não sabia porra nenhuma, cara”.

Apesar disso, a política estava presente nas letras de diversas canções de outras bandas, principalmente Cólera, com o disco Pela Paz em Todo Mundo, denunciando questões como a fome, a alienação do proletariado, a poluição e a revolta dos adolescentes, que constituíam a maior parte do movimento punk, principalmente pela liberdade nos anos de juventude. Como outras exceções politizadas, João Gordo relembra Clemente, da banda Inocentes, e Ariel, do Restos de Nada, que na época eram os mais velhos dos grupos que estavam sempre juntos, sendo, também, vozes mais “responsáveis’’.

Grande ABC x Capital Paulista

Apesar de fazerem parte da mesma cultura, os grupos dessas regiões apresentavam características distintas devido às diferentes realidades sociais às quais estavam expostos. Em São Paulo, o movimento concentrava estudantes de classe média e jovens do centro. Esses tinham uma atuação mais voltada para a música, onde surgiram algumas das bandas mais conhecidas da cena, como os já citados Ratos de Porão e Cólera, mas também Olho Seco e Inocentes.

Já no Grande ABC, o movimento era composto por jovens operários e filhos de metalúrgicos das grandes montadoras de automóveis. Essa realidade fazia com que o foco desses jovens fosse mais na luta sindical operária e adotassem um discurso mais político e anarquista, enquanto os da capital seguiam o niilismo e tinham a estética visual mais aguçada, principalmente por terem mais acesso a discos e revistas, com a onda de lojas "punks" no antigo Shopping Center Grandes Galerias, atualmente Galeria do Rock.

As diferenças existiam até nos pontos de encontro. O ABC se organizava em bairros periféricos e indústrias desativadas, enquanto na capital os principais pontos de encontro eram a estação São Bento do metrô e as praças no centro da cidade, como o Largo da Memória, nomeado pelos integrantes do movimento como “Cinzeiro”, além das discotecas, que de vez em quando aceitavam tocar fitas cassete dos punks que invadiam as festas. Pedro "Tumor" Fatore, punk do ABC Paulista, relata, especialmente para esta reportagem:

“Lá em São Paulo, tem o clássico Cinzeiro, aonde todo mundo, acho que desde os anos 80, até antes, já era um ‘point’ dos punks ‘colar'. Especificamente o Cinzeiro, ele é um dos poucos pontos em que só punk ‘cola’, o resto se tornou pontos um pouco mais gerais”.

Largo da Memória, “Cinzeiro”, ao lado da Estação Anhangabaú, em São Paulo capital / Foto: Cecilia G. Baldez e Raissa Oliveira

Largo da Memória, “Cinzeiro”, ao lado da Estação Anhangabaú, em São Paulo capital / Foto: Cecilia G. Baldez e Raissa Oliveira

Essas dessemelhanças estão ligadas ao fato de São Paulo ter mais contato com influências internacionais do movimento punk. Fatore afirma:

“Principalmente aqui tem uma pequena diferença, não muita coisa, muito por conta da história dos lugares, porque São Paulo, por ter vindo um pouco antes na cena, porque as coisas chegam primeiro em São Paulo e a gente tá falando de uma época pré-internet, então era muito difícil de você conseguir qualquer disco, LP ou qualquer coisa sobre o movimento”.

As diferenças de acesso ao movimento internacional também influenciaram a forma como o punk se desenvolveu em cada região. No ABC, as ideologias da área se aguçaram com o crescimento do Partido dos Trabalhadores (PT) e a imagem martirizada de Lula, que ainda era metalúrgico na época. Tumor ressalta:

“São Paulo sempre teve essa parte mais crua do punk, sempre esses visuais maiores e uma ideologia um pouquinho mais, como é que pode dizer, estruturada. Enquanto aqui no ABC sempre foi algo muito mais versátil, sempre ele se desenvolveu de uma forma diferente por conta de toda a história de ser lugar de proletário”.

Banda Crassas (formação da esquerda para a direita: Maternal, Tumor e Alice), na última edição do Coletivo Vidraça / Foto: Cecilia G. Baldez

Banda Crassas (formação da esquerda para a direita: Maternal, Tumor e Alice), na última edição do Coletivo Vidraça / Foto: Cecilia G. Baldez

A rivalidade entre os punks do ABC e os da capital paulista nos anos 1980 foi marcada por uma dinâmica de gangues territoriais, e os desentendimentos eram resolvidos por meio de embates violentos. A desconfiança era tão extrema que, em 1981, quando a banda Passeatas (do ABC) cruzou a fronteira para tocar na PUC, na capital, seus integrantes subiram ao palco portando revólveres na cintura, com medo de uma emboscada das gangues locais. O visual também funcionava como forma de demarcação. Os próprios punks afirmavam que era fácil identificar na rua quem pertencia ao ABC ou a São Paulo apenas pelo estilo de cortar o cabelo ou customizar as jaquetas. Laura "Maternal" Felicio, punk do ABC, relata:

“Eu acho que essa rivalidade só separou assim mesmo, né? Tipo, cria uma rivalidade dentro do movimento que não é necessária. A gente brigando, tá ligado? Para quê, se a gente tem um inimigo muito maior aí pra acabar”.

Atualmente, a rivalidade entre ABC e capital não existe mais. Os punks dessas duas regiões se uniram e compartilham os mesmos espaços. Com o passar do tempo, o foco passou a ser o enfrentamento ideológico contra grupos de extrema direita, como os Carecas do ABC, os Carecas do Subúrbio e facções neonazistas. Punks de toda a região metropolitana se uniram sob a bandeira antifascista (Antifa) para fazer oposição aos grupos skinheads de inclinação ultranacionalista, homofóbica e racista.

Política punk: anarquia pura?

A relação do punk brasileiro com o anarquismo como movimento político nem sempre foi linear, especialmente em seus primeiros anos de surgimento. Apesar do movimento ter nascido justamente com a motivação da contestação social e da revolta contra o sistema (sobretudo no contexto da ditadura militar que ajudou mais ainda na disseminação desse pensamento), na prática, a ideologia muitas vezes ficava em segundo plano para a maioria dos jovens da periferia (principalmente em São Paulo), embora seja de extrema importância.

Registro pessoal de show punk no Porão da Cerveja, em São Paulo / Fonte: Laura Felicio

Registro pessoal de show punk no Porão da Cerveja, em São Paulo / Fonte: Laura Felicio

​ Foi a partir dos traumas das fraturas internas do movimento, como brigas e rivalidade, e da aproximação com militantes anarquistas históricos que o punk brasileiro começou a se organizar de outra forma e foi levado com seriedade. Surgiram os primeiros fanzines engajados, cooperativas de bandas e “coops” punks independentes, que passaram a estudar o anarquismo clássico de forma sistemática.

O jovem denominado de rebelde que gostava de experimentar tendências novas era o que representava a moda: um novo modo de expressão que, além de ir contra a repressão, trazia a descontração e diversão para os adolescentes e outros da época. Nunca foi só sobre política, mas sim sobre mudança, inquietação.

O lado feminino do punk

As mulheres do movimento punk inglês dos anos 1970 apropriaram-se de símbolos da prostituição e da objetificação, utilizando a ironia e a subversão para questionar e desafiar o machismo da época. Em vez de aceitarem a posição de objetos passivos do desejo masculino, as mulheres punks adotaram estéticas ligadas ao fetiche e ao trabalho sexual como roupas de vinil, látex, correntes e meias arrastão, para chocar a sociedade puritana e esvaziar o poder do olhar masculino.

Ao transformarem esses elementos de submissão em armaduras de agressividade e controle, elas expunham a hipocrisia social que comercializava o corpo feminino, ressignificando a própria objetificação como uma ferramenta de protesto, autonomia política e total recusa aos papéis tradicionais de gênero.

Historicamente invisibilizadas pela narrativa dominante do rock, as mulheres sempre foram pilares fundamentais para a contestação e a sobrevivência do movimento punk.

X-Ray Spex, banda londrina da Era ‘77, tinha como vocalista principal uma mulher, Poly Styrene. Com um estilo próprio, combinando roupas feitas de plástico, cabelo cacheado e aparelho ortodôntico, ela é símbolo de resistência no punk. A música “Oh Bondage! Up Yours!” não apenas satiriza o pequeno movimento BDSM (Bondage, Discipline, Submission, Sadism) que havia entre os punks na época como é uma crítica à falta de vozes femininas no meio musical, principalmente dentro do rock ’n’ roll, além do papel submisso em que mulheres foram colocadas historicamente.

“Algumas pessoas pensam que garotinhas devem ser vistas e não ouvidas… Mas eu penso: Ah, sujeição! No seu rabo!” — Poly Styrene, “Oh Bondage! Up Yours!”

Essa movimentação feminina inspirou o movimento Riot Grrrl na década de 1990 nos EUA, liderado por bandas como Bikini Kill, Bratmobile e Lunachicks, todas com integrantes mulheres. Os temas mais abordados eram misoginia, denúncias contra abuso sexual e o papel das mulheres na sociedade. O movimento teve apoio de grandes nomes da música, como Kurt Cobain, vocalista e guitarrista da banda Nirvana, e Joan Jett, que produziu o single “Rebel Girl”, do Bikini Kill, grande hino do punk feminista.

“Nós somos o Bikini Kill, e nós queremos revolução no estilo feminino agora!” — Kathleen Hanna, “Double Dare Ya”

No Brasil, Elaine “Lê” Souza e Marcelo Paulo “Donald” de Freitas fundaram a banda Gritando HC em 1994, com a proposta de unir a agressividade do punk rock clássico dos anos 80 com as melodias do hardcore norte-americano dos anos 90.

Muitos fãs acharam que, após a morte de Donald, em 2001, a banda chegaria ao fim, porém Lê escolheu a resistência e assumiu os vocais sozinha. Ela aponta que o preconceito na cena costuma ser velado, aparecendo na dificuldade que as mulheres enfrentam para conseguir espaço em grandes festivais ou no respeito de igual para igual.

Elaine “Lê” Souza com Gritando HC, gravando o próximo clipe da banda / Foto: Cecilia G. Baldez

Elaine “Lê” Souza com Gritando HC, gravando o próximo clipe da banda / Foto: Cecilia G. Baldez

Para ela, o punk perde o sentido e vira hipocrisia quando defende a liberdade mas deixa a equidade de lado:

“A questão de dar valor a todo mundo que tá fazendo um som, todo mundo de igual pra igual, né? Ter esse respeito pelas mina que tá fazendo som, sabe? Isso é fundamental, cara, porque senão você acaba ficando meio que numa hipocrisia, assim, sabe?”

A nova lógica do punk

Hoje, quase cinco décadas após o início, o punk passou por algumas transformações em seu público e sonoridade, mas permanece como uma lição de resistência e crítica social para jovens e adultos mundo afora.

Mesmo que em menor escala em relação à metade do último século, jovens anarquistas ainda se reúnem em diversos pontos de São Paulo em prol de subverter a lógica de perfeição atual impulsionada pelos algoritmos, através de protestos e manifestações artísticas. Diferente de seus antecessores, movidos, em sua maioria, por rebeldia e sem ideais bem estruturados, a nova geração de punks é por demais politizada.

Maternal e Tumor conversando no campus da UFABC de Santo André / Foto: Gabriela M. Tagliaferro

Maternal e Tumor conversando no campus da UFABC de Santo André / Foto: Gabriela M. Tagliaferro

Não significa que a juventude atual faz pouco caso do que foi construído no passado, muito pelo contrário, ainda carrega consigo a história como maior herança do movimento. Fatore, estudante de química na UFABC e alternativo desde a pré-adolescência, explica que o punk atual funciona como uma resposta direta às tensões políticas globais: “Sinto que ele está até voltando muito por conta de toda essa crescente do fascismo no geral, essa crescente de direita, esse reacionarismo”. Para ele, o movimento se comporta como um espelho de sua época, canalizando a revolta contra o imperialismo e a globalização para dentro das cenas musicais e artísticas.

Essa politização também se reflete no modo como esses jovens enxergam a própria estética. Se nas décadas de 1970 e 1980 o visual servia puramente para chocar e parecer o mais esquisito possível, hoje as roupas rasgadas, os patches e os cabelos coloridos ganharam uma nova função. Segundo Fatore, o visual se transformou em uma ferramenta de “pertencimento”, uma forma de reconhecer um igual e criar laços de solidariedade em meio à multidão, mesmo sem nunca ter conversado antes.

No entanto, essa resistência encontra novos obstáculos no consumo moderno. O clássico conceito do Faça Você Mesmo hoje bate de frente com o monopólio do fast fashion. “Hoje em dia não tem mais como você não comprar roupa assim. Não existe mais alfaiataria para você na rua, loja de costura está muito difícil de achar”, lamenta o estudante. Diante de um mercado que absorveu a estética rebelde e passou a vender calças de estilo punk em grandes lojas de departamento, a nova geração precisa ser criativa para manter a identidade sem financiar a lógica da produção em massa.

Se por um lado o combate contra o sistema econômico exige jogo de cintura, por outro, os jovens precisam enfrentar contradições históricas que persistem dentro do próprio movimento. Laura "Maternal" Felicio aponta que a rebeldia das ruas nem sempre se traduz em igualdade nos bastidores. Para ela, o meio punk tradicional ainda carrega traços fortemente misóginos: “É um meio muito machista, tá ligado, mano? É muito coisa de macho, assim, a ideia de machão. E quando você foge desse estereótipo, você sempre vai ser subjugada”.

Para Maternal, o verdadeiro ato de rebeldia dos anos 2020 não é apenas gritar contra o Estado, mas também disputar espaços de respeito e igualdade geracional de forma intrépida, lembrando que “ninguém é mais punk que ninguém só porque o cara é mais velho que você”.


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