Entrevista com Manu da Cuíca
Entrevista realizada em 25 de fevereiro de 2025
Entrevista com Manu da Cuíca

Foto: Marcelo Costa Braga
Entrevista realizada em 25 de fevereiro de 2025
Manuela Trindade Oiticica (Rio de Janeiro, 4 de maio de 1984), ou simplesmente Manu da Cuíca, formou-se nas rodas de samba do Bip Bip, tradicional botequim de Copacabana, onde aprendeu a tocar o instrumento que incorporou ao seu nome artístico. Notabilizou-se, porém, como letrista: o genial Aldir Blanc a considerava como “a melhor da atual geração”. Em 2020, tornou-se a primeira mulher a emplacar um samba-enredo de sua autoria, por dois anos seguidos, em uma grande escola do Rio de Janeiro: a Estação Primeira de Mangueira. Um ano antes, deixou sua marca no Carnaval com “História Para Ninar Gente Grande”, samba que enfureceu a extrema-direita por contestar a história oficial e homenagear Marielle Franco, vereadora assassinada pela milícia carioca. Além do samba, duas outras paixões movem a vida da compositora: o futebol e a luta política.
[embed]
Bruno Ribeiro — Boa noite. Este é o “Música na Conversa”, programa de entrevistas do Sinpro Campinas e Região. Eu sou Bruno Ribeiro e hoje vamos falar com a compositora Manu da Cuica. Ela é formada nas rodas de samba do Bip Bip, lendário botequim carioca que continua sendo comandado pelo Alfredinho, só que agora no plano astral. Em 2020, Manu se tornou a primeira mulher a emplacar, por dois anos seguidos, um samba de sua autoria numa grande escola do Rio de Janeiro — no caso, a Estação Primeira de Mangueira. Em 2019, a escola foi campeã com um samba da Manu em parceria com Luiz Carlos Máximo: “História Para Ninar Gente Grande”, um samba muito potente, que marcou época e fez história tanto por seu simbolismo e seu peso político, como pela qualidade musical. Mas, para além do samba, Manu também desenvolve um trabalho bastante interessante como letrista de canções, valsas, boleros… E, nesse sentido, tem recebido muitos elogios, inclusive do nosso saudoso Aldir Blanc, que a considerava uma das melhores letristas da atual geração. E, se não bastasse tudo isso, Manu também é professora, de modo que tê-la aqui no programa do Sindicato dos Professores é uma honra. Agora, sem mais delongas, vou passar a bola para ela. Seja bem-vinda, querida. Muito bom falar contigo nessa noite.
Manu da Cuíca — Obrigada, Bruno. Boa noite a todos e todas. É um prazer muito grande estar aqui e poder falar de música, das minhas composições, das parcerias. Porque eu, como letrista, não faça nada sozinha — e nem quero. Espero que seja uma grande noite e um ótimo papo.
Bruno Ribeiro — Já está sendo. Vamos começar falando sobre o que você tem feito de bom ultimamente. Você está compromissada com alguma escola de samba neste Carnaval? Soube que, recentemente, esteve com dengue, hospitalizada.
Manu da Cuíca — É, vou tentar acompanhar os desfiles na medida do possível, driblando o calor e cuidando da saúde, porque, como você disse, fui mais uma vítima da dengue. Cheguei até a cair, bati a cabeça, mas já está tudo bem. Acabei de sair do hospital. Então, esse ano vai ser só no sapatinho, na base da cerveja zero [risos]. Mas, com certeza, vou tentar acompanhar os desfiles pela TV. E, quem sabe, tocar a minha cuíca em algum bloco de carnaval, que é uma coisa que gosto muito de fazer nessa época do ano.
Bruno Ribeiro — Você chegou a disputar samba-enredo por alguma escola?
Manu da Cuíca — Sim. Fui até a semifinal na Portela, que esse ano vai sair com um enredo dedicado ao Milton Nascimento. A gente parou na semifinal, mas fiquei muito feliz com o samba e com a adesão dos amigos portelenses.
Bruno Ribeiro — Para quem ainda não conhece a Manu da Cuíca, vale dizer que ela tem uma relação estreita com os blocos de carnaval e com as escolas de samba do Rio de Janeiro. Como eu disse na introdução, ela teve um papel importante nos desfiles da Mangueira em 2019 e 2020. A gente viu na abertura do programa um trecho do samba “História Para Ninar Gente Grande” cantado pela Marina Iris e pela Leci Brandão. A Manu aparece no vídeo tocando cuíca. Então, quero começar nossa conversa resgatando um pouco da história desse samba. Como foi o seu processo de composição?
Manu da Cuíca — “História Para Ninar Gente Grande” foi feito no ano anterior ao desfile, ou seja, o samba que desfilou em 2019 foi feito em 2018, que é quando saiu a sinopse do Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira naquela ocasião. Para quem não sabe, primeiro as escolas decidem qual será o enredo — que é o tema do desfile — , depois fazem a sinopse — que é o roteiro do que será aproveitado no tema — e só então é que o compositor trabalha em cima do samba. Bom, a sinopse do Leandro saiu no primeiro semestre de 2018 e o Máximo [Luiz Carlos, jornalista e compositor], meu marido na época, falou: “Pô, você já viu a sinopse da Mangueira? É a nossa cara!” Isso porque a gente é militante também: ele é militante sindical há muitos anos e eu militante do PSOL [Partido do Socialismo e Liberdade]. Então, a gente tem as lutas como ordem do dia. Quando vimos aquela sinopse, mesmo sem ter uma relação muito próxima com a Mangueira, a gente teve a certeza de que ia dar bom.
Bruno Ribeiro — E a sinopse saiu justamente no momento em que você estava grávida, não?
Manu da Cuíca — Exatamente. Isso foi curioso porque, mesmo tendo outras pessoas na composição, como o Deivid Domênico e um pessoal de Volta Redonda, eu sentia o enredo de modo diferente. Porque eu tinha a minha síntese daquele momento, influenciada pela gravidez, ou seja, tinha um ser humano sendo gerado no meu corpo, então acho que fiquei um pouco mais uterina, sabe? Sem deixar as lutas de lado, claro, mas acho que a letra do samba acabou saindo com uma certa doçura, uma coisa de chamar para sentar e conversar: “Brasil, meu nego deixa eu te contar…”
Bruno Ribeiro — De fato, a letra desse samba tem um tom maternal.
Manu da Cuíca — Tem. Mas eu, em geral, não sou assim. Eu tenho um tom mais sarcástico nas letras, mais agressivo. Se você pegar outras letras minhas, vai perceber. Lembro que pensei na época: “Bom, a gente pode meter o dedo na cara e falar ‘é isso aí, meu irmão, engole essa história e pronto’; ou a gente pode dar um tom mais lamentoso, como quem diz ‘vem cá, meu nego, vem ouvir essa história que a Mangueira está contando. A história do nosso querido Brasil. Mas a história real, soterrada na nossa cabeça. Vamos reivindicar esse país juntos’”. Optei pelo segundo caminho.
Bruno Ribeiro — Ótimo, Manu. Se você me permite, quero contextualizar rapidamente aqui, para quem não acompanha as escolas de samba. Como a própria compositora já disse, “História Para Ninar Gente Grande” é de 2018, ou seja, esse samba foi feito num período de grande tensionamento político, com a ascensão da extrema-direita e a eleição de Jair Bolsonaro. A Mangueira desfila em 2019, com Bolsonaro já na cadeira de presidente, com um enredo que conta a história dos vencidos da luta de classes no Brasil. Vou citar um trecho da letra: “Desde 1500 tem mais invasão do que Descobrimento/Tem sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado”. O que o samba está contestando é o título de herói dado a generais, como Duque de Caxias, ou à alta nobreza, como a Princesa Isabel, enquanto heróis populares, como Dandara ou os negros da Revolta dos Malês, não são contados pela história oficial. Os bolsonaristas vestiram a carapuça e a Mangueira foi muito atacada nas redes. O Exército chegou até a divulgar uma nota de repúdio em tom de ameaça, acusando a escola de promover um “revisionismo histórico”. Para não me alongar mais, queria que você falasse sobre como assimilou essas críticas, já que estava diretamente envolvida.
Manu da Cuíca — Acho importante citar também que 2018 foi o ano do assassinato da Marielle Franco [vereadora do PSOL]. Hoje já se sabe um pouco mais sobre o caso, algumas pessoas estão presas, mas naquele momento não se sabia de onde tinham vindo as balas. O samba foi feito num contexto de muita tristeza, de muita revolta e de muito medo. Quando peguei a sinopse, tive na hora a sacada de incluir o nome da Marielle na letra do samba. Ela não estava na sinopse, mas entendi que estava implícita no enredo. Quando a história acontece muito perto da gente, é difícil ter a dimensão exata de uma pessoa ou de um fato. Embora a Mari havia acabado de morrer, merecia estar nesse enredo. Porque ela também fazia parte desse “país que não está no retrato”.
Bruno Ribeiro — Incluir o nome da Marielle no samba enfureceu ainda mais os bolsonaristas. Acho que foram eles que inventaram essa coisa de “samba da Marielle”, né? Lembro que todo mundo se referia ao samba como “aquele samba da Marielle”. O que é uma injustiça, porque você não cita só a Marielle na letra.
Manu da Cuíca — Mas foi até bom, sabe? Hoje tenho o maior orgulho de dizer: “É o samba da Marielle sim”. Se isso incomoda tanto a extrema-direita é que a Mari sintetiza todas as lutas de que fala o samba. Nessa época, eu não assinava a música. Nem eu e nem o Máximo. Isso porque a gente também estava disputando um samba na Portela e, teoricamente, não poderia concorrer em duas escolas ao mesmo tempo. Agora mudou, mas até pouco tempo era assim. Nunca entendi essa regra, já que todo mundo concorria com vários sambas em várias escolas. O pessoal do regulamento sabia, mas tinha que fingir que não sabia. Era só colocar um irmão ou um amigo para assinar o samba no seu lugar e pronto. Então, na Mangueira não assinei, ou seja, a letra era minha, mas pouca gente sabia. Durante as disputas, eu ficava sentadinha lá na quadra ouvindo os comentários das pessoas. Ninguém sabia quem eu era, então falavam do samba perto de mim. Inclusive, ouvi coisas muito duras em relação a Marielle. O que eu mais ouvia era: “Pô, esse samba é maneiro, mas nada a ver botar a Marielle, afinal, a gente não sabe se ela é heroína ou bandida”. Era muito duro ouvir isso naquele ambiente, mas eu contestava: “Você está tirando isso de onde? De onde veio essa informação de que ela era bandida?” Vinha daquela onda de fake news que os bolsonaristas espalhavam na época.
Bruno Ribeiro — Como foi para você guardar durante tanto tempo a informação de que era uma das compositoras do samba? Quando e como você toma a decisão de tornar pública a sua participação na letra, mesmo indo contra o regulamento?
Manu da Cuíca — Olha, muita gente que me conhece vinha falar comigo e dizia: “Manu, você pode negar o quanto quiser, mas sei que você é a autora do samba, teu estilo está todo ali”. Eu negava sempre, mas as pessoas não eram bobas. Para mim, pesou muito o fato de ter tão poucas mulheres no samba e toda essa invisibilidade que existe no meio. A escola de samba é um espaço canonicamente masculino, né? Em que pese a existência de grandes compositoras, como Dona Ivone Lara e Leci Brandão, elas são exceções. Então, várias amigas mulheres que sabiam que eu estava envolvida, começaram a me pressionar. Elas diziam que eu não tinha o direito de não assinar a composição: “Não é por você, não se trata de você”. Um dia, entrei no barracão da Mangueira para ver como estavam os preparativos e a primeira coisa que vejo é um carro alegórico que trazia esculturas de umas mulheres com a mão na boca. Fiquei olhando para elas e pensei: “Cara, sou eu que estou tapando a boca em cima do carro; porque só depende de mim falar a verdade”. Depois que o samba foi escolhido para representar a escola e todo mundo começou a falar dele, fiquei pensando se eu teria o direito de ser uma das poucas mulheres a fazer samba-enredo e passar despercebida por conta de um regulamento anacrônico que ninguém respeitava. Comentei isso com o Máximo e ele achou justíssimo. Daí me reuni com os outros parceiros e eles acolheram muito bem a ideia de me apresentar como a autora da letra. Eu quis que fosse assim para não dar margem à fofoca. Falei: “Façam vocês o anúncio que é para ninguém dizer que foi retaliação da minha parte”. Eu tinha medo de que as pessoas fossem acusar os meninos de me deixar de fora pelo fato de eu ser mulher, de acusar o pessoal de machismo, quando na verdade não teve nada disso. Eles toparam na hora: “Claro, porra, vamos lá”. Longe de mim ter essa pretensão, mas acho que isso foi um dos fatores que fizeram mudar aquela regra de só poder disputar samba-enredo por uma escola. Hoje, a maioria não tem mais aquele acordo tácito.
Bruno Ribeiro — E quanto ao desfile? Como foi ver um samba seu na avenida pela primeira vez? E ainda mais por meio de uma escola tão querida e tradicional como a Mangueira.
Manu da Cuíca — As pessoas me perguntam muito sobre a emoção do momento. O que eu mais me lembro daquela noite, além de todas as passagens marcantes do próprio desfile, foi que era a primeira vez que eu ficava longe da minha filha recém-nascida. A primeira, depois do parto, que eu saía sozinha, com meus peitos derramando leite na Sapucaí. Foi uma mistura muito forte de emoções.
Bruno Ribeiro — Imagino que tenha sido muito foda para você viver aquela noite. Por ser seu primeiro samba na avenida, por estar longe da Havana [filha de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo] e também por um detalhe que deve ter contribuído para essa mistura de emoções, que foi a morte do Alfredinho às vésperas do desfile. Eu sei que você gostava muito dele. Fale um pouco do Alfredo Jacinto Melo, esse grande personagem carioca.
Manu da Cuíca — Bom, Alfredinho foi o inventor do Bip Bip, um botequim musical, cultural e político que existe há décadas. Ele era mangueirense roxo e morreu num sábado de Carnaval. A gente tinha ido para o Bip com a intenção de curtir o clima, dividir com os amigos a expectativa do desfile e tal, mas chegando lá demos com a cara na porta. Outros amigos que estavam por lá também estranharam o bar fechado naquele horário. Daí fomos até o prédio dele ver o que tinha acontecido. Quando a gente conseguiu entrar no apartamento, vimos o Alfredinho já morto, sentado na poltrona. E depois teve a história do elevador, né?
Bruno Ribeiro — Que o pessoal ficou preso com ele?
Manu da Cuíca — Pois é [risos]. Alfredinho era tão carioca que não quis ir embora sem pregar a última peça na gente: cinco amigos do Bip resolveram descer com o corpo até a portaria, mas acabaram presos no elevador [risos]. Devia estar fazendo uns 426 graus no Rio e os caras passaram mais de uma hora com o defunto dentro de um cubículo sem ventilação [risos]. Bom, aí na segunda-feira ele é velado dentro do bar, com as pessoas ao redor do caixão vestidas de pierrô, de colombina, de vaca, de borboleta… Tinha um padre de verdade rezando a missa e o povo bebendo o morto e se abraçando, chorando, batucando, cantando e tudo mais. Depois do gurufim, a gente saiu em um grande cortejo para o enterro dele — um cortejo carnavalesco lindo. Tem um filme em que a gente aparece tocando nesse cortejo, acho que está disponível no Vímeo. E foi isso. Saí do enterro do Alfredinho e fui para casa, tomei banho, deixei minha filha sob cuidados e fui para a Sapucaí. Um detalhe: lá no enterro, encontrei uma amiga que tinha um cartaz pendurado no pescoço. Na verdade, um cartaz de papelão com uma fita de cetim verde escrito à mão: “Alfredinho, a luta continua”. Antes de ir para o desfile, pedi emprestado e passei a noite toda com ele. Tanto que saí em várias fotos com o Alfredinho no pescoço e a placa da Marielle nas mãos. Levei os dois comigo para a Sapucaí. Mas o desfile mesmo só fui rever três anos depois. Porque na hora foi um turbilhão de emoções e isso embota um pouco a visão da gente.
Bruno Ribeiro — Desde moleque gosto de acompanhar os desfiles das escolas de samba do Rio e, para mim, o desfile da Mangueira de 2019 foi um dos mais emocionantes. Eu não estava lá, assisti pela televisão, mas tive a sensação de ver a história sendo feita. Por tudo o que ele envolvia no contexto do momento: história, política, memória, resistência… E teve muita coisa que ficou daquele desfile, né? Aquela releitura da bandeira do Brasil em verde e rosa, por exemplo, foi parar em museu. E o seu samba. Principalmente o samba. Porque foi um dos poucos sambas-enredo que sobreviveram ao fim do Carnaval, ou seja, um dos poucos que conseguiram furar a bolha das escolas e ganhar espaço no chamado cancioneiro nacional. “História Para Ninar Gente Grande” tem inúmeras regravações, inclusive uma declamada pela Maria Bethânia. Por que você acha que isso aconteceu com este samba?
Manu da Cuíca — Bruno, acho que é uma mistura de fatores. Tem o lance do contexto, que a gente já comentou e, nesse sentido, acho que o samba foi um desengasgo para muita gente. Era um momento de se entrincheirar em torno de algo — e esse samba foi esse algo que conseguiu reunir pessoas que compartilhavam sensações ruins de medo, raiva e angústia com a ascensão do Bolsonaro e tudo o que veio junto com ele, além do assassinato da Mari. Acho que o samba conseguiu resgatar um pouco da esperança nas pessoas. E esse samba tem umas questões formais que fogem um pouco da estrutura clássica do samba-enredo. Porque, às vezes, o samba-enredo tende a repetir a mesma fórmula sempre e, desde o início, quando o Máximo me convidou a compor com ele o samba da Mangueira, disse para mim: “Manu, esquece o que você já ouviu de samba-enredo, não fica com isso na cabeça, faz o que você quiser que a gente dá um jeito depois”. É óbvio que o samba-enredo tem as suas especificidades. É uma música para ser cantada por sei lá quantos mil componentes — e que não são cantores. Você tem os profissionais no carro de som, mas mesmo assim o samba vai ter que ser cantado por milhares de pessoas no chão, sem microfone. Então, claro que a letra de samba-enredo têm que ter certas características que não causem problemas dessa ordem. Mas, tirando isso, não é verdade que um bom samba-enredo tem que ter dois refrões ou um refrão explosivo. O meu samba não tinha dois refrões, não tinha um refrão explosivo. E daí? Foi o samba do ano. Eu questiono essas fórmulas que, no final das contas, só justificam a si mesmas. Acho que isso, de alguma forma, ajudou o “História Para Ninar Gente Grande” a chegar aos ouvidos das pessoas que não fazem parte da galera do samba-enredo. Ele é fácil de ser reproduzido em qualquer roda de samba, em gravações de estúdio, é bom de assoviar. A gente tem grandes sambas-enredo que poderiam furar a bolha, como este furou, mas este é outro problema: tem a ver com a maneira com que o samba-enredo se fechou em torno de si mesmo.
Bruno Ribeiro — Você não acha que isso também tem a ver também com a diminuição do interesse por parte da indústria fonográfica?
Manu da Cuíca — Total. A indústria fonográfica já foi uma grande propulsora do samba-enredo. Hoje em dia, nem o famoso CD de Natal com os sambas-enredo do ano seguinte a gente tem. Não sei como era aí em São Paulo, mas aqui no Rio era muito comum que, na época do Natal, as pessoas se presenteassem com o CD do Roberto Carlos e com o CD dos sambas-enredos. Não dá para a gente aprofundar todas essas questões aqui, mas o fato é que o samba-enredo acabou ficando como um gênero muito isolado, feito para iniciados, quando poderiam estar sendo regravados e tocados, como nas décadas de 60 e 70.
Bruno Ribeiro — Manu, vamos falar um pouco da tua formação musical. E acho que a gente tem que voltar ao Bip Bip. Foi lá que você se interessou pela cuíca — que acabou sendo incorporada ao seu nome artístico — e começou a tocar esse instrumento, que sempre foi visto como “coisa de homem”. Você poderia descrever como era o ambiente do Bip Bip antes da morte do Alfredinho e dizer como e quando aprendeu a tocar cuíca?
Manu da Cuíca — Quanto mais os anos passam, mais difícil fica explicar o que era e continua sendo o Bip Bip. Porque ele é um bar baseado em formas de relacionamentos e de vivências que não estão em voga no século XXI. O Bip é um bar que só poderia ter começado a existir no século XX — e pelas mãos de alguém como o Alfredinho: um cara generoso e desapegado, comunista de carteirinha. “Comunista, porém católico”, como ele dizia. Às vezes, ele trocava a ordem: “Sou católico, mas comunista” [risos]. No fundo, era um grande humanista, uma figura de coração imenso. A gente está em 2025, ou seja, faz seis anos que ele morreu e o bar continua aberto até hoje, do jeito mais fiel possível que ele poderia funcionar sem o Alfredinho. Hoje o bar é comandando pelo Matias [Bidart], um dos amigos do Bip Bip. É um bar pequenininho, mas que ganhou uma dimensão enorme na cultura carioca. Todo mundo repete que ele tem 18 metros quadrados. Eu nunca medi, mas repito também. Lá não se vende nenhuma comida, só uísque e cerveja. O bar abre às sete horas da noite e, dependendo do dia, tem lá uma roda de choro, de bossa nova ou de samba. Mas não é uma casa de shows. Lá não tem garçom; você pega a própria cerveja e paga para quem estiver anotando no bloquinho. Às vezes, a pessoa do bloquinho sou eu. Nem lugar para sentar tem: a preferência é sempre dos músicos. Então, não adianta chegar de galera. Os músicos estão lá porque querem. Isso é importante ficar claro: eles vão tocar o que quiserem, na hora que quiserem, por quanto tempo quiserem. Quem chega lá pedindo música, corre o risco de tomar uma invertida. E a música é acústica. O Bip fica numa rua residencial de Copacabana, então não pode fazer muito barulho, não pode tocar muito alto, não pode bater palma. Certas características do bairro vão moldando o tipo de música que se ouve no bar. Samba-enredo, por exemplo, fica difícil de tocar ali.
Bruno Ribeiro — E o bar era frequentado por muita gente famosa, né? Turista ia lá só para pegar autógrafo da Beth Carvalho e acabava tomando um esporro do Alfredinho.
Manu da Cuíca — O Bip Bip é uma grande confraria. Muita gente importante passou por lá. A maioria virou frequentadora: Zé Kéti, Cristina Buarque, Elton Medeiros, Mauro Duarte, Nelson Sargento… Às vezes, olhava para o lado e pensava: “Meu Deus, estou sentada na mesa do Walter Alfaiate”; “Caramba, estou tomando cerveja com o Zuzuca…” Bebi muito com o Zuzuca do Salgueiro, que morreu recentemente.
Bruno Ribeiro — E foi lá que você se interessou pela cuíca? Vamos falar da cuíca.
Manu da Cuíca — Bom, eu cheguei ali tocando pandeiro. Toco pandeiro desde a época em que eu jogava futebol no Fluminense. Nessas viagens com o time, sempre tinha um pagode no fundo do ônibus e acabei sendo a dona do pandeiro. Aprendi com meu pai, que tocava razoavelmente bem. Um pouco mais adiante, começo a frequentar o Centro do Rio, durante o chamado “boom” da Lapa, onde havia o Bar do Seu Cláudio, que era um botequim de calçada. A gente se reunia lá e me lembro do Gallotti [Eduardo, cavaquinista], um sambista que já nos deixou também. Gallotti formou muita gente porque comandava várias rodas de samba na cidade. Lá no Seu Cláudio, ele ia muito. Era ele no cavaquinho, um bebum do lado e eu, aprendiz de pandeirista, querendo viver tudo aquilo.
Bruno Ribeiro — Esse bebum quem era?
Manu da Cuíca — Pô, era um cara muito chato. Mas era aceito na roda porque fazia parte da fauna local. Ele pegava uma garrafa de cerveja vazia, fazia do pescoço da garrafa o braço de um cavaquinho imaginário e ficava batendo no bojo com uma moedinha: tim, tim, tim. Pedia o tom e tudo: “Tá em que tom esse samba? Me dá um Dó!” [risos] Voltando aqui: em algum momento, alguém me apresenta o Bip Bip e me apaixono. Assumo o Bip como meu lugar sagrado de domingo, de chegar cedo para arrumar a mesa dos músicos, de observar os caras tocando… Um dia, me chamaram para sentar na roda. Logo, me ensinaram a tocar tantã. Os primeiros amigos que fiz por lá foram o Zé da Cuíca e o falecido Jovem. Eles foram meus mestres, os caras que me deram as primeiras lições: “Não, pega a cuíca assim, faz só o grave por enquanto”. Eles me deixavam entrar nas duas últimas músicas da roda e eu ficava lá fazendo o grave da cuíca. Você sabe que a cuíca tem o som grave e o agudo, né? O segredo está no couro: quando aperta o couro, faz o agudo; se não aperta, faz o grave. Mas tem que saber puxar aquele troço ali para tirar um som sem arrebentar. Depois, comecei a sair com a cuíca nos blocos de Carnaval. Porque era tanto barulho que, se eu tocasse errado, ninguém percebia [risos]. Enfim, o Bip Bip foi meu espaço de formação como cuiqueira, mas também foi ali que conheci os primeiros compositores que me deram vontade de compor também. Paulinho do Cavaco, que frequenta o bar até hoje, é um deles. Outro é o Wanderley Monteiro. Acho que eles nem sabem disso.
Bruno Ribeiro — Legal. Vamos falar das suas composições daqui a pouco. Vocês sabem: a Manu não canta; mas ela toca cuíca e compõe.
Manu da Cuíca — Para a sorte de vocês [risos].
Bruno Ribeiro — Então, as canções dela são sempre interpretadas pelos outros. E talvez a Marina Iris seja a grande intérprete de suas músicas. Vou pedir ao André — até para que você possa pegar mais água na cozinha — que coloque na tela o videoclipe de “Pra Matar Preconceito”, composição da Manu cantada pela Marina. Pode soltar, André. A gente volta na sequência.
[Música]
Manu da Cuíca — Muito bom. Poxa, tinha tempo que eu não via esse clipe. Ele tem alguns anos já.
Bruno Ribeiro — Sim. Além da Marina, quem é a outra cantora? É a Nina?
Manu da Cuíca — Isso, a Nina Rosa.
Bruno Ribeiro — A Marina Iris, que vocês viram no clipe cantando com a Nina Rosa, gravou um disco chamado “Rueira”, que é formado apenas por composições da Manu da Cuíca em parceria com Rodrigo Lessa. Eu queria que você falasse um pouco da relação com a Marina. Vocês são bastante próximas, né?
Manu da Cuíca — A Marina é minha irmã. A gente se conheceu na Faculdade de Letras da UERJ [Universidade do Estado de Rio de Janeiro]. Para ser mais precisa, no time de futebol feminino da UERJ. A Marina também jogava bola, então, a primeira tabelinha que a gente fez foi no campo — e felizmente saiu gol. Como sai gol até hoje, só que na música.
Bruno Ribeiro — Vocês tinham quantos anos na época do futebol?
Manu da Cuíca — Uns 18, 19 anos. Hoje estou com 40. E somos amigas até hoje, parceiras de vida mesmo. A gente foi parceira de estudo, de futebol, de roda de samba, de grupo de samba e de trabalho. E, no momento, estamos escrevendo um livro infantil a quatro mãos. Logo mais teremos novidades.
Bruno Ribeiro — Que lugar Maria Iris ocupa na música brasileira hoje, como cantora?
Manu da Cuíca — Eu diria não só como cantora, mas como compositora também. Ela é que nem o caso do samba da Mangueira: quando a gente está muito próximo da história, não consegue ter a dimensão exata do que aquilo representa. A Marina, talvez, seja um pouco isso, né? Por conta da proximidade tão grande que tenho com ela, tenho dificuldade de vê-la de outra forma que não a minha irmã de fé. Mas quando distancio o olhar, vejo a Marina como uma das maiores vozes do Brasil.
Bruno Ribeiro — E como foi essa ideia do disco “Rueira”, onde ela canta as músicas que você fez com o Lessa?
Manu da Cuíca — A ideia foi dela. Um dia, ela virou e disse: “Quero gravar um disco só com suas músicas com o Rodrigo Lessa, você topa?” Pô, isso é pergunta que se faça? Foi daí que a gente começou a mergulhar a fundo nisso. E ela interpretou lindamente. Mas o dedo dela nesse disco não está só na voz não; ela deu os caminhos estéticos também. Deu sugestões, inclusive em relação às músicas e às letras: “Olha, acho que está faltando uma música assim e assado; essa letra aqui acho que pode ganhar força se você trocar essa sílaba; acho melhor fazer esse samba um pouco mais ralentado”. Eu confio totalmente nela, deixei ela conduzir o processo. A Marina é muito cuidadosa com os outros, consigo mesma, com o mundo. Por isso está voando, né? Tem música nossa sendo cantada nas rodas de samba do Rio. “Virada” é uma, que ela gravou com o Péricles.
Bruno Ribeiro — Eu tinha separado o videoclipe do “Página Virada”, mas como nosso tempo urge, achei melhor deixar para outra ocasião. Eu queria, na verdade, que você comentasse sobre uma música específica que está no disco da Marina, que é a minha preferida da sua lavra: “Copacabana, a Valsa”. Eu sou apaixonado por essa canção porque acho que você chegou muito próximo da verve blanchiana com ela. Não comparando, claro, porque você tem estilo próprio, mas como gosto muito do Aldir Blanc, sei identificar quando um letrista é da mesma linhagem. E você é da mesma linhagem, sem dúvida. Tanto que ele próprio reconheceu isso no texto do disco, né?
Manu da Cuíca — Pô, Bruno, fiquei surpresa e contente de saber dessa sua preferência. Essa música, tenho ela como meu xodó. Mas, ao mesmo tempo, sempre me questiono se não entrei sozinha numa viagem. Porque ela fala de coisas muito específicas de Copacabana. Eu morei em muitos lugares: o aluguel subia e a gente se mudava. Morei algumas vezes em Copacabana quando menor. Nessa época, via o bairro como um cartão-postal: grandioso, majestoso, cheio de comércios, tumultuado. Ele impunha respeito e uma certa distância. Já maior de idade, depois que comecei a frequentar o Bip Bip, comecei a entender que Copacabana tinha seus cantinhos de chamego, seu provincianismo. Eu sempre gostei de andar; ando muito a pé. E andando fui descobrindo que o bairro do cartão-postal era muito mais o bairro do botequim que tem um PF [prato feito] feito pelo mesmo cozinheiro há trinta anos; do cara que mora num prédio que tem um apelido e fica numa rua que também tem um apelido; das turmas do futebol de praia das décadas de 40 e 50 que ainda se encontram e saem na porrada; das relações com os morros, com as favelas que estão dentro do bairro… Então, comecei a me embrenhar pelo bairro e a me interessar por descobrir esses cantinhos. “Copacabana, a Valsa” é uma letra que traz essas referências que são miudinhas e que, ao mesmo tempo, têm grande eloquência para quem mora ali. Algumas referências só entende quem é de lá mesmo.
Bruno Ribeiro — E você concorda que há na canção uma certa atmosfera que a gente encontra muito na obra do Aldir? Isso é um elogio, claro.
Manu da Cuíca — Aldir é um cara que admiro profundamente e a quem me propus, talvez de um jeito meio errático, a estudar, a me debruçar sobre a obra dele. Eu me lembro que, antes de existir a internet, eu pegava um bloco de notas e ficava transcrevendo as letras do Aldir. Enquanto o disco girava, eu transcrevia e pensava: “Caraca, meu irmão, como é que esse cara escreveu isso? Como foi que ele chegou nesse verso? Que loucura essa imagem!”
Bruno Ribeiro — O Aldir tem uma característica que percebo muito nas suas letras: como poucos, ele consegue sintetizar uma ideia complexa em uma única frase, às vezes uma frase com notas muito curtas, às vezes sintetizando com uma imagem surrealista, uma cena que a gente chega a visualizar. Acho que essa é a grande marca do Aldir e você traz algo parecido quando escreve.
Manu da Cuíca — Outro dia, estava falando sobre “Siri Recheado e o Cacete”, que é uma música dele com o João Bosco. É uma história gigante: um cara que sai com a patroa para pescar e vai se envolvendo em uma série de confusões. Tudo se passa dentro de um ônibus: lá pelas tantas o ônibus bate, a polícia chega, enfim, é muito engraçada a história. Ele vai contando esse caso de um jeito costurado em cima da melodia — e nos momentos que seriam gratuitos ele vem com grandes achados. Por exemplo: tem uma hora, depois que eles pescam e voltam para o ônibus, passam pela roleta com um saco cheio de siris. Aldir escreve: “O velho trocador gritou: não bebo mais/siri passando em roleta/mesmo pra mim é demais” [risos]. Ou seja, o trocador não é central na ação da história, mas Aldir consegue em dois versos curtos incluir um outro personagem, um trocador que bebe em serviço. Quem é do Rio conhece bem esse tipo. E no final ele diz: “O Anescar chegou com uma do alambique/me perguntou se eu era Mendonça ou Dinamite”. Ele cria a cena do cara sentado, puxando um papo de futebol no bar, e isso pode parecer aleatório num primeiro momento, mas faz todo o sentido dentro de uma letra que conta uma história enorme e que precisa de ação o tempo todo. E ele traz sempre os elementos de classe, pode reparar. Eu acho Aldir espantoso como letrista. E também como cronista, adoro os livros dele. Para mim, ele é o maior.
Bruno Ribeiro — Para mim também. Manu, no mundo de hoje, em que a gente está vivendo em meio a tantas incertezas quanto ao futuro, em meio a uma estupidez que parece não ter fim, qual é o papel do compositor? Ou melhor: qual o papel da compositora?
Manu da Cuíca — Nossa… Acho que primeiro é viver esse mundo, né? Não fugir dele. Como todos, tentar sobreviver a ele. E tentar modificá-lo. É entender que a música e a composição, a criação artística no geral, podem ser usadas para consolar, para desabafar, para interferir na realidade de alguma forma. Eu não coloco a música em um lugar tarefeiro, confinado, de salvação. Não. Porque seria dar um tratamento meramente utilitário à música e acho que você precisa de elementos artísticos que não possam ser cerceados e nem cercear. Ao mesmo tempo, como alguém que pensa em canções, que faz da palavra seu trabalho, entendo que não tem como um compositor deixar de defender os seus pontos de vista. Só que tem uma coisa: quando um determinado ponto de vista não é hegemônico e você insere no seu discurso uma provocação contra-hegemônica, as pessoas te empurram para um canto do ringue e falam: “Isso é panfletário”. Mas, para mim, não é uma questão de ser panfletário ou não, mas de defender o que acredito.
Bruno Ribeiro — É isso aí. Como diria a Maria da Conceição Tavares, “derrotados já estamos; o que não podemos é contribuir com a nossa gota de fel para um veneno alheio”, para este mundo que aí está.
Manu da Cuíca — Exatamente.
Bruno Ribeiro — Bom, Manu, agora a gente vai entrar na reta final do programa e, nessa hora, peço aos convidados que citem discos que foram ou são importantes para ele. Três discos, na verdade, como forma de conhecer um pouco mais sobre as referências do artista. Você poderia citar alguns com os quais tem uma relação de afeto?
Manu da Cuíca — Primeiro quero agradecer os comentários que o pessoal está fazendo aqui: Jenice, Maria, Jonas, Caio… Não deu para ler todos, mas agradeço o carinho, gente. Quanto aos discos, bom, vou pelo lado afetivo mesmo. Acho que o primeiro vinil que tive nas mãos foi o disco de estreia da Marisa Monte, aquele de capa azul. Se não me engano é de 1989, 1990. E foi gravado ao vivo. Esse disco, minha mãe ganhou do marido dela na época, Sergio Tadeu, um grande músico aí de São Paulo. Eu devia ter entre 6 e 7 anos. Esse elepê me chamou a atenção porque tinha uma dedicatória para a minha mãe na capa. O Sergio escreveu algo como: “Eu queria te dar um presente melhor mas, proletariado que sou, só deu para comprar um disco” [risos] Lembro que a palavra “proletariado” me intrigou: nunca tinha visto uma palavra com tantas sílabas. Eu já sabia ler, mas não entendia o significado daquilo. Eu pedia explicação para os adultos, mas ninguém conseguia me explicar direito. E, por causa desse detalhe da dedicatória, comecei a ouvir esse disco da Marisa Monte e resolvi que seria dançarina, como a minha mãe. Não sei se você sabe, mas a minha mãe foi bailarina. Ela chegou a ser dirigida pelo grande coreógrafo Fábio de Mello. E eu, querendo imitar ela, punha o disco na vitrola e ficava fazendo umas performances de dança. Quando vejo a capa desse disco, volto à infância no mesmo instante.
Bruno Ribeiro — Maravilha. Vamos para o segundo.
Manu da Cuíca — O segundo foi o disco que mais me chamou a atenção em termos de sonoridade, que é “A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes”. Esse eu também ouvi em elepê, na época em que estava começando a frequentar roda de samba. Esse disco meio que colocou una sonoridade nesse mundo novo que eu estava descobrindo. O Nei Lopes é outra grande referência de letrista, para mim. O que ele faz com as letras é inacreditável. Wilson Moreira, por sua vez, tem o dom da melodia. Então, a junção daquela melodia com aquela poética atrevida, mundana e complexa, acompanhada de uma batucada poderosa, moldou inclusive a minha questão estética com o samba. Lembro de ficar paralisada ouvindo esse disco, tentando entender a profundidade daquilo.
Bruno Ribeiro — Sim, justamente. Para além do samba propriamente dito, para além do conteúdo, existe um conceito no “Arte Negra”. É um disco político, né? E muito bom de se ouvir.
Manu da Cuíca — O terceiro, para fechar, não poderia ser outro: “Vida Noturna”, do Aldir Blanc. É o único disco em que ele canta todas as faixas. Está retratado em uma capa belíssima do Mello Menezes, meu amigo querido, com produção do Moacyr Luz. A voz do Aldir traz uma densidade incrível para a obra. Ali tem a rua, tem o cabaré, tem o botequim, tem as dores. É um disco que não tem medo de ser doído. E também não tem medo de ser cético e, ao mesmo tempo, esperançoso. É um dos discos que mais ouvi numa fase recente. Quando vejo a capa do “Vida Noturna”, lembro exatamente de onde estava quando ouvi pela primeira vez, do que estava sentindo e tal. Esse disco tem cheiro. Me toca em lugares profundos.
Bruno Ribeiro — Esse disco do Aldir… É difícil dizer isso porque seria injusto com tantas obras maravilhosas já feitas no Brasil, mas “Vida Noturna” talvez seja o disco da minha vida. É um disco que escutei milhares de vezes e é sempre como se estivesse ouvindo pela primeira vez. Ouço sempre com o mesmo espanto.
Manu da Cuíca — Exato! Isso é maravilhoso.
Bruno Ribeiro — Então é isso, Manu. A gente vai ficando por aqui. É uma pena porque eu queria ter falado de muitas outras coisas com você. Faltou falar de futebol, falar um pouco mais de política, mas enfim, a vida é injusta [risos]. Quero agradecer muito a sua participação. Espero que você tenha gostado.
Manu da Cuíca — Pô, Bruno, em primeiro lugar quero te agradecer muito. Você é um cara que sempre pesca as dimensões da criação. Eu te acompanho pelas redes e sei do cuidado com que você trata da música brasileira. Agradeço pelo convite e pelo espaço, pela possibilidade de falar sobre as minhas criações e referências. Não são tantos os espaços que temos para isso. Quero agradecer também o pessoal que acompanhou a gente até agora e pedir um favorzão: me sigam lá no Instagram. Eu não tenho nada para vender, mas tento fazer uns videozinhos questionáveis. Pior seria se eu ficasse tocando e cantando. Às vezes até faço isso, vou logo avisando [risos]. E vou ficar mais feliz ainda se vocês me seguirem no Spotify. Lá não tem espaço para mim, como compositora, mas fiz uma playlist com as minhas músicas gravadas. Tem, sei lá, umas 30 músicas. Se você procurar no Spotify, não vai achar no mecanismo de busca. Tem que entrar no meu Instagram e clicar no link da bio. É um link esquisito, mas pode clicar que não é vírus nem jogo do tigrinho [risos].
Bruno Ribeiro — É isso, gente. Sigam a Manu da Cuíca. Como sempre digo: valorizar o compositor brasileiro é valorizar a si mesmo. Manu, vou me despedir de você mais uma vez, agradecer a audiência do pessoal e a diretoria do Sinpro Campinas, em nome da presidente Conceição. Foi uma ótima conversa. E para encerrar o programa de hoje vamos assistir o videoclipe oficial da Estação Primeira de Mangueira, com o samba-enredo de 2019, que a gente comentou ao longo da nossa entrevista. “História Para Ninar Gente Grande”, de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo, desde já está gravado na história. Boa noite a todos e até o próximo “Música na Conversa”.
MÚSICAS DO PROGRAMA
História Para Ninar Gente Grande (Luiz Carlos Máximo / Manu da Cuíca)
Pra Matar Preconceito (Raul Dicaprio / Manu da Cuíca)
메타데이터
- post_id
- 7e118d55cd25
- slug
- entrevista-com-manu-da-cuíca-7e118d55cd25
- url
- https://medium.com/@brsamba/entrevista-com-manu-da-cu%C3%ADca-7e118d55cd25
- canonical_url
- https://medium.com/@brsamba/entrevista-com-manu-da-cu%C3%ADca-7e118d55cd25
- author_url
- https://medium.com/@brsamba
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-24 08:12:30