Porosidade e Travessia: A Densidade da Água em Work-in-Progress
Por Gabo M. Barros
Porosidade e Travessia: A Densidade da Água em Work-in-Progress
Por Gabo M. Barros
Estamos a um mês da estreia de “A Densidade da Água”, e a peça ainda é um corpo líquido, em transformação. Ensaio após ensaio, eu e a atriz Dayane Simões temos nos perguntado: qual é a verdadeira essência desse espetáculo? Não apenas a história de Muriel, mas o que ela representa, o que pulsa sob sua travessia solitária. Algo começou a se revelar, uma possibilidade de perceber a peça de uma forma que, até então, era apenas um sussurro: a porosidade. A porosidade da água, do corpo e da própria cena. Tudo permeável, em constante transposição.
Assim como a água é maleável, penetrando por fendas e poros, o teatro também deve se deixar atravessar. E foi a partir desse pensamento que iniciamos uma nova jornada dentro do processo criativo: o teatro como uma arte de transposição, onde o gesto, a palavra e o espaço dialogam e se transformam, absorvendo influências externas e internas, como um rio que lentamente se torna mar.
Muriel, em sua busca pelo pai desaparecido, atravessa esse vasto mundo líquido — mares, rios, memórias. Porém, o que começou a se mostrar para nós, durante os ensaios, é que essa travessia é menos linear e mais osmótica. Muriel é porosa, o que a atravessa não são apenas águas, mas sentimentos, medos e o tempo. A ideia de *transposição em teatro, **nos ajudou a compreender que Muriel não é uma personagem fixa, assim como a cena nunca é estática; ela está sempre em movimento, sempre absorvendo. A peça é uma travessia inacabada, fragmentada, como um organismo que não encontra fechamento, e sim expansão.
Estamos desenvolvendo o espetáculo como um work-in-progress, o que se alinha perfeitamente com essa noção de incompletude, de processo aberto. Cada ensaio revela novas camadas — a cada dia, a peça se torna algo diferente, assim como as marés que nunca são as mesmas. Dayane, com sua precisão corporal e entrega emocional, tem dado vida a uma Muriel que não apenas vive a história, mas se deixa ser vivida por ela. O corpo dela em cena é uma ferramenta ritualística, conectada à tradição da antropologia teatral, onde cada gesto é uma investigação, cada movimento um rito. Não é apenas o corpo de Muriel que se transforma; o espaço ao redor dela também se dobra e se recria.
E esse espaço que criamos, é fundamental. Muriel atravessa cenários invisíveis, preenchidos pelo olhar do espectador. O vazio não é uma ausência, mas uma possibilidade. Um convite ao público para preencher os espaços com suas próprias percepções. Estamos interessados nessa relação de porosidade com o público. O espaço teatral, tal como Muriel, também é permeável. Ele respira, expande, encolhe, dependendo de quem o habita.
Nesse sentido, optamos por não fechar a narrativa. A peça não tem um final fechado, porque a vida não tem conclusões claras, e a arte deve refletir isso. O que apresentamos é um fragmento de uma história maior — como se o público entrasse na peça enquanto ela está acontecendo, sem a necessidade de um início ou um fim. Muriel, assim como nós, está sempre no meio de sua travessia.
Nos ensaios, começamos a explorar o que significa sobreviver não apenas em uma ilha deserta, mas no teatro, nesse vasto oceano de significados. A sobrevivência de Muriel é também a nossa enquanto criadores, enquanto artistas em constante busca. É um mergulho sem garantias de volta. É uma travessia que não tem fim.
Agora, com a estreia se aproximando, começamos a pensar no que significa compartilhar isso com o público. Sabemos que eles serão co-criadores dessa experiência. Eles também atravessarão o espetáculo, e é aí que a peça ganha sua verdadeira força. Assim como Muriel se encontra em meio ao mar, nós nos encontramos em meio à criação. E, como ela, seguimos nadando, ainda que o destino final permaneça desconhecido.
Esta apresentação, especialmente pensada para estudantes de teatro, será um convite para refletir sobre essa travessia, sobre a porosidade da cena e da vida. Ao final, o público será convidado a dialogar conosco, a trazer suas próprias leituras, suas próprias travessias. Afinal, o teatro é um organismo vivo, permeável, que se transforma a cada olhar, a cada maré.
*A transposição em teatro, conforme discutido por Sidney Guedes, aborda o corpo do ator e suas diversas possibilidades performáticas e estéticas. Essa teoria analisa como o ator pode reinterpretar e adaptar obras, explorando novas dimensões na performance.
메타데이터
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