Contas Azuis
I à X, mentiras e consequências
Contas Azuis
I. A caixa
A caixa de sapatos debaixo da cama Tem contas azuis e um fio rasgado. Toda noite, a mão entra na caixa, Toda noite, a mão sai vazia. Toda noite, a luz se apaga, E as contas brilham sozinhas. E brilham feio e brilham torto, Como dente quebrado ou como um homem morto.
II. O poço
Na praça, no poço seco Toda quinta-feira uma moeda cai. Abaixo de todo o trajeto da queda Está a foto de um rosto que não mais sorrirá. Quem joga a moeda olha rindo para o fundo Afinal, lá debaixo Voz de foto nenhuma irá escapar.
III. A vizinha
A vizinha do terceiro piso Perdeu a chave do armário. Agora dorme com a pasta no peito Enquanto sonha com um galo preto. O galo canta das duas Até a hora que a vizinha acordar. Pois se incomoda que fede o corredor Com o cheiro das contas azuis do outro andar.
IV. O vento
O vento sopra sempre do mesmo lado. Leva conversa de portão, Leva o nome de um homem que perdeu a vaga, Leva o sutiã do varal; Devolve uma carta sem remetente E outra folha que preferiram rasgar. A planta adubada com os pedaços Foi uma espada-de-São-Jorge que cresceu torta.
V. A balança
Na feira livre, na balança de prata Toda segunda-feira, alguém sobe. O ponteiro nunca para no mesmo número Mas no caderno de capa preta fica tudo anotado. No caderno falta nome Mas não desenhos de unhas vermelhas, Rascunhos de prédios mal feitos, E um número de processo riscado.
VI. O ônibus
No fundo do ônibus das seis, Um espelho é tirado da bolsa. O espelho mostra um rosto engomado E atrás dele chora uma moça. A mão que segura o espelho finge não ver, Põe o reflexo devolta na bolsa, Desce antes do último ponto.
VII. O rio
Em um rio atrás da fábrica abandonada Quando o céu fica cor de cinza, Um sapato é enterrado na margem. O outro vai na bolsa, E o rio leva o resto. O resto não volta, Mas o vento traz o cheiro de alguma coisa que afogou sozinha. Na beiradinha, um pé descalço marca a lama E some antes do amanhecer.
VIII. A igreja
Na igreja, três velas acesas: Uma para a mãe, Uma para o homem que perdeu o emprego, Uma para o vizinho que foi preso. O crucifixo é beijado… O padre olha para o banco vazio e nele Encontra uma conta azul. Guarda ela na batina e começa a rezar: Uma ave-maria sem saber no nome de quem.
IX. O bar
No bar do final da rua Os homens falam baixo E ninguém menciona nome nenhum. Um levanta o copo: “Todas”, ele diz… Outro homem cala a boca, Mas não consegue discordar.
X. O vidro
Com movimento rápido, a cortina do quarto fecha. E logo, a caixa de sapatos é aberta. Uma mão toca as contas azuis E de lá não tira nenhuma delas. A mão só toca, E o mundo continua. Um pouco menos limpo, Um pouco mais vidro.
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