← Back to list

O FRUTO DA FLOR 🌿

Derivado da maconha, o óleo de canabidiol é destaque pelo potencial terapêutico

Carolina Capucho · 2024-12-18 15:18 · 0 claps · 5.3 min read
#medicinal-cannabis #jornalismo-especializado #unesp-bauru #oléo-de-cannabis #canabidiol
Open on Medium ↗
Wiki topics: 💊 · Drugs & Policy

O FRUTO DA FLOR 🌿

Derivado da maconha, o óleo de canabidiol é destaque pelo potencial terapêutico

Óleo de canabidiol é tratamento para uma série de doenças (Foto: Reprodução/Freepik)

Óleo de canabidiol é tratamento para uma série de doenças (Foto: Reprodução/Freepik)

Não é de hoje que a humanidade experimenta a Cannabis sativa. No século 19, por exemplo, a erva era fumada pela comunidade negra até ser proibida em 1830 por meio do que ficou conhecido como Lei do Pito do Pango. Hoje, ela ainda é conhecida pelo uso recreativo e chama atenção pelo potencial terapêutico, apresentando-se como medicamento eficaz para diversas enfermidades. Epilepsia, câncer, autismo, ansiedade, depressão e dores crônicas, como enxaqueca e fibromialgia, são algumas delas.

A razão para efeitos tão positivos se deve à existência do sistema endocanabinoide presente no sistema nervoso humano. Descoberto pelo químico Raphael Mechoulam na década de 60, o sistema endocanabinoide possui dois receptores endógenos, isto é, produzidos internamente pelo organismo, denominados de CB1 e CB2 e que agem no Sistema Nervoso Central e no Sistema Nervoso Periférico, respectivamente.

O médico endocrinologista Caio Urzelin explica que o óleo de canabidiol (CBD) potencializa o sistema endocanabinoide. “O CBD tem uma ligação muito rápida e forte aos receptores cerebrais e periféricos canabinoides, que são os receptores CB1, no cérebro, e os receptores CB2 a nível corporal. Esse canabidiol não tem ação psicoativa e a ação dele no nosso organismo é mimetizar a ação dos endocanabinoides, que são substâncias que nós produzimos endogenamente. Portanto, o CBD não gera qualquer psicoatividade, mas tem a possibilidade de promover homeostase, ou seja, promover equilíbrio em um determinado local que não está conseguindo manter essa situação de equilíbrio”.

Quais são os resultados do uso médico da cannabis sativa, a maconha, e quais normas regulamentam o tratamento com a planta no país? Confira a seguir.

ELES USAM ÓLEO DE CANABIDIOL E OBTÉM RESULTADOS SURPREENDENTES

Arthur Bertolo tem 8 anos, Rafaela Rosa tem 29 e Aparecida Meira, 102. Apesar de idades diferentes, todos eles têm um ponto em comum — o tratamento medicinal usando óleo de canabidiol. Tratando diferentes doenças, os três pacientes apresentaram melhora positiva ao serem submetidos ao tratamento fitoterápico extraído da planta de cânhamo, flor da Cannabis sativa.

Aos 2 anos de idade, Arthur recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista em nível 3 de suporte. Comportamentos de irritabilidade e sensibilização a estímulos externos eram os principais sintomas apresentados pelo menino. A partir do uso de canabidiol, combinado a outras substâncias, foi possível acalmar.

Depois de um período de adaptação de 15 dias e a correção da dosagem, Ana Claudia Bertolo, mãe de Arthur, observou que foi possível regular a ocorrência de crises de estereotipias e controlar a agressividade.

“Hoje eu considero que o canabidiol é essencial para o tratamento de autismo. Só com ele foi possível controlar crises de estereotipia que o Arthur tem, como o bater excessivo das mãos”, relata a mãe.

Ana Cláudia também observa que o remédio ajudou na sensação de saciedade do garoto. “Antes do CBD ele comia muito”, conta ela. Esse é um dos efeitos adversos previstos na bula do medicamento, assim como sonolência, distúrbios gastrointestinais e dor de cabeça.

Com Aparecida Meira, o caso é semelhante. Diagnosticada com demência em 2021, a senhora de 102 anos começou a usar o óleo de canabidiol por indicação geriátrica. “No começo de tudo, minha mãe chorava muito e ficava extremamente irritada, agitada. Ela tinha muitas dificuldades para relaxar, inclusive para dormir”, conta José Domingues, filho de Aparecida.

“Quando o médico receitou o canabidiol, a gente já conhecia a origem por causa do nome e até tínhamos alguns receios, mas eu e minha irmã conversamos entre nós, tiramos dúvidas com o doutor e aceitamos, pois confiamos no trabalho dele”, recorda Domingues.

Superar o tabu da relação com a droga deu resultado. Segundo José, o fármaco ajudou de tal modo no adormecer de Aparecida que a paciente chegou a dormir por 42 horas. “Nós chegamos a pensar que o pior tinha acontecido”, relembra o filho de Aparecida.

Os efeitos sobre o sono são comuns. Segundo Caio Urzelin, o CBD é responsável por promover noites de sono mais vívidas e adentrar zonas mais profundas do sono, garantindo melhor qualidade de descanso.

Já para Rafaela Rosa, o tratamento canábico foi um alívio. Ela trata ansiedade desde os 15 anos e testou outros remédios psicotrópicos até chegar no óleo de canabidiol, que começou a tomar neste ano.

Após observar o tratamento canábico do filho autista de uma amiga, Rafaela se interessou ainda mais pela alternativa medicamentosa. Segundo a jovem, os resultados foram rápidos: “Já no primeiro mês eu vi diferença. O óleo me ajudou a dormir melhor e me manter mais calma”, conta ela.

Antes do CBD, Rafaela colecionava experiências psicotrópicas muito sofridas: “com os outros remédios eu passava muito mal, sentia enjoo, tontura, sonolência, cansaço e diarreia”, conta ela.

JARDINEIRO NÃO É TRAFICANTE 🧑‍🌾

Cultivo caseiro da planta para extração do óleo é alternativa para pacientes em tratamento canábico

Planet Hemp aconselhou: “Ouça o que eu tô lhe dizendo, cumpadi: não compre, plante” e embora seguir a indicação possa parecer atrativo, na prática não é tão simples assim.

Em junho deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) formalizou a condição de usuário para quem cultivar até 6 plantas fêmeas ou portar consigo 40g de maconha, mas para quem precisa da flor para uso medicinal as condições legais são diferentes. Inclusive, vale ressaltar que a medida não flexibiliza as condições para pacientes canábicos.

Atualmente, a importação da flor de maconha é proibida no Brasil. A NT 35/2023 foi adotada pela Anvisa após a constatação de importações feitas para uso recreativo. “A prescrição de flores terapêuticas foi proibida no ano passado também porque não havia um controle de qualidade sobre esses produtos”, justifica Ricardo Della Rosa, especialista em medicina endocanabinoide.

Apesar disso, Ricardo ressalta que ainda é possível encontrar canabidiol em formas farmacêuticas como comprimidos, gomas, bálsamos e cremes. Há também a opção do óleo de canabidiol, que pode ser encontrado em farmácias ou extraído artesanalmente mediante autorização judicial.

Conforme explica a advogada especialista em direito canábico Tais Correa, as regras para cultivo e extração doméstica do óleo de canabidiol incluem a emissão de um Habeas Corpus. Com o documento, tem-se o reconhecimento do caráter medicinal do plantio e a classificação do cidadão como paciente, em vez de drogadito. “Quando ela tem esse reconhecimento, ela tem a devolução da dignidade da pessoa humana, um princípio constitucional em que a pessoa consegue ser reconhecida pelo que ela é”, esclarece Correa.

Sem o Habeas Corpus, a abordagem que as autoridades terão com quem cultiva muda de tom. Além de ser vista como usuário, a pessoa pode ser redirecionada para tratamento no CAPS, onde o caso será tratado como reabilitação de drogas. Diante da presença dos materiais usados na extração, ela também pode ser indiciada por tráfico de drogas, ir presa e cumprir pena de 5 a 15 anos de reclusão, de acordo com o previsto pelo artigo 33 da Lei de Drogas (11.343/2006).

A obtenção do Habeas Corpus canábico não é o único procedimento para prosseguir com a terapia. Em casos onde há comprovação de que a intervenção canábica apresenta custos elevados para o paciente e o plantio doméstico não é um caminho viável, é possível pedir o custeio do convênio médico ou do SUS, via medida judicial.

“Se você está falando do SUS, o principal requisito é que você demonstre a imprescindibilidade do medicamento e a ineficácia dos demais fármacos fornecidos pelo SUS. Agora, no plano de saúde, deve-se observar a relação contratual, então, são menos requisitos e não há a necessidade de um laudo médico demonstrando a imprescindibilidade e a necessidade do tratamento”, esclarece a especialista.

Linha do tempo explica avanços na legislação referente à maconha, com ênfase no uso medicinal

Linha do tempo explica avanços na legislação referente à maconha, com ênfase no uso medicinal

*Reportagem realizada como produto avaliativo da disciplina Jornalismo Especializado I — Jornalismo Informativo do curso de graduação em Jornalismo da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) da Unesp.


메타데이터
post_id
7ec0957b245e
slug
o-fruto-da-flor-7ec0957b245e
url
https://medium.com/@carolinacapucho/o-fruto-da-flor-7ec0957b245e
canonical_url
https://medium.com/@carolinacapucho/o-fruto-da-flor-7ec0957b245e
author_url
https://medium.com/@carolinacapucho
status
ok
fetched_at
2026-07-25 04:43:31