Natureza, homem, Natureza
Crônica sobre o conjunto artístico de Rafael Fioratto.
Natureza, homem, Natureza
Crônica sobre o conjunto artístico de Rafael Fioratto.

Desde os princípios da arte brasileira, a natureza reivindicou um espaço de grande importância. O motivo parece óbvio: o Brasil é uma terra que encanta muito mais pela sua natureza do que pelos seus feitos humanos. Porém, é forçoso dizer que os feitos humanos se põem abaixo desta imponente obra do mundo físico; pois, se há grandiosidade numa Natureza que o homem não construiu, há beleza maior numa Natureza eternizada pelo seus esforços.
Quando, no começo do ano, arrisquei o meu conforto estético — e as minhas posições até então firmadas sobre a pintura — na tentativa de pintar um quadro, percebi o quanto este nobre esforço humano chamado arte requer destreza, habilidade e, apesar de que se diga o contrário, talento nato. A minha busca por um tutor de desenho e pintura acabou descarrilhando no contato quase rotineiro com um artista plástico de verdadeira habilidade. Rafael Fioratto é, desde algum tempo, talvez o principal nome da arte das Agulhas Negras.
Por sábados seguidos passei a frequentar a sua floricultura e, desde então, tenho me envolvido cada vez mais com as artes plásticas. Se o seu trabalho começou com as pequenas telas das paisagens de Paraty (a sua Tribschen pessoal) desenhadas em perspectiva, a incursão pela natureza tropical, como um Rugendas, desertor da Expedição Langsdorff, ou um Thomas Ender, tornou-se a sua temática recorrente. Ontem, na ocasião da primeira tarde de desenhos da Raribu neste ano, pude ver alguns de seus quadros. À primeira vista, o contraste das plantas em acrílica com os fundos opacos verdes e amarelos e a presença de mandalas de contornos fortes saltou à minha vista como uma marca distintiva.

Nas suas pinturas, o que predomina não é a correção do desenho científico, naturalístico, à maneira dos séculos passados, como os desenhos etnográficos de um Albert Eckhout no século XVI, mas as formas simples, baseadas na própria observação, a eminência das cores (tons quentes e terrosos) e das sombras que as intensificam. O estilo das linhas não passa despercebido: os traçados escuros sobre as figuras denotam a meditação sincera e interessada na preservação da cultura étnica dos antigos habitantes da terra.
Se a inspiração primitiva salta aos olhos, não nos passa despercebido o resgate simbólico do modernismo. A imagem que abre esta crônica lembra-nos a exploração tropical do gênio lituano de Lasar Segall no famoso quadro “Bananal” (1927). Porém, em lugar da cabeça do pintor, vemos a helicônia-papagaio — o que denota, novamente, a predominância da flora brasileira na sua interpretação da realidade. As sombras em uma folha de bananeira dobrada introduzem o principal aspecto de realismo; contrastadas com os tons de verde do fundo, as sombras fazem com que as folhas de bananeira se sobressaiam.

É o conhecimento da técnica que distingue o artista experiente do artista amador. O azul das folhas forma, com um pássaro de barriga alaranjada acima, o triângulo do primeiro plano, cuja ponta leva os nossos olhos para a planta que escala o amarelado do céu. A complementaridade, por tabela, do verde e do rosa nas laterais encontram uma receptividade perfeita no azul da folhagem. É uma pintura que me agrada: a combinação das cores de Rafael materializam a minha busca estética pela harmonia. Abaixo do caule e das sombras densas, as mandalas espiritualizam e naturalizam a um só tempo as suas telas.
O seu conjunto de pinturas nos mostra que é possível encontrar a calma de um refúgio para a alma na natureza que nos circunda, com as suas plantas e os seus animais; não é raro vermos os tucanos, as araras e os pássaros que povoam os nossos céus em suas telas. Em par às suas telas de plantas e animais, a sua série de telas com a pintura de melancias e laranjas obteve grande êxito, não apenas artístico, mas financeiro. Aquilo que, na arte acadêmica, daria como tema à naturezas-mortas, na arte de Rafael Fioratto tornou-se um símbolo estético da fertilidade da terra tropical; símbolo estilizado, colorido e bastante requisitado pelo seu público.
Mais do que um Albert Eckhout, que também pintava melancias, ou um Frei Solano, frade que pintava a flora brasileira com um realismo impressionante para o século XVIII, Rafael Fioratto renova a imagem da Natureza através de uma representação única e sintética dos seus elementos vivos, através de uma aplicação pessoal intensa da cor. Isto é, Rafael Fioratto não reproduz, mas recria a natureza que lhe serve de motivo e inspiração.
O detalhe maior é que a atividade deste artista fluminense não termina nas suas telas: a sua atividade no teatro foi, durante certo tempo, uma espécie de vitrine de uma expressão cômica e, por vezes, insatisfeita com a realidade. As apresentações do grupo “Aquarius” levavam ao espectador não apenas uma peça, um drama, mas uma experiência que envolvia e refletia os dramas do público, permitindo ainda que os espectadores dialogassem com os atores da peça. A sua face dramaturga revela-se com um traço que condiz com a sua atividade de artista original, desgarrado dos suportes originais. Francamente, eu não me espantaria se Rafael qualquer dia pensasse em começar a pintar pedras ou geladeiras!
Falar em pedras talvez seja muito excêntrico, pois o artista pôde suprir a sua inquietação num artefato mais clássico e histórico, como a máscara. Ainda que muitas tenham sido confeccionadas para o próprio teatro, há, na produção artesanal de Rafael, máscaras que rememoram o misticismo primitivo. A sua exposição “Xamã”, realizada há algumas décadas, trouxe uma série de máscaras criadas através de uma intuição das formas e do conhecimento etnográfico dos antigos habitantes da terra. Uma segunda exposição de máscaras nasceu tempos depois com o nome de “Aquáticas”. Outros suportes clássicos, como a cerâmica, também foram explorados pelo artista, ainda que as suas peças na área da cerâmica sejam menos conhecidas pelo público.
Um conjunto de obras distintas, porém, não teriam o poder de cansar um artista incansável. O seu trabalho mais recente é a vitalização do futuro centro cultural Raribu, onde acontecerão as suas aulas de desenho, pintura e os encontros dos artistas locais. Quando vi o projeto, não tive outro ímpeto senão o de compará-lo ao Parc Güell, de Gaudí. Os caquinhos de azulejos coloridos que revestirão o piso do centro cultural levaram-me à agitação romântica e cultural de Barcelona. A sensibilidade de Woody Allen (que rodou o seu famoso filme na cidade europeia) invadiu a razão de Rafael, ainda que sem a carga de patrocínio e o aporte financeiro que o cineasta americano recebeu — o que dá ao seu projeto um tom heroico: as circunstâncias adversas normalmente forjam grandes obras, como foi o caso da Casa de Ópera de Sydney, na Austrália.
Futuramente, a agitação solitária dos artistas fluminenses terá um ponto de ancoragem. Estes navios escuros e pesados, que vagueiam pelas águas densas e solitárias das Agulhas Negras, de longe verão o farol gaudiniano e luminoso do centro cultural Raribu, idealização de um artista que, além de se comprovar vasto e inquietante na prática, provou-se solidário e visionário no campo das ideias. No fim de tudo, retomo que, se há grandiosidade numa Natureza que o homem não construiu, há beleza maior numa Natureza eternizada pelo seus esforços — e o esforço de Rafael Fioratto torna a vida e a arte cada dia mais redentora para o sofrimento da nossa espécie.
Pedro Crezano-Ramos
Itatiaia, 29 de março de 2026
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