Entre o glamour e o dano
O que as capas da Vanity Fair revelam sobre glamour, gênero, fadiga do wellness e o deslocamento do debate sobre saúde pública.
Entre o glamour e o dano
O que as capas da Vanity Fair revelam sobre glamour, gênero, fadiga do wellness e o deslocamento do debate sobre saúde pública.
Houve um tempo em que um cigarro numa capa de revista não precisava de justificativa.
Ele não era lido como escândalo, e tampouco como problema sanitário. Funcionava como atalho visual: sofisticação, autonomia, frieza, magnetismo. Nas primeiras décadas do século XX, a fumaça não interrompia a imagem; ela completava a gramática do glamour. A própria história editorial da Vanity Fair ajuda a entender isso. A revista renasce, sob Condé Nast, como uma publicação de sociedade, cultura e estilo, próxima do universo da moda e da alta vida, e suas capas antigas repetidamente oferecem ao leitor um mundo rarefeito, elegante, performático. Não há evidência pública de que cada capa com cigarro tenha sido pensada a partir de uma agenda explícita sobre tabaco; mas o contexto visual da revista sugere que, naquele momento, fumar cabia perfeitamente dentro daquilo que a revista vendia: presença, distinção e modernidade. (Vanity Fair: The Early Years, Vanity Fair shows off its heritage — in pictures)

Isso fica ainda mais claro quando se olha para o imaginário dos anos 1920. A flapper — bob curto, maquiagem marcada, cigarro pendendo dos dedos — tornou-se um dos símbolos mais reconhecíveis da mulher “moderna”. O cigarro ali não era apenas objeto; era performance de liberdade. A Library of Congress descreve a flapper como a nova “it girl” do pós-guerra, uma figura ousada que podia dirigir, votar, beber e fumar. A History.com vai na mesma direção ao lembrar que poucas imagens sintetizam tão bem a década quanto a jovem de cabelo curto com um cigarro nos lábios. Em outras palavras: quando a Vanity Fair publica capas em que fumar aparece como gesto sofisticado, ela não está inventando um código do nada; está condensando um código já socialmente disponível. (Library of Congress, History.com)

Há, porém, uma diferença importante entre reconhecer um código histórico e aceitá-lo como inocente. O cigarro nunca foi culturalmente neutro. Uma revisão publicada na PubMed resume bem esse arco: o tabagismo foi longamente associado a luxo e glamour antes de se tornar, em muitas partes do mundo, um produto indesejado e estigmatizado. Ao longo do século XX, o signo muda de peso. O que antes circulava como imagem aspiracional passa a ser inseparável de outra camada de sentido: dependência, regulação, adoecimento, morte evitável. Essa mudança não aconteceu apenas na ciência ou na política pública; ela atingiu também o imaginário visual. O cigarro deixou de ser um acessório editorial admissível da sofisticação e, em larga medida, saiu de cena. (PubMed: From “glamour” to “stigma”)
E isso importa porque, do ponto de vista factual, a dimensão da saúde nunca deveria ser periférica. A OMS continua descrevendo o tabaco como uma das maiores ameaças à saúde pública global: ele mata mais de 7 milhões de pessoas por ano, inclusive cerca de 1,6 milhão de não fumantes expostos ao fumo passivo. O tabaco mata até metade de seus usuários que não param de fumar. Diante disso, qualquer reaparição glamurizada do cigarro em uma imagem de alta circulação deveria, no mínimo, recolocar a saúde pública no centro da conversa.
É justamente por isso que 2012 é um ponto tão interessante. Quando a Vanity Fair España colocou Sofía Vergara fumando na capa, a reação não ficou restrita à estética. O BMJ Tobacco Control criticou diretamente a imagem e a chamou de “behind the times”, afirmando que a revista parecia ter lido mal o seu tempo ao tentar evocar “old-style glamour”. Esse momento importa porque mostra um estágio em que ainda havia nitidez: glamourizar o cigarro não era tratado apenas como citação retrô ou styling provocativo, mas como uma escolha visual com implicações públicas bastante claras.

Julho de 2012 — capa da Vanity Fair España com Sofía Vergara fumando
A capa de 2012 também ajuda a esclarecer outra camada: gênero. Ao longo da história da Vanity Fair, o cigarro não aparece exclusivamente nas mãos de mulheres: há homens fumando sozinhos e casais fumando juntos nas capas antigas. Mas, nas reaparições recentes que mais mobilizaram debate, quem fuma é uma mulher. Isso não parece acidental. Como observa o Tobacco Tactics, a indústria do tabaco há décadas vende o cigarro às mulheres como linguagem de emancipação e apelo pessoal. Uma análise da UICC é ainda mais explícita ao apontar como glamour, independência e controle do corpo foram usados para construir essa associação. Quando uma imagem contemporânea coloca uma mulher altamente produzida fumando, ela não está apenas citando o passado da moda; ela também toca, conscientemente ou não, nessa longa história de marketing de feminilidade.
Em 2026, porém, a situação já não é a mesma. A capa digital com Kylie Jenner fumando não passou sem crítica. Houve, sim, reações que recolocaram a saúde pública em cena. O The New Daily afirmou que a capa, somada aos cigarros distribuídos na festa do Oscar da Vanity Fair, reacendeu o debate sobre a glamourização do fumo; a ex-editora Jackie Frank descreveu o cigarro como um “glamour prop”; e a matéria disse que especialistas temem uma alta das taxas de tabagismo. Ou seja: a crítica sanitária não desapareceu por completo.

Primavera de 2026 — capa digital da Vanity Fair com Kylie Jenner acendendo um cigarro
Mas ela já não domina a cena.
A cobertura mais ampla e mais viral da mesma imagem deslocou a controvérsia para outros eixos. A Entertainment Weekly destacou que a reação pública se concentrou sobretudo na aparência de Kylie Jenner, em acusações de “blackfishing”, na manipulação visual da imagem e na construção de persona. O cigarro estava lá, visível, calculado, perfeitamente enquadrado. E ainda assim a saúde já não organizava a leitura principal. Isso é o ponto mais inquietante. Não apenas que o cigarro voltou, mas que voltou sem recolocar de maneira dominante o debate sobre dependência, adoecimento e morte evitável.
A própria Vanity Fair oferece pistas sobre o motivo pelo qual a capa foi feita dessa forma. No texto que acompanha a edição, a revista apresenta Kylie em sua “Hollywood era”, quase como uma personagem superproduzida de si mesma, em diálogo com uma cultura de excesso, rebranding e performance. O enquadramento da própria revista não é sanitário nem moral; é estético e cultural. O cigarro volta não como hábito, mas como recurso de mise-en-scène. Ele reaparece como signo condensado de transgressão, luxo, indiferença, coolness — tudo isso embalado para uma nova era de celebridade. (Vanity Fair: Kylie Supreme!)
Esse retorno também parece dialogar com um clima cultural mais amplo. Evitemos chamar isso de “movimento anti-wellness” como se fosse uma escola organizada, mas há sinais claros de fadiga com a lógica da otimização permanente. O The Guardian falou recentemente em “vice-coded aesthetics” para descrever a volta do cigarro como linguagem visual. Já o Global Wellness Summit usou a expressão “over-optimization backlash” para nomear uma reação cultural ao excesso de monitoramento, biohacking e performance de saúde. Nesse contexto, o cigarro pode voltar não porque se tornou menos nocivo. Não se tornou! Mas porque, no plano simbólico, ele funciona como recusa de um ideal de pureza, disciplina e autocorreção sem fim.
Ainda assim, é preciso ser claro: interpretar esse retorno não significa normalizá-lo. O fato de o cigarro voltar como estilo não diminui em nada o seu peso material. E é exatamente aí que o debate falha quando se limita à estética. Se o tabaco continua sendo uma das maiores causas evitáveis de morte no mundo, então a saúde pública não deveria ser uma leitura lateral, nem um parêntese moral no fim da discussão. Ela deveria ser uma das chaves centrais de leitura. Não porque a estética seja irrelevante, mas porque, neste caso, estética e mortalidade não podem ser separadas com tanta facilidade.
Talvez esse seja o ponto final: as capas da Vanity Fair contam menos uma história linear sobre o cigarro e mais uma história sobre a hierarquia da nossa atenção. Nos anos 1920, o cigarro ajudava a encenar modernidade. Em 2012, ainda acionava uma crítica frontal à saúde pública. Em 2026, ele reaparece no meio de uma controvérsia mais dispersa, concorrendo com outras formas de ansiedade visual. O que mudou não foi apenas a imagem. Foi a ordem das urgências. E, quando a saúde deixa de ser central diante de um objeto que mata milhões de pessoas por ano, isso não é um detalhe de recepção. É um sintoma cultural.
메타데이터
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- 2026-07-14 16:16:25