Haiti: onde a colonialidade do poder e o real maravilhoso se encontram
Resumo
Haiti: onde a colonialidade do poder e o real maravilhoso se encontram
Resumo
Este trabalho tem como objetivo elucidar a relação entre a obra O reino deste mundo, publicada em 1949 pelo escritor cubano de origem franco-suíça Alejo Carpentier, e as pesquisas de viés decolonial do sociólogo peruano Aníbal Quijano. A fim de sustentar a compatibilidade entre os objetos de estudo, o artigo propõe uma análise orientada na leitura de referenciais teóricos acerca da chamada “colonialidade do poder”, da constituição do capitalismo eurocentrado e das produções literárias inseridas na categoria de realismo maravilhoso ou fantástico.

Nosso Norte é o Sul
“O que é a história da América toda senão uma crônica do real maravilhoso?” (CARPENTIER, 2009). Considerada uma característica da literatura latino-americana, a corrente literária denominada realismo maravilhoso tem como principais particularidades a junção do universo mágico com a realidade e a criação de um conceito cultural que enfatiza a produção artística também como política.
Inferida como uma afirmação cultural latino-americana, os autores do realismo maravilhoso encaram a realidade relacionada às invenções europeias de modernização, que se deu de maneira desigual na América Latina, modificando apenas uma camada superficial da sociedade e mantendo intactas as estruturas arcaicas de exploração e do poder colonial.
Para representar as contradições e os sincretismos da região, o realismo maravilhoso funde-se com a legitimação da identidade latino-americana, o reconhecimento de sua cultura, modos de vida, língua, costumes e crenças, para além da visão eurocentrista colonialista.
Ao lado de nomes como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Octávio Paz, Alejo Carpentier (1904–1980) é considerado um dos expoentes e organizadores das bases teóricas do realismo maravilhoso. Autor de O reino deste mundo (1949), no qual recria os acontecimentos que precedem a independência haitiana até um Haiti em período republicano pela perspectiva de um ex-escravo; Os passos perdidos (1953), que traça os confrontos entre o europeu e o latino e os impasses entre atraso e modernidade; e Écue-Yamba-ó (1933), narrativa sobre um preto cubano nos primeiros anos do século XX, Carpentier nasceu na Suíça, mas ainda muito novo mudou-se para Havana com seus pais, onde formaria sua identidade e voltaria repetidas vezes, inclusive em apoio à Revolução de Fidel Castro e para ocupar cargos importantes no regime socialista.
Nos primeiros anos da década de 1920, Carpentier encontra no jornalismo um espaço para expor suas ideias até se engajar com publicações sociais e se envolver com o Grupo Minorista, de teor anti imperialista, pela defesa dos valores nacionais da cultura e preocupação com a classe operária e camponesa.

O ano de 1943 seria marcante na sua trajetória como escritor. Ao visitar o Haiti, “se deslumbra com a cultura e o povo, mas também com a natureza e as construções” (MORENO, 2019), principalmente as ruínas da fortaleza do ditador Henri Christophe, que seis anos depois se tornará personagem da obra aqui analisada O reino deste mundo.
Deslocamentos reais também serviram como viagens de descobrimento para Carpentier, desde as que realizou quando criança/adolescente até aquela que serviu de marco principal para a formulação concreta de suas ideias: a realizada em 1943 para o Haiti. Essa viagem exerceu um papel fundamental para a produção carpentieriana e, sem ela, talvez nunca tivéssemos ouvido falar no real maravilhoso da América. É ela que inaugura toda uma nova perspectiva para o projeto literário de Carpentier (MORENO, 2019).
O escritor passaria longos períodos de sua vida em exílio, sobretudo na Espanha, França e Venezuela, e em 1977 seria o primeiro intelectual latino-americano reconhecido com o Prêmio Miguel de Cervantes, doando integralmente o valor recebido ao Partido Comunista. Aos 75 anos, Alejo Carpentier falece em Paris e seu corpo é trasladado para Havana.
O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos do que navegantes
A partir do século XV, com o início das Grandes Navegações e expansões marítimas, a Europa — em especial a Ocidental — toma para si a condição de centro do capitalismo mundial e propagadora da modernidade. O processo de invasão na América mostrou-se violento não somente pelo controle do mercado, mas também pela expropriação da produção de conhecimento das populações que ali viviam.
Os europeus se auto reconheceram como superiores perante os povos latino-americanos — o que posteriormente é espalhado para o resto do mundo — e desenvolveram um traço comum a todos os dominadores coloniais: o etnocentrismo. As colônias europeias na América forneceram-lhe mão de obra, produtos agrícolas, recursos minerais e uma variedade de culturas, as quais a Europa distinguiu como inferior e implantou uma política de encobrimento, que refletem as condições de dependência e o racismo contemporâneos.
Por meio da tríade colonialidade-eurocentrismo-capitalismo, os dominadores europeus associaram o trabalho não pago às novas identidades sociais, elencando indígenas e pretos à servidão e ao trabalho escravo. A este processo, o sociólogo peruano Aníbal Quijano (1928–2018) denominou de “geografia social do capitalismo”.
A classificação racial da população e a velha associação das novas identidades raciais dos colonizados com as formas de controle não pago, não assalariado, do trabalho, desenvolveu entre os europeus a percepção de que o trabalho pago era privilégio dos brancos. Dessa maneira, a Europa e o europeu se constituíram no centro do mundo capitalista (QUIJANO, 2011).
Criador da “Sociedad y política”, revista declaradamente marxista, e baseando-se pelo pressuposto de que não há modernidade sem colonialidade, Quijano percebeu a colonização como um movimento que perpetuava formas de dominação em diferentes sujeitos e, por meio do artigo Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, consolidou-se como um revolucionário das ciências sociais na região.

Quijano aponta para a visão do europeu como o mais novo e mais avançado da espécie, relegando aos demais saberes a mera definição de mágico e mítico, em oposição à ciência como característica da Europa, rejeitando os conteúdos simbólicos, os templos, as cidades, as grandes vias de transporte e os calendários existentes desde muito antes da formação da Europa como identidade.
Mais a frente veremos que o pensamento de Quijano vai de encontro com o processo histórico e colonial da América Latina ao afirmar que as formas de controle de trabalho são não-salariais em benefício do capital global, implicando no caráter colonial das relações de exploração e dominação. O eurocentrismo do capitalismo foi decisivo para o destino diferente da modernidade na Europa e no resto do mundo.
O Haiti para além do que os olhos podem ver
Levada a reproduzir sua economia mercantil em função do mercado mundial, a contribuição da América Latina à acumulação de capital se deu baseada na superexploração dos povos e na produção de demanda em função das exigências dos países avançados.
Neste cenário de colonização de exploração e cultivo de produtos tropicais — que influenciariam no atraso socioeconômico da região nos dias atuais — o fundador de um marxismo autenticamente latino-americano, José Carlos Mariátegui (1894–1930) propunha uma revolução que levasse a sério as especificidades de seu povo, por meio da compreensão da realidade de cada localidade sob perspectiva histórica e indo além de uma mera cópia das revoluções europeias.
O pensador peruano também criticava a incapacidade da burguesia latino-americana de desempenhar qualquer papel revolucionário e seu descomprometimento com as instituições por ela mesmas criadas.
Se no século XX as ideias de Mariátegui de uma América Latina revolucionária e liberta já espantavam a classe dominante, a possibilidade de uma revolução conduzida por escravos no Haiti entre os séculos XVIII e XIX desafiava a imaginação.
Do realismo maravilhoso de Alejo Carpentier à colonialidade do poder de Aníbal Quijano, por dois séculos a antiga Saint-Domingue foi considerada a colônia europeia mais rica do mundo, sem levar em consideração que para a obtenção de tal título mais de meio milhão (GORENDER, 2004) de escravos africanos foram explorados nas plantations açucareiras.
Utilizando-se de documentação histórica, O reino deste mundo acompanha e relata os acontecimentos que inspirariam a eclosão da Revolução Haitiana pelo ponto de vista do escravo Ti Noel, sem deixar de lado as crenças míticas em forças sobrenaturais, a metáfora e a ironia, demonstrando que a verdade europeia nem sempre é, de fato, a verdade.

Por privilegiar a visão de um oprimido, a literatura de Carpentier não mede esforços em ridicularizar e expor o lado violento dos dominadores, presente no cotidiano das fazendas e exercido por meio de castigos corporais, privações e humilhações aos pretos.
Ti Noel acreditou compreender que algo ocorrera na França e que uns senhores muito influentes haviam declarado que se devia dar liberdade aos negros, mas que os ricos proprietários do Cabo, que eram todos uns monarquistas filhos da puta, negavam-se a obedecer (CARPENTIER, pág. 53, 2009).
Em O reino deste mundo, encontramos personagens de figuras reais que participaram do processo de independência haitiana retratadas com elementos de metáfora e misticismo. Líder quilombola, François Mackandal ficou conhecido pela sua expertise no uso de plantas venenosas e pela coragem em utilizá-las contra os senhores de escravos. Também associado com o vodu, Carpentier descreve um dos envenenamentos promovidos por Mackandal como episódios de “terror que continuavam dizimando as famílias, sem que as preces e as promessas aos santos fossem suficientes”. Apesar de descoberto pelos proprietários das fazendas e assassinado, o escravo retornava na forma de iguanas, mariposas, peixes ou cães.
Autoproclamado rei do Haiti, Henri Christophe também integra a obra aqui analisada. O ex-escravo, que participou ativamente da independência de seu país, exala sua personalidade gananciosa tanto na vida real quanto na ficção. Durante seu reinado foram construídos seis castelos, oito palácios e a Cidadela de Laferrière, uma das construções mais imponentes do século XIX. Para Ti Noel, a imagem de Henri Christophe significava a criação de um mundo prodigioso, em que a imagem dos pretos e das pretas não mais era associada unicamente à submissão aos brancos. Ao conhecer seu reinado, o protagonista encontra uma escravidão tão abominável como a que conhecera na fazenda de seu antigo proprietário.
Havia uma infinita miséria em ver-se espancado por um negro, tão negro como os demais, tão beiçudo e acarapinhado, tão nariz largo como os demais; tão igual, tão malnascido, tão marcado a ferro, possivelmente, como os demais (CARPENTIER, pág. 93, 2009).
Utilizando como base a perspectiva dos oprimidos na narrativa de Alejo Carpentier, podemos compreender a tese de Aníbal Quijano ao demonstrar que a ideia de “raça” foi uma maneira dos europeus legitimarem as relações de superioridade e inferioridade. Nas regiões não-europeias o trabalho assalariado concentrava-se exclusivamente entre os brancos, mantendo a distribuição racista do trabalho no capitalismo ao longo de todo o período colonial.
Ao serem vistos como inferiores, os dominados deixam de ser “sujeitos racionais” e passam a ser vistos como meros objetos de estudo, corpos animalizados e domáveis. Podemos observar uma relação da dominação racial com a dominação sexual: as mulheres das então civilizações inferiores são estereotipadas, têm seus corpos comercializados e explorados.

Quijano nos apresenta que as populações colonizadas também tiveram seus conhecimentos, padrões de expressão e subjetividades reprimidos. No caso do Haiti, encontramos diversas tentativas de combater o vodu através do catolicismo, a partir da crença da inferioridade racial dos pretos e na desconstrução da sua identidade. Como descreve Carpentier:
Os escravos tinham, pois, uma religião secreta que os alentava e unia em suas rebeldias. Era possível que, durante anos e anos, tivessem cultivado as práticas dessa religião debaixo de seus narizes, comunicando-se por meio dos tambores usados para as danças, sem que ele o suspeitasse. Mas por acaso uma pessoa culta haveria de se preocupar com as crenças selvagens daqueles que adoravam uma serpente? (CARPENTIER, pág. 63, 2009)
Compreendemos, então, que a colonialidade e a modernidade estão intrinsecamente conectadas como estruturas de poder e de dominação, que se utilizam da discriminação racial, do controle do trabalho e da divisão do conhecimento.
De colônia mais rica a nação mais pobre da América
Se Alejo Carpentier soubesse que a ilha que tanto o impressionou em 1943 se tornou o país mais pobre da América, o que pensaria o escritor sobre o reino deste mundo? Corrupção, violência, fome, sequestros, terremotos, ocupações dos Estados Unidos, ditaduras, assassinatos, dívidas bilionárias. Entra governo, sai governo, e quem paga é o povo haitiano.
Maltratada desde os primórdios da colonização, a ilha caribenha tem sua revolta escrava negligenciada e silenciada. O medo negro espalhou-se pelo subcontinente, chegando até os fazendeiros norte-americanos que temiam pela rebelião e autolibertação de seus cativos. Descrita pelo nosso autor aqui analisado, a independência do Haiti levou muitos proprietários a fugirem para Cuba, que ainda estava sob domínio espanhol. Pela proximidade geográfica, fazendeiros e burocratas cubanos também viriam a sentir medo da revolução, e passaram a importar um número maior de escravos provenientes da África.
Há 218 anos considerada a primeira nação independente da América Latina, o Haiti é também a república de população majoritariamente preta mais antiga do mundo. Ambas nomeações que devem ser encaradas com orgulho. Mas o domínio e a exploração coloniais impostos nesse país trariam reflexos dolorosos até os dias de hoje.
No ano passado, 46% da população haitiana se encontrava em estado de elevada insegurança alimentar (FAO, 2021). Sem ter se recuperado do terremoto de 2010, o país foi vítima de outro desastre natural em 2021. Os índices de desemprego seguem desatualizados desde o início da pandemia.
Se a maioria da população haitiana foi vítima da exploração e do trabalho não pago durante o período colonial, em tempos atuais vemos que o capitalismo se impõe na ilha por meio do neoliberalismo. Trabalho precarizado em pequenos negócios ambulantes, demissão em massa, camponeses expulsos de suas terras e derrota das lutas populares são parte da desumanização do Haiti.
Nos é evidente que a dominação colonial/capitalista/imperialista, mesmo que com outras garras, ainda impera nas nações latino-americanas. Desejamos que a história do Haiti volte a ser permeada por uma sucessão de fatos extraordinários (CARPENTIER, 2009) e que o tempo de deixarmos de ser o que não somos (QUIJANO, 2011) esteja cada vez mais próximo.

*Trabalho entregue para obtenção de certificado em curso de extensão universitária oferecido pela PUC-SP
Referências
AZEVEDO, Wagner Fernandes de. O legado de Aníbal Quijano para o pensamento latino-americano descolonizado. Instituto Humanitas Unisinos, 2018.
BENEVUTO, Silvana. O reino deste mundo. A história do ponto de vista dos oprimidos. Universidade Estadual Paulista, 2004.
CALIL, Gilberto. O marxismo de Mariátegui e a revolução latino-americana: democracia, socialismo e sujeito revolucionário. Universidade Estadual do Oeste do Paraná.
CARPENTIER, Alejo. O reino deste mundo. Martins Fontes. São Paulo, 2009.
FARIAS, Mayara Helenna Veríssimo de. MAIA, Fernando Joaquim Ferreira. Colonialidade do poder: a formação do eurocentrismo como padrão de poder mundial por meio da colonização da América. Universidade Federal da Paraíba, 2019.
GÓIS VIEIRA, Felipe de Paula. Em busca da América: O real maravilhoso como discurso de representação do continente latino-americano. Universidade Federal de Goiás, 2010.
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. Editora Era, 1990.
MORENO, Amanda Brandão Araújo. Das viagens e exílios de Alejo Carpentier. Porto Alegre, 2019.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2011.
SOUZA, Ailton de. América Latina, conceito e identidade: algumas reflexões da história. Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2011.
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