Outono infinito.
Outono infinito. O parque chamado Vida recebe visitantes vinte e quatro horas por dia. E desse parque eu sou uma das muitas árvores que…
Outono infinito.

Outono infinito. O parque chamado Vida recebe visitantes vinte e quatro horas por dia. E desse parque eu sou uma das muitas árvores que aqui cresceram. Sim! Éramos meros caules, alguns até sem folhas. Por sempre ter seu crescimento acelerado, nosso amigo cedro se destacou, com seus trinta metros de fato chama a atenção de todos. E a pinus, então? Ela também conseguiu seu espaço, longos troncos e uma formação pra lá de organizada, naturalmente falando. A seringueira era bem engraçada quando pequena e ninguém dava tanta importância, principalmente alguns estudantes que passeavam pelo parque, mas daí ela cresceu também e os tais estudantes também. Eles precisam muito de borrachas, e adivinha de onde vem a borracha deles? Se você pensou que é do látex da madeira da seringueira, acertou! Eu sempre falava pra ela que ela iria crescer e ser mais que um leve ‘’tronco’’. E a danada cresceu mesmo; suas raízes foram tão ocupacionais que pegaram até meu pequeno espaço. Mas eu sobrevivi; o importante era ver todas elas crescendo e com suas folhas verdes e bonitas. Afinal, somos um conjunto de árvores num parque em exposição para sermos avaliados diariamente, mesmo sem nossa permissão. O que mais nos afeta, além de alguns críticos arrancarem algumas folhas! É o vasto outono, que faz com que obrigatoriamente perdamos nossas folhas, uma por uma. Isso dói, dói muito. Algumas ainda acham que o inverno é o pior; eu, particularmente, não acho, pois desde cedo fui obrigado a me adaptar ao inverno. Mas por que não me adaptei ao outono? Deixa-me ir direto ao assunto. Todas as outras árvores cresceram, tiveram suas folhas, viveram várias primaveras, inúmeros verões, frios invernos e capazes outonos. Eu não! Fui a única árvore que apenas cresceu fisicamente, porém, de todas, meu tronco foi o escolhido para ser amolador de machado, então constantemente estão me presenteando com machadas no meu tronco fraco e pouco regado. Você realmente acha que eu tenho culpa de ser uma árvore, mas não poder ver minhas folhas nascer ou crescer, depois cair e crescer de novo? Acha que queria ter que, por ser a árvore mais estranha, servir como treino para machados, sabendo que a cada machadada uma cicatriz fica em meu tronco? Eu já cansei de perguntar à natureza o porquê de ter nascido assim! Mas não! Nunca tive respostas. O orvalho da manhã estava sempre, sempre comigo; na verdade, eram lágrimas (guarde esse segredo). As pessoas não param para tirar foto comigo no parque, não me admiram; ao contrário, elas passam longe dessa árvore que mais parece viver num outono literal. Eu queria poder dar frutos, mas nunca dei, nem posso! Pois o que me faz frutificar também é impossibilitado, pelo simples fato de fazer parte de mim. As outras árvores se distanciam de mim, por vergonha, por desprezo. Elas têm apenas curiosidade para saber se eu consigo ter alguma folha, ou se eu consigo produzir algum fruto, que, segundo elas, não seja podre. Para não perderem suas reputações, todas se afastam de mim, pois sou a árvore do outono infinito. É assim que funciona aqui no parque. Por vezes cortaram minhas raízes, mas eu tinha outras, aí eu me recuperava, e mesmo sem folhas, frutos ou flores, eu fingia estar em perfeito estado, só pelo meu longo porte físico. No fundo do meu tronco, eu sempre torci para algum lenhador me cortar definitivamente, de uma vez por todas já. Confissões de uma árvore que não pode frutificar.
메타데이터
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