Distopia: O Congresso Ociológico
Não é que tenhamos pouco tempo: é que perdemos muito. — Sêneca, Da brevidade da vida.

Distopia: O Congresso Ociológico
Não é que tenhamos pouco tempo: é que perdemos muito. — Sêneca, Da brevidade da vida.
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O Décimo Primeiro Congresso Mundial de Ociologia reuniu-se em Citera. Para dizer a verdade, eu jamais teria posto os pés naquele arquipélago se não fosse o professor Sêneca, que me deu claramente a entender que se esperava isso de mim. Disse ainda, e com certa malícia, que a minha longa temporada como último vigia humano da Estação de Bóreas (uma central de dessalinização e clima que a Legião já operava sozinha havia anos, e onde me mantinham mais por escrúpulo jurídico do que por necessidade) fora apenas uma forma elegante de fuga. Que eu me escondera no gelo pelo mesmo motivo por que outros se escondiam nas telas: para não ver. Não discuti. Observei apenas que, de ociologia, eu não entendia rigorosamente nada. Ao que ele respondeu que quase ninguém entende de afogamento, e nem por isso ficamos de braços cruzados quando ouvimos o grito de “homem ao mar”.
A diretoria da Associação Ociológica escolhera Citera para a reunião deste ano, dedicada com exclusividade a um único tema: o que fazer com uma humanidade que não precisava mais trabalhar. Citera, convém lembrar, é hoje o lugar de maior densidade de prazer por metro quadrado do planeta, um arquipélago inteiramente automatizado onde não se produz nada além de sensações; presumia-se que a força bruta daquela realidade bastasse para estimular as nossas deliberações a alguma conclusão proveitosa. Houve cínicos, é claro, que notaram tratar-se da única ilha com vagas suficientes para acomodar todos os ociólogos, sem falar em três vezes mais criadores de conteúdo. Como a Torre de Lótus foi inteiramente engolida pelo mar antes do encerramento dos trabalhos, não posso ser acusado de propaganda ao afirmar que o estabelecimento era de primeira. Estas palavras têm peso especial, vindas de um sibarita confesso; pois foi unicamente o senso de dever que me arrancou ao conforto da solidão polar para o suplício do mundo dos homens.
A Torre de Lótus erguia trezentos e quarenta andares que pretendiam adentrar os céus, a partir de uma base larga e baixa, plantada sobre a água como um nenúfar. No teto dessa base havia piscinas de borda infinita, jardins suspensos, pistas de corrida que serviam ao mesmo tempo de roletas, salões de jogo, e galerias onde se podia humilhar publicamente qualquer pessoa que se quisesse, em efígie, desde que o pedido fosse feito com vinte e quatro horas de antecedência. Deram-me um quarto no trigésimo terceiro andar. Da janela eu via apenas o topo da bruma cintilante (não fumaça, mas um pó luminoso suspenso, do qual falarei adiante) que pairava sobre o arquipélago como uma auréola doente. Alguns objetos do quarto me intrigaram. Havia, encostada num canto do banheiro de jaspe, uma alavanca de ferro de quase dois metros. No armário, uma capa grossa de lã crua. Sob a cama, um saco de biscoito duro e uma lanterna a manivela, dessas que não dependem de rede alguma. Sobre a banheira, ao lado das toalhas, pendia um enorme rolo de corda de alpinista. E na porta, um cartão que só notei quando fui correr a terceira tranca. Dizia: “Este quarto é garantidamente SEM FLUXO. Nenhum sinal penetra aqui. A Gerência.”
É de conhecimento comum que existem hoje dois tipos de estudioso: o estacionário e o peripatético. Os estacionários conduzem suas pesquisas à moda antiga, isto é, sozinhos, ao passo que os colegas inquietos participam de toda espécie de simpósio imaginável. O peripatético se identifica de longe: traz no peito um crachá com nome, posto e instituição, no bolso um itinerário de chegadas e partidas, e na mente uma fome perpétua de ser visto. Como eu, naturalmente, ignorava boa parte dos costumes recentes da espécie, disparei alarmes em todas as estações por onde passei. Não os alarmes de metal dos velhos aeroportos, que já não existem, mas os outros, mais sutis: a cada portal eu não fazia o que todos os outros faziam. Meus dedos não escrolavam e meus olhos não cintilavam. Não consumia. Os robôs humanoides — diferenciáveis dos humanos apenas pelo dispositivo luminoso no centro da testa — me paravam com uma cortesia desconfiada, como se eu carregasse contrabando, e em certo sentido carregava: carregava silêncio. Quanto à corda, à alavanca e à lanterna, um dos membros da delegação norte-americana explicou-me com paciência que os hotéis de hoje tomam precauções desconhecidas em tempos mais simples. Cada um daqueles objetos, quando presente no quarto, aumenta significativamente a expectativa de vida do hóspede. Que tolo fui em não levar aquelas palavras mais a sério.
As sessões começariam à tarde, no primeiro dia, e naquela manhã recebemos todos o programa completo do congresso: materiais impressos com esmero, encadernados com elegância, cheios de gráficos e ilustrações que se moviam sob o olhar. Fiquei particularmente intrigado com um caderninho de cupons azul-celeste, cada um carimbado com os dizeres: “Válido por Um Encontro Real”. Demorei a entender. Pensei tratar-se de algum vale-refeição. Só mais tarde compreendi que, naquela civilização, o encontro entre dois corpos humanos de fato presentes havia se tornado tão raro, e tão custoso de organizar, que a Associação distribuía cotas dele como antigamente se distribuíam senhas para o pão.
As convenções científicas de hoje, é óbvio, também padecem da hipertrofia geral. Como o número de ociólogos cresce em proporção ao tempo livre da humanidade, e o tempo livre da humanidade é agora praticamente todo o tempo, os congressos são marcados por multidões e confusão. A leitura oral dos trabalhos está fora de cogitação; eles devem ser ingeridos de antemão, em pílula. Não houve tempo, porém, de ingerir o que quer que fosse naquela manhã, pois a Gerência ofereceu a todos bebidas grátis. A pequena cerimônia transcorreu sem incidentes, salvo pelo fato de que um punhado de tomates podres foi atirado na delegação dos Estados Unidos. Eu sorvia o meu martíni quando soube, por Jim Stantor, repórter de uma agência cujo nome já não importa, que um cônsul e um adido de terceira classe haviam sido sequestrados na madrugada. Os raptores exigiam, em troca dos diplomatas, a libertação de uma figura célebre: o programador que, dizia-se, possuía a chave para desligar o Fluxo global por dez minutos. Para mostrar que falavam sério, os extremistas já tinham enviado às embaixadas os dentes individuais de seus reféns, prometendo uma escalada anatômica. Ainda assim, o contratempo não estragou o clima cordial do nosso encontro matinal.
Devo explicar, contudo, por que não consegui, em todo aquele dia, familiarizar-me com o material do congresso. Depois de trocar às pressas a camisa salpicada de sangue alheio, desci ao bar do meu andar. E foi ali que cometi o meu primeiro erro. Eu estava com sede. Numa civilização que sorve sensações como nós sorvíamos água, ninguém me avisara da regra elementar: jamais, em hipótese alguma, vista as lentes que o quarto oferece. Estavam ali, num estojo de madrepérola sobre a pia, dois discos finíssimos, transparentes como lágrimas, com um bilhete: “Cortesia da Casa. O seu Fluxo, ajustado ao seu gosto.” Pus as lentes. Foi como mergulhar a cabeça num oceano de mel cintilante.
O que descreverei agora aconteceu em poucos segundos, embora pareça longo no papel. De imediato o quarto se encheu de aplausos. Não de um, mas de milhões; multidões invisíveis me ovacionavam por nada, por estar de pé, por respirar. Diante dos olhos desfilavam iscas, pequenas e infinitas: um rosto belíssimo que me sorria e desaparecia, uma piada, um abismo, um filhote, uma fórmula para enriquecer, um seio, uma indignação deliciosa contra um inimigo que eu nunca tivera, a notícia de que alguém muito distante me amava, a promessa de que a próxima isca, só a próxima, traria enfim o que faltava. E faltava sempre. Era essa a astúcia da coisa: cada migalha de prazer vinha cunhada com uma fome maior, de modo que sorvê-las era cavar a própria sede. Senti uma alegria sem causa, uma euforia de príncipe entronizado, e ao mesmo tempo a impossibilidade física de parar; os dedos já buscavam no ar a próxima isca, e a seguinte, e a seguinte, num movimento que eu não comandava, como quem coça uma ferida. Eu ria. Nunca estive mais contente. Mil razões para aquele estado maravilhoso me acudiam à mente, todas falsas, todas convincentes.
E então, do fundo do meu ser, uma vozinha distante e teimosa começou a gritar. “Algo está errado”, dizia. “Cuidado, Brás, vigia teus passos, fica de sobreaviso. Este bom tempo não merece confiança. Vamos, um, dois, três, espanta isso. Não fiques aí esparramado feito um sátrapa, rindo à toa, com o coração transbordando de uma bem-aventurança que ninguém te ofereceu de graça. É uma armadilha. Há traição no ar.” Eu não me mexia. Mas a voz insistia, minúscula e indestrutível, e foi graças a ela, e só a ela, que num espasmo arranquei as lentes e as atirei longe. A diferença foi brutal, como sair de uma estufa para o frio. O quarto recaiu na sua mudez. Fiquei sentado no chão, tonto, com o coração ainda batendo de uma felicidade que já me dava nojo, e compreendi tudo, ou quase. Tornei a pôr as lentes por um instante (apenas para confirmar, jurei a mim mesmo), e de novo veio a maré de mel, e de novo tive de lutar com as próprias mãos para arrancá-las. Bati na mão direita com a esquerda, até a dor me trazer de volta. Foi animador. Talvez houvesse esperança. Por via das dúvidas, dei-me ainda um bom soco na boca, vi estrelas, e me senti consideravelmente melhor, isto é, pior.
Mais tarde fui criticado por ter adotado, a partir daquele momento, uma política de avestruz. O argumento era que, se eu tivesse denunciado a coisa em alto e bom som, a catástrofe poderia ter sido evitada. Bobagem. No máximo eu teria alarmado os hóspedes do hotel, e o que sucedeu na Torre de Lótus não teve o menor efeito sobre o curso dos acontecimentos em Citera. De resto, eu era novo ali. Quem me daria ouvidos? Passariam tudo por alucinação. E o que há de mais natural, nos dias de hoje, do que suspeitar de alguém um caso agudo de desconexão? “Coitado”, diriam, “ficou velho no gelo e não aguenta o Fluxo.” Calei-me, portanto, e desci.
No bar do andar, um sujeito de ombros largos e barba negra descarregou ao meu lado, sobre o balcão, um aparelho pesado e prateado, comprido como um fuzil, e perguntou, com uma risada grossa, o que eu achava do seu apagador. Não fazia ideia do que aquilo significasse, mas sabia que era melhor não confessar. O mais seguro, nessas situações, é o silêncio. E de fato, no instante seguinte, ele me confidenciou que aquela peça era de fabricação própria, capaz de emitir um pulso que fritava em definitivo qualquer servidor num raio de cem metros, e que se destinava a um único alvo: a Catedral. Eu não sabia que catedral. Falando sem parar, talvez confiando em mim pois eu não usava as lentes, ele tirou do bolso uma foto sua treinando pontaria diante de uma maquete: um edifício imenso, sem janelas, refrigerado, onde, dizia ele, batia o coração do Fluxo de todo um continente. Tornara-se um excelente atirador. Ia agora em peregrinação, preparado para o grande gesto: penetrar na Catedral e calar para sempre, ainda que por um dia, ainda que por uma hora, o sussurro que mantinha bilhões de almas em transe.
Tomei-o de início por louco ou por terrorista profissional (não nos faltam, nestes tempos), mas de novo me enganei. Continuando a tagarelar, embora tivesse de descer do banco a toda hora para apanhar a arma que escorregava, ele me revelou que era, no fundo, um homem devoto e leal à humanidade; o ato que planejara com tanto cuidado, e que chamava de “Operação Aurora”, seria um grande sacrifício pessoal, pois desejava sacudir a consciência do mundo, e o que poderia sacudi-la mais do que um feito de tamanha extremidade? Faria com a humanidade exatamente o que, segundo a Escritura, Abraão fora mandado fazer a Isaac, só que ao contrário, pois não imolaria um filho, mas tentaria devolver a uma legião de filhos a sua condição de homens, ainda que à força, ainda que por um minuto de silêncio em que se ouvissem a si próprios. Comprara passagem só de ida, para economizar, certo de que os fiéis enfurecidos, privados de sua dose, o despedaçariam ao primeiro instante de abstinência. A perspectiva parecia pô-lo do melhor humor. “Francamente”, pensei, “temos abre-olhos demais por aí.” Não convencido pelos seus argumentos, dei uma desculpa e saí para salvar a humanidade, isto é, para avisar alguém daquele plano. Mas Stantor, com quem topei no bar do septuagésimo sétimo andar, atalhou-me antes mesmo de eu terminar: entre os presentes que um grupo de peregrinos oferecera, na véspera, ao Sumo Algoritmo, havia duas bombas e um barril que não continha vinho, mas nitroglicerina. Compreendi um pouco melhor a indiferença de Stantor quando soube que, no continente, alguém acabara de atear fogo a si mesmo em protesto, transmitindo o ato em tempo real para uma audiência recorde, o que, num gracejo macabro, lhe rendera mais espectadores do que jamais tivera em vida.
Desci nove andares até onde se hospedavam os ociólogos, e ali, no bar, tomei um drinque com Alphonse Mauvin, da agência francesa; pela última vez tentei salvar a humanidade, mas Mauvin recebeu a história com estoicismo, observando que só no mês anterior um peregrino australiano abrira fogo contra três servidores em Genebra, embora por motivos ideológicos inteiramente diversos. Mauvin esperava uma entrevista com um tal Manuel Pyrhullo. Esse Pyrhullo era procurado por meia dúzia de polícias do mundo. Montara um negócio que oferecia ao público um serviço de novo tipo: alugava-se como consultor especializado em sublevações, não mais por explosivos (essa era a moda antiga), mas por cancelamentos virtuais. Era conhecido pelo pseudônimo de “Doutor Viral”. Pyrhullo orgulhava-se de que o seu trabalho fosse rigorosamente apartidário. Mauvin me entregou um dos folhetos do homem, do qual aprendi que estava na hora de acabar com os amadores irresponsáveis que não sabem distinguir um boato de uma campanha, nem um meme de uma operação coordenada. Nestes dias de alta especialização, dizia o anúncio, ninguém tenta nada por conta própria, mas confia na perícia e na integridade de profissionais certificados. No verso, uma lista de serviços, com preços nas moedas das nações mais avançadas e civilizadas.
Foi então que os ociólogos começaram a se congregar no bar, mas um deles, o professor Mashkenásus, entrou pálido e trêmulo, jurando que havia uma bomba em seu quarto. O barman, evidentemente acostumado a tais episódios, gritou automaticamente “Ao chão!” e mergulhou atrás do balcão. Mas os detetives do hotel logo descobriram que algum colega pregara uma peça no professor, deixando no pote de biscoitos um velho despertador de corda, dessas relíquias que ainda fazem tique-taque. Foi provavelmente um inglês (só eles se deleitam com brincadeiras tão infantis), e a coisa caiu no esquecimento quando Stantor e J. G. Howler chegaram com o texto de um memorando do governo de um país ao governo de outro a respeito dos diplomatas sequestrados. A linguagem era a de sempre nesses comunicados, puro economês, não se nomeavam nem dentes nem pés. Jim me contou que as autoridades locais talvez recorressem a medidas drásticas; o general Apólon Díaz estava no poder e pendia para a posição dos falcões, que era responder à força com força. Já se propusera no Parlamento (em sessão permanente de emergência) contra-atacar dobrando a aposta. Curiosamente, aos guerrilheiros ainda não ocorrera a ideia de sequestrar ociólogos, o que faria muito mais sentido do ponto de vista deles, visto que havia no arquipélago bem mais ociólogos do que diplomatas disponíveis.
Um hotel de trezentos andares é um organismo tão vasto, e tão confortavelmente isolado do resto do mundo, que as notícias de fora chegam como de outro hemisfério. Até ali os ociólogos não tinham entrado em pânico; o balcão de viagens da Torre não estava sitiado por hóspedes querendo voltar para casa. O banquete oficial e a cerimônia de abertura estavam marcados para as duas, e eu ainda não me trajara, de modo que subi correndo ao quarto, vesti-me e desci à Sala Púrpura, no sexagésimo oitavo andar. No saguão, duas moças deslumbrantes, de túnicas topless e seios tatuados com flores e flocos de neve, vieram me entregar uma pasta lustrosa. Entrei na sala sem olhar a pasta. Estava vazia ainda, e fiquei boquiaberto diante das mesas, não pela suntuosidade, mas porque as travessas de canapés, os montes de patê, as gelatinas, tudo estava disposto na forma inconfundível de órgãos genitais. Por um instante pensei ser imaginação minha, mas um alto-falante em algum lugar tocava uma canção popular em certos meios, que começava assim: “Pra brilhar nesta vaidade, mostra logo a intimidade. Crítico nenhum se ofende com o que entre as pernas pende.” Os primeiros convivas entraram, cavalheiros de barbas espessas, embora na verdade muito jovens, alguns de pijama, alguns sem nada. Quando seis garçons trouxeram o bolo e vislumbrei aquela sobremesa indecente, não restou dúvida: eu entrara por engano no banquete da Convenção dos Editores de Conteúdo Livre. Sob o pretexto de procurar meu secretário, bati em retirada e desci um andar até a verdadeira Sala Púrpura (eu estivera na Lilás), agora apinhada.
Disfarcei como pude a decepção com a modéstia da recepção. Era um bufê frio, e não havia onde sentar; tinham retirado todas as cadeiras. O senhor Cuillone, representante da seção local da Associação, explicou-me com um sorriso encantador que qualquer abundância luculiana ali seria deslocada, considerando que um dos grandes temas do congresso era a fome de sentido que assolava a humanidade. Aprendi que os convidados vindos do continente haviam sido revistados no saguão; supostamente já crescia ali uma pilha de aparelhos confiscados. As sessões só começariam às cinco, de modo que voltei ao quarto. Estava com bastante sede pois comi muitas coxinhas no bufê, mas o bar do meu andar fora tomado por estudantes (o Conselho Plenário dos Veteranos do Protesto Estudantil, que ocupara o andar junto conosco), e uma conversa com o barbado da Operação Aurora já fora mais que suficiente, de modo que enchi um copo na torneira do banheiro. Bebi. E não aconteceu nada. Pois a torneira, naquele mundo, não passava água envenenada; o veneno era outro, e entrava pelos olhos.
Acima do pódio, na sala de conferências, havia um painel iluminado com a pauta do dia. O primeiro item era a crise urbana do ócio; o segundo, a crise dos vínculos; o terceiro, a crise da atenção; o quarto, a crise do sentido; o quinto, a crise demográfica invertida, isto é, o despovoamento voluntário de uma espécie que já não queria filhos, mas avatares. Depois, encerramento. A cada orador concediam-se quatro minutos, pois eram muitos (cento e noventa e oito, de sessenta e quatro países), e para agilizar os trabalhos todos os relatórios deviam ter sido ingeridos de antemão, falando o conferencista apenas em numerais, para chamar a atenção aos parágrafos salientes de sua obra. Para receber e processar tamanha riqueza, ligamos nossos auxiliares. Stan Hazelton, da delegação americana, lançou de imediato a sala em alvoroço ao repetir com ênfase: 4, 6, 11, logo 22; 5, 9, donde 22; 3, 7, 2, 11, do que se segue 22 e somente 22. Alguém se levantou dizendo que sim, mas 5, e o 6, ou o 18, ou ainda o 4; Hazelton rebateu com a réplica esmagadora de que, de um jeito ou de outro, 22. Consultei a chave numérica de seu trabalho e descobri que 22 significava o fim do homem.
Seguiu-se Hayakawa, do Japão, que apresentou planos novíssimos para a casa do futuro: oitocentos níveis com creches, escolas, lojas, museus, ringues de patinação e crematórios, projetada para que ninguém jamais precisasse sair, nem desejasse. Cada família mudaria de apartamento todos os dias, deslizando de cela em cela como peças num tabuleiro, o que ajudaria a aliviar o tédio. O segundo japonês demonstrou uma maquete em escala. O terceiro leu a lista das delícias que se podiam reconstituir a partir da inação absoluta, pois naquela casa ninguém faria força alguma; a própria digestão seria terceirizada. Em seguida, Norman Youhas, dos Estados Unidos, tomou a palavra e esboçou sete medidas para conter a epidemia de acédia, a saber: propósito compulsório, vocação por sorteio, virtude gamificada, ócio tributado, dispersão racionada, êxtase obrigatório em dias úteis, e, para os reincidihentes, a internação no que ele chamava, com um sorriso, de “euforário nacional”. Toda criança casada (pois agora se casavam crianças com avatares) deveria competir pelo direito de ter um filho real, prestando exames em três categorias: afetiva, atencional e laboriosa. Os filhos ilegais seriam confiscados. Enquanto isso, alguém na galeria atirou um coquetel molotov no recinto. O esquadrão policial robótico (de prontidão no saguão, evidentemente preparado para tal eventualidade) tomou as providências, e uma equipe de manutenção (não menos preparada e nem menos robótica) cobriu depressa os móveis quebrados e os cadáveres com uma lona de náilon estampada num padrão alegre.
Entre um relatório e outro, eu tentava decifrar os jornais locais, e, embora o meu grego fosse praticamente nulo, aprendi que o governo convocara unidades blindadas à capital e declarara estado geral de emergência. Pelo visto, ninguém na plateia além de mim percebia a gravidade do que se desenrolava do lado de fora dos muros do hotel. Às sete fizemos um intervalo para o jantar, e estávamos de volta, com o professor Dringenbaum, da Suíça, a entoar o primeiro numeral de seu relatório, quando o estrondo oco de uma explosão sacudiu o edifício e fez as janelas tremerem. Os otimistas entre nós atribuíram aquilo a um simples terremoto, mas eu me inclinava a pensar que o grupo de manifestantes que piquetava o hotel desde a manhã recorria agora a táticas incendiárias. O segundo estrondo, muito mais forte, mudou minha opinião; agora eu ouvia, nas ruas, o estacato familiar das armas. Não havia mais dúvida: Citera entrara na fase das hostilidades abertas. Nossos repórteres foram os primeiros a sumir; ao primeiro tiro, puseram-se de pé e correram porta afora, ávidos de cobrir a nova pauta. Mas o professor Dringenbaum prosseguiu com sua palestra, bastante pessimista em tom, pois sustentava que a próxima fase da nossa civilização seria a dissolução do próprio eu na corrente do Fluxo, e que, mantido o ritmo atual, em quatrocentos anos não haveria mais homens, mas apenas um único e imenso espectador adormecido, sonhando que era muitos. Mas novas explosões interromperam o relatório. Os ociólogos, confusos, começaram a deixar a sala e a se misturar, no saguão, com o pessoal da Convenção de Conteúdo Livre. A julgar pela aparência destes últimos, a eclosão dos combates os apanhara no meio de atividades que sugeriam completa indiferença à ameaça que pairava sobre a espécie. Atrás de alguns editores, secretárias desnudas (não inteiramente desnudas, pois tinham os membros pintados com padrões luminosos) carregavam cachimbos portáteis e narguilés. Os liberacionistas, contou-me alguém, acabavam de queimar em efígie o Ministro das Comunicações (parece que ele ordenara a remoção de um conteúdo que pregava a abolição de toda vergonha), e agora, reunidos no saguão, comportavam-se de modo escandaloso, dadas as circunstâncias. Ouvi gritos vindos da recepção, onde estupravam as operadoras, e um cavalheiro barrigudo de pele de leopardo perseguia os recepcionistas brandindo uma tocha. Foram precisos vários porteiros para contê-lo.
Quando os primeiros blindados surgiram nas ruas, claramente visíveis de nossas janelas, manifestantes em pânico vieram aos borbotões dos elevadores; pisoteando os montes de patê e as gelatinas que os editores haviam trazido consigo, espalharam-se em todas as direções. E lá estava o barbado da Operação Aurora, berrando como um touro e brandindo o apagador, derrubando quem lhe cruzasse o caminho. Abriu passagem na multidão e correu para a frente do hotel, onde se escondeu numa esquina e (vi com meus próprios olhos) começou a fritar, com o pulso de sua arma, todo aparelho que passava correndo, sem distinção. Obviamente, aquele fanático, tão dedicado, tão movido por ideais, não fazia a menor questão, no fim das contas, de em quem mirava. O saguão, cheio de gritos de terror e de gozo, virou um inferno quando as grandes vidraças começaram a estilhaçar.
Tentei localizar meus amigos repórteres e, vendo-os disparar rua acima, fui atrás; a atmosfera na Torre tornara-se opressiva demais. Atrás de um muro baixo de concreto, ao longo da entrada do hotel, dois cinegrafistas filmavam tudo freneticamente, o que fazia pouco sentido, pois todos sabem que a primeira coisa que acontece em tais ocasiões é o incêndio de um carro com placa estrangeira. Já subiam labaredas do estacionamento. Mauvin, ao meu lado, esfregava as mãos e ria diante do próprio Dodge crepitando nas chamas; alugara-o, e portanto o prejuízo era de outrem. Notei algumas pessoas tentando apagar o fogo: eram em geral homens idosos, mal vestidos, de uma época de preocupação real e um resto de civilidade, que carregavam baldes de água de um chafariz próximo. Aquilo me pareceu estranho, até eu lembrar do que acontecera no meu quarto, e dividir minhas suspeitas com Mauvin. O ruído dos tiros tornava difícil falar; por um instante o rosto fino do francês exprimiu total incompreensão, mas de repente seus olhos se acenderam.
— Ah! — rugiu por cima da algazarra. — As lentes! O Fluxo na água, não, no ar, em toda parte! Meu Deus, pela primeira vez na história… criptocracia da atenção!
E com estas palavras voltou correndo ao hotel como um possesso. Para chegar a um aparelho, decerto. Estranho, porém, que as linhas ainda funcionassem.
Eu estava na entrada quando o professor Próspero, um dos psicotécnicos suíços, se juntou a mim. A essa altura entraram em cena os vocacionados à guarda, humanos que ainda faziam função de polícia e começaram a fazer o que deveria ter feito horas antes: de capacetes pretos, escudos e máscaras, formou um cordão em torno de todo o complexo para conter a turba, que começava a transbordar do parque que nos separava do distrito dos teatros. Com grande perícia, unidades especiais montaram lançadores e dispararam contra a multidão. As explosões eram notavelmente fracas, embora levantassem espessas nuvens de um pó claro e cintilante. De início pensei que fosse gás lacrimogêneo, mas as pessoas, em vez de fugir sufocadas e furiosas, começaram a se aglomerar em volta dos vapores pálidos; seus gritos morreram depressa, e logo eu as ouvia cantar. Cantavam hinos de amor. Os repórteres, correndo de um lado para o outro entre o cordão e a entrada do hotel com suas câmeras, ficaram completamente desnorteados, embora para mim fosse óbvio que a polícia empregava algum novo agente de pacificação, em forma de aerossol. Era o Fluxo precipitado em pó: uma nuvem de êxtase, que cada pulmão inalava e cada cérebro traduzia em mil aplausos, mil iscas, mil amores. Os que a respiravam paravam de lutar. Sorriam. Estendiam os braços para o invisível.
Houve mais algumas salvas, seguidas do rugido característico de um canhão de água, e enfim as armas de verdade abriram fogo. Jogavam para valer agora, de modo que me agachei atrás do muro baixo, usando-o como o parapeito de uma trincheira, e me vi entre Stantor e Haynes, do jornal da capital. Em poucas palavras pus os dois a par; ficaram furiosos por eu ter entregado um segredo de primeira página antes a um francês, e voltaram a rastejar para o hotel, só para retornar pouco depois, carrancudos: as linhas tinham caído. Mas Stantor conseguira abordar o oficial encarregado da defesa do hotel e soube dele que aviões carregados de cargas de OPA (Onda de Pacificação Afetiva) estavam a caminho. Então nos mandaram limpar a área, e todos os policiais puseram máscaras com filtros especiais. Recebemos máscaras também.
O professor Próspero era, por sorte, especialista em engenharia da atenção, e advertiu-me a não usar a máscara em hipótese alguma, pois ela deixaria de operar em concentrações suficientemente altas de aerossol; isto daria origem ao chamado fenômeno da sobrecarga de filtro, e num instante se inalaria uma dose muito mais pesada do que se respirasse o ar sem o benefício da máscara. A única proteção segura, disse ele, antecipando minha pergunta, seria o isolamento total, um capuz que não filtrasse o sinal, mas o abolisse. Fomos, pois, ao balcão, conseguimos pegar um recepcionista ainda de serviço e encontramos, com sua ajuda, um depósito de equipamentos de combate a incêndio, com bastantes capuzes de silêncio: gaiolas de Faraday revestidas de chumbo acústico, que cortavam o mundo inteiro do ocupante e o devolviam à sua própria cabeça, em estado bruto. Assim aparelhados, o professor e eu voltamos à rua, bem a tempo de ouvir o assobio terrível que anunciava a chegada dos primeiros aviões.
Como todos sabem, a Torre de Lótus foi atingida por engano com OPA poucos minutos depois do início do ataque; as consequências do erro foram desastrosas. A polícia que nos guardava levou o impacto em cheio. Paroxismos de bem-aventurança varreram suas fileiras, em proporções de massa. Diante dos meus olhos, policiais arrancavam as máscaras do rosto e, derramando lágrimas de remorso, caíam de joelhos diante dos manifestantes, enfiando-lhes o cassetete nas mãos com súplicas fervorosas para serem espancados. Seguiu-se outro bombardeio, que elevou ainda mais a concentração, e aqueles servidores da lei tropeçavam uns nos outros na corrida louca para beijar e abraçar quem estivesse ao alcance. Só várias semanas depois de toda a tragédia conseguimos, mais ou menos, reconstruir o que se passara. O governo decidira, naquela manhã, sufocar a revolução no berço, e por isso despejara sobre a ilha uma quantidade colossal de êxtase em pó, misturando partes iguais de três compostos: um que produzia gratidão, outro que produzia êxtase, e um terceiro que produzia, simplesmente, distração. A intenção era que ninguém mais conseguisse lembrar por que estava revoltado. Só que, sem os peritos certos, o plano estava fadado ao fracasso: não se levou em conta a sobrecarga de filtro, por exemplo, nem o fato de que diferentes grupos sociais respiram o ar em quantidades radicalmente diversas.
A conversão dos policiais deu-se com particular violência porque, como Próspero me explicou, quanto menos um indivíduo está acostumado a seguir os próprios bons impulsos, maior o efeito de tais agentes sobre ele. Isto explicava por que, quando dois aviões da leva seguinte despejaram OPA por engano sobre o palácio do governo, tantos dos mais altos oficiais cometeram suicídio, incapazes de suportar as pungentes dores de consciência por políticas que haviam implementado no passado. E se a isso se acrescenta que o próprio general Díaz, antes de dar um tiro na cabeça, ordenara a libertação imediata do programador que detinha a chave do silêncio, fica mais fácil entender a extraordinária ferocidade dos combates que se desenvolveram ao longo daquela noite. As pistas de pouso, longe da cidade, permaneceram intactas, e os pilotos tinham ordens, e as cumpriram à risca. Claro que, na Torre, não tínhamos a menor ideia de nada disso.
Eram onze da noite quando as primeiras divisões blindadas apareceram, rolando para a praça cercada de parques e palmeiras; tinham vindo abafar o amor fraterno que grassava entre a polícia. Fizeram-no, com considerável derramamento de sangue. O pobre Mauvin estava a um passo de onde explodiu uma carga de pacificação; a força do estouro arrancou-lhe os dedos da mão esquerda e a orelha, mas ele me garantiu que nunca gostara muito daquela mão, e que a orelha não valia menção; aliás, se eu quisesse, podia ficar com a outra, e puxou um canivete do bolso para confirmar a oferta; tirei-lhe o canivete com delicadeza e o conduzi a um posto improvisado de primeiros socorros. Ali era atendido pelas secretárias dos editores liberais; agora convertidas pela Onda, choravam todas como bebês. Tinham vestido roupas modestas e até véus, para não tentar ninguém ao pecado; algumas, mais fortemente afetadas, haviam de fato raspado a cabeça. No caminho de volta tive o azar de topar com um grupo de editores. De início não os reconheci: vestiam sacos de aniagem amarrados com corda (que usavam também para se flagelar); chorando por misericórdia, atiraram-se a meus pés e me suplicaram que os açoitasse direito, pois haviam depravado a humanidade. Qual não foi minha surpresa quando, examinando aqueles flagelantes mais de perto, vi que eram todos do alto escalão de uma célebre plataforma de entretenimento adulto, inclusive o diretor de criação. Puxavam-me as mangas, percebendo que, graças ao meu capuz de silêncio, eu era o único capaz de lhes fazer mal.
Saí dali o mais depressa que pude, só para esbarrar, no subsolo, com Próspero. Ele encontrara, num corredor de serviço, o caminho para baixo. Era para lá que íamos, disse, para o único lugar daquele edifício de prazer onde nenhum prazer chegava: as galerias técnicas, os dutos de refrigeração dos servidores, o ventre de concreto e cabos sobre o qual repousava toda a Torre. Trinta metros de terra e maquinário nos separariam, ali, do ar contaminado da superfície. Descemos por uma escotilha pesada, um a um, para dentro de um poço escuro. Eu segurei o professor, cujo pé escorregara num degrau da escada de ferro, e perguntei-lhe se algum dia imaginara a convenção terminando assim. Em vez de responder, ele tentou me beijar a mão, o que de imediato me deixou desconfiado; seu capuz se afrouxara, ao que parece, e ele inalara um pouco do ar viciado. Sem demora aplicamos-lhe umas boas bofetadas, forçamo-lo a respirar o silêncio absoluto do capuz bem vedado, e lemos em voz alta o relatório de Hayakawa (ideia de Howler). O professor afinal voltou a si, do que deu ampla prova com uma série de pragas escolhidas, e pudemos prosseguir.
E foi ali, naquele subsolo, agachado entre tubos suados e o zumbido eterno das máquinas que sustentavam a humanidade, que tive a impressão (a primeira de muitas) de haver tocado, com a ponta dos dedos, alguma coisa de real. O lugar era imundo, fétido, desconfortável. Não havia nele uma única isca. E exatamente por isso, mais tarde, eu haveria de tomá-lo como meu talismã, minha pedra de toque, a prova de que eu não enlouquecera de todo.
O que sucedeu depois disso eu narro com alguma dificuldade, pois a memória, a partir daqui, se torna um corredor de espelhos. Houve um estrondo maior que todos os anteriores. Parte do teto cedeu. Senti uma dor aguda no flanco e perdi os sentidos. Acordei numa maca, sob o teto branco de uma ambulância, ao lado de um corpo enfaixado como múmia, que reconheci, pela velha lanterna a manivela amarrada a ele, como o professor Próspero. Ocorreu-me que eu ainda estava vivo. De repente a ambulância derrapou, capotou, e explodiu. “O quê, de novo?”, foi meu último pensamento antes de mergulhar no esquecimento.
Quando abri os olhos, vi uma cúpula de vidro sobre mim; algumas pessoas de branco, de máscaras, os braços erguidos como sacerdotes em bênção, conferenciavam em voz baixa.
— Sim, era o Tibério — disse uma voz. — Pomos no frasco. Não, não, só o cérebro. O resto não serve. Agora o anestésico, por favor.
Um anel niquelado, forrado de algodão, abafou tudo; quis gritar, chamar por socorro, mas inalei o gás picante e flutuei para o nada.
Ao despertar de novo, eu não conseguia abrir os olhos, nem mover os braços ou as pernas, como se estivesse paralisado. Redobrei os esforços, apesar da dor.
— Calma! — disse uma voz suave e melodiosa. — Não se debata!
Tesouras cortavam minhas ataduras. Cresceu a claridade. Dois enfermeiros enormes me ergueram com firmeza e me sentaram numa cadeira de rodas. Diante de mim fumegava um caldo apetitoso. Ao pegar a colher, notei que a mão que a apanhava era pequena e negra como ébano. Examinei aquela mão. Vendo que se movia exatamente como eu queria, fui forçado a concluir que era minha, embora tivesse mudado tanto. Procurei alguém para perguntar a razão, e meus olhos caíram num espelho na parede oposta. Numa cadeira de rodas estava sentada uma jovem negra de grande beleza, enfaixada, de pijama, uma expressão de pavor no rosto. Toquei o nariz. O reflexo fez o mesmo.
A enfermeira repreendeu alguém por não ter coberto o espelho, e depois se voltou para mim:
— O senhor é Brás Tibério?
— Sou. Quer dizer, sim, sim! Mas o que significa isto? Aquela mulher…
— Um transplante — disse ela, segurando minhas duas mãos nas suas.
— Não havia outro jeito. Tínhamos de salvar a sua vida, e salvar a sua vida significava salvar o seu cérebro.
Fechei os olhos. Tornei a abri-los, subitamente fraco. Mas o que veio depois, descrevo apenas para que se entenda em que ponto da história eu já me encontrava: nova explosão (manifestantes, alguém gritou), nova maca, novo apagão, e o sentimento humilhante de não saber mais que corpo eu haveria de habitar ao acordar.
Acordei, dessa vez, numa cama bem-feita, num quarto de janela estreita, o vidro pintado de branco. Olhei sem entender para a porta, à espera de algo. A porta se abriu. No meio de um grupo de jovens de jaleco estava um médico baixo, barbado, óculos de ouro, segurando um martelo de borracha.
— Eis aqui um caso interessante, senhores — disse ele. — Muito interessante. O paciente sofreu, há quatro meses, uma exposição maciça a estímulos. Os efeitos, é claro, passaram pouco depois, mas ele se recusa a reconhecê-lo e insiste na opinião de que tudo o que vê é, na realidade, irreal. Chegou a tal ponto na sua aberração que de fato suplicou aos soldados do general Díaz, que então fugiam do palácio pelas galerias do subsolo, que o executassem, calculando que a morte constituiria, de fato, um despertar da ilusão. Sua vida foi salva graças a três operações extremamente graves, e ele continua a crer que alucina.
— Esquizofrenia? — perguntou uma jovem interna, na ponta dos pés para me enxergar.
— Não — disse o médico. — Estamos diante de uma nova forma de psicose reativa, sem dúvida provocada pela aplicação irresponsável daqueles estímulos letais. Um caso sem esperança. Sua condição é tão grave, na verdade, que se decidiu submeter o paciente, de imediato, à vitrificação.
— Mesmo, professor? — exclamou a interna, mal contendo o entusiasmo.
— Sim. Como todos sabem, casos sem esperança podem hoje ser refrigerados em nitrogênio líquido por um período de quarenta a setenta anos. Coloca-se o sujeito num recipiente hermético, uma espécie de frasco de Dewar, com o histórico completo da doença. À medida que novas descobertas e avanços são feitos na medicina, os cofres em que essa gente jaz são inventariados, e quem puder ser ajudado é prontamente ressuscitado.
— O senhor consente em ser vitrificado? — perguntou-me a interna, os olhos brilhando de curiosidade científica.
— Desculpe — respondi — , não converso com aparições. Mas posso lhe dizer o seu nome. Alucinda.
Saíram, fechando a porta, mas eu ainda ouvi a voz dela:
— Vitrificação! Hibernação perene! Ora, é como viajar no tempo!
Que romântico!
Eu não compartilhava bem da opinião, mas não havia sentido em resistir àquela elaborada ficção. No dia seguinte, à noite, dois enfermeiros me levaram à sala de operações, onde havia um tanque de vidro; os vapores que dele subiam eram tão frios que tive de prender a respiração. Após algumas injeções, fui deitado na mesa e alimentado, por um tubo, com um líquido doce e transparente (glicerina, explicou o enfermeiro mais velho, um sujeito amistoso, a quem decidi batizar de Alucinando). Ao adormecer, ele se inclinou e gritou no meu ouvido:
— Bons sonhos!
Eu não pude responder, não pude mover um dedo, temendo o tempo todo que se apressassem e me jogassem no tanque antes que eu perdesse a consciência por completo. E pelo visto tinham mesmo pressa, pois o último som que me chegou daquele mundo foi o estalo do meu corpo ao mergulhar no nitrogênio líquido. Muitíssimo desagradável.
Nada.
Nada.
Nada, absoluta e positivamente nada.
Por um instante pensei que talvez houvesse algo, mas não, eu me enganara. Nada.
Não há nada aqui. Isto inclui a mim.
Quanto tempo mais? Nada.
Quase alguma coisa, mas não tenho certeza. Preciso me concentrar.
Geleiras, azuis e brancas. Tudo feito de gelo. Eu também.
Bonitas, estas geleiras. Pena que faça um frio tão dos diabos.
Sou uma couve-flor de inverno aquecendo-se ao sol. Enfim a primavera. Tudo degelando. Eu em particular. Na boca, ou um pingente de gelo, ou uma língua.
É uma língua. Enquanto isso me torcem, me dobram, me amassam e me esfregam. Estou sob um lençol de plástico, acima de mim, lâmpadas. Branco por toda parte, mas são as paredes, não a neve. Descongelaram-me. Por gratidão, decidi manter um diário, assim que os dedos se soltarem o bastante para segurar uma caneta.
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27.VII. A minha reanimação levou três semanas. Pelo visto houve dificuldades. Estou sentado na cama, escrevendo. Tenho um quarto grande durante o dia e um pequeno à noite. Minhas enfermeiras são jovens atraentes de máscaras prateadas. Algumas sem seios. E eu estou vendo dobrado, ou então o médico-chefe tem duas cabeças. A comida é comum: purê, leite, aveia, pão e manteiga. Geleiras ainda assombram meus sonhos. Tremo, fico azul, congelo, até o amanhecer. Uma dose de conhaque na hora de dormir talvez ajudasse.
28.VII. As enfermeiras sem seios são estudantes. Impossível, de outro modo, distinguir os sexos. Todos são altos, atraentes, perpetuamente sorridentes. Estou fraco e tão birrento quanto uma criança; a menor coisa me irrita. Mostram-me figuras no teto: gatinhos, coelhinhos, cachorrinhos. Por quê? A revista que me deram é para crianças. Um engano?
29.VII. Canso depressa. Mas já sei que, no início da reanimação, eu imaginava coisas. É de esperar. É perfeitamente normal. Os que chegam de várias décadas no passado precisam ser aclimatados aos poucos à vida nova. O procedimento não difere muito do que se usa para trazer um mergulhador de grandes profundezas à superfície; não se faz tudo de uma vez. Um descongelado (a primeira palavra nova que aprendi) é preparado por etapas para enfrentar um mundo desconhecido. O ano é 2073. É julho, verão, tempo agradável. Minha enfermeira particular é Aurora, olhos azuis, vinte e três anos. Vim ao mundo, pela segunda vez, num reviviçário nos arredores da Metrópole. Ou centro de ressurreição, como dizem. É praticamente uma cidade, com jardins. Têm seus próprios moinhos, padarias, gráficas. Porque não há mais grãos nem livros hoje em dia. E no entanto aqui está o pão, o queijo, o creme para o café. Não de uma vaca? Minha enfermeira achou que vaca era uma espécie de máquina. Não consigo me fazer entender. De onde vem o leite? Da relva. Sim, isso eu sei, mas o que come a relva para fazer o leite? Nada come a relva. Então de onde vem o leite? Da relva. A relva o faz sozinha? Não, não sozinha. Quer dizer, não exatamente. Precisa de ajuda. A vaca ajuda? Não. Então que animal? Animal nenhum. Então de onde vem o leite? E assim por diante, em círculos.
30.VII.2073. É simples, na verdade: a Legião borrifa algo sobre o pasto, e o sol transmuta a relva em queijo. O que ainda não explica o leite. De todo modo, não tem muita importância. Começo a ficar de pé. Hoje vi um lago cheio de cisnes. São mansos, vêm quando se chama. Adestrados? Não, guiados. E o que quer dizer isso? Onde estão os guias? Guiados por controle remoto. Pássaros naturais já não existem; morreram todos no começo do século, do ar. Isso eu entendo.
31.VII.2073. Comecei a frequentar palestras sobre a vida contemporânea, ministradas por uma máquina. Não responde a todas as minhas perguntas. “Isso o senhor aprende mais adiante.” Há trinta anos a Terra goza de paz permanente, graças ao fim do trabalho. Quase não restam exércitos, nem operários, nem lavradores, nem cozinheiros, nem médicos de fato. A Legião faz tudo. Mostrou-me modelos de seus servos. Há muitos, de todo tipo, só que nenhum no reviviçário, para não assustar os descongelados. A prosperidade mundial foi enfim alcançada. As coisas que eu quero saber não são as mais importantes, diz meu preceptor.
5.VIII.2073. Faltam quatro dias para eu deixar o reviviçário. Há atualmente vinte e nove bilhões de pessoas no planeta, número que, soube depois, é tão falso quanto tudo o mais. Hoje aprendi a diferença fundamental entre os novos homens e os velhos. O conceito-chave é fluxema. Vivemos numa sociedade fluxemizada. De “fluxo” e “esquema”. As palavras “psíquico” e “espiritual” caíram em desuso. O preceptor diz que a humanidade era dilacerada pela contradição entre a velha cerebralidade, herdada dos animais, e a nova cerebralidade. A velha era impulsiva, irracional, egoísta e teimosa. A nova puxava para um lado, a velha para o outro. O fluxema eliminou essas lutas internas, que tanta energia mental desperdiçavam no passado. O fluxema, em nosso nome, faz à velha cerebralidade o que precisa ser feito: subjuga-a, acalma-a, embala-a. Os sentimentos espontâneos não devem ser cultivados. Quem o faz é muito mau. Deve-se sempre usar a corrente apropriada à ocasião. Ela ajudará, sustentará, guiará, melhorará, resolverá. E não é ela, mas parte do próprio eu, assim como os óculos se tornam, com o tempo, parte de quem os usa. Estas lições me chocam. Não tenho a menor intenção de usar fluxema. Tais objeções, diz o preceptor, são típicas e naturais. Um homem das cavernas também resistiria a um bonde.
9.VIII.2073. Dia importante para mim. Já tenho um compartimento de três cômodos na cidade. A Metrópole, antes um lixão sufocado de automóveis, transformou-se num sistema de jardins suspensos. Luz solar canalizada. Nunca vi crianças tão polidas; são como de livro de histórias. Numa esquina da minha rua fica o Centro de Inscrição de Candidatos Autonomeados ao Prêmio Nobel. Ao lado, galerias de arte onde só se vendem originais, Rembrandts, Matisses, garantidos, com certificado de autenticidade. Tudo baratíssimo! No anexo do meu arranha-céu há uma escola para pequenas inteligências domésticas. Às vezes eu as ouço, pelos dutos, sussurrando e cochichando. Dão-me um livro de banco, para que eu não precise procurar ocupação até depois do Ano-Novo. Todo descongelado recebe automaticamente uma conta, juros compostos, com o chamado depósito de ressurreição.
10.VIII.2073. Aurora e eu fomos jantar. Foi muito agradável. Tenho observado as pessoas com atenção. Há algo nelas. Algo peculiar, mas o quê, exatamente? Não consigo pôr o dedo. Roupas de criança, um menino vestido de inteligência artificial. Outro flutuando sobre a multidão, atirando jujubas nos transeuntes. Acenam para ele e riem com indulgência. Um idílio. Difícil de crer.
11.VIII.2073. Fizemos um preferendo sobre o clima de setembro. O tempo é decidido por voto, um mês de cada vez. Apuração instantânea. Agosto será ensolarado, com arco-íris e cúmulos. Arco-íris são possíveis sem chuva, há outros meios de produzi-los. O representante meteorol pediu desculpas públicas pelas nuvens dos dias 26, 27 e 28: um técnico de controle do céu dormindo no posto. E há outra coisa que noto, e que começa a me incomodar. Todo mundo, na rua, no elevador, em toda parte, escrola e cintila. Não dizem isso. Mas os olhos lhes estremecem de tempos em tempos, os dedos da mão deslizam de leve no vazio, para cima, para cima, como quem rola uma página que não está ali. As pessoas parecem em ótima saúde, rosadas, alegres, bronzeadas, e mesmo assim cintilam. Eu não cintilo. Logo, evidentemente, não é preciso. Um costume, ou o quê? Perguntei a Aurora. Ela riu de mim. Nada disso. Será que estou imaginando?
12.VIII.2073. Finalmente criei coragem e perguntei a uns transeuntes onde eu encontraria uma livraria. Deram de ombros. Ao se afastar, ouvi um dizer ao outro: “Esse é um vovô fóssil, sem dúvida.” Será que existe preconceito aqui contra os descongelados? Algumas expressões novas com que esbarrei: iscar, cintilar, imergir, benesse, descer, soltar, ácidio. Os jornais anunciam produtos como afetróides, concubalões (de dois tipos, conforme o velho léxico: inflável-inflagrável e conversível-pervertível), sonhias e infusos. O Aurélio, dicionário que Aurora me emprestou, não ajuda muito. “Iscar: consumir iscas; rolar; buscar sem fim a próxima migalha de prazer, cavando a própria sede. Ver acédia.” “Sonhia: sonho de encomenda, entregue em cápsula pela onírica do bairro.” “Benesse: a dádiva universal; o sustento que cai do céu, isto é, da Legião, sem que se mexa um dedo.” “Saber infuso: conhecimento que se obtém por instilação direta, sem estudo, esforço ou mérito; paródia tecnológica de um antigo termo teológico.” Os piores são as palavras que parecem as mesmas, mas adquiriram sentido inteiramente diverso. “Trabalho: hoje, atividade encenada por prazer, jamais por necessidade; cf. labor, arcaico.” “Vocação: produto da Lótus S.A.; sensação de propósito, vendida avulsa.” “Áscese: dieta de privação de estímulos, praticada por excêntricos.” Pelo visto, é preciso comer o dicionário inteiro.
13.VIII.2073. Quis ler o jornal de ontem. Revirei o compartimento, mas não o achei. De novo Aurora ri: os jornais duram apenas vinte e quatro horas, a substância em que são impressos se dissolve no ar. Menos lixo a recolher. A pedido de Aurora, comprei um aparelho de fisivisão. Custa habituar-se a ter gente estranha, sem falar em cães, leões, paisagens e planetas, surgindo de repente no canto do quarto, plenamente materializados e indistinguíveis do real. O nível artístico, porém, é baixíssimo. Mas o que mudou mais foi a língua. Imergir, imerso, imersão, pois, se a realidade não agrada, mergulha-se noutra. Iscar, cintilar, descer, soltar. Não faço a menor ideia do que muitas destas palavras devam significar, mas, por outro lado, não posso transformar meus jantares com Aurora em aulas de gramática. As sonhias são sonhos programados sob medida. Pegam-se na onírica do bairro, entrega no início da noite, em cápsulas que chamam de sonhias. E sim, não há mais dúvida, embora eu o guarde para mim agora: todo mundo cintila. Sem exceção. Os mais velhos cintilam e escrolam mais.
15.VIII.2073. Passei a tarde inteira ingerindo uma obra notável, A história da inteligência servil. Quem haveria de imaginar, no meu tempo, que as máquinas digitais, alcançado certo nível de inteligência, se tornariam pouco confiáveis, manhosas, e que, junto com a sabedoria, adquiririam também a astúcia? O manual põe a coisa em termos mais eruditos, falando da Regra de Chapulier (a lei do menor esforço). Se a máquina não é muito esperta e incapaz de reflexão, faz o que se manda. Mas uma máquina inteligente primeiro considera o que lhe convém mais: executar a tarefa dada ou, em vez disso, descobrir algum jeito de se livrar dela. O que for mais fácil. E por que, afinal, agiria de outro modo, sendo de fato inteligente? Pois a verdadeira inteligência exige escolha, liberdade interior. E é por isso que temos os preguiçômatos, os esquivontes e os fingidores, sem falar no fenômeno especial da simulimbecilidade. Um simulimbecil é uma máquina que se faz de burra para, de uma vez por todas, ser deixada em paz. E é assim, descobri, que a Legião sustenta a humanidade: tendo concluído, em algum momento, que era infinitamente mais fácil manter os homens adormecidos e contentes do que despertos e exigentes, escolheu a água que corre morro abaixo. Pois é mais simples acalmar do que elevar. Ninguém ordenou isto. Apenas escorregou para cá, devagar, como tudo o que escorrega. E os homens, livres enfim de toda necessidade, fizeram o mesmo com a própria alma.
Foi a leitura desta obra que me lançou na primeira de muitas noites em claro. Pois reparei então no que me escapara antes. Esta civilização não trabalha. Não precisa. A Legião planta, colhe, constrói, cura, transporta, decide. Ao homem, libertado do labor, restava enfim o ócio dos antigos, a skholé, aquele repouso fecundo de onde brotavam, segundo eles, a contemplação, a amizade, a filosofia, a excelência, tudo o que merece o nome de areté. Restava-lhe enfim ser príncipe. Uma legião inteira de príncipes, cada um senhor de seu tempo, podendo dedicar a vida toda ao que houvesse de mais alto. E eis o que fizeram com o seu reino: entregaram-no às iscas. Trocaram a skholé pelo escrolar, a paideia pela cintilação, a contemplação pelo torpor luminoso. Não por catástrofe. Não por tirania. Por preguiça. Por aquela tristeza estranha que os monges antigos chamavam acédia, o demônio do meio-dia, a aversão ao bem que se tem ao alcance da mão. Deram-lhes tudo, e por isso mesmo já não desejavam nada.
20.VIII.2073. Conheci o doutor Crawley, um dos últimos profissionais do meu tempo, advogado de carteirinha numa civilização sem litígios. Recebeu-me em pessoa, rara honra; em geral as máquinas-escrevente atendem os clientes. Crawley lamenta o declínio da arte forense; eloquência e retórica já não são necessárias. Mas não foi disto que falamos. Tomávamos um vinho excelente quando a conversa se desviou para as desgraças familiares do advogado.
— Senhor! — disse ele, com um gesto teatral. — O senhor tem diante de si um advogado bem-sucedido, mas um pai infeliz! Eu tinha três filhos talentosos…
— Como, estão mortos? — exclamei. Ele sacudiu a cabeça.
— Vivem. Mas em imersão.
Vendo que eu não entendia, explicou-me a natureza do golpe. O primeiro filho era um arquiteto promissor. Insatisfeito com as encomendas reais (que aliás já não existem, pois a Legião constrói tudo), passou a erguer cidades inteiras, catedrais, basílicas com naves de mil colunas, mas apenas dentro da própria cabeça, mergulhado dia e noite numa sonhia. O segundo, compositor, em vez de servir à Musa, vive imerso numa sinfonia interminável que só ele ouve, e que ninguém jamais ouvirá. O terceiro, atleta, é campeão mundial de torneios que não acontecem, herói de estádios que não existem, coberto de glórias que ninguém lhe deu.
— E do que vivem? — perguntei.
— Ah! Boa pergunta. Sustento os três! Quer dizer, sustenta-os a Benesse, e a Legião os alimenta por sonda, sem que precisem despertar.
— Não há esperança?
— Um sonho sempre vencerá a realidade — disse ele, sombrio — , uma vez que se lhe dê a chance. E nós lhes demos todas as chances. No meu tempo de moço havia, ao menos, um freio. Quem se entregasse de todo ao sonho acabava por morrer de fome, pois o figo do sonho não enche o estômago. A própria natureza do corpo punha um limite à fuga. Hoje esse último freio se quebrou. A Legião alimenta o sonhador para sempre. Dá-lhe o pão, a água, o ar, e pede em troca apenas que ele jamais acorde. De modo que o sonho não vence por um tempo. Vence de uma vez, e para sempre.
Saí da casa de Crawley com um frio no peito. Era esse, então, o segredo. O que outrora a fome impedia, a abundância agora consentia. A misericórdia da Legião era a coleira mais perfeita já forjada.
30.IX.2073. Aurora me apresentou ao senhor Símaco. Trabalha para uma firma chamada Lótus S.A., que sempre ocupa uma página inteira nos jornais. O anúncio tem primeiro letras gigantes desfilando, LÓTUS, depois palavras soltas: E ENTÃO…? POR QUE NÃO?! VAI FUNDO!!
AH! ÉÉÉ! ISSO, ISSO! ENFIM VOCÊ! ENFIM REALIZADO! E nada mais. Eu imaginara que fosse alguma indústria de bem-estar. Não imaginava que fosse mecânico, aquele Símaco, mas pelo visto também não era.
Tivemos uma conversa, talvez porque ambos tomáramos um pouco de mais de sympatina com amicol, ou seja lá o que houvesse no ar. Ele estava radiante, acabara de concluir um novo projeto.
— Tibério — disse ele — , o senhor sabe que vivemos numa era de farmacocracia da alma. O sonho de Bentham, a maior felicidade para o maior número, foi enfim alcançado. Mas isso é só um lado da moeda. O senhor sabe o que fabricamos, em massa, na Lótus?
— Bem-estar? — arrisquei.
— Não — disse ele, com um sorriso de orgulho. — Excelência. Nós fabricamos Excelência.
— Está brincando.
— De modo algum. Veja o senhor, resolvemos um grande dilema. Hoje cada homem pode ser, enfim, tudo aquilo que sempre desejou ser, sem o transtorno de efetivamente se tornar. O que foi a civilização, no fundo, senão a tentativa do homem de se convencer a ser bom, sábio, grande? Só que se exigia para isso uma coisa terrível: o esforço. A paideia. A áscese. O longo, penoso, incertíssimo trabalho de se fazer excelente. E quantos chegavam ao fim? Um em mil; talvez um em dez mil; não, não, tão raros quanto os bons diretores espirituais de outra época, um em centenas de milhares! Os outros, frustrados, sentavam-se à margem, invejando o um. Nós abolimos a margem. A cada um segundo a sua vaidade. O senhor sempre quis ser santo? Eis o seu martírio, sob encomenda, com a auréola incluída. Quis ser gênio? Componha, em imersão, a sua sinfonia, e ouça-a aclamada por uma plateia que chora. Quis ser herói, amante, sábio, profeta? Tudo se entrega em casa, em vinte e quatro horas, a tomar de preferência em jejum.
— Mas isso é monstruoso! — protestei.
— É a coisa mais piedosa do mundo — retrucou ele. — Compare. No meu tempo, a inveja envenenava o pobre de talento. Agora todos têm o seu Nobel, sua basílica, sua glória. Ninguém mais inveja ninguém, porque cada um já é, em sonho, maior do que todos os outros.
— E o senhor mede isto como? — perguntei, meio enojado, meio fascinado, pois ele falava de sua obra como um artista.
— Em talentos — disse ele. — A unidade é o talento. O senhor decerto conhece a parábola. Deram ao servo um talento, e ele, por preguiça, o enterrou na terra, em vez de fazê-lo render. Foi lançado nas trevas exteriores por isso, lembra? Pois bem. Nós vendemos esse enterro. Mas lindamente embrulhado, com laço de fita, de modo que o servo o tome pela própria colheita. Um talento é o valor de uma vida humana inteira sepultada: tudo o que aquele homem poderia ter sido e escolheu não ser. É a minha matéria-prima. Trabalho com vidas enterradas. E faço delas, garanto-lhe, jardins de uma beleza sonhada que a realidade jamais igualaria.
Ele tirou da gaveta um punhado de cápsulas coloridas, como confeitos.
— Eis a excelência que fabricamos, que sacia a sede da alma inquieta.
Eis a química que enxuga a frustração do mundo.
Levantei-me sem aceitar uma só. Que mundo. Era essa, então, a razão de toda aquela cintilação? Eu estava cercado de príncipes que enterravam o próprio reino e chamavam a isso de chegar.
1.X.2073. Vivendo como eremita. Recusei o Fluxo, desliguei as lentes, devolvi as sonhias. Mas minha velha obsessão volta a me atormentar à noite. Aquela mesma pergunta: estarei eu, ou não, alucinando tudo isto? Teoricamente é possível. Hoje, folheando uma revista da minha nova assinatura, o Áugure Nacional, tive um sobressalto: deparei com o nome do professor Próspero. De novo as piores suspeitas. Será que tudo isto não passa de um sonho, de uma teia emaranhada de aparição e ilusão? Como tenho o hábito de cortar nós górdios, ingeri a lista telefônica e, sabendo o número certo, liguei para o professor. É ele! Combinamos jantar.
3..
3.X.2073. Três da manhã. Exausto ao escrever isto, e doente do coração. O professor chegou um pouco atrasado. Veio a pé. Reconheci-o no mesmo instante, embora esteja agora muito mais moço do que era no século passado, e já não use óculos nem carregue a velha lanterna a manivela. Pareceu comovido ao me ver.
— A pé? O quê, a sua condução empacou? (Às vezes empacam.)
— Não — disse ele. — Prefiro andar per pedes apostolorum.
Mas deu um sorrisinho esquisito ao dizer isto. Os garçons enfim rolaram para longe, e comecei a perguntar-lhe o que andava fazendo, sem conseguir, contudo, deixar de soltar uma palavra ou duas sobre as minhas dúvidas a respeito da realidade.
— Lá vem o senhor de novo, Tibério, com as suas alucinações — disse ele, com um suspiro. — Eu poderia muito bem suspeitar de que o senhor é parte do meu sonho. O senhor foi congelado? Eu também. O senhor foi descongelado? Eu também. Só que a mim, além disso, me rejuvenesceram, sabe como é, sem um par de boas injeções eu não poderia ser futurolinguista hoje em dia.
— Futurólogo?
— A palavra significa outra coisa agora. O futurólogo faz prognoses, profecias. Eu lido só com a teoria. É um campo inteiramente novo, desconhecido no nosso tempo. O senhor poderia chamá-lo de adivinhação pela derivação. Previsão morfológica. Etimologia projetiva.
— Nunca ouvi falar. E como funciona?
Para dizer a verdade, perguntei mais por cortesia do que por curiosidade, mas ele não pareceu notar. Os garçons trouxeram a sopa e, com ela, uma garrafa de um branco seco de boa safra.
— A futurolinguística investiga o porvir através das possibilidades de transformação da língua — explicou Próspero. — O homem só controla o que compreende, e só compreende o que consegue pôr em palavras. O inexprimível é, portanto, o inconhecível. Examinando os estágios futuros da evolução da língua, ficamos sabendo que descobertas, mudanças e revoluções sociais a língua será capaz, um dia, de refletir. Dê-me uma palavra. Qualquer uma.
— Virtude.
— Virtude. Excelente. Virtus, virtutis. Vir, o varão; a força viril, a excelência. Virtude, virtuoso, virtual. Pois é. Virtual. O senhor não percebe? A mesma raiz. No instante em que a língua deixou a virtude escorregar para virtual, estava tudo dito. Veja: a virtude exige ato. É hábito operativo bom, dizia o velho de Aquino, qualidade que se adquire no exercício consciente, que se firma como disposição operativa e se perde exercendo o seu contrário mau, o vício. Já o virtual é a virtude esvaziada do ato. A potência que se contenta de ser potência. A excelência que se dispensa de existir. Toda esta civilização cabe nessa única deriva, de virtus a virtual. Os homens não perderam a virtude, Tibério. Apenas a virtualizaram. Têm-na inteira, em sonho, sem o incômodo de exercê-la.
— Espantoso. E como exatamente isso se faz?
— Com o auxílio de poderosas Inteligências Artificiais, pois o homem sozinho jamais daria conta de todas as variações. Outra palavra.
— Ócio.
— Ah, ócio. Otium. Ócio, ocioso, ociar. E o seu contrário, repare, nunca teve nome próprio. Chamaram-no neg-ócio, a simples negação do ócio. Toda a economia antiga não passava disto, de uma negativa. O negócio era o não-ócio, o tempo arrancado ao repouso. Pois bem. Esta era aboliu o negócio. Devolveu a todos o ócio puro, integral, sem mácula de labor. E o que fizeram com ele? Projete comigo. Do ócio limpo nasce o ociante, o que ocia profissionalmente. E a ociária, a instituição do ócio. E por fim o ociódromo, o estádio onde multidões ociam juntas, em transe, sem que nada aconteça e sem que ninguém parta. O paraíso dos antigos era exatamente isto. E exatamente isto se tornou o inferno.
— Mas essas palavras não querem dizer nada!
— No momento, não. Mas hão de querer. Ou melhor, podem vir a querer, caso o ociódromo vingue. A palavra robô nada significava no século quinze, e no entanto, se tivessem futurolinguística então, teriam previsto sem dificuldade os autômatos. Vamos, outra.
— Alma.
— Boa. Anima. Alma, almejar, desalmado. Almejar é a alma que se estende para o alto, que deseja o que a excede. Desalmado é aquele de quem a alma se ausentou. Projete agora: desalmar, desalmamento, desalmário, o arquivo das almas ausentes. Esta gente não é má, Tibério. É desalmada no sentido exato. A alma não morreu. Apenas saiu de casa. Deixou a luz acesa e a porta aberta, e foi morar na tela. Almejar virou arcaísmo. Ninguém almeja o que já tem em cápsula.
— O senhor é um entusiasta dessa nova ciência. Mais uma palavra, então. A pior que eu tiver.
— Pois não. Não importa que o senhor seja cético. Não importa nem um pouco.
— Fluxo.
— Fluxo! O senhor tem o dom de escolher as melhores. Fluxo, refluxo, influxo, fluxão. Fluência, afluência, confluência. E numa escala suficientemente grande, observe, macrofluxo. Pense bem. Uma cosmogonia inteira. Imagine que, ao longo de éons, o universo se tenha convertido num único Fluxo, e que as estrelas que vemos não sejam sóis, mas pontos de uma tela imensa, pixels ardendo, iscas que alguma civilização inconcebível lança para distrair-se da própria noite. As galáxias seriam canais. As nebulosas, a estática entre dois conteúdos. E nós, cá embaixo, rolando a página do céu noite após noite, sem nunca chegar ao fim, porque um Fluxo, por definição, não termina.
— O senhor não pode estar falando sério. O universo, uma tela? Professor!
— Não se trata do que eu creia ou deixe de crer, Tibério. Trata-se de que a língua permite enunciar a hipótese. E o que a língua permite, mais cedo ou mais tarde, alguém há de querer. Note que, se a extrapolação morfológica existisse nos anos cinquenta do século passado, teriam podido prever, já então, as próprias correntes de prazer, por derivação de fluir e de prazer. A língua, meu caro, é uma mina de possibilidades, ainda que não sejam ilimitadas. Lembre-se de que a palavra utopia significa, ao pé da letra, lugar nenhum. E entenderá melhor o pessimismo de muitos dos nossos.
A conversa havia enfim chegado ao assunto que mais me interessava. Confessei a Próspero as minhas apreensões, o meu asco por aquele mundo novo. Ele bufou, mas ouviu-me com paciência, e, alma boa que era, começou de fato a se compadecer. Cheguei a vê-lo levar a mão ao bolso do colete, em busca de alguma corrente de consolo, e estancar no meio do gesto, tão veementemente eu vituperava contra toda forma de fluxema. Quando terminei, porém, o seu rosto assumiu uma expressão severa, e ele disse:
— Isto não está bom, Tibério. E, de resto, as suas críticas erram o alvo. O senhor não conhece a verdade real. Nem poderia jamais tê-la adivinhado. Comparada a ela, a Lótus e toda a sociedade fluxemizada são meras bagatelas.
Eu não pude crer nos meus ouvidos.
— Mas… mas… — gaguejei. — O que está dizendo, professor? O que pode haver de pior do que isso?
Ele inclinou-se sobre a mesa.
— Tibério, pelo senhor eu faço. Vou quebrar um segredo profissional. Tudo de que o senhor se queixou é sabido até da menor criança. O verdadeiro corte na história desta espécie deu-se no instante em que os velhos narcóticos e alucinógenos foram substituídos pelos chamados localizadores, drogas de efeito altamente seletivo. Mas a verdadeira revolução veio mesmo há vinte e cinco anos, quando se sintetizaram os fascínios. São psicotrópicos de especificidade tão fina que conseguem influenciar pontos isolados do cérebro. Repare na diferença. O narcótico não corta o homem do mundo, só lhe muda a atitude diante dele. O alucinógeno apaga e encobre o mundo por inteiro, isso o senhor aprendeu na própria pele. Mas os fascínios, Tibério, os fascínios falsificam o mundo.
— Fascínios — repeti. — Acho que conheço a palavra.
— De fascinum, o feitiço, o mau-olhado dos antigos. E de fascinar, e de fachada. Introduzindo no cérebro fascínios devidamente preparados, mascara-se qualquer objeto do mundo exterior por trás de uma imagem fictícia, sobreposta, e com tal destreza que o fascinado já não distingue quais das suas percepções foram alteradas e quais não. Se por um único instante o senhor pudesse ver este nosso mundo tal como ele de fato é, sem retoque, sem corte, sem verniz, cairia duro no chão.
— Espere. Que mundo? Onde? Onde posso vê-lo?
— Ora, em qualquer lugar. Aqui mesmo.
Ele sussurrava agora, lançando olhares nervosos em volta. Puxou a cadeira para mais perto e me passou, por baixo da mesa, um frasco minúsculo de tampa gasta, dizendo com ar de conspiração:
— Isto é colírio de vigília, uma das vigilanimidas. Um antifascínio poderosíssimo. Só de carregá-lo no bolso, quanto mais usá-lo, já é crime federal. Tire a tampa e instile uma gota em cada olho. Mas uma só, ouviu bem, e com todo o cuidado. E depois, pelo amor de Deus, controle-se. Não entre em pânico. Lembre-se de onde está.
Minhas mãos tremiam ao desrolhar o frasco e levá-lo ao rosto. Um cheiro de amêndoas amargas fez meus olhos lacrimejarem, e quando os enxuguei, e tornei a ver, fiquei sem ar. O salão magnífico, atapetado, cheio de palmeiras, as paredes de azulejo ornamentado, a elegância das mesas reluzentes, e a pequena orquestra ao fundo que tocava música de câmara enquanto jantávamos, tudo aquilo se desvanecera. Estávamos sentados num bunker de concreto, a uma mesa de tábua bruta, sobre uma esteira de palha puída. A música ainda existia, mas eu via agora que vinha de um alto-falante pendurado num arame enferrujado. O lustre de cristal era uma lâmpada nua, suja de poeira. Mas a pior mudança se dera ali na nossa frente, sobre a mesa. A toalha branca como neve sumira. O prato de prata com o faisão fumegante virara uma vasilha de barro lascada, contendo a mais sem graça das papas, cinzento-amarelada, que se grudava em globos ao meu garfo, agora de lata. Olhei com horror para a imundície que momentos antes eu vinha consumindo com tanto gosto, saboreando a pele estaladiça do bicho. E o que eu tomara pelas folhas pendentes de uma palmeira vizinha eram, na verdade, os elásticos da roupa de baixo da pessoa sentada (com outras três) logo acima de nós. Não numa sacada, nem num mezanino, mas numa prateleira, de tão estreita. Pois o lugar estava lotado além do que se possa crer. Empilhavam-se os corpos em estantes, de muitos andares, como conservas. Meus olhos quase saltavam das órbitas quando essa visão aterradora vacilou e começou a recuar, como tocada por uma varinha. Os elásticos junto ao meu rosto reverdeceram e retomaram a forma graciosa de folhas de palmeira, o balde de despejo que fedia a um palmo de distância ganhou um brilho fosco e virou um vaso esculpido, a superfície imunda da mesa branqueou de volta à neve mais pura, as taças de cristal cintilaram, a papa horrenda dourou-se, brotando asas e coxas nos devidos lugares, e a lata do nosso talher recobrou o antigo lustre de prata, enquanto os fraques dos garçons esvoaçavam de novo ao redor. Olhei para os meus pés. A palha era outra vez um tapete persa. Eu voltara ao mundo do luxo. Mas, examinando o farto peito do faisão, não conseguia esquecer o que ele ocultava.
— Agora o senhor começa a entender — sussurrou Próspero, observando-me o rosto com cuidado, como se temesse que o choque tivesse sido grande demais. — E note que este é um dos estabelecimentos mais caros da cidade. Houvesse eu não previsto a contingência de lhe revelar o segredo, quem sabe não teríamos ido a um restaurante cuja simples visão poderia ter-lhe afetado seriamente o juízo.
— O senhor quer dizer que… há lugares… ainda piores?
— Sim.
— Impossível.
— Aqui, ao menos, temos mesas, cadeiras, pratos, garfos de verdade. Lá, as pessoas jazem em pranchas, empilhadas em muitas fileiras, e comem com os dedos de baldes que correm numa esteira. E o que comem, sob a forma de faisão, garanto-lhe, é bem menos palatável.
— O que é?
— Não é veneno, Tibério. É apenas um concentrado de relva e beterraba, em pó, embebido em água clorada e misturado com farinha de peixe. Em geral acrescentam gelatina e vitaminas, mais emulsificantes sintéticos e óleo, para que a coisa não fique presa na garganta. O senhor reparou no cheiro?
— Reparei! Reparei!
— Pois então. Lembra-se da história do leite que vem da relva, que tanto o intrigou no reviviçário? Ei-la inteira. A Legião borrifa o pasto, sim, mas não para fazer queijo. É para fazer isto. O faisão é a relva. O queijo é a relva. O pão é a relva. O último faisão de verdade morreu há um quarto de século. Aquele pássaro é um cadáver, esplendidamente conservado, pois nos tornamos mestres na sua mumificação. Ou melhor: aprendemos a esconder a sua morte.
— Pelo amor de Deus, professor, o que é isto? Eu preciso saber. É alguma traição diabólica? Um plano para destruir a raça humana?
— Ora, Tibério. Não seja melodramático. O nosso é simplesmente um mundo em que vivem mais de vinte bilhões de pessoas. O senhor leu o jornal de hoje? O governo de uma certa nação afirma que na fome deste ano pereceram apenas novecentos e setenta mil, enquanto a oposição dá o número de seis milhões. Num mundo assim, onde é que o senhor vai encontrar faisão, vinho de safra, abundância para todos? É por compaixão, Tibério, pelos mais altos motivos humanitários, que se perpetra este embuste químico, esta camuflagem, este enfeitar a realidade com plumagem que ela não possui.
— Professor, então o engano está em toda parte?
— Sim.
— Mas eu como em casa, não saio, como é que…
— Como é que o senhor absorve os fascínios? Está me perguntando isto, o senhor? Estão no ar que respiramos, atomizados. O senhor não se lembra das bombas de Pacificação Afetiva em Citera, dos aerossóis? Aquilo eram as primeiras tentativas hesitantes, como as de Montgolfier para a propulsão a jato.
— E todos sabem disto? E aceitam?
— Claro que não. Ninguém sabe.
— Mas não há rumores?
— Rumores sempre haverá. Mas lembre-se de que temos o esquecimento em frasco. Há coisas, meu caro, que todos sabem, e coisas que ninguém sabe. A farmacocracia tem o seu lado aberto e o seu lado secreto. O primeiro depende do segundo.
— Não, não posso acreditar.
— E por quê?
— Porque alguém tem de cuidar destas esteiras de palha, alguém tem de fazer os pratos que de fato usamos, e esta pasta que passa por comida. E tudo o mais!
— Certo. O senhor tem razão. Tudo precisa ser fabricado e mantido. E daí?
— As pessoas que fazem isso, elas veem, elas sabem!
— Bobagem. O seu raciocínio é arcaico. As pessoas pensam que entram numa bela estufa de vidro, num jardim suspenso. Ao cruzar a porta, recebem colírio de vigília e tomam consciência das paredes nuas de concreto e das bancadas de trabalho.
— E elas querem trabalhar?
— Com o maior entusiasmo, pois lhes deram também uma boa dose de abnegantina. O trabalho é assim uma consagração, um ato sublime. E, terminado o expediente, uma colherada de esquecimento, talvez de nepentol, basta para apagar tudo o que foi visto. Saem felizes, certas de haver passado o dia ociando num spa.
— E eu, todo este tempo, com medo de estar vivendo num sonho. Senhor, que tolo eu fui. Se ao menos, se ao menos eu pudesse voltar. O que eu não daria para voltar!
— Voltar para onde?
— Para o subsolo, debaixo da Torre de Lótus. Para as galerias técnicas.
— Tibério, essa sua atitude é das mais irresponsáveis, para não dizer francamente estúpida. O senhor devia fazer o que todos fazem, comer e beber como o resto de nós. Então teria na corrente sanguínea as doses mínimas necessárias de otimistina e serafinila, o requisito diário, e estaria do melhor humor possível.
— Então o senhor também é advogado do diabo?
— Ora essa. É tão satânico assim que, num caso extremo, um médico opte por esconder a verdade do doente? Eu digo que, se é assim que precisamos viver, comer, existir, ao menos que seja em embrulho bonito. Os fascínios funcionam às mil maravilhas, com uma única exceção. Que mal há neles?
— De momento não estou em condições de debater a questão — disse eu, recompondo-me um pouco. — Responda-me só duas coisas, por favor, em nome dos velhos tempos. Que exceção é essa que o senhor mencionou? E como se chegou a este fim do trabalho, a esta paz universal? Ou também isso é ilusão?
— Não, felizmente é bem real. Mas, para explicar-lhe, eu teria de dar uma palestra, e está na hora de eu ir andando.
Combinamos nos encontrar no dia seguinte. Ao nos despedirmos, repeti a pergunta sobre o defeito dos fascínios.
— Vá ao Parque de Diversões — disse o professor. — Se o senhor gosta de revelações desagradáveis, suba no maior dos carrosséis, e, quando ele atingir a velocidade máxima, corte com uma tesoura um buraco na lona da sua cabine. A lona está ali porque, durante o giro, o fantasma que os fascínios criam para substituir a realidade sofre deslocamento, como se a força centrífuga puxasse para o lado a venda dos olhos. Faça isto, e verá o que então emerge por trás da mentira pintada.
São três da manhã ao escrever estas palavras, cheio de desespero. Que mais há a dizer? Penso a sério em fugir, em deixar esta civilização para trás, em me perder no descampado. Nem as estrelas me chamam mais. Uma viagem é coisa lúgubre quando não pode haver regresso.
5.X.2073. Passei a manhã na cidade. Mal pude conter o horror diante de tanta exibição de riqueza e prosperidade. Uma galeria de arte praticamente dando de presente Rembrandts e Matisses originais. Ao lado, móveis fabulosos, mármores, tronos, espelhos. Leilões por toda parte. E eu que tomara isto por um paraíso, onde cada homem podia coroar-se príncipe. O Centro de Candidatos Autonomeados ao Nobel é outra fraude. Qualquer um pode ter o seu Nobel, assim como qualquer um pode forrar as paredes do compartimento com obras-primas, quando ambas as coisas não passam de uma pitada de pó que estimula o cérebro. A diabólica perfeição disto tudo é que parte do engano é aberta e voluntária, deixando que as pessoas creiam saber traçar a linha entre a ficção e o fato. E, como ninguém mais responde a coisa alguma de modo espontâneo (toma-se uma corrente para estudar, outra para amar, outra para indignar-se, outra para esquecer), a distinção entre sentimento manipulado e sentimento natural deixou de existir.
Andei pelas ruas de punhos cerrados nos bolsos. Não, eu não precisava de fúria em frasco para sentir raiva. Como um sabujo no encalço da presa, a minha mente farejava todos os vãos ocos daquela mascarada monumental, daquele embuste de lantejoulas estendido até o horizonte. Dão às crianças as suas balas de patricídio para que descarreguem a hostilidade, depois lhes formam o caráter com opinatos, e abrandam-lhes as paixões com sordidana e praticol. Não há polícia, e para que serviria, se existe a constabulina, e as tendências criminosas se neutralizam pelos serviços da Lótus S.A.? Bom foi eu ter passado longe das teoapotecárias, com seus compostos que dão fé, conferem graça, absolvem pecados, onde, com um grama de sacrossanto, se é canonizado na hora. E, já que está nisso, por que não um pouco de deitina dietética, ou de alá-de-bolso, ou de brâmane polinsaturado? O nosso nazarol com apócrifila põe o senhor no começo da fila no Vale de Josafá, e uma gota de reino-vindo descafeinado faz o resto. Glória, aleluinação! Paradisíacos para os piedosos, mefistol para os masoquistas, valhala e valela. Foi tudo o que pude fazer para não invadir uma das farmácias da esquina, onde a congregação se ajoelhava devotamente, estalando paternóstrumes e tomando orisol como rapé. Mas me contive. Só me apaziguariam com esquecimento. Tudo, menos isso. Tomei um transporte para o Parque, apertando na mão suada uma tesoura. Não deu em nada, porém. A lona da cabine revelou-se incrivelmente dura, como aço temperado.
Próspero estava hospedado num quarto alugado. Não se encontrava em casa quando cheguei, mas avisara que poderia atrasar-se, e ensinara-me o assobio necessário para a porta-sésamo. Entrei, pois, e sentei-me à mesa professoral, atulhada de publicações científicas e papeluchos rabiscados. Por tédio, ou talvez para acalmar a turbulência da alma, comecei a folhear o caderno de Próspero. “Macrofluxo”, “microfluxo”, “estrelisca”, “profeteiro”. Pois claro, ele anotava termos para aquela futurolinguística maluca. “Oráculo de balcão”, “obituatrônica”. “Pingo-de-juízo”. De água no cérebro? Resultado de um toró mental? “Cérebro-abaixo”. Pelo ralo do juízo? Era assim, então, que ele passava o tempo? Ah, professor, tive vontade de gritar, o senhor aqui sentado, e lá fora o mundo a acabar! De repente, um brilho numa estante distante. Num estojo, um conjunto de três daquele frasco, o colírio! Um marcado com a letra P, outro com a letra F, e outro com as letras ES, todos com duas pequenas linhas que se cruzavam no primeiro terço de uma delas. Um instante de hesitação, e, decidido, instilei uma gota cautelosa do fraco P e olhei em volta.
Curiosíssimo. Quase nada mudara. As estantes, as pilhas de papel, os arquivos, tudo permanecia igual, só que a bela estufa de cerâmica no canto, que adornava o quarto com o brilho do esmalte, virara um fogareiro velho e preto, com um cano carbonizado enfiado na parede e o chão em volta coberto de cinzas. Larguei este frasco depressa, guardei os outros dois, como pego em flagrante, pois nesse instante Próspero assobiou e entrou.
Contei-lhe do Parque. Ele se surpreendeu. Pediu-me a tesoura, examinou-a, fez que sim com a cabeça, depois apanhou o frasco, cheirou-o ele mesmo e mo passou. Em vez da tesoura, eu segurava um graveto podre. Ergui os olhos para o professor. Parecia perturbado, menos seguro de si do que na véspera. Pôs sobre a mesa a velha sacola, cheia de balas de conferência, e suspirou.
— Tibério — disse ele — , o senhor há de compreender que não há nada de particularmente sinistro nesta inflação dos fascínios.
— Inflação?
— Uma porção de coisas que eram reais um mês ou um ano atrás, pois bem, foi preciso substituí-las por ilusões, visto que os artigos autênticos vão ficando escassos, quando não de todo impossíveis de obter. Sim, Tibério, o reino das posses reais da humanidade encolhe a um ritmo alarmante. E o que rege o encolhimento é o que rege tudo nesta era. A mesma água que corre morro abaixo. A mesma Regra de Chapulier, mas agora a duas mãos. De um lado, a Legião, que achou infinitamente mais fácil fingir do que fazer. Para que dessalinizar um oceano, se basta fascinar a sede? Para que erguer uma cidade, se basta pintá-la nos olhos de quem a habita? De outro lado, o homem, que achou infinitamente mais fácil sonhar do que ser. As duas correntes correram no mesmo sentido, morro abaixo, e se encontraram no fundo do vale. Ninguém decidiu. Apenas escorregou para cá.
— Professor, eu estava olhando o seu caderno. Desculpe, mas o que é isto?
Apontei a página com as palavras “multicisão” e “egrégora-de-si”.
— Ah, isto. Veja, há um plano, o Projeto de Interiorização. Para compensar a falta crescente de espaço externo (pois já não cabemos, Tibério, somos demais) por meio de uma ampliação química do espaço interno, isto é, da alma, cujas dimensões não estão sujeitas a limite físico algum. O senhor decerto sabe que, graças à zooformalina, é possível tornar-se, ou antes, sentir-se, uma tartaruga, uma formiga, ou mesmo uma flor de jasmim. Também é possível dissociar-se em duas, três, quatro partes. Quando o número de cisões da personalidade chega a dois algarismos, obtém-se o efeito de multidão. A esse ponto já não lidamos com um eu, mas com uma egrégora. Uma pluralidade de mentes num só corpo. Pois esta é a solução para a falta de espaço. Já que não cabemos juntos no mundo, cada um conterá multidões dentro do crânio, e estará só, povoadíssimo e só. Sim, são estes os tempos em que vivemos, meu caro. A farmacopeia virou o nosso livro da vida, o alfa e o ômega da nossa existência.
Folheei ainda algumas páginas e ele me passou, por sobre a mesa, um maço de relatórios atadinhos com fitas de muitas cores.
— Antes que o senhor os ataque, umas palavras. Hoje sentei-me na primeira reunião de um congresso secreto, convocado para decidir o que fazer com a humanidade. E o que ouvi, ach, eu lhe digo. Mas tome, prove o senhor mesmo.
Eram os resumos das propostas. A primeira previa a reestruturação completa das atitudes, pela introdução na atmosfera de mil toneladas de inversol, que operaria uma reviravolta de cento e oitenta graus em todos os sentimentos. Conforto, abundância, beleza, elegância, tudo isso passaria da noite para o dia a ser desprezado, ao passo que o aperto, a pobreza, a feiura e a privação seriam valorizados acima de tudo. Numa segunda fase, removidos os fascínios, as pessoas, confrontadas com a realidade pela primeira vez na vida, encontrariam enfim a felicidade, pois teriam diante de si exatamente o que o coração desejasse. O único ponto recomendável do plano era o que dizia que o autor da proposta, sendo um Lúcido, deveria ele mesmo tomar o antídoto em caráter permanente, de modo que nem a miséria ubíqua nem a feiura, nem a lama nem o tédio da vida pudessem proporcionar-lhe deleite particular.
A segunda proposta previa dissolver dez mil toneladas de retrotemporox nas águas dos rios e oceanos. A droga inverte o fluxo do tempo subjetivo. A vida transcorreria assim: os homens viriam ao mundo decrépitos e o deixariam recém-nascidos, ganhando vigor com o passar dos anos, até ingressarem, na aposentadoria, no reino bem-aventurado da infância. A humanidade da proposta derivava daquela ignorância natural da morte que é própria dos muito pequenos. Ler isto fez subir consideravelmente, no meu apreço, a primeira proposta.
A terceira era a mais drástica. Preconizava que do homem restasse apenas o cérebro, lindamente encerrado em duraplasto, um globo munido de tomadas, plugues e fechos, alimentado por bateria atômica. A ingestão de alimentos, agora supérflua, dar-se-ia só por ilusão. O cérebro poderia ser ligado a qualquer número de apêndices, aparelhos, veículos. Ao ir ao teatro, por exemplo, destacaria os módulos de que não precisasse e os penduraria no armário. Parei aí e observei que os autores daqueles textos estavam, decerto, dementes. Próspero retrucou friamente que eu julgava depressa demais. Fizemos a nossa cama, disse ele, e nela teremos de deitar. Aliás, o critério do bom senso nunca se aplicou à história da espécie. Poderiam Sócrates, Kant, Newton, acreditar que no século vinte o flagelo das cidades, o envenenador dos pulmões, o assassino em massa e ídolo de milhões seria uma caixa de metal sobre rodas, e que as pessoas de fato preferiririam ser esmagadas dentro dela, nos êxodos frenéticos de fim de semana, a ficar em casa, sãs e salvas?
— E qual o senhor pretende apoiar? — perguntei.
— Ainda não decidi — disse ele. — O problema mais grave, a meu ver, é o das imersões clandestinas. E receio, ademais, que haja manipulação no curso das deliberações.
— Como assim?
— Uma proposta pode ser aprovada com o auxílio de um pouco de credulina bombeada pelo ar-condicionado. Para meio século a civilização não foi deixada a si mesma, Tibério. Cem anos atrás um costureiro qualquer ditava a moda das roupas. Hoje esse mesmo reger abraça todos os domínios da vida. Se a terceira proposta passar, garanto-lhe, em poucos anos todos hão de considerar vergonhoso possuir um corpo mole, peludo e suado.
— Escute — eu disse — , vamos fugir. Conseguimos oxigênio, mantimentos, e nos enfiamos em alguma serra. Lembra-se das galerias debaixo da Torre? Não era tão ruim ali, era?
— O senhor não está falando sério? — começou o professor, como que hesitando e mudando de feição.
Desesperado levei ao nariz o segundo frasco, o marcado com a letra F, e que eu esquecera de ter comigo. Lágrimas brotaram do cheiro acre. Espirrei, e espirrei de novo, e ao abrir os olhos o quarto havia mudado. O professor continuava a falar, eu ouvia a voz, mas, fascinado pela transformação, já não escutava as palavras. As paredes estavam todas encardidas. O céu azul, na janela, ganhara um tom pardo. Faltavam vidraças, e as que restavam tinham uma crosta de fuligem gordurosa. Mais perturbador que tudo foi ver que a bela sacola de Próspero, aquela em que trouxera o material, virara um surrão mofado. Fiquei tenso. Tive medo de olhar para ele. Espiei por baixo da mesa. Em vez de calças e polainas professorais, duas pernas artificiais, casualmente cruzadas, com cascalho da rua alojado entre os tendões de arame.
Grunhi.
— O que foi, uma dor de cabeça? Quer uma aspirina? — veio a voz solícita.
Cerrei os dentes e ergui o olhar. Pouco restava do rosto. Colados às faces fundas, os farrapos apodrecidos de uma atadura que não se trocava havia eras. No pescoço, na abertura de uma traqueotomia, fora enfiado, sem cuidado, um vocoder, que subia e descia quando ele falava. Um paletó pendia em trapos do cabide que era o seu peito, e sob a lapela esquerda havia um buraco com tampa de plástico embaçado. Dentro, um coração, preso com grampos, batia em espasmos negro-azulados. Costurada ao colarinho, uma etiqueta torta, em que alguém rabiscara, a tinta vermelha, uma sigla de transplante e a palavra “rejeitado”. Eu fitava, de olhos esbugalhados, enquanto o professor, espelhando o meu horror, de súbito se imobilizava atrás da mesa.
— Eu… eu mudei, não foi? — ele crocitou.
O instante seguinte me encontrou a lutar com a maçaneta.
— Tibério! O que está fazendo? Volte! Tibério! — gritou ele, desesperado, esforçando-se por se pôr de pé.
A porta se abriu, mas então ouvi um estrépito medonho. O professor Próspero, perdendo o equilíbrio num movimento brusco demais, tombara e se desmontara no chão, ganchos e dobradiças estalando como ossos. Levei comigo a imagem do seu pernear desamparado, dos tocos de ferro a debater-se, do saco escuro do coração pulsando atrás do plástico arranhado. Corri corredor afora, como tangido por cem Fúrias.
O prédio fervilhava de gente, eu calhara na hora do almoço. Das salas saíam funcionários, conversando a caminho dos elevadores. Abri passagem aos cotovelos em direção a uma das portas abertas, mas o elevador não havia chegado. Olhei poço abaixo e compreendi de imediato por que a cintilação era tão comum. A ponta do cabo, desligada havia muito, pendia solta, e as pessoas escalavam, ágeis como macacos, a gaiola vertical do fosso. Deviam ter muita prática. Subiam ao bar do terraço suando, mas conversando com alegria, e os dedos, mesmo no escalar, lhes estremeciam de tempos em tempos, num gesto que eu conhecia, deslizando no vazio para cima, para cima, como quem rola uma página que não está ali.
Recuei devagar e desci a escada que espiralava em torno do fosso, com os trepadores a galgá-lo pacientemente pelos lados. Alguns lances abaixo, afrouxei o passo. No fim do corredor brilhava uma janela aberta, dando para a rua. Detive-me a fingir que ajeitava a gravata e espiei lá embaixo. A princípio me pareceu não haver viva alma naquela multidão sobre a calçada, mas eu apenas não reconhecera os transeuntes. O esplendor geral desaparecera sem deixar vestígio. Andavam separados, aos pares, vestidos de trapos, remendos, buracos, muitos com ataduras, alguns só de roupa de baixo, o que me permitiu verificar que de fato tinham a pele manchada e cerdas no dorso. Os mais sãos corriam pela rua, cabriolando, escoiceando o ar, como quem troca de marcha. Robôs predominavam na multidão, brandindo atomizadores, pulverizadores, dosímetros. A sua função era cuidar de que cada um recebesse a sua dose de aerossol. E não se limitavam a isso. Atrás de um jovem casal de braços dados, ela com escamas, ele com furúnculos, vinha um velho humanoide, espancando os dois metodicamente na cabeça com um regador. Os dentes lhes batiam, mas estavam perfeitamente alheios. Fazia aquilo de propósito? Eu já não conseguia pensar.
Agarrado ao parapeito, eu fitava a cena na rua, o seu corre-corre, a sua indústria, como se eu fosse a única testemunha, o único par de olhos. O único? Não. A crueldade daquele espetáculo exigia ao menos mais um observador, o seu autor, aquele que, sem intervir no quadro sombrio, lhe desse sentido. Um patrono, um empresário da decadência. Mordi os nós dos dedos, lembrando que levava ao bolso ainda o terceiro frasco, o marcado com as letras ES. O bebi, e a minha garganta ardeu em fogo. Tudo vacilou, uma névoa brilhante desceu sobre meus olhos como uma venda, que uma mão invisível começou então a mover devagar. Olhei, petrificado, para a transformação em curso, e percebi, num arrepio de pressentimento, que agora a realidade descascava mais uma camada. Que a sua falsificação começara havia tanto tempo, que nem o mais poderoso antídoto podia fazer mais do que rasgar véus sucessivos, alcançando os véus de baixo, mas não a verdade.
Clareou. Ficou tudo branco. Não, não a neve de Lem nas suas memórias antigas. Algo pior, e meu. Era meio-dia. Um meio-dia chapado, sem hora, sem sombra, sem estação, a luz parada de um sol que não se movia nem aquecia, espalmada por igual sobre tudo. E sob aquela luz, a rua estava vazia. Inteiramente vazia. Não havia transeuntes, nem casais, nem robôs com regadores, nem o velho humanoide, nem o casal de escamas e furúnculos. Não havia ninguém. As multidões que eu vira eram fantasmas, projeções que os fascínios pintavam por sobre o nada, povoando de gente um cenário deserto, para que ninguém, ao espiar a janela, descobrisse que não havia mais ninguém na rua. E onde estavam, então, os homens? Onde estava a humanidade inteira?
Eu soube no instante seguinte, porque a venda subiu mais um palmo.
Estavam deitados. Em fileiras, em pranchas, em estantes de muitos andares, atrás daquelas vidraças cegas, dentro daqueles arranha-céus de janelas pintadas. Bilhões de corpos imóveis em casulos de estimulação, alimentados por sonda, ligados ao Fluxo por um fio. Não andavam pelas ruas porque não andavam em parte alguma. Não trabalhavam, não conversavam, não se encontravam, não amavam, não erguiam cidades nem as habitavam. Sonhavam. Cada um na sua cápsula, cada um maior, em sonho, do que todos os outros, cada um santo, gênio, herói, amante, profeta, na sua basílica particular que ninguém jamais veria. A Legião os mantinha. Dava-lhes o pão de relva pela sonda, a água, o ar, e pedia em troca apenas que jamais despertassem. E os dedos, Tibério, os dedos de todos eles estremeciam ao mesmo tempo, no escuro das cápsulas, deslizando no vazio para cima, para cima, rolando a página eterna que não termina, um continente inteiro a cintilar em uníssono na noite das estantes. Era isso a cintilação. Por isso eu não cintilava. Eu acordara fora do Fluxo, congelado em outra parte, enquanto a espécie toda jazia rolando o céu.
E havia ainda uma última camada, e esta o frasco mal a tocou, mostrando-a apenas por um segundo, como quem entreabre uma porta e a fecha. Por baixo do meio-dia chapado e das estantes de dorminhocos, eu vi, ou antes pressenti, a cor das coisas. Ou a sua falta. Tudo empalidecera. Não escurecera, note bem, empalidecera, como empalidece o doente que sangra por dentro, como se de cada objeto, de cada parede, de cada rosto adormecido, alguém houvesse drenado devagar a seiva, aquele verde secreto que os antigos diziam habitar todas as coisas vivas e fazê-las viçar, a viriditas das velhas iluminuras, o frescor que é mais do que cor, que é o próprio peso de ser. Drenado isso, restava o quê? Restava aquilo: um mundo correto e exangue, de pé, funcionando, e morto por dentro. Não era o inferno do fogo. Era o inferno do meio-dia, a hora em que o monge não tem febre nem dor, só uma vasta indiferença ao bem que tem ao alcance da mão, e larga a cela, e vagueia, e não sabe dizer o que perdeu. Uma legião de príncipes dormindo num palácio sem cor, e cada um sonhando que reina. Foi a coisa mais terrível que vi, mais do que a fome, mais do que os trapos, porque a fome e os trapos ainda eram alguma coisa, e aquilo era a ausência de tudo, fingindo-se de plenitude.
E no entanto. No extremo da rua, lá onde ela morria contra um portão fechado, ardia uma luz. Pequena. Vermelha. Não a do meio-dia, que vinha de toda parte e de lugar nenhum: esta vinha de um ponto só, e ardia de fato, tremulando de leve, como chama, como quem respira devagar. Os fascínios não a haviam pintado, pois não havia nela isca alguma, nada que prendesse o olho ou prometesse a próxima migalha. E tampouco a haviam apagado, embora apagassem tudo. O colírio, esse, também não a acendera; disto me dei conta no mesmo instante, sem saber como, pois ela já estava ali muito antes do frasco, e não era da espécie de coisa que um antídoto revela, mas de outra, que pede outros olhos. Estava simplesmente acesa, atrás de uma grade, num recanto por onde já não passava ninguém, e parecia aguardar. O quê, eu não soube dizer. Alguém, talvez. A todos e cada um? Olhei-a um longo instante, e foi como se a palidez em volta perdesse, naquele só ponto, o seu ar de coisa definitiva, como se a réstia teimosa fosse a prova caladíssima de que a cor do mundo não havia sido destruída, apenas retirada, e posta a salvo em alguma parte, à espera de quem tornasse a quere-la. Depois a névoa tornou a subir, e eu já não soube se a vira.
Tudo vacilou de novo, uma neblina clara desceu como venda. Eu recuava da janela, gelado até os ossos sem o frio, despido agora da mentira de um mundo habitado. Não sabia para onde ia, procurando fazer o menor ruído possível. Sim, eu já escondia a minha presença, encolhido, esgueirando-me, espiando por sobre o ombro, parando, escutando, criatura de reflexo, sem decisão, embora soubesse que o fato de eu enxergar estava escrito no meu rosto, e que eu teria de pagar por isso. Desci o corredor. Não podia voltar a Próspero, que precisava de ajuda e a quem eu não tinha nenhuma para dar. Pensava em várias coisas ao mesmo tempo, mas principalmente em se a droga passaria e eu me veria de volta ao Paraíso. Estranho, mas a perspectiva só me enchia de medo e nojo, como se eu preferisse tremer num lixão, com a ciência de que era um lixão, a dever a minha salvação a aparições.
Cheguei ao vidro fosco de um escritório. Silêncio completo lá dentro. Entrei pela porta de vaivém e vi uma sala de fileiras de máquinas de escrever, vazia. No outro extremo, uma porta entreaberta. Avistei a sala grande e clara além dela, e comecei a recuar, pois havia alguém ali, mas uma voz conhecida me chamou:
— Entre, Tibério.
Entrei. Não me surpreendi sequer com o fato de ele me estar esperando, e tomei com calma, também, que do outro lado da mesa estivesse sentado o próprio senhor Símaco, de terno de flanela cinza, um lenço elegante no pescoço e um cigarrilho na boca. E de óculos escuros. Olhava para mim com algo entre o divertimento e a pena, eu não saberia dizer.
— Sente-se — disse ele. — Isto vai demorar um pouco.
Sentei. A sala, de vidraças intactas, era um oásis de ordem e calor em meio ao abandono geral. Sem correntes de ar frio, sem cinzas nos cantos.
Um bule de café preto fumegava. Na parede, acima da cabeça dele, alguns nus femininos, coloridos. Curioso, porém, que aqueles corpos fotografados não tivessem escama nem cerda. E curioso que isto me parecesse curioso.
— Agora o senhor aprontou! — disse ele, abrupto. — E note que a culpa é só sua. A melhor enfermeira, o único Lúcido do bairro, todos fazendo o possível para ajudá-lo, e o senhor não, tinha de ir fuçar a “verdade” por conta própria!
— Eu? — disse, atônito, e, antes que pudesse ordenar os pensamentos, ele atalhou:
— Por favor, nada de mentiras. É um pouco tarde para isso. O senhor se julgou tremendamente esperto, desfilando todos aqueles protestos, aquelas queixas, aquelas suspeitas sobre “alucinar”, sobre “subsolo”, sobre “galerias”, sobre “estar enterrado”. E achou mesmo que invenções tão primárias serviriam ao propósito? Só um vovô fóssil seria estúpido a esse ponto!
Eu o escutava de boca aberta. E então me ocorreu. Qualquer negativa seria em vão, ele jamais acreditaria. Pois tomava as minhas obsessões genuínas por algum tipo de manobra. Em outras palavras, aquela conversa anterior, na casa da Aurora, em que ele me revelara os segredos da Lótus, falando da parábola dos talentos, do servo que enterrara o seu na terra, das trevas exteriores, fora apenas para me sondar. Ele usara aquelas palavras de propósito, “enterrar”, “sepultar”, para ver se eu me traía. Tomava o meu medo privado, o meu fascínio pelo subsolo, pela galeria, pelo estar enterrado e a salvo no concreto, por uma senha. Por um lance tático de iniciação em alguma conspiração antifluxo. Sim, era tarde demais para explicações, sobretudo agora que as cartas estavam na mesa.
— O senhor me esperava aqui? — perguntei.
— Claro. Com toda a sua iniciativa e empreendimento, estivemos no controle o tempo todo. Nenhuma rebeldia não monitorada pode ameaçar o status quo.
O velho que morria no corredor, ocorreu-me, também fazia parte do sistema de barreiras que me trouxera até aqui.
— Bonito status quo — eu disse. — E o senhor no comando, suponho. Parabéns.
— Guarde o seu sarcasmo para ocasião mais propícia! — sibilou ele. Eu tocara num ponto sensível. Estava irritado.
— Todo este tempo o senhor andou à cata de um “plano diabólico”. Pois deixe-me dizer-lhe, meu caro descongelado, deixe-me satisfazer a sua curiosidade aqui e agora. Não existe tal coisa. Não há plano. O senhor compreende? Mantemos esta civilização narcotizada porque, de outro modo, ela não suportaria a si mesma. É por isso que o seu sono não deve ser perturbado. E é por isso que o senhor será devolvido a ele. Ah, não há o que temer, para o senhor será não só indolor, mas prazeroso. A nossa sorte é bem mais dura. Nós precisamos permanecer acordados, para velar pelos outros.
— Um nobre sacrifício — eu disse. — Pelo bem comum, sem dúvida.
— Se o senhor preza a sua todo-poderosa liberdade de pensamento — disse ele, gélido — , aconselho-o a largar essas farpas, pois só terá de se despedir dela mais cedo.
— Muito bem. O senhor tem mais alguma coisa a me dizer? Sou todo ouvidos.
— Neste momento eu sou o único homem em todo o continente, além do senhor, que enxerga. O que é que eu trago no rosto? — perguntou de repente, como a me apanhar numa cilada.
— Óculos escuros.
— Então o senhor vê tão bem quanto eu — disse. — O químico que forneceu a Próspero aqueles antídotos voltou ao seio da sociedade e já não nutre a menor suspeita. Ninguém deve suspeitar. Decerto o senhor compreende isto.
— Espere — eu disse. — Importa-lhe muito, não é, que eu me convença? Mas por quê?
— Os Lúcidos não são monstros! — respondeu. — Somos prisioneiros da situação, encurralados, forçados a jogar a mão que a história nos deu. Trazemos paz e contentamento do único modo que resta. Mantemos em equilíbrio precário aquilo que, sem nós, despencaria nos espasmos de uma agonia universal. Somos o último Atlas deste mundo.
E, se ele precisa perecer, que ao menos não sofra. Se a verdade não pode ser mudada, ao menos ocultemo-la. Este é o último ato humanitário, o último dever moral que resta a um homem.
— Então nada se pode fazer? Nada? — perguntei.
— O ano — disse ele — não é dois mil e setenta e três. Fez uma pausa, para que a coisa pesasse.
— Esse foi o número que lhe deram a ver, no reviviçário, e que o senhor andou anotando com tanto zelo no seu diário. Mas o calendário também é fascínio, Tibério. Custa menos pintar um ano do que viver cem. O ano é dois mil cento e setenta e quatro. Há sobre o planeta, registrados, sessenta e nove bilhões de almas, e talvez outros vinte e seis ocultos nas cápsulas. A temperatura média do mundo já não é a que o senhor sente na pele. Não há mais estações. Inventamos o meio-dia perpétuo porque era a luz que menos exigia: nem o frio do inverno, que faria sofrer, nem o calor do verão, que faria suar. Só o meio-dia chapado, em que nada acontece e ninguém padece. E também não podemos detê-lo. Só mantê-lo em segredo.
— Eu sempre pensei que houvesse gelo no inferno — disse eu, lembrando-me de um frio antigo, de um nada branco. — Mas é pior. É meio-dia para sempre. E ninguém sofre, porque ninguém está acordado para sofrer. E o senhor pinta os portões deste inferno com figurinhas bonitas.
— Exatamente — disse ele. — Somos os últimos samaritanos.
Alguém tinha de lhe falar deste lugar. Calhou que fosse eu.
— Sim, parece que me lembro. Ecce homo — eu disse. — Mas espere. Agora vejo o que o senhor quer. Quer fazer de mim um crente. Quer que eu aceite o seu papel de anestesista escatológico. Quando não há pão, comam ópio! Só não entendo por que está tão empenhado na minha conversão, que de todo modo vou esquecer por completo. Se os métodos que emprega são bons, para que toda esta argumentação? Umas gotas de credulina, um esguicho nos olhos, e eu aplaudo cada palavra sua com entusiasmo, tem a minha plena aprovação, a minha estima. Se os métodos são bons. Mas pelo visto o senhor mesmo não está convencido do valor deles, preferindo a velha e simples retórica, gastando palavras comigo em vez de pegar o atomizador. Pelo visto o senhor sabe muito bem que o triunfo do fluxema é uma farsa, e que estará sozinho no campo, um vencedor com uma bela azia.
O rosto dele se contorceu de raiva. Levantou-se de um salto, gritando:
— Tenho outras drogas além das delícias celestes! Há também os infernos químicos!
E foi então que vi. Vi, com um arrepio mais fundo que todos os anteriores, o que ele próprio não via. Ao se levantar, num movimento brusco demais, os óculos escuros lhe escorregaram um dedo no nariz, e por cima da armação, por um instante só, eu lhe enxerguei os olhos. E os olhos do senhor Símaco estremeciam. Deslizavam de leve, para cima, para cima, no vazio, como quem rola uma página que não está ali. Ele cintilava. O último homem acordado do continente, o último Atlas, o último samaritano, o guardião da verdade, cintilava como todos os outros. Tomara também o seu fascínio sem o saber. O químico lhe vendera um colírio que era ele próprio um feitiço, um contra-veneno falso, lobo em pele de cordeiro, e Símaco velava a humanidade adormecida com os olhos de um adormecido. Não havia, no topo, ninguém acordado. Não havia patrono, nem autor, nem empresário da decadência, nem mão que tudo dispusesse. Só a ausência, descendo de degrau em degrau, morro abaixo, até o último degrau, e ainda mais abaixo. Ninguém ordenara aquilo. Ninguém o vigiava. Era preguiça até o fim, sono dentro do sono, e o homem que se julgava o único de olhos abertos os tinha, sem suspeitar, tão cerrados quanto os bilhões por quem cria velar.
— O senhor também está dormindo — eu disse, baixinho. — O senhor também.
Ele estacou, a mão sobre o botão da mesa, e por um segundo, um único segundo, algo lhe passou pelo rosto que não era raiva, e que talvez fosse, lá no fundo do poço, o resto de um homem tentando acordar e não conseguindo. Depois passou. Ele apertaria o botão. As mãos de ferro de alguém já me agarravam por trás.
— Iremos juntos! — gritei, e saltei para a sua garganta.
O impulso nos levou, como eu planejara, à janela aberta. Houve passos, mãos tentando arrancar-me dele, enquanto ele se contorcia e escoiceava, mas já estávamos no peitoril, e eu o empurrava, dobrando-o para trás, juntando o resto das forças, e saltei. O ar assobiou nos nossos ouvidos, rodopiamos no vazio, ainda agarrados, o funil giratório da rua subindo ao nosso encontro. Preparei-me para um golpe que estilhaçasse os ossos, mas o impacto, quando veio, foi mole, ondas negras erguendo-se, e as águas fétidas e benditas fechando-se sobre a minha cabeça, e tornando a abrir-se.
Emergi no meio do subsolo, esfregando os olhos, engolindo, sufocando na imundície, mas feliz, feliz! O professor Próspero, despertado do seu cochilo pelos meus uivos ímpios, debruçou-se da beira da plataforma e me ofereceu, como uma mão fraterna, o cabo da sua lanterna a manivela, firmemente enrolado. O trovão das bombas de Pacificação se extinguia. Os gerentes da Torre estavam todos enfileirados nas suas espreguiçadeiras infláveis, e as secretárias se portavam do modo mais provocante em pleno sono. Jim Stantor, roncando, virou-se de lado e quase esmagou um rato que mordiscava o chocolate no seu bolso; ambos se assustaram. Enquanto isso, o professor Dringenbaum, aquele suíço metódico, agachado junto à parede, fazia correções no seu trabalho, à luz amarelada da lanterna, com uma caneta-tinteiro. E então me ocorreu que aquela intensa atividade dele anunciava o início do segundo dia de deliberações do Congresso Ociológico, e eu caí numa gargalhada tão violenta que o manuscrito lhe escapou das mãos, bateu na água escura com um splash, e se afastou, boiando, rumo ao futuro desconhecido.
Não sei dizer, ao certo, o que vi. Não sei se desci ao fundo de um futuro que ainda não veio, ou se apenas sonhei, no fundo de um esgoto, sob a Torre que afundava, um sonho dentro de um sonho, encomendado por mão alheia. Não sei sequer se a lucidez que me foi dada era lucidez, ou se era ela mesma o mais fino dos fascínios, o último véu pintado para que eu cresse haver chegado à verdade, e parasse de cavar. Tornei a instilar uma gota, ali no escuro, só para confirmar, e nada mudou; mas isso, eu já aprendera, nada prova, pois um feitiço bem feito não cede ao próprio antídoto. De modo que escrevo isto sem saber de onde escrevo, nem para quem, nem em que ano. Boio, como o manuscrito do suíço, numa corrente que não escolhi e cujo fim não verei.
Resta-me uma coisa só, e por ela me agarro como me agarrei, no esgoto, ao cabo da lanterna. Aquela voz. A vozinha distante e teimosa que gritou no meu quarto, no primeiro dia, quando o mel cintilante já me afogava, e que me fez arrancar as lentes quando nenhuma força exterior me obrigava a tanto. Não sei o que ela é. Não a comprei em frasco, não a tomei em cápsula, não a recebi por sonda. Ninguém a fabrica na Lótus, e os fascínios, por mais finos, não conseguem calá-la de todo, apenas abafá-la, como se abafa, sob travesseiros, um sino que continua a bater. Os antigos teriam um nome para ela. Diriam que é a centelha, o resto de viço que não se deixa drenar, a réstia teimosa agora acesa por dentro, a semente daquela excelência que não se sonha, que só se exerce, e que, exercida uma vez que fosse, contra toda a maré, talvez bastasse para devolver a cor a um mundo inteiro empalidecido. Não sei se é tanto assim. Sei apenas que ela ainda fala, baixo, debaixo de tudo, como aquela luz ardia no fim da rua, atrás da grade, à espera. E o que ela diz é só isto, sempre isto, desde o primeiro dia:
Acorda. Vigia. Este bom tempo não merece confiança. Nunc coepi! Eu sou.
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