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Mank

Quem nunca pensou em voltar no tempo, para algo que já viveu ou para tempos em que nem estava nascido? Apesar de Mank não ser sobre viagem…

o cinematógrafo · 2021-04-24 16:16 · 0 claps · 4.5 min read
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Mank

Em novo filme, David Fincher transparece a paixão pela Velha Hollywood e pelo cinema.

Em novo filme, David Fincher transparece a paixão pela Velha Hollywood e pelo cinema.

Quem nunca pensou em voltar no tempo, para algo que já viveu ou para tempos em que nem estava nascido? Apesar de Mank não ser sobre viagem no tempo, ele faz esse exercício. O gosto e a paixão pelo passado, essa nostalgia de tempos anteriores causam reflexão. Um filme que explora esse desejo do passado é Meia Noite em Paris (2011) de Woody Allen e que o leva, através da fantasia, até extremos. No entanto, a paixão pela Velha Hollywood não é exclusividade do diretor David Fincher, a Academia adora a retomada dos anos de ouro da Hollywood, quando Mary Pickford, Katherine Hepburn e Clark Gable monopolizavam as telonas, tanto é que O Artista (2011) de Michel Hazavinicius , filme sobre o cinema mudo, foi o grande vencedor do Oscar 2012.

A retomada do cinema clássico é algo até mesmo admirável da parte de Fincher, o único problema é transformar a experiência fílmica em uma experiência restritiva. Primeiro, o filme exige que você tenha assistido um outro filme, Mank não é uma sequência ou um filme dois, nos quais se espera ter assistido o primeiro. O filme em questão é Cidadão Kane (1941) de Orson Welles, considerado por muitos o maior filme de todos os tempos. Há de se afirmar que, apesar da grandiosidade de Cidadão Kane, grande parte do público não o assistiu, o que restringe a experiência completa de Mank ao grupo que já conhece o filme de Welles. Além dessa questão de “filmografia básica” para se assistir Mank, há outro elemento que limita o filme para o grande público, a fotografia em preto e branco. Tudo bem, isso não é um grande empecilho para se assistir, contudo, parte do público geral enxerga essa escolha estética com preconceito e, às vezes, deixa de apreciar um filme por causa disso.

Percebe-se então que o público para Mank não é o geral, não por ser um filme de vanguarda, mas sim por fatores que o restringem. Dessa forma, mesmo estando disponível na Netflix, não aparecerá como recomendação para muitos assinantes. Mank refaz o caminho que Herman J. Mankiewicz trilhou para escrever o roteiro de Cidadão Kane. Em suas duas horas e dez de duração, Fincher consegue emular com maestria os elementos da Hollywood Clássica, chega a emocionar aqueles que possuem grande paixão por tempos de glória tão distante.

O filme utiliza em sua montagem flashbacks que intercalam entre os anos 30 e o ano de 1940, quando Mank (Gary Oldman) esteve isolado em um rancho escrevendo o roteiro de Cidadão Kane. Apesar desse recurso, o ritmo é agradável e a montagem não permite que o flashback se estenda até ficar exaustivo. Essa não linearidade do roteiro de Jack Fincher, falecido pai de David, permite que os fatos se desenvolvam simultaneamente, com o flashback servindo de apoio para a linha temporal dos anos 40 e ainda serve como um tributo ao próprio roteiro de Cidadão Kane, que também é não linear. A linha do tempo dos anos 30 traz Mank como roteirista da MGM, a grande produtora de Louis B. Mayer (Arliss Howard), e lá ele conhece Marion Davies (Amanda Seyfried), atriz e namorada de William Randolph Hearst (Charles Dance), o magnata dos jornais. Mank passa a fazer parte do círculo social de Davies e Hearst, sendo convidado para festas, nas quais ele sempre adicionava seus comentários ácidos.

Ainda na trama de 1930, surge um ponto que também pode afastar o público que deu play no filme: as eleições de governadores da Califórnia em 1934. Essa trama serve para mostrar que a possível eleição de Upton Sinclair interferiria nos interesses das produtoras cinematográficas e evidencia a oposição das mesmas ao realizarem filmes de propaganda anti-Sinclair. Talvez, esse seja o excerto mais dissonante do resto do filme, não adiciona efetivamente elementos na construção do roteiro, apenas a descrença de Mank nos produtores.

A linha temporal de 1940 mostra Mank na maior parte do tempo deitado e escrevendo o roteiro. Sua secretária Rita (Lily Collins) o vigia, o auxilia na produtividade do texto e evita que ele tenha uma recaída em seu problema com alcoolismo. A interação de Mank com as personagens femininas é rica. Com Marion, os dois possuem conexão em diálogos que mostram o quão alinhadas estão suas opiniões políticas e sobre a vida. Já com Rita, há quase um embate, no qual ela é a responsável por mantê-lo produtivo e sóbrio.

Mank é um personagem cativante e a atuação de Oldman amplifica o que está no roteiro. Ele se comporta diferentemente dos demais, ele é engraçado, tem problemas com bebida e jogos e faz comentários que desafiam a calma de seus interlocutores, diz o que pensa. É como se fosse aquele familiar que dá opiniões polêmicas só para ver o circo pegar fogo e depois sai de fininho rindo. A Marion Davies de Seyfried também é uma das melhores atuações do filme, ela interpreta uma personagem dócil que apenas quer alcançar seu sucesso no cinema, mas que ainda sim está em uma relação com um dos homens mais poderosos do estado, é essa dualidade do poder que a faz uma personagem complexa.

Por isso, quem não viu Cidadão Kane não consegue extrair o máximo que Mank tem a oferecer. A relação de Charles Foster Kane e Susan Alexander é a relação de William Randolph Hearst e Marion Davies. Apesar da inspiração ser explicitamente mencionada em Mank, ao assistir ambos os filmes, a identificação e empatia do espectador se torna completa e maior para com Marion.

Os recursos técnicos são invejáveis, conseguem com proeza reproduzir o estilo dos filmes da antiga Hollywood. A trilha de Trent Reznor e Atticus Ross, o design de produção e o figurino conseguem nos levar de volta aos anos 30 e 40, emula fielmente a aura dos filmes antigos e esse é o ponto forte de Mank. A fotografia em preto e branco faz um ótimo controle da luz, consegue com iluminação natural das janelas criar a atmosfera antiga e reproduz até mesmo planos de Cidadão Kane.

No entanto, o problema de Mank reside em seu roteiro. Escrito por Jack Fincher, nos anos 90, o roteiro sustenta uma falácia como tese central e acaba sendo controverso com o que ele mesmo propõe. Ao deixar explícito que Orson Welles não ajudou a escrever o roteiro, o filme se trai, pois historicamente, sabe-se que ele teve sim participação. Ao buscar reconhecimento para Herman J. Mankiewicz, o roteiro tenta ofuscar a participação de Welles na escrita e repete o problema central que ele levanta, a falta de créditos.

Mank está disponível na Netflix e foi o recordista de indicações ao Oscar, com dez. São elas: Melhor Filme, Melhor Diretor (David Fincher), Melhor Ator (Gary Oldman), Melhor Atriz Coadjuvante (Amanda Seyfried), Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Som, Melhor Fotografia e Melhor Maquiagem e Penteado.


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