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Epistemologia da Pia de Louça

Desenvolvimento é sobre esquinas estranhas, sobre um dia em que não se acontece nada: crescer é no miúdo.

Igor Marques-Santos · 2026-01-13 18:38 · 0 claps · 2.7 min read
#desenvolvimento #esquina #louça #apego
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Epistemologia da Pia de Louça

Desenvolvimento é sobre esquinas estranhas, sobre um dia em que não se acontece nada: crescer é no miúdo.

As esquinas são novas para mim, mas já estão marcadas por outros pixos, por outros IPTUs cobrados, mesmo que esses muros não me contribuam informação alguma. Não é um dia escuro, mas é um dia de céu limpo sem sol: nenhuma planta arrebenta em novas folhas, nenhuma ideia se teve.

Poderia até arriscar ver a manutenção das coisas como um avanço — lembrar que estabilidade é uma conquista — mas essas horas passando sem fazer nada pedem a delicadeza de não poder ser.

A epsitemologia da pia de louça é oposta ao neologismo: os pratos sujos são os mesmos, os copos bocados na borda são os mesmos, os talheres já se conhecem por apelidos empoeirados em jargões, sem sentido. Há alguma coisa na quina que não é face virada, que não é superfície definida: salienta-se para além das dimensões num não-lugar, sendo exatamente o ponto em que uma superfície deixa de sê-la, ao que a próxima superfície ainda não se começou.

O tédio de repetir as mesmas palavras. O tédio de repetir as mesmas palavras. O tédio de repetir as mesmas palavras. O tédio de repetir as mesmas palavras. O tédio de repetir as mesmas palavras. O tédio de repetir as mesmas palavras. O tédio de repetir as mesmas palavras e, no tédio, todos seus sentidos se descolarem de pouco a pouco, enudecendo cada palavra que agora desperta a curiosidade: tem cara de quê esse tal de tédio? Essa tal de palavra me soa diferente. Que é esse repetir?

Repetir também é uma forma de tornar o familiar em estranho pois o sentido e a ordem são movimentos, e ficar parado é se dispor a ver as coisas caminhando a sua frente: por que raios o natal não é como antes? Por que ninguém mais comemora a páscoa? Tantos anos, a mesma receita, os mesmo assuntos, numa nostalgia que, justamente por congelar a memória e colocá-la como objetivo e futuro, aniquila-a.

Entre natais e páscoas há sempre esquinas estranhas, de casas todas de telhado que nenhuma sabe meu nome, nem poderá sabê-lo: entregam-me as estranhezas de um cotidiano que é movimento sem ao menos poder agradecê-las, sem que ao menos eu possa adicioná-las no Instagram e, de vez em quando, curtir a foto de um novo filho, de um novo emprego, do início de um novo ciclo.

De presente, a crueza sutil das horas passando quietas, e só podem passar quietas quando não contamos: só é cotidiano quando não percebemos, e tentar imitar um cotidiano é dissecá-lo à morte, restando somente um amontoado de seus pedaços de memória terrivelmente esquartejados diante do explícito da luz do dia e da razão.

Sem o barulho de chavinhas virando, de moedas caindo, de interruptores se acionando, de insights clicando, — sinfonia tão cara às psicólogas, neurocientistas e analistas, ninadas pelo som de quando chega a entrega do desenvolvimento — as esquinas estranhas e impessoais ensinam sem falar, o tempo perdido nos movimenta sem passar, o dia escurece sem terminar. O mistério dos caquinhos vermelhos do chão que, mesmo se falassem, nada teriam a dizer.

John Bowlby, carinhoso teórico do se apegar, colocava-o como base para o desenvolvimento humano. Para tanto, pinça o que seriam os cincos gestos mais singelos do bebê que promoveriam o apego no ser humano (e, portanto, seu desenvolvimento): sucking, clinging, following, crying, and smiling. E por mais que, ao longo da vida, se descubra muita coisa, somos sempre esses bichinhos que, em meio a tantas ruas sem nome, tantas histórias sem rostos, navegam pelo mundo e todo seus mistérios, prazeres e descontentes principalmente sucking, clinging, following, crying, and smiling.

Não há eco nesse dia nublado, e nenhuma rua é atravessada: restar/rester/to rest. Somos sempre restantes desse miúdo, dessas horas que passam sem se contar.


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