Crítica: Rivais (2024), de Luca Guadagnino
Poder e sexo. Essas são as duas coisas que dão razão para nossa existência. Ou, pelo menos, foi essa a máxima proposta por Beth Seelig que…
Crítica: Rivais (2024), de Luca Guadagnino

Rivais (2024)
Poder e sexo. Essas são as duas coisas que dão razão para nossa existência. Ou, pelo menos, foi essa a máxima proposta por Beth Seelig que se debruçou nos estudos de Freud e entendeu que sexo é uma das ferramentas essenciais para conseguir poder, e vice-versa. Porém, o cinema parecia ter compreendido isso muito antes, quando, ainda nos anos 1930, os primeiros filmes de sexploitation usaram da sexualidade de seus personagens como ferramenta narrativa — e de também conquistar público. Claro, nesse meio tempo, a hipersexualização de mulheres foi uma objeção, mas não é como se não houvesse figuras femininas que não usassem a libido dos homens como forma de derrotá-los. Rivais (2024), novo filme de Luca Guadagnino, canaliza bem essa máxima entre sexo e poder por meio de um torneio de tênis, no qual o vencedor é também o com mais libid… digo, o mais poderoso.
Em Rivais, Tashi Duncan (Zendaya) é uma ex-prodígio do tênis que, após fraturar seu joelho, tornou-se uma treinadora de referência. Casada com Art Donaldson (Mike Faist), ela transformou seu marido em um campeão mundialmente famoso de Grand Slam. Para tirá-lo de sua recente sequência de derrotas, a estratégia de Tashi para a redenção do marido é fazê-lo competir em um circuito menor, com jogadores que são fáceis de derrotar. No entanto, o planejado sai dos eixos quando Art precisa enfrentar o fracassado Patrick Zweig (Josh O’Connor), seu ex-melhor amigo e ex-namorado de Tashi. Conforme seus passados e presentes se chocam, as te(n)sões aumentam, colocando em jogo o que é necessário para manter poder e sexo acima do amor.
Em Rivais, Luca Guadagnino, reconhecido por sua habilidade de canalizar excitação, usa o tênis meramente como uma analogia — a verdadeira disputa rola por debaixo dos lençóis. Mas isso não é feito da forma mais casual, apenas com metáforas baratas, mas sim de uma maneira que beira uma certa psicodelia. O filme é não-linear, como um mosaico de blocos, porém, está longe de ser confuso. Toda essa história do triângulo amoroso começou treze anos antes da partida decisiva, quando Art e Patrick eram companheiros de jogo e conhecem Tashi. Os dois querem ficar com a garota e ela deixa a decisão para o acaso: quem vencer o último jogo daquele campeonato, ganha o número dela. Patrick vence, mas o relacionamento dos dois é conturbado e, depois de uma briga, a jovem fratura seu joelho. Isso tira Patrick da jogada e finalmente dá espaço para que ela e Art desenvolvam algo — eles se casam e têm uma filha. Mas, durante todo o tempo, existe amor ali?
Rivais é um filme puramente sobre essa dinâmica de relações — seja de poder, na cama ou no jogo — , mas isso só é possível por dois motivos: Guadagnino sabe chegar bem próximo de seus personagens — em ambos os sentidos — e esses indivíduos têm profundidade suficiente para sustentar qualquer coisa que Luca demande para construir suas histórias sobre foder e se foder. Tashi é uma das personagens mais interessantes que Zendaya já interpretou: a jovem ama sua carreira e parte de sua família, mas ela mesmo se questiona se quer ser feliz. Fica claro que não, já que ela transa com Patrick no final do filme — o único capaz de dar a provocação que ela precisa para ser reconhecida como uma grande profissional — , enquanto seu marido — o único que parece se preocupar com ela — dorme num quarto de hotel.
O título do filme no Brasil entrega um pouco mais a pressuposto do filme: rivalidade. No entanto, o que a obra parece conseguir manter um pouco mais escondido é quais são os verdadeiros rivais. Claro, Patrick e Art batalham durante o filme todo pela garota, mas eu só conseguia pensar como era Tashi parecia ser o verdadeiro inimigo. Nem digo isso por ela quebrar uma amizade que existia desde a primeira punheta — é, pois é — , mas, sim, por sempre parecer trazer o pior dos dois caras e isso parece excitá-la. Numa cena final, ela diz para Art que ela vai o abandonar caso ele perca o campeonato. Em seguida, ela encontra Patrick e consegue convencer ele a deixar seu marido ganhar. Tashi, em muitos níveis, é uma mulher poderosa e se porta como uma, mas ela mesmo reconhece ser uma vaca. No final, você torce para Patrick ganhar porque só assim Tashi parece perder alguma coisa.
Entretanto, tudo isso só funciona porque existe tesão em cada momento. O sentimento é que todos vão desistir de tudo e vão começar a transar. Essa construção de clima, Guadagnino faz muito bem, e ele realiza por duas vias: o que está sendo filmado e como isso está sendo registrado. No primeiro, toda performance é orientada para fins de provocação. Existe uma suavidade fora da curva pela forma que todos os indivíduos se comportam no filme: suas caras, gestos e proximidades sempre parecem dar uma outra entonação escancarada. De amigos comendo churros, até uma briga de namorados, essas cenas são carregadas de sensualidade, esse que também propõe a dinâmica de poder entre dominador e dominado. E, ah, por algum motivo, sempre que podem, esses personagens empinam suas bundas.
Em conjunto, a direção de câmera serve em favor da adoração e exaltação da sensualidade dos corpos. Guadagnino trabalha sua câmera de forma livre e sem amarras — inclusive, em certo momento, a câmera é posta dentro de bola de tênis — , ao passo que dá atenção para os detalhes e adota uma postura de sedução da moral do espectador. Essa estratégia é sustentada pela trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, um tema de batida eletrônica que causa ansiedade e desejo ao mesmo tempo. O resultado disso tudo é audaz: os cortes bruscos de partida são orgasmos frustrados, enquanto nas partidas, Art e Patrick parecem querer se esmagar — no sentido sexual também.
Rivais é um filme divertido e engajante que, embora não seja sustentado pelo tênis, assume seu papel de filme esportivo muito bem. Esse seu lado é mais que bem funcional: as cenas de jogos são hipnotizantes e foi quase impossível ficar parado durante os trinta últimos minutos, em que não apenas essas cenas da final causam ainda mais nervosismo, mas também o desenrolar de tudo. No meio de tantos shorts curtos e apertados, tanto suor respingando na lente da câmera e tanta respiração ofegante, Rivais maximaliza essa experiência de um jogo de poder pautado pelo sexo. O mais importante de tudo, é que você sente tudo isso junto.
NOTA: 10/10
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