Hospital da cidade de Alvorada é alvo de CPI
Denúncias da população levaram Câmara Municipal a tomar providências
Hospital da cidade de Alvorada é alvo de CPI
Denúncias da população levaram a Câmara Municipal a tomar providências
Falta de educação, empatia e atenção. Problemas na comunicação com pacientes e familiares, além de denúncias de negligência na administração de medicamentos e na rapidez dos diagnósticos. As principais queixas dos cidadãos que recorrem ao Hospital de Alvorada se resumem a um ponto: a falta de humanização. Pacientes já fragilizados enfrentam a indiferença de funcionários que não demonstram a preocupação necessária para agilizar os atendimentos.
Cansados com o descaso, um grupo de moradores de Alvorada procurou a Câmara de Vereadores para formalizar suas reclamações. Entre os relatos, há famílias que perderam entes queridos ou sofreram sequelas devido à demora no atendimento. Em outubro, a Câmara convocou o diretor do Hospital, Carlos Grossini, para prestar esclarecimentos. Na mesma ocasião, instaurou-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a administração do único hospital do município.
As oitivas da CPI começaram em novembro, e até o momento, 10 pessoas já prestaram depoimentos em duas sessões.

Plenário da Câmara Municipal é o espaço em que as sessões ocorrem para coletar os depoimentos (Foto: Débora Vaszelewski/Beta Redação)
O Hospital de Alvorada, de responsabilidade do Estado, está sob gestão do Instituto de Cardiologia há dois anos. É o único hospital para atender os mais de 210 mil habitantes do município. Além disso, Alvorada conta com o Pronto Atendimento Municipal (PAM-8), localizado no centro da cidade e administrado pela Prefeitura.

Depoimentos são gravados e vão compor o relatório que será entregue ao Ministério Público e Poder Judiciário (Fotos: Débora Vaszelewski/Beta Redação)
Para o presidente da Câmara, vereador Juliano Marinho, os investimentos prometidos pelo Instituto não foram realizados, e as reclamações, consideradas graves, só aumentaram. Entre os problemas mais apontados estão a falta de acolhimento, ausência de gestão nos finais de semana e negligência.
A CPI, que tem previsão de durar três meses, é composta por vereadores que atuam como presidente, relator e membros. Um cronograma foi elaborado para que, nesse período, o maior número possível de usuários do hospital, que alegam terem recebido atendimento inadequado, possa ser ouvido.
Em nota, a administração do hospital informou que os problemas na área de assistência estão sendo identificados e que as providências necessárias serão discutidas.
Confira trechos dos relatos:
Entre os depoentes, está Mariane Teixeira, que acusa o hospital de ter agravado o estado de saúde de sua irmã com deficiência, que veio a falecer. “É o único hospital que a gente tem e foram negligentes com a minha irmã, porque o primeiro atendimento era fundamental para o diagnóstico”, lamenta.
“Eu decidi vir na sessão porque eu não quero que mais ninguém perca alguém por causa de negligência. Durante toda nossa luta com minha irmã, enfrentamos descaso, humilhação, falta de educação por parte de todos que tiveram contato com a gente. Eu entendo todos os problemas estruturais, falta de recursos, só não entendo a falta de humanização por parte de médicos e enfermeiros que se propõe ma cuidar das pessoas e fazem mal esse trabalho”, afirma Mariane.
Um dos casos que geraram repercussão além de Alvorada foi o de Josiane Oliveira da Silva, de 34 anos na época do ocorrido, em julho de 2017. Sua mãe, Zenaide Oliveira, registrou o relato para a CPI.
“A minha filha me acordou às 1h com dor no braço esquerdo e formigamento no pescoço. Passou mal e então foi levada ao hospital. Na primeira triagem foi dada a fita verde — caso não considerado grave — e avisaram que o atendimento seria somente a partir das 5h da manhã. Uma mulher nova chega no hospital com dor no peito, formigamento no braço, suando frio… olha a negligência. Eu que não estudei pra esse tipo de coisa, imaginei que era algo gravíssimo e mandam esperar até 5 da manhã? Mandaram irmos para fora, levamos uns 15 minutos e ela passou mal de novo. Foi levada de volta para dentro e veio ao óbito. A emergência vazia, só tinha uma senhora, que ainda me incentivou a colocar o hospital na Justiça. Confiamos no único hospital que temos, o mais perto, e não foi atendida. Eu pensei que ela estava em boas mãos e naquele dia ela não voltou mais”.

Cerca de 90 pessoas já se registraram para depor para a CPI (Foto: Débora Vaszelewski/Beta Redação)
Outro depoente foi Alan da Silva, que relatou as dificuldades enfrentadas ao recorrer ao hospital para sua esposa e seu filho, nascido prematuramente aos sete meses. Devido à falta de cuidados, o recém-nascido contraiu uma bactéria no hospital e precisou ser transferido. Graças à insistência e ao apoio da Defensoria Pública, Alan conseguiu uma vaga para o filho no hospital de Bento Gonçalves.
“Eu acho que em uma cidade com o tamanho de Alvorada, com a quantidade de população que a gente tem e o crescimento constante, merecemos um hospital com atendimento melhor. Na frente da UTI Neonatal tem uma sala enorme cheia de incubadoras espalhadas onde elas usam de refeitório, trocam de roupa. Em torno das 18h, moradores de rua têm acesso livre aos banheiros, cães vivem ali, tu precisa desviar deles pra entrar”, argumenta Alan.
Por meio das redes sociais, os vereadores vêm convocando os cidadãos a agendarem sua participação nas sessões. “Queremos que a população continue mobilizada e que tragam seus relatos para que a gente produza um relatório efetivo que aponte ao Ministério Público e Poder Judiciário as mudanças que o hospital tanto precisa para melhor atender”, explica o presidente da CPI, o vereador Schumacher (PT).
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