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A Flecha de Aço

A mata aguardava em seu suspense de mil sonoridades. Com seus pássaros, seus roedores, seus insetos, e as criaturas ocultas nas folhagens…

Dan Fagundes · 2026-07-04 15:46 · 0 claps · 26.0 min read
#ficção #ficção-científica #brasil #cultura-brasileira
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A Flecha de Aço

A mata aguardava em seu suspense de mil sonoridades. Com seus pássaros, seus roedores, seus insetos, e as criaturas ocultas nas folhagens, em um quadro de mil tonalidades de verde, na terra úmida, no orvalho, nas árvores que ocupam o céu. Em tudo residem os olhares, sons, cores e movimentos da natureza viva, atenta e feroz. Dois vultos vermelhos passam como flechas pelo labirinto de plantas de infinitos tamanhos. Seus pés descalços e ágeis quase pisavam a terra molhada e conheciam seus caminhos com maestria. O motivo de tanta pressa rasgou o vento com um rugido de fúria, que vinha logo atrás dos dois índios. Piatã e seu irmão mais novo, Taiguara, podiam até conhecer bem aqueles caminhos e quase cada árvore que compunha aquela vastidão de flora, mas a onça Yakecan conhecia o cheiro de carne jovem entre uma infinidade de aromas da floresta.

Piatã e Taiguara correram e correram, tentaram despistar Yakecan o quanto podiam, puando pelas raízes e serpentes e atravessando a paisagem como sombras, mas o felino parecia ter o domínio do lugar, como um espectro que apenas se revelava através dos terríveis rugidos. Poderia ser imenso e estar em qualquer parte. Era a mata pronta para devorar seus filhos.

Com os pés calejados, o corpo começando a cansar, as respirações rápidas ficando cada vez mais pesadas, Piatã e Taiguara pararam por um momento, se entreolharam em desespero, mas, por capricho da sorte, perceberam mais adiante um lamaçal onde poderiam esconder o corpo inteiro. Rapidamente cobriram-se com aquela massa gelada e se enfiaram por baixo das raízes de uma árvore no meio do que parecia um pequeno pântano. Quem sabe assim conseguissem despistar Yakecan, pois seria mais difícil rastrear os irmãos com o cheiro disfarçado pela lama. Os rapazes reduziram a respiração a um som quase imperceptível e espiavam pelo abrigo estreito que as raízes grossas e trançadas a árvore formavam.

Um silêncio ensurdecedor. Taiguara estava quase convencido de que a onça fora embora, quando a intuição de Piatã o fez conter o irmão, para que não emergisse da lama. Ouviram o som dos pequenos galhos quebrando, e das plantas se agitando. Depois, um baque no solo. Os dois perderam o ar quando viram uma das patas, de Yakecan pousar sobre o emaranhado de raízes logo acima da cabeça deles. Ouviram e sentiram a respiração do felino saindo pelo focinho. Taiguara estava a menos de um palmo da unha do animal. Sua carne já parecia cortar só de olhar. Foi então que um estrondo vindo de longe tomou a atenção do animal, e o fez correr na direção oposta. A terra vibrou junto às raízes e às folhas, pássaros levantaram voo. Algo totalmente alheio ao lugar incomodava a selva.

Os irmãos ainda aguardaram um bom tempo antes de sair do esconderijo improvisado, e foi apenas quando convenceram-se de que a ameaça havia se dissipado. Yaketan se fora, por hora. Daria tempo de voltar à aldeia. Com Piatã logo a frente, como era o costume, pelo seu papel e responsabilidade como irmão mais velho, eles seguiram como toda a cautela até finalmente chegar à aldeia. Passearam pelas cabanas, atraindo alguns olhares de estranhamento ao ver aqueles dois rapazes parecendo dois bonecos de argila. Cada um sentiu uma puxada em ambas as orelhas. Era sua mãe, indignada ao encontrá-los naquele estado.

_Olha pra vocês! O que é isso? Estão i-mun-dos! Banho, já! — E sacudia as orelhas no ar, como se não estivessem presas às cabeças.

Os dois apenas assentiram e seguiram até a cabana, onde um chuveiro improvisado feito de antiguidades os aguardava. A cabana era, assim como as outras da aldeia, uma construção simples, feita com madeira, palha e alguns pedaços de metal trazidos das Ruínas. Pela casa, alguns pôsteres antigos presos de improviso nas paredes e alguns objetos de um passado remoto usados como decoração. Cd’s pendurados como mandalas, peças automotivas usadas como mesa e cadeiras, placas de circuito, tudo usado de forma improvisada e criativa. Aqueles artefatos serviam para lembrar que, um dia, Aldeias com uma quantidade incontável de pessoas, e costumes totalmente diferentes, foram tragados pelas próprias invenções. Cada adorno era um singelo lembrete de que a busca por ter muito mais do que era necessário consumiu civilizações inteiras.

Anoiteceu, e os irmãos agora estavam limpos e mais tranquilos, à mesa com sua mãe, comendo aipim e um peixe assado sob uma mistura cheirosa de temperos, organizados sobre folhas de bananeira.

_Vocês e essa mania de comportar-se como se fossem meus tatataravós. Andando pelo mato descalços, levando apenas canivetes e arcos… Digo, é importantíssimo resgatar as tradições do passado, nossa cultura… Mas eram outros tempos! Vocês até podem ter aprendido alguma coisa com o cacique, mas mas não tem o preparo…

_Mas, mãe… — Interrompeu Taiguara, cabisbaixo.

_Shhhh! Sem mais. Que perigo… Me digam, o que foram fazer lá de novo desse jeito, como se tivessem que caçar para comer?

_Queríamos ver a flecha de aço que fura o céu.

_Mas fica muito longe, meninos!

_Joaci disse que os guerreiros mais corajosos são aqueles que sobem na ponta da flecha gigante. — Disse Piatã, sonhando acordado com a ideia de estar no topo, ornado somente com as pinturas de seus ancestrais pelo corpo, bradando acima da vastidão da mata.

_É um lugar muito difícil. São dias para chegar lá…

_Ah… Mas, queríamos ser guerreiros fortes como nossos antigos… — Choramingou Taiguara.

A mãe os observou com certa dose de piedade, e suspirou. Sorriu pela inocência do mais novo, e pela obstinação do mais velho.

_Vou contar uma história pra vocês, meninos… Minha avó me contava que, quando ela era apenas uma criança, bem mais nova do que vocês, as pessoas chamavam a flecha que fura o céu de antena. An-te-na… Era esse o nome, sim… Os moradores das aldeias de vidro e pedra construíram várias delas para que suas mensagens pudessem alcançar todos os lugares possíveis. Com as antenas, suas palavras podiam percorrer e dominar tudo o que pudesse recebê-las. E nem sempre eram palavras. Sons e imagens também eram espalhadas pelas antenas. Hoje elas são só uma lembrança da passagem dessas pessoas.

A noite estava silenciosa, e Piatã olhava para o teto de palha, onde o vento balançava suavemente pecinhas eletrônicas obsoletas, penduradas como enfeites. Olhava a lua do lado de fora, cheia , plena, parecendo encará-lo de volta, guardadora de todos os mistérios sobre os quais o ser humano um dia deteve algum domínio. Ele pensava o quanto ela já tinha visto dos acontecimentos daquele planeta, toda a história que fora apagada por caprichos do tempo, todo o princípio e toda a danação das pessoas que viviam nas grandiosas aldeias de pedra e vidro. A respiração profunda e a mente inquieta de Piatã desenhava anseios, sonhos, raciocínios aleatórios insones. O jovem deixou a rede, observou seu irmão dormindo, a lua refletida em seu rosto e pintando-o de prata, enquanto dormia um sono pesado, um braço para fora de sua rede, o dedo quase tocando o chão.

Piatã foi para a sala, sentou-se em uma mesa improvisada onde reunira algumas bugigangas e uma pequena pilha de livros científicos. Era um curioso, e procurava conhecer aquelas peças e circuitos que um dia formaram objetos que deixaram as pessoas maravilhadas. Já fazia alguns meses, estava trabalhando na reconstrução de um computador. Nas noites mais inquietantes, ele largava sua rede e alternava entre a leitura técnica e a montagem de uma coisa aqui, outra ali. Uma das poucas tecnologias que os indígenas contemporâneos puderam fazer um bom uso foram os cataventos os painéis solares, ambos fornecedores de energia elétrica o suficiente para aquecer a água, cozinhar sem necessidade de uma fogueira (esta ficava somente para as festividades) e iluminar as aldeias. A leitura também foi uma excelente herança deixada para os sobreviventes.

As aldeias de pedra e vidro, outrora conhecidas pelos registros residuais como cidades, ainda guardavam muitos mistérios. Tornaram-se As Ruínas e, para os indígenas, era um lugar amaldiçoado. Anos atrás, alguns aldeões fizeram uma expedição para explorar uma dessas ruínas, que ficava a cerca de quatro dias de caminhada à noroeste. Dos três guerreiros mais astutos que foram, apenas o mais novo voltou, com uma expressão de terror. Disse que se perdera dos companheiros, que havia armadilhas, e criaturas feitas de metal capazes de lançar flechas feitas de luz que poderiam partir uma rocha com facilidade. Depois disso, o cacique decidiu desencorajar possíveis incursões para o lugar.

Piatã aquecia pequenos filamentos de metal e os unia à placas de circuitos, consultava dois ou três livros ao mesmo tempo, coçava a cabeça, montava peças miúdas em outras peças, ia fazendo um trabalho detalhista e concentrado, numa noite que rendeu mais do que as anteriores.

Amanheceu, e a mãe se assustou ao passar pela sala e ver seu filho mais velho dormindo, mais uma vez, na mesa de trabalho dele. Com uma diferença: logo à sua frente, um monitor ligado exibia a imagem de um mapa visto de cima, com os nomes antigos de diversas rotas e trilhas. Primeiro, espanto. Ela acordou o filho, empolgada, e este, ainda exausto pelo trabalho, sorria de forma sonolenta ao ver o monitor funcionando.

_É um computador, mãe. Eu consertei… — Disse Piatã antes de fechar os olhos e dormir novamente.

No centro da aldeia, alguns homens e mulheres se organizavam, e um burburinho tomava conta da vida pacata do lugar. Taiguara e Piatã se aproximaram. Pelo que entenderam, Jaci, a chefe dos guerreiros e guardiões da aldeia, havia pedido conversado com o cacique pela manhã, pedindo que alguns guerreiros fossem verificar o que havia acontecido na tarde do dia anterior. O que teria sido aquele estrondo tão pavoroso que fez a terra tremer e os pássaros voarem para longe.

A índia Jaci, em aparência e tamanho, poderia se passar facilmente por uma criança. Mas enganava-se quem pudesse, por conta disso, atribuir a ela algum indício de fragilidade. Era extremamente ágil, corajosa, com uma pontaria certeira e olhos de predador. Assim como todos os guerreiros, vestia um traje camuflado, que há muitos anos já havia pertencido aos guerreiros das grandes aldeias. Trazia pinturas em seu rosto, feitas com um tipo de massa branca, e que indicavam em suas linhas e pontos algumas realizações prodigiosas de Jaci.

Piatã e Taiguara ficaram empolgados com a notícia. Quando as pessoas começaram a se dispersar após os informes dados por Jaci, os irmãos quase caíram a seus pés, implorando para participar da investigação com os outros guerreiros. Jaci negou com veemência, e ainda sim eles não se davam por vencidos e continuavam a pedir, e pedir. Taiguara já estava com os olhos em lágrimas.

_Jana não vai deixar que seus dois filhos partam numa jornada onde não se sabem que perigos vamos enfrentar. Ainda que eu permitisse, a proibição de minha irmã vale muito mais.

_Mas, tia Jaci!

_Sem mais. Piatã já tem idade para virar guerreiro, mas ainda não passou no teste. E você, Taiguara, ainda deve esperar uns dois aniversários…

Os rapazes cansaram da insistência, e decidiram voltar para casa, cabisbaixos.

_Piatã, você acha que aquele estrondo foi nas Ruínas?

_Não… Elas estão a muitos dias daqui… Aquilo foi mais perto… E veio de outro lado.

_É chato não poder ir, né? Eu tô morrendo de curiosidade, o que deve ter sido? Será que foi coisa daquelas máquinas horríveis que os homens faziam para destruir as coisas?

_Eu não sei, irmão… Só sinto muito por você não poder ir comigo.

_Ahn? Como assim? Você ouviu a tia Jaci, nenhum de nós pode ir. E ainda que ela deixasse, tem ainda a mãe, e ela mesmo que não ia deixar.

_Ela não precisa saber. Eu vou seguir o grupo. Mesmo se me descobrirem, se a distância percorrida for muito longa, vai ser mais fácil deles me deixarem ir junto. Mas eu não posso te levar, é perigoso demais.

Taiguara, indignado, parou na frente de seu irmão e segurou seu rosto com as duas mãos. Piatã achou graça.

_Escuta aqui, Piatã! Se for pra fazer isso, vamos juntos! A gente se livrou até de Yatekan! Se você não for guerreiro suficiente pra me proteger, e eu não for guerreiro suficiente pra te proteger, então nenhum dos dois merece ser guerreiro mesmo!

Mais tarde, sob a luz da lua, na alta madrugada, duas sombras se moviam apressadas pela aldeia, carregando bolsas com comida, água e alguns objetos que pudessem ser úteis na jornada. O grupo de Jaci havia partido há quase uma hora. Piatã julgou que aquela seria a distância mais sensata; nem muito longe do grupo de guerreiros, nem muito perto, a ponto de levantar suspeitas. Taiguara o seguia com cautela, em movimentos furtivos e tão espelhados nos de seu irmão que quase fazia as vezes de sombra dele. Desta vez, ambos iam mais bem paramentados, com botas antigas, calças grossas e casacos com cor de madeira. Valendo-se de lanternas — mais uma “herança” dos habitantes das grandes aldeias — adentraram na mata fechada, cortando a escuridão com feixes incertos de luz.

Em alguns momentos, podiam ouvir com clareza os passos e até mesmo o respirar dos guerreiros de Jaci, e abaixavam as lanternas o mais rapidamente, esperando dez, quinze, vinte minutos na escuridão, em partes onde a luz da lua não chegava por causa do teto formado pelos galhos e plantas das árvores.

A jornada foi longa e cansativa. Os irmãos andaram pela umidade, pelas folhagens e mistérios noturnos rastejantes e vivos da noite na mata. Quando a comitiva parava para descansar as pernas, eles também paravam. E assim foi, até que a escuridão no céu, vista pelas camadas e camadas de folhas, parecia desbotar com a anunciação da aurora. Piatã olhou para Taiguara. Os olhos de seu irmão lutavam para ficar abertos, mas ao ver que Piatã o observava, os arregalava e emulava uma disposição ilusória.

_No amanhecer chegamos, não é? — Indagou Taiguara.

_Chegamos sim… Toma, come esse abacate, vai te deixar mais acordado. — E retirou de sua mochila um embrulho contendo um abacate médio partido em dois, oferecendo metade ao irmão. — Vamos, Tai… Ouça… Eles estão andando de novo.

Taiguara tomou a frente ao notar o rastro luminoso das lanternas deles logo adiante e, para observar mais de perto o grupo, subiu sorrateiro em um galho avolumado que se projetava em diagonal até oferecer uma visão mais privilegiada do caminho. Ele pôde observar os primeiros princípios dos raios de sol dourando o véu da noite em linhas irregulares, desenhando labirintos infinitos pela vegetação. Quase hipnotizado pela visão, deu um passo em falso, escorregando numa queda desajeitada, onde balançava por um emaranhado de cipós, enrolando e desenrolando sem nenhum controle do corpo, até virar de cabeça para baixo e ficar a dois palmos do chão, pendendo como uma mola, num alívio que fez uma única gota de suor descer de sua testa até o solo.

Todo aquele pequeno e repentino alvoroço despertou a atenção da comitiva, que estava apenas a alguns metros dos irmãos. Piatã sacou logo a faca e começou apressadamente a cortar os cipós, resmungando furiosamente. Foi surpreendido por uma lança que pousou devagar ao lado de seu ombro.

_O que temos aqui? — Disse Jaci, não tão surpresa. — Então sua mãe deixou que vocês viessem no meio da noite, não é? Bom, eu acho que não.

_Tia, a gente só queria ir com vocês… Podemos provar nosso valor como guerreiros e…

_Tá bom, chega. Eu estou cansada demais para discutir com vocês. Fico feliz que nenhuma jiboia, onça ou alguma criatura da noite tenha engolido os dois. Quando chegarmos na vila, terão a devida punição, que é encarar sua mãe. E eu conheço bem minha irmã. Vocês vão querer ver Yatekan, mas não vão querer ver a cara dela quando ela pegar vocês dois.

Como uma infeliz coincidência, um rugido que parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo ensurdeceu os sentidos de todos. O nascer do sol revelou, no semblante paralisado e no reflexo dos olhos assustados de Jaci, um amarelo infernal que rosnava quase nas costas dos irmãos. Ninguém ousou respirar. Os lábios de Jaci estremeciam, tentavam formar alguma palavra inaudível, até que ela deixou explodir, com toda a potência de sua voz, um sonoro “CORRAM!”.

Todos imediatamente dispararam como flechas, enquanto Yatekan passeava pelos troncos das árvores com movimentos extremamente ágeis e elegantes de felino. Por mais que corressem a onça-diabo estava por todos os lados, como se fosse a personificação das ameaças da floresta, e viesse para punir aqueles que ousavam passear pela mata sem pedir licença. Um dos guerreiros cansou mais rápido que os demais, parou, ofegante, e seu grito atordoado foi sua última respiração. Jaci chegou com seus sobrinhos na beira de um rio de correnteza forte, mas não pensou duas vezes e empurrou os dois para a água, pulando em seguida. As habilidades dos três na água, mesmo nos perigos de um rio revolto, dariam mais chance a eles do que o solo, onde Yakecan podia usar de suas artimanhas como bem quisesse.

Os três procuravam manter a cabeça para fora d’água, e lutavam para segurar os braços um do outro, enquanto a correnteza os arrastava. Taiguara era o que tinha mais dificuldade de ficar na superfície, e começou a ficar tonto de tanto que submergia e emergia continuamente. Sua visão foi ficando embaçada, seus olhos queriam se fechar, e o fizeram, segundos antes de encarar a expressão de desespero de seu irmão, que havia quase conseguido segurá-lo. E veio a escuridão.

Tosse e água. Mais tosse, mais água. Parecia jorrar sem fim das entranhas de Taiguara. Ele abriu os olhos, e viu Piatã, sorrindo, agora aliviado, enquanto massageava energicamete o peito de seu irmão, trazendo mais tosse e mais água. Os três se abraçaram em um alívio sem fim. Estavam vivos e, por enquanto, fora de perigo. O destino do restante do grupo era incerto. Todos se dispersaram sob o rugido de Yakecan, mas Jaci sabia bem o caminho que o rio fazia, e que eles estavam não muito longe de suas margens. Piatã foi atrás de algumas frutas, e logo trouxe uma quantidade razoável delas. Comeram com vontade.

_Logo depois daquelas árvores está a aldeia vizinha. O rio nos trouxe no caminho certo. — Disse Jaci, apontando para uma pequena trilha.

O trio reuniu as forças que restavam, e adentraram mais uma vez a mata, seguindo pela trilha estreita. Este trecho parecia menos ameaçador que os demais. Sentiam que era um caminho sem ameaças aparentes. Algumas árvores possuíam adornos feitos pelos aldeões com sementes secas e galhos, outras tinham pinturas com línguas esquecidas. Foi então que a vegetação espessa deu lugar a uma clareira ampla. Um enorme círculo feito de cinzas, como se tivesse havido ali uma fogueira de proporções gigantescas.

_Não pode ser… — Disse Jaci, absorta. — A aldeia vizinha era exatamente aqui. Foi reduzida a nada. Devastada.

Jaci ajoelhara nas cinzas com um olhar perdido. Seus sobrinhos tinham uma expressão de mil dúvidas. Pareciam não acreditar que aquele círculo aberto no meio da mata era, de fato, a aldeia.

_Então… Ela explodiu. Agora faz sentido o estrondo que ouvimos ontem, Tai. O que pode ter acontecido?

Eles ficaram ali um bom tempo, rodeando o lugar, perdidos, com muitas dúvidas e nenhuma resposta. Taiguara passeava pelas bordas do círculo, Jaci usava um graveto para vasculhar algo que não fazia nem ideia do que poderia ser, e Piatã observava o céu.

_Vocês estão ouvindo? — Disse Piatã, enquanto seus ouvidos caçavam a direção e a distância do som. — Vamos nos esconder na mata, rápido!

Correram para a mata e ficaram espiando por detrás das ramagens. Piatã apontou para cima. Era como se um gavião rasgasse o céu em uma velocidade inimaginável. E eles viram o que parecia um pássaro negro, totalmente rígido, sobrevoando o que um dia fora uma aldeia, e direcionando seu bico rumo ao céu em uma ascendência impossível, com um ruído terrível, um sopro agudo e altíssimo nos ares, seguido de uma vibração grave que competia com os mais sonoros trovões. E tomou distância novamente, até sumir no infinito azul. Devagar, eles levantaram-se, ainda muito desconfiados. Piatã ponderou, e Jaci e Taiguara o observavam indecisos. Quebrou o silêncio:

_É um drone. Eu tenho certeza. Já li sobre isso. Não é um pássaro. É uma máquina infernal que os homens das grandes aldeias construíram para disparar flechas de fogo nos inimigos. Flechas com uma chama que cresce rápida, muito rápida, capaz de trazer muita morte. Eu achava que isso não existia mais. Eram usados em guerras, quando ainda eram controlados pelos seus criadores.

_Piatã, o que esse bicho quer aqui? — Perguntou Taiguara.

_Eu realmente não sei…

_Eu sei. — Refletiu Jaci. — Um dia as máquinas voltaram-se contra seus criadores, e passaram a persegui-los. Viraram caçadores. E um caçador quer sua presa a todo o custo. Esse é seu objetivo. Dizem que aqueles que viviam nas aldeias de pedra e vidro se foram. Mas nós somos seus irmãos mais próximos hoje. Essa coisa estava atrás de sua caça. Só não sei como conseguiu nos encontrar, quando nenhuma outra máquina que pensa conseguiu.

_Igual Yakecan, tia… — Respondeu Taiguara. — Sente nosso cheiro, escuta nosso barulho…

Os três, então, decidiram retornar para a aldeia e avisar sobre o perigo no qual todos estavam expostos. Piatã ponderou, enquanto, no caminho de volta, pela margem oposta do rio, observava o correr das águas límpidas, que desenhavam caminhos milagrosos pelas rochas e eram capazes de trazer fúria e serenidade ao mesmo tempo. O curso do rio seria a referência do grupo até certo ponto, onde, em seguida, seria mais sensato passar pela mata mais espessa. A cada meia hora, podiam ouvir a máquina rasgando o ar em total agilidade, mostrando-se como a águia imbatível, o emissário do terror que vinha de cima.

_Piatã, aqui, come uma fruta, pra ficar mais tranquilo… — Taiguara rapidamente colheu algumas jabuticabas e despejou sobre as duas palmas de Piatã.

Comovido com o gesto, o irmão mais velho procurou trocar o semblante de preocupação pelo de calma, por mais que, em seu âmago, estivesse em conflito entre mil raciocínios e preocupações. Não bastava a onça furiosa Yakecan ameaçando as criaturas da floresta. Havia também o perigo iminente do drone, o pássaro feito de metal.

Durante o longo caminho de volta, a floresta parecia mais tranquila. Talvez até o próprio Yakecan tivesse se assustado perante a chegada do predador absoluto. Jaci conhecia bem os caminhos, e os caminhos a conheciam. Em cada tronco e junco ela revivia histórias de sua juventude, mais ou menos na idade de seus sobrinhos, a correr velozmente por todos os caminhos da floresta e jamais ousar aventurar-se nas aldeias de vidro e pedra. Já houve um momento de curiosidade, mas esta morreu há muito tempo, consumida pela precaução ainda não desenvolvida entre os mais jovens.

Em certo momento do caminho, o suor cobria-lhes até a visão e o cansaço forçava-os a descansar por algum momento. Taiguara tombou de costas, propositalmente, na relva e, por entre as folhas verdes que lutavam para esconder o céu, encarava aquele azul infinito enfeitado por algodões flutuantes.

_Piatã… Uma vez eu li em um daqueles livros empoeirados dos tempos antigos, sobre as flechas gigantes que apontavam para o céu…

_Ahn, as antenas.

_Sim, antenas. Elas podiam transmitir mensagens para todos os lugares. Podiam fazer com que cada homem soubesse exatamente onde estava. Por ela, funcionavam as vozes distantes, que podiam ser espalhadas pelo mundo todinho… Eu fico aqui pensando: como os homens daquele tempo conseguiram estragar com tanta coisa?

_Dinheiro. — Jaci cortou, enquanto comia alguns frutos distraidamente. — Aquelas pessoas foram enfeitiçadas pela própria vontade de ter cada vez mais. Elas ficaram doentes por aqueles números que aumentavam e diminuíam, e que assim mostravam se uma pessoa estava satisfeita ou não. As ciências que eles produziam eram vistas como aliados importantes, mas acabaram tornando-se seus piores algozes. Eles queriam mais… Nunca contentaram-se em viver como nós, como nossos ancestrais. Viver daquilo que a terra dá sem reclamar, sem pedir seus números e conversas bonitas.

Silêncio. As palavras de Jaci fizeram os irmãos refletirem sobre os males dos tempos passados. Ouviam a floresta cantar através do vendo suave e dos pássaros, e alguma paz invadiu seus corações. Sentiam-se seguros na presenta de Jaci. O que lhe faltava em estatura, ela tinha de agilidade e perspicácia. A guerreira de movimentos rápidos e que já derrubou animais e pessoas com o triplo de seu tamanho.

Piatã, também deitado na relva, passou a observar uma pequenina folha que havia se soltado de sua mãe-árvore. Ela descia, rodopiando e rodopiando, às vezes deixando-se levar pelo fluxo do ar, outras, resistindo, e mantendo um trajeto mais ou menos regular, até finalmente pousar sobre uma pequena poça d’água à distância do braço de seu observador. Piatã lembrou-se de como, ao esfregar algum objeto fino e metálico nos cabelos e colocá-lo em uma folha sobre a água, poderia ser improvisada uma bússola. Não estava perdido. Achou, no primeiro momento, o pensamento inútil. Mas esta reflexão puxou outra: lembrou do mapa aberto em seu computador. Lembrou que, para aquele mapa existir, alguma coisa precisava transmitir a informação para o computador, através de uma… Antena!

Levantou em um sobressalto.

_A flecha! A flecha de aço! E-ela deve estar guiando o drone! A flecha de aço ainda funciona, eu sei! Ela fez aparecer o mapa no computador que eu arrumei!

_O que diz, meu sobrinhoo? Que a culpa desse drone estar passando por nossa região é pelas informações que consegue da flecha de aço?

_Acredito que é isso, tia Jaci… Agora, não sei o que podemos fazer… Teremos que viajar até a flecha, e depois temos que desligar. Como vamos fazer isso, eu não sei… Mas deve haver alguma forma.

Então, passado o momento breve de descanso, todos levantaram para seguir viagem.

Era noite quando os três chegaram à aldeia, sem alarde. Quase todos já haviam se recolhido para suas casas, exceto um pequeno grupo em volta de uma modesta fogueira, em um dos cantos nos limites do lugar. Não houve qualquer alarde sobre a chegada, e nem deveria. Os irmãos apressaram o passo ao aproximarem-se de casa e verem a mãe na janela com o rosto tenso. Ao ver seus filhos voltando, expirou em lágrimas, alternando sua expressão entre o riso esperançoso e alguma raiva pela iniciativa inconsequente e desautorizada dos filhos. Piatã e Taiguara abraçaram-na forte, também em prantos. Ela e a irmã trocaram um breve olhar de discreta reverência e agradecimento à Jaci por ter cuidado para que os dois voltassem inteiros para casa.

_Vocês estão de castigo! — Disse a mãe com firmeza, passado o êxtase.

Os irmãos, sentenciados pelo olhar inquisitivo de sua mãe, sequer fizeram qualquer protesto. Sabiam que foram imprudentes, e apenas abaixaram a cabeça e entraram em casa.

Um pouco mais tarde, estavam os quatro na mesa, onde uma grande e redonda panela exalava um aroma de legumes cozidos e bem temperados com as ervas da região, inebriando e colocando as bocas a salivar involuntariamente. Tentando conter a afobação, o apetite, Piatã e Taiguara foram logo servindo a mãe e a tia, para depois servirem-se.

_E então? O que vocês viram? — Perguntou a mãe aos restantes.

_Fogo e raiva. — Irrompeu Taiguara.

_A outra aldeia… — lamentou Jaci — Ela se foi em fogo. Foi destruída por um daqueles pássaros de aço. E eu temo que ele possa nos achar alguma hora… Amanhã irei ao pajé explicar a situação… Talvez a gente precise ir embora, deixar esse lugar e se abrigar no coração da mata…

_Mas lá tem Yakecan, minha irmã! Ele governa a mata e não terá piedade por nossa presença lá!

_Ainda assim… Talvez com a aldeia unida, a gente pode…

_Pode o quê?! Matar Yakecan? É isso? E seremos melhores que ele? O que nos daria o direito? Quando nossos antepassados se acharam no direito de invadir e desrespeitar as matas, julgando-se os mais espertos dos animais, foi aí que eles começaram a se perder. E agora se perderam de vez, deixando só essas assombrações do passado que ainda querem caçar a gente…

_É… Tem toda a razão… Mas, e vamos fazer o quê? Não tem flecha que derrube uma coisa dessas, e…

_Tem sim. — Interrompeu Piatã, ansioso. — A flecha de aço. Acho que ela está guiando o pássaro.

_Você ACHA, meu filho? Achar não vai nos ajudar…

_É uma esperança, mãe. E, se a senhora não me deixar subir lá no alto e desligar a flecha, eu vou mesmo assim!

_Que ousadia, menino!

_Mãe… Já estou na idade de me provar um guerreiro.

_Pois esqueça essa coisa de guerreiro. Guerreiro é coisa de quem faz guerra, rapaz! E o que fez a guerra pelos nossos?

Um silêncio preencheu o ambiente como uma grande interrogação. Jaci e seus sobrinhos entreolharam-se, quase curvados sob a figura intimidadora da mãe, que fazia-se maior, a encarar um a um, a provar de suas dúvidas com um ar imponente. Balançou os cabelos rapidamente, deixou seus cachos esvoaçarem e tomarem-lhe uma porção do rosto. Balançou novamente, inquieta. Suspirava, franzia a testa. Todos aguardavam com total apreensão por alguma palavra sua.

Por fim, após um longo suspiro:

_Não precisamos de guerreiros, não mais, meu filho. Mas… Salvadores, sim. Quero que Taiguara fique, e sua tia vá contigo. Ela tem a habilidade que você ainda não tem. Jaci, por favor… Leve mais alguns com você.

_Aqueles que me acompanhavam foram comidos pela mata. Me envergonho de não trazer sequer seus colares vermelhos de volta às suas famílias… — Disse Jaci, enquanto lágrimas escorriam em linhas prateadas pelo seu rosto.

A mãe aproximou-se de Piatã, retirando um colar de pedras cor lilás de seu pescoço e colocando em seu filho.

_Sua segunda tarefa, e tão importante quanto desligar a flecha de aço: voltar inteiro… E em pé.

No dia seguinte, Jaci aproveitou as primeiras horas da manhã para visitar as famílias dos guardiões que a seguiam, e que tiveram as vidas devoradas pela implacável onça Yakecan. Ela lamentou e chorou por cada um deles. Não havia ódio ou sentimento de revolta entre os familiares. De algum modo, eles entendiam que morrer era um risco constante para todo e qualquer guardião. Apesar das lágrimas e da dor, nutriam certa paz ao saber que seus entes se foram cumprindo o dever.

Taiguara e Piatã estavam sentados lado a lado, em uma grande pedra próxima à aldeia, que dava vista para a torre pontiaguda. Ficaram algum tempo compartilhando um silêncio onde seus pensamentos se conversavam.

_Irmão… — Disse Taiguara. — Fico triste de não poder ir com você… Mas por favor, volte, pra gente ter outras aventuras quando eu crescer um pouco mais… Promete?

_É, pequeno Tai… Eu vou voltar sim. Além do mais, não quero deixar a mãe decepcionada nem brava comigo. Estou indo, mas antes que você imagine, vou estar de volta.

Piatã deixou o irmão sentado na rocha, e foi juntar-se a Jaci, para que pudessem partir. O jovem checou mais uma vez a mochila. Mantimentos, uma antiga lanterna (que ainda funcionava) cantil e algumas poucas ferramentas recheavam seus compartimentos, mas não de forma exagerada; tudo havia sido bem organizado uma noite antes, levando em conta o fato de que carregar peso demais poderia ser o fio a separar a vida da morte.

A tia Jaci aguardava por Piatã na saída do vilarejo, que consistia de uma trama de galhos trançados a desenhar um arco, com suas extremidades terminando no cercado rústico que rodeava o local. Ela assentiu com a cabeça, em sua linguagem silenciosa, como quem diz “estamos prontos”. E assim, adentraram a mata densa mais uma vez.

A caminhada foi duradoura, mas relativamente tranquila. Depararam-se com cobras, aranhas de tamanhos consideráveis, e tantas outras criaturas que habitavam toda a rica fauna da mata. Mas havia uma certa atmosfera de trégua, e sequer o rugido paralisante de Yakecan foi ouvido. Cruzaram nascentes, riachos rasos — outros, nem tanto — pontes feitas acidentalmente de troncos caídos. Entremearam as ramagens e cipós e folhas de um verde vivo, infinito, que trazia consigo os ruídos tímidos de mil criaturas escondidas por todas as entranhas da mata. Trazia também umidade, e os odores das folhas e flores coloridas que adornavam a paisagem, um quadro vivo e denso de uma infinidade de tons verdejantes.

_Será que falta muito, tia? — Sussurrou Piatã, como a evitar a quebra dos sons da natureza.

_Só mais um tanto, menino. Você já sabia que a caminhada era longa…

Quase uma hora se passou após o último diálogo, quando, numa expressão de suspense, Jaci, que assumia a frente na caminhada, revelou, ao descortinar uma cabeleira de cipós, a base da flecha de aço. A antena era uma torre estreita, de base larga que ia afinando até terminar em uma ponta aguda lá no topo, tal qual uma flecha. No entorno, havia um cercado de metal, tomado por cerca viva, enferrujado tanto quanto a torre, mas ainda inteiro. A estrutura era enorme, porém não muito complexa. Uma sequência de treliças de ferro, acompanhadas por grossas vigas de sustentação e chapas que serviam de chão na escadaria que fazia uma espiral quadrada que parecia não ter fim. Antenas menores despontavam como flores em galhos, nas proximidades do cume.

Piatã ficou a admirar a construção por algum tempo, boquiaberto. Ao lado da base da antena, havia uma pequena construção em forma de caixa, feita de concreto, um pouco menor do que uma casa. Sem janelas, possuía apenas uma porta de aço, tomada pela ação do tempo nas ferrugens e na vegetação que a cobria.

Sem muito esforço, a dupla pulou a cerca, apesar de ser um bocado mais alta que Piatã. Aproximaram-se da entrada da saleta, e Jaci constatou que a porta estava trancada; apesar da ferrugem, era grossa e nem seus empurrões vigorosos a levaram abaixo. Foi quando Piatã retirou algumas de suas ferramentas da mochila e, com paciência e cuidado, conseguiu destravar a maçaneta da porta. Ligou a lanterna ao entrarem, e passeou seu feixe por cantos onde havia muita teia, uma mesa com um painel repleto de botões e luzes piscantes, um armário atrás da mesa e um mural de recados bem à frente. Era apertado e quente.

Do painel, os leds que piscavam pareciam indicar que a antena ainda estava em operação. Em uma tela pequena e estreita no canto superior do painel, havia um ícone que lembrava o formato da antena, com uma alternância de luzes desenhando arcos que moviam-se de sua ponta.

_Isso aqui, tia… Indica ainda há sinal na antena… Como eu imaginava!

_E o que nós fazemos agora, menino?

_Hmm… Vejamos aqui…

O rapaz coçava a cabeça, olhando um ou outro botão, ousando apertar algum de vez em quando, tentando decifrar o funcionamento do painel. Os caracteres estavam praticamente apagados, e nem todos os comandos ali funcionavam. Decidiu abrir o armário feito de chapas de aço logo atrás deles, e encontrou um capacete, uma lanterna e alguns cadernos com anotações diversas. Pôs-se a ler rapidamente, procurando por alguma pista que mostrasse como era possível desativar o sinal da estrutura. Jaci já estava ansiosa com a espera, mas tentava auxiliar Piatã na árdua tarefa. Finalmente, ao revirar as páginas de um bloco de anotações, ela deixou cair um pedaço de papel amarelado pelo tempo, contendo a seguinte mensagem:

“Antônio, fica o lembrete. A antena principal possui proteção extra agora. Por questões de segurança, para desligar, você deve abrir o painel que fica lá no topo e puxar a alavanca amarela para baixo. Use a chave que está na gaveta de baixo.”

Piatã e Jaci entreolharam-se; ela pôs logo a mão na gaveta, e lá estava a dita chave. Voltaram para fora, e deixaram seus olhos subirem e subirem até a ponta da flecha, quase oculta pelas nuvens.

_ Piatã, espero que seja isso mesmo. A subida é longa, vamos com paciência. E rezemos aos grandes espíritos para que seja esse o fim do ataque do pássaro da morte.

_ Também espero que seja só isso, tia. É uma intuição forte. Como se minha cabeça tivesse completado um quebra-cabeças com um monte de peças em falta. Eu sinto que é isso. Desligando a antena, a flecha, a gente tira a orientação do drone.

E foi nesse instante que o rugido de Yakecan rompeu a serenidade e fez gelar a espinha dos aventureiros. Sem pensar duas vezes, ambos começaram a subir a escadaria espiralada e quase infinita da antena, sabendo que, a qualquer instante, a onça poderosa iria saltar das profundezas verdejantes, tornar-se visível, e destroçar tudo que respirasse e sentisse medo.

Cinquenta metros de altura, incontáveis degraus e o baque agudo dos pés ligeiros contra o metal da estrutura. Piatã olhou para baixo, arfando, pernas doendo, fatigado, mas o medo deu um novo vigor a ele, ao ver a enorme Yakecan escalando a estrutura com toda a destreza felina. Era um monstro pomposo, digno das melhores lendas, com dimensões além das de uma onça ordinária. Sua cabeça era quase quadrada, enorme, de modo que parecia poder engolir um humano de uma só vez.

Sua agilidade a cada salto preciso, de uma viga a outra, tornava a corrida até o topo quase desleal, pois a fera não cansava como eles, passeava silenciosa, como se a gravidade não existisse para ela. Era a predadora perfeita, digna do título de protetora da mata.

Jaci e Piatã já estavam ofegantes, e ainda havia alguma altura a ser superada até o topo. Com o monstro em seu encalço, consumiram demais seu vigor na pressa investida para não serem devorados. Mas o esforço parecia inútil, pois a onça estava já a poucos metros, quando Jaci tropeçou em um degrau torto. Piatã, logo atrás, tratou de puxar sua tia com o que lhe restava de força, mas, vacilante, perdeu ali o tempo que serviu de vantagem à Yakecan. Agora ambos estavam de frente para o monstro, que começou a exibir sua coleção de dentes afiados, em um sorriso diabólico e completamente paralisante. Parecia ser o fim da jornada. Talvez a jornada humana tivesse, de fato, seu fim decretado pela natureza que, não contente com os poucos sobreviventes, permitiu à tecnologia e a seu filho mais aterrador devorar pouco a pouco cada um deles.

Yakecan já contorcia os músculos do corpo todo, incrivelmente equilibrada sobre uma viga transversal, quase pronta para pular sobre os dois. No último segundo, Piatã arremessou sua mochila contra ela. Isso foi o suficiente para fazer a onça vacilar e, daquela altura, equilibrada em um pedaço estreito de metal, não havia margem para qualquer reação mal pensada. Ela escorregou, tentou fincar suas garras enormes no aço, mas não foi o bastante. O animal, em seu último desespero visível, sacudiu violentamente seus braços no ar enquanto caía para a morte, tendo seu corpo golpeado diversas vezes pelas vigas da estrutura, até desaparecer na camada branca da serração formada perto do solo.

Jaci e Piatã mal conseguiam se levantar. Ainda estavam em choque, estupefatos, buscando puxar o ar que havia escapado quase todo de seus pulmões. Agarraram-se ao que restava de si mesmos, e continuaram a engatinhar pacientemente até o topo.

Ao chegarem no ponto mais alto, puderam vislumbrar toda a mata e além. O alcance cobria regiões por onde eles nunca haviam passado. Estavam maravilhados. Piatã deixou algumas lágrimas escaparem, hipnotizado. Como se magicamente tivesse recuperado suas forças, urrou para o horizonte um brado potente de guerreiro. Logo atrás dele estava a dita cabine, uma caixa metálica modesta, totalmente enferrujada, com um cadeado que custou a ser aberto, devido à aspereza de suas juntas, fruto da força do tempo sobre todas as coisas. Piatã encontrou luzes piscantes e uma alavanca bem no meio do painel interno. Ao movê-la para baixo, tudo o que ouviram foi um clique, e as luzinhas apagaram. Estava feito. Agora, era esperar para descobrir se, de fato, ele estava certo. Subiu a flecha de aço, enfrentou a guardiã da mata, e fez o que pode para protegê-la novamente. Muitos feitos para um único dia.

Ao voltar os olhos para Jaci, viu que ela esmagava com os dedos algumas ervas que havia trazido consigo. Uma massa de coloração roxa tomava forma em sua mão, enquanto ela cantava baixinho uma canção de tempos antiquíssimos, nas línguas já quase esquecidas de seus ancestrais. Ela virou-se para Piatã, decorando seu rosto com aquela tinta, fazendo as marcas dignas apenas dos bravos de outras épocas, trazendo aos ouvidos atentos de seu sobrinho notas doces, quase sussurradas entre os ventos que faziam ranger a flecha de aço.


메타데이터
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