Pai, tem uma barata no teu ombro
Um retrato excruciante de um apartamento, uma família disfuncional e baratas. Muitas baratas.
Pai, tem uma barata no teu ombro
Eu já me mudei mais de 15 vezes. Dentre tantos apartamentos, kitnets e sobradinhos na rua da casa de minha avó, em duas casas tive problemas com baratas. Na primeira delas, eu me lembro muito bem dos azulejos pretos do pequeno banheiro que ficava na pequena sala que antecedia meu pequeníssimo quarto — em que só cabia a minha cama. Nessa época, eu dormia com minha mãe quase recém divorciada e estava descobrindo as loucuras da pré-adolescência e foi quando eu conheci minha melhor amiga. Há 18 anos. Essa casa ficava em frente a uma praça, onde, uma vez, vi dois cachorros sendo atropelados e nunca me esqueci. Quando morávamos nessa casa, compramos o nosso primeiro DVD (era um luxo ter um aparelho de DVD e foi nesse momento em que conheci o fear of missing out porque todos os meus colegas de sala já tinham visto o show do RBD, e eu não), que era, também, um emocionante karaokê no qual minha tia cantava versões histriônicas de Cidade Negra e Raul Seixas. Gita… Gita… Gita… Nos mudamos dessa casa porque ela era pequena demais e longe o bastante do controle que minha avó operava sobre seus moradores. O karaokê resistiu. Mas por pouco tempo.
A segunda casa era, na verdade, um apartamento no centro da cidade. Nesse lugar, eu conheci a tristeza de terminar um relacionamento de anos, aprendi a ser universitário (okay?) e me relacionei com várias pessoas que eu julgava dignas da minha atenção e impressionante personalidade. Uma vez, recebi uma surpresa de um rapaz que não era muito claro sobre o que queria comigo e foi nesse dia que eu descobri que odeio surpresas. Foi nesse apartamento em que minha ex-namorada (é!) e minha melhor amiga (dona desse posto há 18 anos) esqueceram suas diferenças e organizaram uma festa surpresa para mim com o tema “True Blood”, minha série favorita da época. Foi bem divertido, mas minha mania de controle me mandou um recado: você odeia surpresas. Nos mudamos desse apartamento porque associaram a mim e a minha mãe um motim depois de um curto-circuito que quase explodiu o prédio inteiro no centro da cidade.
Mas eu quero falar das baratas. Voltemos às baratas. Em ambas as casas, em algum momento eu convivi com as baratas. Na primeira, descobri o cheiro que esses pequenos animaizinhos nojentinhos traiçoeirinhos exalavam pelos ralos. Os ralos do banheiro todo preto que ficava alagado quando tomávamos banho. O odor das baratas se espalhava pela casa, nos alcançando no quarto, enquanto trocávamos de roupa. Como pode alguém, em sã consciência, escolher azulejos pretos para se construir um lugar que, constitutivamente, se assemelha a sujeira? Como é possível rastrear as baratas quando não há contraste entre os ladrilhos de escuridão fosca e seu marrom avermelhado nem vivo nem morto? Como podem existir as baratas? Como G.H. se atreveu a agir de tal modo?
Quando me indicaram “Os Tais Caquinhos”, de Natércia Pontes, me disseram “epa, é ótimo, mas é muito gráfico! É muito nojento”. No-jen-to. Ouvir essa palavra me deixou um tanto confuso porque até o começo desse mês eu não sabia como um livro poderia acessar esse lugar no meu cérebro. Eu nunca senti medo com livros de terror. Eu nunca ri com livros que evocam comédia. Mas chorar eu já chorei bastante com passagens sobre as arestas de uma amizade, sobre distância e sobre luto. Nojo? Nunca senti.
Logo nas primeiras páginas somos apresentados a uma narradora personagem que descreve as formas provenientes das ceras dos seus ouvidos e uma casa repleta de uma espécie de lixo funcional. Quando se está dentro de uma casa assim, é difícil perceber que estamos falando de lixo. Por mais que seja funcional. Abigail abre as páginas do seu diário para o leitor e nos conta como ela, sua irmã Berta e seu pai Lúcio formam um trio supostamente disfuncional e como eles funcionam diante desse cenário de sujeira e acumulação. Às vezes eu acho que eu e minha mãe passamos por momentos de acumulação: quantas caixas de remédio podem possuir alguma serventia no meio de tantas outras caixas de remédios vencidos há mais de três anos? E aquelas roupas que não nos cabem mais? Eu juro que em algum momento elas vão servir para alguma coisa. Aquela blusinha de True Blood que eu gostaria de ter usado no dia do meu aniversário surpresa com certeza vai virar alguma bolsa. Ela não cabe mais em mim, mas vai virar uma bolsa, uma flâmula, uma arte, alguma coisa, eu juro.
As baratas do meu segundo apartamento saíam da lavanderia, também entravam nos ralos do banheiro e até mesmo da cozinha. Dizem que elas vinham do restaurante que ficava no térreo do prédio e eu me pergunto quantas vezes eu almocei ou comi a comida de lá. Se entranhavam nas roupas, e acredito que uma vez elas chegaram a entrar no pote de achocolatado. Esses serezinhos nojentinhos traiçoeirinhos! Como vocês fazem isso? Como vocês podem existir? Assim como a de Abigail, essas duas casas em que eu vivi por um tempo utilizam a bagunça para esconder a disfuncionalidade, não da família, mas da casa, em si, como um ser vivo, dotado de uma dinâmica específica e de momentos nos quais as paredes ficam sujas e com um cheiro azedo. As caixas de papelão amontoadas pela casa da narradora me lembraram das minhas roupas que em vários momentos do final da minha adolescência fizeram aniversário no chão. De alguma forma, essa figura e fundo amalgamavam os caquinhos de uma família que precisa superar, para além da “cordilheira de lixo”, a dificuldade em sustentar os seus sonhos e a vontade de viver.
Além disso, Abigail tenta compreender como é possível que Berta, sua companheira de sobrevivência nesse apartamento repleto de baratas, pode parecer odiar sua presença e tudo que diz respeito a ela. Como odiar por 15 minutos uma pessoa que deveríamos amar a vida toda? Como nutrir sentimentos de fúria por alguém com o qual compartilhamos o sangue e o DNA? Como lidar com a repulsa de quem, ao nosso lado, se constitui como lar? Parece óbvio, mas nessa idade a gente tenta mesmo entender um monte de coisa. Tudo parece nos odiar. As coisas todas parecem precisar de nós. Ou será que precisamos de tudo?
O que mais me comoveu não foram as cenas gráficas e o modo sinestésico com o qual a escrita se desenrola. Foi o que está por trás disso tudo. É o que se esconde nos elementos que formam uma acumulação de desordem e de sentimentos chacoalhados que cortam pés descalços como vidro. O que me deu coceira não foi o tapete de pó e as baratas andando no ombro de Lúcio. Foi um pai implorando pela morte e se indagando, quase diariamente, “por que a morte não me vem?”. E tem Marina Lima… Outros olhos e armadilhas de uma suposta disfuncionalidade. O título dessa música é, ironicamente, o meu signo. E dizem que Virgem se responsabiliza pela organização e pela morte à bagunça. Isso acontece mesmo, mas às vezes, é como se animaizinhos nojentinhos traiçoeirinhos fizessem festa ao redor da minha mente e me travassem. E Abigail está certíssima: a música começa com uma pergunta. Uma pergunta. Uma montanha, um cordão umbilical. A bagunça não precisa de nós. As coisas não precisam de nós.

A adolescência, suas baratas, e tudo que a constitui.
메타데이터
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