A tua vizinha é melhor que a minha
Vítima do Tecno
Tenho uma vizinha que é, em teoria, o sonho de qualquer assembleia de condomínio progressista. Cívica, dinâmica, preocupada com as causas sociais, os animais abandonados, os fundos para operações de mudança de tons de cabelo, o ensino escolar de focas na Malásia e todas as associações com nomes compostos e intenções nobres. Conhece o país de lés a lés pelos (e os pêlos também) trilhos das urgências do mundo e o país conhece-a a ela. Designer, publicitária, famosa, super bem relacionada. Vai à Índia descobrir o silêncio, volta ao Alentejo para defender o som dos grilos e daí segue para o Sri Lanka para beber folhas de guaxinim alado. Numa semana é vegan, na outra recolhe donativos para a nova horta comunitária da Arrentela, no dia que se segue faz teréré em missanga. E tudo isto com um sorriso zen, palavras doces, conexões de alma, “bué yas” e olhos que brilham como se tivessem conhecido pessoalmente o Dalai Lama e partilhado com ele um pastel de nata de arroz integral.

O único problema - e é um só, mas dos grandes - é que mora no andar de baixo do meu. E, como DJ de Tecno e activista de si mesma e da sua emancipação, leva o conceito de liberdade até ao último decibel. A linha que separa o “viver a sua verdade” do “impor o seu BPM” esbate-se à meia-noite, dilui-se às quatro da manhã e dissolve-se completamente num domingo às oito.
Nesses momentos, desaparecem os animais, as causas, a trans em processo de angariação de fundos e o amor comunitário. Não há lugar para a empatia. Só para a alucinação. A floresta Amazónica aguarda, o planeta espera e eu também, enquanto ela cumpre o seu desígnio. O que interessa é que o subwoofer está no ponto certo para lhe preencher o chacra do prazer. E nós, que a ouvimos, não como fãs, mas como reféns, tornamo-nos figurantes involuntários na sua rave espiritual. O remix do “My Humps” em Tecno Reggae passa rapidamente para “My Trumps” em ego cego, ou “Putin Hands Up for Detroit”. O problema está em ser-lhe impossível reconhecer isto. Sente-se a Fiona, em “Shrek’ a cantar para o passarinho, esquecendo-se de que ele rebenta na nota mais aguda. Fica ofendida e surpreendida, com a ousadia de alguém se sentir indignado perante a SUA liberdade!
E assim vai a minha vizinha: entre a luz e o laser. Uma espécie de Buda com coluna JBL num dia de praia. Capaz de salvar o mundo - desde que o mundo respeite o seu after, enquanto ela respeita sempre todos, hipoteticamente.
메타데이터
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