E Se Fosse Eu?
Às vezes, leio os profetas e me sinto distante — como quem assiste a um filme antigo, em preto e branco. Isaías, Jeremias, Ezequiel…

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E Se Fosse Eu?
Às vezes, leio os profetas e me sinto distante — como quem assiste a um filme antigo, em preto e branco. Isaías, Jeremias, Ezequiel, Miqueias, Amós… Homens com nomes fortes, vozes carregadas de céu, palavras que estremeciam cidades. A gente lê como quem folheia um jornal de guerra: com curiosidade, admiração — mas raramente com identificação.
Mas e se fosse eu? E se fosse a mim que Deus dissesse:
— Vá, diga, mesmo que ninguém ouça. Fale, mesmo que zombem. Sofra, mesmo sem culpa.
Será que eu obedeceria?
Jeremias foi chamado jovem e resistiu:
— Ah, Senhor, eu não sei falar…
E mesmo assim foi. Chamaram-no de traidor, prenderam-no, jogaram-no numa cisterna cheia de lama. Tudo isso por dizer a verdade que ninguém queria ouvir.
E se fosse eu, com barro até o peito, frio, fome, silêncio em volta… Eu continuaria profetizando?
Oseias teve que se casar com uma mulher infiel para encarnar o amor de Deus por um povo que sempre o traía. Não somente pregar com palavras, mas viver a mensagem com o próprio coração em pedaços.
E se fosse eu? Aceitaria ter minha história amorosa usada como parábola divina? Ou pediria algo mais digno, mais justo, mais limpo?
Ezequiel perdeu a esposa — e Deus disse:
— Não lamente. Não chore. Não faça luto.
Como se o luto também tivesse que ser sacrificado em nome da missão.
E se fosse eu? Se perdesse quem amo e ainda assim tivesse que seguir firme, mudo, visível como um sinal? Eu suportaria?
Isaías andou nu e descalço por três anos — um sinal vivo de vergonha profética.
Amós era somente um boiadeiro — e Deus o arrancou dos campos para enfrentar os reis.
Miqueias viu a miséria do povo e clamou contra os poderosos que vendiam justiça por moedas.
E todos eles? Rejeitados. Ridicularizados. Exilados. Alguns mortos.
Não havia sofisticação em ser profeta. Não havia palco, aplauso, nem seguidores. Só peso. Peso de carregar palavras que ninguém queria ouvir.
E se fosse eu? Será que suportaria ser usado por Deus e desprezado por todos? Será que amaria a verdade o suficiente para perdê-la em mim mesmo?
Hoje, ser voz parece fácil — é só ligar uma câmera, abrir um microfone, escrever um post. Mas profetizar não é gritar opinião. É encarnar a mensagem. É deixar que a Palavra nos atravesse antes de sair pela boca.
Os profetas não eram super-heróis. Eram pessoas. Pessoas que tremiam, que choravam, que se cansavam. E ainda assim foram. É por isso que suas palavras continuam vivas. Porque foram ditas com sangue, com lágrimas, com os ossos cansados — mas fiéis.
Outro dia, sentado com minha Bíblia aberta, percebi que a pergunta não é somente o que Deus quer me dizer? A pergunta mais difícil é: o que Deus quer dizer por mim?
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