areia (de gato)
vinha na orla do leme, na noite feita em neblina. um velho velhíssimo na luz perto do coqueiro, duas sacas de areia na mão estourando as…
areia (de gato)
vinha na orla do leme, na noite feita em neblina. um velho velhíssimo na luz perto do coqueiro, duas sacas de areia na mão estourando as veias, mão-zão roxo de tanto ser antes de mim.
de longe, pensei serem cinzas, dei rosto à amada morta, depois de décadas juntos, mas não era bem assim. quer ajuda ? quer ganhar algum trocado ? disse eu e disse ele na rua atlântica só.
ignorei a pergunta, o ajudei a encher outros dois sacos sem saber razão com uma bacia de ferro e pus na mala do carro.
aquilo tudo, tanta areia era para o gatinho dele, ele veio me contar. era da serra e aquilo era o melhor para o seu bichinho cagar. me passou 10 reais em notas de 2, na real 8 reais.
falou: faço 90 anos na semana que vem e quantos tem você ? :: 21, parabéns. me desejou longevidade e fiz o mesmo.
um dia acaba o dinheiro, a areia, o gatinho, a neblina, o leme, o velho, o meu corpo, o do velho, o sistema solar
o anonimato embaçado que se cruza porque sei que estou vivo
e suo em seu lugar.
메타데이터
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