Experimento
Eu não vivi muito, mas uma coisa que aprendi é que não há tantas regras assim. Quem deveria ser a pessoa má muitas vezes não a é, quem…
Experimento

David Ligare
Eu não vivi muito, mas uma coisa que aprendi é que não há tantas regras assim. Quem deveria ser a pessoa má muitas vezes não a é, quem deveria ser alguém em quem confiar muitas vezes não o é. Ainda assim, algumas vezes é preciso ter medo e é preciso confiar.
Voltando para casa, você se depara com duas ou três pessoas não-confiáveis. Ou que, ao menos, deveriam ser. “Eu só quero comida.” Uma vez achei 4 reais na rua, a à rua eles retornaram. “Boa noite, moça.” “Boa noite.” A gente não pensa direito no que deseja às pessoas. Ainda assim, lhe desejei boa noite.
Confiei muito, e se fiz, por mais que pareça, não me arrependo de fato. Confiar e se arrepender parece mil vezes melhor do que nunca ter tentado. O piegas e o óbvio os são por um motivo. Existe uma tendência hoje de viver pela vida alheia. São conselhos demais, padronizações, exemplos, resumos. Eu sempre quero pagar pra ver, porque sei que sempre existe um respiro.
Pode ser complicado achar o meio de tudo. Novamente, a tendência também é o extremo. Afinal de contas, todo mundo já viveu o suficiente e todo mundo já expôs o que viveu. Eu só sei que não quero o alerta. Talvez seja coisa de criança malcriada (eu sou mesmo um tanto teimosa), mas quero descobrir vivendo. Os sábios são sábios porque viveram. Seriam mais sábios se nos o deixassem.
Não vejo a hora de ser, enfim, mais velha e ter quem escute as coisas pelas quais passei. A gente tende a fazer isso apenas com os idosos — teoricamente são mais sábios, ou só percebemos que é hora de lhes dar atenção. É hora de lhes dar atenção (como se não fosse sempre hora). A gente sabe o que está errado, a gente sempre sabe. Não existe aquilo que dizemos a nós mesmos sobre estar tudo bem em errar — não pela segunda vez. Errar é sempre humano, mas a gente sabe quando não é só erro.
É que, às vezes, só não dá pé. O dizer não é sobre errar, mas sobre não aguentar. Errar só é tão naturalmente humano porque a imperfeição existe em não suportar o que nos é depositado. Muito é requerido na ação de existir: é preciso saber em quem confiar, em quem não confiar; onde gastar o seu tempo, e de onde sair correndo; o que dizer e o que nunca deve ser dito. Mas o mais importante: perceber o que é essencial. E eu digo isso sabendo que soa como qualquer autoajuda best-seller — no final, eles têm algum mérito. Mas o absolutamente essencial…
Lembra quando você estava bêbado demais para sentir suas próprias bochechas? Foi ali que você teve um pensamento essencial. Talvez tenha sido sobre seu gato que esteja passando tempo demais sozinho, ou sobre a sua mãe que não o vê já tem mais de mês. Talvez sobre o que fazer disso tudo quando nada é suficiente, ou sobre o que fazer daquilo que é demais pra você. Quando, já dizia Caymmi, chamamos o vento. O vento que bate na cara em companhia do sol dizendo “chega, chega! — é hora de ser feliz.” Mas que depois completa: “calma, calma… o processo é triste assim.”
Isso tudo é essencial, e claramente essencial. Tão claramente que não se encara. No fim de tudo isso, fica o retrogosto agridoce daquilo que não se entende mas que se sente. É sempre ali, é ali. Alguns chamam de intuição, outros de consciência, outros de “bateu um negócio”. Mas veja: é ali.
Cineastas, escritores e músicos detectaram isso melhor do que ninguém. Talvez porque transmitam sentimentos também melhor do que ninguém. Tarkovski sempre fala sobre cinema como forma de gravar o tempo, o tempo que passa rápido demais e que muda a cada segundo. O que digo que é essencial também tem um pouco disso.
Estar apaixonado e não saber o que fazer pra demonstrar o quão grande é o que se sente. Estar (e se sentir) vivo e não saber o que fazer pra gravar o momento. Me vicio em tentar salvar gravar registrar reservar momentos e sensações, pensamentos que existem em instantes, porque vivê-los e revivê-los me parece, enfim, a única regra a ser seguida aqui. Confiar, viver e lembrar.
Tento olhar para tudo como coisa estranha de carne e osso que talvez seja familiar para mim mas nunca o suficiente. Curioso mas cauteloso. Me importa considerar que é sempre o mesmo que eu, em diferentes vertentes e contextos, mas um pouco de mim. Frágil, corajoso e com olhar maravilhado e ansioso pro que quer que seja tudo isso. Um experimento sensível demais para a experiência.
메타데이터
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- 2026-07-25 19:35:36