O que nós homens precisamos fazer para que o ciclo de violência contra mulheres acabe?
Educar, reabilitar, politizar, decolonizar e radicalizar meninos, jovens, homens e toda a sociedade.
O que nós homens precisamos fazer para que o ciclo de violência contra mulheres acabe?
Educar, reabilitar, politizar, decolonizar e radicalizar meninos, jovens, homens e toda a sociedade.
Esse texto será tortuoso. Mas talvez seja preciso escrever algo tortuoso nesse momento. Sem fórmulas prontas, mas expondo ideias, propondo possibilidades e sonhando com algo novo. A única coisa que podemos afirmar é que: a responsabilidade para o fim da violência contra mulheres cis e trans é primeiro uma responsabilidade de todos os que se identificam com a identidade de gênero masculina. E em segundo lugar, é uma responsabilidade de toda uma sociedade.
Vamos separar este texto em cinco pontos: educação, reabilitação, politização, decolonização e radicalização, não apenas meninos, jovens e homens, mas de toda a sociedade que vivemos. É preciso transformar o mundo se quisermos que a violência contra mulheres cis e trans chegue ao fim. Não dá para sonhar com um mundo novo conservando todas as estruturas euro-coloniais, euro-cristãs, capitalistas, raciais, capacitistas e patriarcais que sustentam nossa sociedade. Muito menos ficar em devaneios colonialistas que não passam de uma idealização imobilizante sobre passados pré-coloniais em África e Pindorama (e outras partes do mundo). A resposta não passa por mais punitivismo e nem por distorções do passado/presente em nome das nossas frustrações.
- Educar
Aqui entramos numa questão que é fundamental e que transpassa toda a nossa sociedade.
EDUCAÇÃO.
Sabemos que a educação exerce um papel fundamental para a consolidação dos Estados Nacionais e de todo o aparato simbólico e cultural que busca legitimar essas comunidades imaginadas, logo, repensar a educação é primordial para começar a combater a violência contra mulheres cis e trans, mas não só, é lugar em que começaremos todo o processo que culminará na radicalização da sociedade na busca pela completa e total emancipação humana.
A educação precisa ser desde o início uma educação decolonial, feminista, anticapitalista, anticapacitista, anti-LGBTQIAPN+fóbica, antirracista, anti-patriarcal e assim por diante. E não é possível construir este modelo de educação radical e emancipatório que instruirá e solidificará o caminho para que meninos e adolescente não venham a se tornar agressores de mulheres cis e trans no futuro através das estruturas do Estado Colonial-Capitalista de Supremacia Branca e muito menos das estruturas da educação privada.
Escolas que se apresentam como antirracistas e feministas que cobram mensalidades a partir de um salário-mínimo não estão indo contra a norma, pelo contrário, só reforçam esse sistema desigual e que oferecer o mínimo de uma educação diferente para uma parcela ínfima da sociedade e com isso não produz o impacto necessário para a transformar a sociedade.
Sobre a tutela do Estado Colonial-Capitalista de Supremacia Branca, a educação sempre terá sua limitação para transformar a realidade e radicalizar a sociedade, considerando que o Estado precisa de um modelo minimamente uniforme de educação que justifique sua existência e seu controle social, sendo assim, não por mais que os/as profissionais de educação tenham o mínimo de liberdade, ainda assim, terão que se submeter ao modelo e as finalidades que o processo educacional precisa ter para a manutenção do Estado Colonial-Capitalista de Supremacia Branca.
Logo, a educação precisa romper com este estado de coisas e se constituída de forma autogerida pela comunidade. A educação deve ser um vista como um processo coletivo de construção de mundos. Impactar na vida de meninos e adolescentes de tal forma, que o feminismo e a decolonialidade se tornem uma práxis diária da vida deste. É por meio de uma educação popular e radical que iremos educar meninos e jovens para combaterem a misoginia, a LGBTQIAPN+fóbia, o racismo, o capacitismo e todas as formas de preconceito.
É nesse ambiente que não pode ser controlado pelo Estado e nem pelo capital que a educação poderá se desenvolver, que o amor a vida de mulheres cis e trans nascerá. Que um ambiente onde as relações de gênero possam começar a ser construídas de forma horizontal até que possam desaparecer e serem abolidas.
Não existe como educar meninos e adolescentes de forma feminista e radical dentro da estrutura educacional que nos encontramos. É preciso construir algo novo, que seja realmente decolonial e radical.
Nós temos as pessoas capacitadas para isto, o desafio é reuni-las em torno das comunidades e convencer essas a construir redes de solidariedade e afetividade para que essas pessoas possam desempenhar essa função de educadores/as de forma que consigam ter uma estabilidade para viver. É fazer realmente o “nós por nós e pelos/as nossos/as”. Transformar nossas comunidades em polos de educação emancipadora, decolonial, feminista, anticapitalista e assim por diante.
- Reabilitar
Talvez esse seja o mais ponto mais polêmico do que estou escrevendo.
Em primeiro lugar, é preciso estabelecer que para que qualquer homem possa ser reabilitado é preciso existir responsabilização. Não estamos aqui para passar pano na cabeça de homens que continuam a violentar mulheres. Estamos aqui para pensar formas eficazes de romper com este ciclo de violência contra mulheres, considerando o tipo de sociedade que vivemos. É preciso fazer algo para que os agressores de hoje não sejam reincidentes.
Por isso que reabilitar estes homens é importante. É preciso construir um processo político-pedagógico de responsabilização, reparação e reabilitação social desse indivíduo, para que este não seja sugado pelos setores mais reacionários e violentos de nossas sociedades. É preciso que outros homens assumam a responsabilidade política de educar estes homens para que eles não venham agredir e violentar mulheres novamente.
Esse é um processo que pode até ter alguma ajuda de mulheres, caso estas queiram. Mas a responsabilidade de estabelecer grupos de saúde coletiva que tenham como foco a transformação política de homens que cometeram algum tipo de violência contra mulheres é nossa, homens.
É preciso encarar esse problema de frente, confrontar agressores e os responsabilizar. É preciso que eles entendam a natureza política de suas ações e ensiná-los a romper com esse padrão patriarcal euro-cristão colonial de comportamento.
Essa posição política de nossa parte é fundamental para enfrentar esse grave problema. E para tal é preciso que seja nossa responsabilidade combater outros graves problemas das sociedades patriarcais colonial-capitalistas de supremacia branca, como racismo, LGBTQIAPN+fóbia, capacitismo, capitalismo, xenofobia, monogamia e assim por diante. Esse combate é amplo e precisa se articular com a luta contra o patriarcado e a misoginia.
Reabilitar homens não quer dizer que a gente também não seja responsáveis pelo acolhimento de mulheres e a construção de ambientes seguros para as vítimas poderem estar e serem amparadas. Não é possível reabilitar homens se não estivermos dispostos a acolher e ouvir as mulheres que são vítimas das violências cometidas por homens. Essa ação precisa ser realizada nas duas pontas da situação. Porque se não conseguimos acolher mulheres vítimas da violência cometidas por homens, como poderemos responsabilizar, conduzir para um caminho de reparação e reabilitar os mesmos?
E aqui é preciso compreender e respeitar o desejo da vítima de escolher por não passar pelo processo de reparação do seu agressor. A reparação não é só para com a vítima, é também para com a sociedade. É politizar o homem que cometeu violência contra mulheres de tal forma, que ele possa se tornar um aliado da luta contra o patriarcado, a misoginia e a violência masculina, mas também assuma a responsabilidade de educar meninos e adolescentes, participar do processo de responsabilização, reparação e reabilitação de outros homens que cometeram violências contra mulheres.
Para encerrar esse ciclo de violência masculina, é preciso um verdadeiro compromisso político com a transformação da completa da realidade.
- Politizar
Nós homens precisamos ser educados politicamente para sermos realmente aliados da luta contra a violência praticada por outros homens a mulheres cis e trans.
Esse processo de formação política é muito importante. Ele é fundamental para que os “pequenos” comportamentos “normalizados” pelo patriarcado colonial-capitalista de supremacia branca venham a se torna violência psicológica, emocional, econômica, física, sexual ou feminicídio.
Uma formação política feminista, decolonial, anticapitalista e radical é a uma das mais importantes estratégias para por fim a violência masculina; é algo que não inegociável. Sem politizar meninos e adolescente desde cedo, politizar outros homens a partir do momento em que você e eu temos contato com a política feminista e decolonial. Se não politizarmos os homens que agrediram ou violentaram mulheres em algum momento de suas vidas com o intuito de reabilitação. Outros grupos da sociedade o farão.
Esse é processo de disputa política intensa. Não basta criticar os movimentos masculinistas e redpills como o grande problema da radicalização reacionárias dos homens, sendo que existe toda uma estrutura de sociedade que os radicaliza diariamente para odiar mulheres cis e trans, mulheres heterossexuais, lésbicas ou bissexuais, para odiar os corpos não-bináries e sexo-gênero dissidentes, principalmente quando estes corpos são lidos socialmente como corpos femininos.
Essa disputa política sobre a mente e os corações de meninos, adolescentes e homens está posta a partir da cultura e o que eles consomem. Muitos dos artistas homens que se dizem aliados das lutas feministas possuem trabalhos que continuam a reforçar lugares subalternizados a mulheres, continuam a colocar as mulheres como objeto de satisfação sexual do homem e a única forma que elas podem existir em suas vidas ou em suas artes é a partir de uma completamente hipersexualizada. As únicas mulheres para que aparecem em lugar positivo em toda a obra artísticas e cultural desses homens são mães, irmãs, avós ou filhas, vez ou outra a sua parceira afetivo-sexual.
Quando falamos em politizar esses meninos, adolescentes e homens é disputar influência sobre este até mesmo com os artistas que gostamos, é pontuar que por mais importante que a obra deste ou aquele artista seja importante para compreender várias opressões e realidades da sociedade colonial-capitalista de supremacia branca, tais obras não são referência para pensar a realidade das mulheres em nossa sociedade.
Da mesma forma que criticamos os aspectos reacionários do euro-cristianismo, devemos criticar os aspectos misóginos e sexistas dos artistas que se apresentam como aliados da luta feminista. Isso faz parte do processo de politização e construir as bases para por fim a violência contra mulheres cis e trans.
A construção de redes de acolhimento, autocuidado e solidariedade entre os homens não deve confundir formas alternativas patriarcais não-brancas como modelos de construção de masculinidade saudável para meninos e adolescentes, muito como formas alternativas para que homens possam reivindicar masculinidades satisfatórias. Esses grupos devem buscar outras formas de masculinidades, que não se encontram em idealizações do passado sem considerar as suas contradições e especificidades dessas sociedades, e ao ver o passado de forma anacrônica não compreender completamente o papel e o lugar que as mulheres desempenhavam. Considerando que em certos aspectos tais sociedades do passado concederam mais liberdades para elas do que as sociedades colonialistas e colonizadas concedem hoje, mas também há liberdades concedidas hoje que as sociedades do passado não as concediam, seja pelas transformações sociais, políticas e ecomímicas ou não, sendo assim, a opressão de gênero era diferente da que elas vivem hoje.
Esse debate pode se ampliar para vários pontos, mas em resumo o que queremos pontuar aqui é que a política que deve moldar essa nova formação masculina deve se guiar por uma ética feminista decolonial, sem cair nas armadilhas que buscam “suavizar” a opressão de gênero ao olhar para o mundo não-branco como referência de forma acrítica. Sem considerar seus contextos e complexidades, como também as suas contradições e limitações. O mundo não-branco nos possibilitar pensar e desenvolver novas formas políticas de viver as masculinidades, mas se essa construção politica não estiver acompanhada de uma ética feminista decolonial, estaremos mais próximos de reproduzir os padrões opressivos e violentos da masculinidade colonial, só que dessa vez por meio de uma “estética” e códigos de valores diferentes do modelo hegemônico euro-cristão colonial-capitalista de supremacia branca.
- Decolonizar e Radicalizar
Decolonizar é um dos atos políticos mais complicados e complexos em nossa sociedade. É um posicionamento político que requer não só a politização e educação de meninos, adolescentes e homens, mas também a construção radical de uma nova forma de relacionar consigo mesmo, com outros homens (cis e trans), com mulheres (cis e trans) e pessoas não-bináries, com não-humanos e com todo o planeta. Se a masculinidade não passar por um processo de decolonização radical, tudo o que escrevemos até aqui será em vão.
Decolonizar é a construir algo novo, não apenas negar a construção de mundo e das mentalidades estabelecidas pelo euro-colonialismo, é preciso construir novas bases para sociedade. É não cair na ilusão reformistas ou nas alienações sobre um passado que visa só mudar quem controla, oprime e possui privilégios em uma sociedade patriarcal colonial-capitalista de supremacia branca. É abdicar completamente de todos os seus possíveis privilégios para a emancipação humana, não-humana e dos territórios. Masculinidades decolonais é sobre rejeitar qualquer forma de controle.
Masculinidades decoloniais se pautam por unir as diferentes formas ancestrais de viver com as questões da contemporaneidade. É estabelecer relações horizontais com todes ao seu redor, é pautar as suas relações a partir de princípios de autodeterminação, autogestão, igualdade, solidariedade, cuidado e afeto. É retirar a centralidade do sexo das nossas relações e por fim a cumplicidade de gênero entre os homens. Construir relações a partir de uma perspectiva anarco-relacional, onde a não-monogamia política altera e reestrutura toda a nossa forma de viver as relações afetivas e afetivo-sexuais.
Não é possível educar meninos e adolescentes numa ética feminista sem passar pelo processo radical de decolonização, não apenas de homens, mas de toda a sociedade. Também é impossível construir alternativas eficazes de responsabilização, restauração e reabilitação sem que se construa uma base sólida decolonial radicalizada em nossa sociedade. Não existe futuro onde a violência masculina acabe sem considerar o completo desmantelo das estruturas colonial-capitalistas de supremacia branca e a construção coletivas de sociedades decoloniais.
Nossas masculinidades precisam ser constituídas a partir desse processe de radicalização decolonial. Essa é a política que deve nos moldar e moldar meninos e adolescentes. A decolonialidade radical não é algo que possa ser conciliada com o patriarcado, capitalismo, capacitismo e qualquer outra forma de opressão, a decolonialidade é a busca pela emancipação humana, não-humana e dos territórios, portanto, as masculinidades decoloniais se encontram em um lugar de radicalidade emancipatória.
Não existe masculinidade decolonial em um mundo onde mulheres cis e trans são mortas pelo simples fato de serem mulheres. Não existe masculinidade decolonial em um mundo onde pessoas não-bináries perdem suas vidas por não estarem nas caixinhas de gênero. Não existe masculinidade decolonial em um mundo onde crianças e adolescente são vítimas sistemáticas de violência física, emocional, psicológica e sexual. Não existe masculinidade decolonial em um mundo onde a exploração predatória de humanos, não-humanos e dos territórios continue a existir.
Em resumo, não existe masculinidade decolonial que se alinhe e mantenha a ordem patriarcal colonial-capitalista de supremacia branca. A masculinidade decolonial é um projeto radical de transformação da sociedade, que caminha em conjunto com antirracismo, feminismo, anticapitalismo, anti-capacitismo, anti-LGBTQIAPN+fóbia e toda e qualquer forma de opressão e exploração. Nosso compromisso é com a destruição do mundo colonial e dos cistemas de opressão.
Esse longo caminho é responsabilidade de todos os homens cis e trans. Somos nós que precisamos assumir a responsabilidade de educar meninos e adolescentes através de uma perspectiva decolonial feminista radical. É nossa responsabilidade politizar os homens para que eles não venham a se tornar agressores de mulheres cis e trans. Tem que ser a partir do nosso processo radical de decolonização feminista que os instrumento de responsabilização, reparação e reabilitação de homens agressores tenham os efeitos necessários para que esses homens interrompam este ciclo de violência masculina.
Essa responsabilidade é minha.
Essa responsabilidade é sua.
Então é hora de assumir nosso b.o. e começarmos a realmente fazer algo que possa mudar essa realidade. Não basta dizermos que somos contra a violência masculina que tem com suas vítimas mulheres, crianças, adolescentes e outros homens. É preciso uma ação radical, feminista e decolonial de todos nós.
Se você e eu ficarmos de braços cruzados sem combater de forma radical, politizada, feminista e decolonial a violência masculina nunca chegará ao fim.
Black’ Mnyama X
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- 2026-07-14 09:04:03