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Gregos, cavalos, estradas esburacadas e colheres

Esta madrugada acordei com a seguinte reflexão absurda na cabeça: como os gregos antigos conseguiam escrever tendo que amarrar aquelas…

Marcely Costa · 2023-06-18 14:39 · 1 claps · 3.6 min read
#cavalo #buraco #caminho #escrita
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Gregos, cavalos, estradas esburacadas e colheres

Photo by Jez Timms on Unsplash

Photo by Jez Timms on Unsplash

Esta madrugada acordei com a seguinte reflexão absurda na cabeça: como os gregos antigos conseguiam escrever tendo que amarrar aquelas sandálias de cordinha todos os dias? Podia ter vindo no momento em que deslizei meus pés na pantufa, mas parecia vir direto dos meus sonhos e pensamentos de quem dormia. Olhei pra esse pensamento com graça, mas sabendo que nele está uma verdade encrustada, como acredito acontecer com os sonhos.

Eu lembro de há um tempo ser muito famoso um texto de uma pessoa que sofria com lúpus e que dizia como era conviver com lúpus, principalmente a fadiga que a doença provocava. A pessoa tinha elaborado a “teoria da colher”, falando que todos os dias acordava com um número de colheres que poderia usar para aproveitar o dia, um número contado, reduzido pela doença, e que ela usava com cuidado e com o necessário até acabar, que é quando ela ficava esgotada. Lembro o sucesso que esse texto fez também comigo, com minhas amigas, nós de poucas colheres — não pelo lúpus, felizmente, mas por algo que até hoje não sei o que é, mas chamo de depressão (é como os médicos chamam).

Isso também me remete ao fato de que uma amiga minha recentemente recebeu o laudo de autista, e estava me contando que todos esses problemas de depressão, síndrome do pânico etc. etc. eram comorbidades por ser autista, e a coisa boa era que, agora sabendo o que era, ela conhecia melhor as estratégias pra evitar sofrer com tais comorbidades, como usar um fone de ouvido antirruídos, ou ainda ganhar assentos e lugares preferenciais em filas de espera. Escutei feliz por ela, mas pensei que há algum tempo eu fiquei triste pensando que não tinha essa saída pra mim, não tinha um manual de como proceder com a minha falta de colheres, minhas tristezas profundas, nem explicação, nem resolução. Um pensamento engraçado surgiu na minha cabeça de que minha analista talvez me daria o laudo de artista, não de autista. Ela sempre me compara com escritores e realmente quando leio me identifico com a forma e dificuldades de encarar a vida de muitas pessoas que também escreviam. (talvez meu caso sejam só traumas, mas quem não tem traumas?). De qualquer forma, aos poucos eu vou tateando nesse escuro de ser quem sou de uma maneira melhor com a literatura. Estou lendo O Lobo da Estepe e aquilo acendeu uma pequena luz de que talvez não tenha nada assim de tão errado comigo, apenas sou uma pessoa que escreve num mundo que marginaliza escritores e artistas, não reconhece tal profissão de verdade, não lhes paga a sobrevivência. Um mundo em que se você não torna algo rentável, isso não é profissão. E para não ser marginalizada, para ser normal e não uma vagabunda e uma folgada, tento com unhas e dentes não ser uma escritora, ou conceder apenas em ser uma escritora que também faz alguma coisa de rentável. Porém quando amarro as sandálias de cordinha já me faltam colheres para escrever.

Acho que é um sinal positivo (que não sei por quanto tempo irá durar, porque nunca dura) que eu esteja observando isso desse ângulo — de que não tem nada errado ou doentio em ser eu. Porque, como já disse, faz muito tempo que faço terapia e me medico pra deixar de ser eu. Estava em luto até agora por não conseguir mais fazer os queijos ou todas essas atividades que me faziam me sentir triunfante sobre mim mesma. Eu sentia que finalmente tinha conseguindo tomar as rédeas do meu corpo e mente e levar pra outro caminho: um caminho de normalidade e socialmente aceitável, reto, asfaltado. Até que, de repente, num pequeno buraco da pista, eu torci a pata e fui novamente correndo pro caminho de terra e de lama — minha mente me provou que não podia ser domada. Isso me doeu muito, menos pela torção na pata que pelo perder das rédeas. Acho que parte de mim reconheceu que se havia buracos na estrada de pista asfaltada, por que então não me deixar livre correndo pela minha própria terra descuidada?

Que não se confunda essa conclusão de me deixar correr pela terra com alguma espécie de caminho para a cura, isso não é nem de longe uma fábula com uma moral da história redentora. Porque a verdade é que pela minha estrada há muito mais buracos para torcer a pata do que no asfalto lisinho. A única redenção é não ter uma rédea sempre sendo puxada, sempre me levando pro lado que não é da minha natureza e é dificílimo ficar… Se há algo de positivo nisso é esse alívio de não precisar me forçar o tempo inteiro.

No entanto, eu vou continuar me perguntando toda vez que cair nos inúmeros buracos da minha própria estrada: vale a pena continuar correndo? Não. E sabe-se lá até quando vou sobreviver correndo, tropeçando e caindo, levantando e correndo novamente. É realmente horrível, e escrever sobre essa horripilância não torna nada menos duro, e ter alguém que leia também não. É engraçado, ontem eu chamei minha escrita de “presente de grego”. É como se eu fosse mesmo um cavalo, nesse caso o de Troia: carregando comigo nossa desgraça, levando pros outros essa guerra. É absurda essa existência.


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