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O amor na Geração Z: novos tempos, novos interesses

Por Júlia Pimentel, Maria Eduarda Dias, Mariana Dariolli, Samantha Couto, Sophia Petercem e Yasmim Ribeiro, alunas do JOS1H

JOS1H · 2026-06-10 13:55 · 1 claps · 10.7 min read
#amor #relacionamentos #geracao-z #jovens #sexo
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O amor na Geração Z: novos tempos, novos interesses

Por Júlia Pimentel, Maria Eduarda Dias, Mariana Dariolli, Samantha Couto, Sophia Petercem e Yasmim Ribeiro, alunas do JOS1H

Por que os jovens estão se relacionando cada vez menos em uma era que preza a conectividade?

Fonte: Pinterest

Fonte: Pinterest

N o Brasil, junho é tradicionalmente conhecido como o mês dos namorados. Seja por guardar os dias de santos casamenteiros ou pelo espírito das festas juninas, esse período é marcado pela celebração do amor. Desde flores a chocolates, os restaurantes são lotados por casais que aproveitam o dia 12 para declarar-se aos seus companheiros.

Entretanto, uma nova perspectiva de amor ameaça essa tradição: segundo pesquisa publicada em novembro de 2025 pelo jornal inglês *The Economist,* a Geração Z está se relacionando cada vez menos. Cada vez mais individualistas, esses jovens nascidos entre 1997 e 2012 passam pelo que especialistas chamam de date recession, período no qual a busca por compromissos é evitada e até adiada.

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Esse cenário é reflexo direto de um conjunto de novas tensões sociais que moldam as perspectivas do jovem sobre o amor. Em uma sociedade individualista que promove o sucesso profissional sobre conquistas pessoais e uma cultura alimentada por mídias que retratam a desilusão e términos amorosos, a Geração Z não vê a vida a dois como objetivo principal, muitas vezes dificultada pela idealização romântica e o conservadorismo.

Assim, o que leva uma geração que, mesmo hiperconectada — sobretudo digitalmente -, tende a evitar relacionamentos?

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Idealização do parceiro perfeito

Foto: Everton Vila (Unsplash)

Foto: Everton Vila (Unsplash)

A socióloga Bell Hooks passou grande parte da sua vida analisando o poder do amor dentro da sociedade. No seu livro All about love (1999), Hooks cita a obra The Bluest Eye, da escritora Toni Morrison, o qual exemplifica o grande problema do amor contemporâneo: a ideia do amor romântico é “uma das ideias mais destruidoras da história humana”. Segundo as autoras a idealização de uma relação perfeita, muitas vezes “vendida” por meios midiáticos, nos impede de realmente aprender a amar.

A fórmula é básica. A “nerd” faz um acordo de namorar de mentirinha o popular de uma escola para que ele ou ela resolva um problema e, no final, acabam verdadeiramente apaixonados. Ou no início a dupla se odeia e, mais tarde, você descobre que eles sempre se amaram. Moral da história: todos as personagens têm relações perfeitas, com respeito mútuo.

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Entretanto, no mundo real, o cenário é totalmente diferente. O parceiro pode não corresponder às expectativas criadas e alimentadas pela indústria cultural através de livros, músicas e filmes que criam um “imaginário social” da noção do amor.

Em entrevista para esta reportagem, Nathalie Ocáriz, psicóloga pós-graduada pela PUC-RS, pontua que o problema não está na idealização de uma relação perfeita, mas, sim, na reação daquele que idealiza: “Não é sobre criar cenários, e, sim, não saber lidar com a frustração de expectativas quebradas”.

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Gestos românticos e declarações constroem idealizações de um amor que, muitas vezes, não corresponde à realidade. É nesse cenário de desencontros que a frustração surge: o relacionamento não parece valer a pena.

Segundo a Pesquisa Americana de Gênero e Sociedade realizada em 2024, entre os jovens solteiros nos Estados Unidos, as mulheres citam com mais frequência “não encontrar alguém que atenda às expectativas” como um dos motivos que dificultam o encontro de um parceiro, algo que reflete as perspectivas de namoro no país: uma em cada três jovens se consideram solteiras.

Hooks observa em seu livro que, na mídia e na cultura popular, o amor é quase sempre representado como algo da ordem do irreal e do místico, o que impede as pessoas de compreenderem que amar dá trabalho e exige disciplina e esforço.

Realizamos uma pesquisa através de um formulário online com adolescentes entre 17 e 23 anos sobre suas perspectivas do amor. O público alvo foi tanto pessoas solteiras quanto em um relacionamento. Quando perguntadas se o conteúdo que consomem nas redes (TikTok, Instagram, Twitter) influencia o que se espera de um relacionamento, alguns responderam:

Sim, muitas vezes aparecem vídeos de casais que parece que saíram de um conto de fadas, e logo depois tudo isso muda com um vídeo de alguém falando que relacionamento é perda de tempo e tudo mais. Isso na maioria das vezes me confunde sobre o que esperar de um relacionamento. Principalmente na nova fase que me encontro agora.

Sim. Querendo ou não, muitas pessoas compartilham apenas as partes boas de seus relacionamentos. Isso acaba gerando uma expectativa muito grande no público, que acaba se frustrando achando que não é capaz de conseguir um relacionamento “perfeito”, quando, na verdade, sempre haverá altos e baixos e o importante é saber lidar com isso.

Talvez. Acho que me deixou mais exigente quanto às pessoas com que procuro me relacionar e também me faz mais confiante de que posso ter uma vida muito boa sozinha. Então se a pessoa não for melhorar o que eu já tenho, não vale a pena começar um relacionamento.

A psicanalista e escritora* Regina Navarro Lins, em [entrevista à Forbes Brasil](https://forbes.com.br/forbes-life/2026/01/estamos-vivendo-uma-recessao-amorosa-global/)*, afirmou que o colapso não está no amor, mas no modelo de amor romântico que deixou de dialogar com os desejos contemporâneos. “O amor romântico prega a fusão de duas pessoas em uma só, a ideia de que um parceiro deve suprir todas as necessidades do outro, uma promessa impossível que gera sofrimento”, completa.

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Assim, diante de uma fórmula de amor que provoca frustrações, o isolamento torna-se uma forma de autocuidado.

“O nosso inconsciente transforma aquilo [a idealização] em meta. Queremos o ‘Príncipe da Disney’ e esquecemos que seres humanos reais têm falhas, defeitos e até chulé. O segredo seria transformar a idealização em conversa: sentar e dizer o que é importante para nós, em vez de esperar que o outro adivinhe. Relacionamentos exigem sair do individualismo e estar disposto a construir algo com o outro, sendo vulnerável”, afirma Nathalie Ocáriz.

Já influenciou muito, hoje eu vejo que relacionamentos são mais simples do que eu pensava, basta ter alinhamento entre as pessoas, vontade de permanecer, interesse genuíno, disposição, respeito e cuidado. (Adolescente de 18 anos, na pesquisa realizada para esta reportagem)

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Quando a barreira é interna: autoestima

Photo by M.T ElGassier on Unsplash

Photo by M.T ElGassier on Unsplash

Em uma era dominada pela escassez e controle de afeto, admitir que se gosta de alguém passou a ser visto como um sinal de vulnerabilidade. Nesse contexto, ganharam espaço formas mais discretas de aproximação, como curtir stories, reagir a publicações ou enviar conteúdos nas redes sociais.

O chamado “flerte indireto” permite demonstrar interesse sem a exposição emocional de uma abordagem mais direta, funcionando como uma forma de reduzir os riscos da rejeição.

Entre curtidas, trends, páginas de fofoca e validação online, questões como autoestima e insegurança ganharam ainda mais espaço na forma como os jovens se relacionam.

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O medo de parecer vulnerável ao demonstrar sentimentos, confiar em outros e, até mesmo, começar uma nova relação ganha proporções maiores com a possibilidade de tornarem-se virais na internet. Atualmente, qualquer situação pode virar entretenimento nas redes através de prints de conversas e desabafos que circulam rapidamente em trends (a exemplo da trend Pov: Homens 2026).

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A constante comparação e o receio da exposição fazem com que inseguranças pessoais interfiram diretamente na construção dos vínculos afetivos. Como consequência, até atitudes simples, como chegar em alguém, se tornam difíceis. O medo da rejeição, da humilhação pública ou de virar assunto na internet faz com que muitos prefiram não tentar.

A autoestima também interfere diretamente na maneira como a Geração Z enxerga a iniciativa dentro dos relacionamentos. Em um contexto marcado pela busca constante por validação, muitos jovens sentem que precisam encontrar a “forma perfeita” de chegar em alguém, como se qualquer erro pudesse resultar em constrangimento ou julgamento.

A pressão para parecer interessante, engraçado, confiante e emocionalmente equilibrado faz com que atitudes simples sejam excessivamente pensadas antes de acontecer.

Mensagens são revisadas várias vezes, interações são analisadas em excesso e até o tempo de resposta se transforma em estratégia. Com isso, a espontaneidade acaba sendo substituída pelo medo de errar, fazendo com que muitos prefiram não tomar iniciativa a correr o risco de parecer “emocionado”, estranho ou insuficiente.

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Além disso, acostumada a interações mediadas por telas, a Geração Z também enfrenta dificuldades na socialização fora do ambiente digital. Conversas por mensagem, áudios curtos e interações rápidas nas redes sociais substituíram, em muitos casos, o contato presencial e a comunicação “olho no olho”.

No ambiente online, existe tempo para pensar antes de responder, apagar mensagens, reformular frases e até calcular quanto tempo esperar para não parecer emocionado ou desinteressado demais. Já nas interações presenciais, as respostas são imediatas, espontâneas e muito mais vulneráveis.

Assim, situações simples como iniciar uma conversa, demonstrar interesse ou manter um diálogo pessoalmente podem gerar ansiedade e desconforto. A facilidade de se comunicar atrás de uma tela cria uma sensação de controle que não existe nas relações presenciais. Isso faz com que muitos jovens se sintam mais seguros digitando do que falando cara a cara, o que contribui para relações cada vez mais marcadas pela insegurança e pela dificuldade de conexão real.

O individualismo e prioridades

Photo by Christin Hume on Unsplash

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Priorizar carreira, estabilidade financeira e autoconhecimento antes de iniciar um relacionamento sério são sinais que a Geração Z lê como amadurecimento. O compromisso é visto como privilégio de quem já alcançou o sucesso, algo que demanda tempo.

Mas, olhando mais a fundo, surge a pergunta: essa concepção é sintoma de uma época com agenda mais lotada ou de um medo insustentável de se vincular?

Os números reforçam a priorização. Levantamento da plataforma EduBirdie, reportado pelo Correio Braziliense, apontou que a maioria dos jovens prefere um emprego seguro e o sucesso pessoal, colocando carreira e descanso à frente, inclusive, do sexo. Para a Geração Z, o relacionamento amoroso entra na agenda só depois que o resto está resolvido.

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Para a psicóloga clínica Janina Prudencio, essa percepção de “falta de tempo” é, muitas vezes, uma explicação consciente que esconde inseguranças e medo do vínculo. As relações chegam apenas à superfície, longe do que duas pessoas poderiam construir juntas.

O foco obsessivo na realização pessoal impede a juventude de sair da zona de conforto e lidar com as complicações de se relacionar, ou seja, fazer concessões e cobranças que desafiam o próprio “eu”.

Existe, segundo a psicóloga, um “mito do tempo”: todas as gerações precisaram estudar e trabalhar. A diferença não é a falta de horas, mas a falta de disposição para se dedicar ao outro e o modo como se administram as horas livres.

Essa lógica se ancora em eventos decisivos, como a pandemia. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os casos de depressão e ansiedade aumentaram mais de 25% globalmente já no primeiro ano da pandemia de Covid-19, interrompendo o desenvolvimento de uma geração inteira, que se tornou hiperconectada por necessidade.

Esse comportamento de autonomia revela o que Bell Hooks descreve como a “máscara do cinismo”: mecanismo de proteção dos corações já decepcionados, que temem novos riscos.

Vivemos em uma sociedade que cria jovens individualistas, incapazes de se arriscar e investir emocionalmente nos outros, alimentando o vazio emocional e os níveis recordes de ansiedade que a própria OMS aponta. O “eu” ocupa o espaço de empoderamento, sem sobrar energia para o investimento no “nós”.

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Isolados, os relacionamentos se reduzem ao que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama de “conexões de bolso”: descartáveis, mantidas apenas enquanto são convenientes, sem o “perigo” de alterar a rotina. Uma dinâmica mais prática do que afetiva.

A resposta à pergunta inicial talvez não seja excludente. A Geração Z não está só ocupada. Está, em alguma medida, protegida. Priorizar a carreira é, ao mesmo tempo, um projeto legítimo de vida e um álibi confortável. O choque com o outro é o que nos tira da cristalização, obriga a lapidar o olhar sobre quem somos. Sem ele, o “eu” se mantém intacto. E cada vez mais sozinho.

Conservadorismo: amar hoje é diferente?

Photo by Pierre Bamin on Unsplash

Photo by Pierre Bamin on Unsplash

Outro aspecto que merece destaque é a percepção geracional do amor. Afinal, amar hoje é diferente?

A socióloga Bell Hooks afirma que, ao longo das gerações, a prática do amor passou da esperança ao cinismo. Nos anos 1960 e 1970, marcada pelo movimento hippie e pela contracultura, a juventude levantava a bandeira da “paz e amor” sob o hino de “All You Need Is Love”, dos Beatles.

A geração atual, na visão de Hooks, faz o caminho inverso: trata os relacionamentos como insignificantes, associando o amor à ingenuidade, figurada na imagem dos “românticos incorrigíveis”.

Para exemplificar seu ponto, a socióloga recorre a uma citação do rabino norte-americano Harold Kushner, em When All You’ve Ever Wanted Isn’t Enough: The Search for a Life That Matters (“Quando tudo o que você sempre quis não é o suficiente: a busca por uma vida que importa”, em tradução livre):

“Temo que estejamos criando uma geração inteira de jovens que crescerão com medo de amar, com medo de se entregar completamente a outra pessoa, porque terão visto quanto dói correr o risco de amar e não dar certo. Temo que eles cresçam procurando intimidade sem risco, prazer sem investimento emocional significativo. Eles terão tanto medo da dor da decepção que renunciarão às possibilidades do amor e da alegria”.

Mas os dados mostram uma camada paradoxal. Se por um lado a Geração Z foge do compromisso, por outro adere, em proporções inéditas, a um conjunto de valores tradicionais sobre amor e gênero.

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A pesquisa global divulgada em março de 2026 pelo King’s College London em parceria com o Ipsos aponta que cerca de um terço dos homens da Geração Z concorda que uma esposa deve sempre obedecer ao marido, aproximadamente o dobro da proporção registrada entre baby boomers. O estudo identifica padrão semelhante em relação à autonomia feminina e a normas sexuais.

A psicóloga clínica Janina Prudencio, que atende jovens, vê esse descompasso na prática. “Tem crescido tanto o conservadorismo…”, observa. “Tem pessoas que têm essas ideias um pouco mais retrógradas. Querem se casar, ter filhos, mas não sabem como, não sustentam isso.” A nostalgia de um modelo idealizado convive com a incapacidade de habitá-lo.

Para a psicóloga, parte desse retorno é reação ao que mudou. “As mulheres estão se tornando mais progressistas, e os homens, mais conservadores”, diz. “O homem já estava no pedestal. Os pais da minha geração trabalhavam, chegavam em casa, filhos arrumados, janta pronta. E a família não podia reclamar.” Conforme as mulheres conquistaram espaço, esse lugar ruiu, e parte dos homens, em vez de se reorganizar, regrediu. “Conservadores tentam conservar essa ideia. Porque para eles o mundo era perfeito.”

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Mas se o passado é evocado como ideal, vale ouvir quem o viveu.

Marília Mourão Carvalho, 85 anos, casou-se aos 23 em uma época em que separar-se era impensável.

“O divórcio, antigamente, ninguém aceitava. Aliás, eu não divorciei, só me separei”, conta. Quando rompeu o casamento, perdeu o apoio das amigas e da família, abriu uma conta na mercearia para sustentar os filhos e fundou um pequeno ateliê para sobreviver. “Principalmente quando você depende muito financeiramente do marido, a coisa complica muito.”

Hoje, perguntada sobre que conselho daria à geração atual, Marília não defende o retorno àquele modelo. Pelo contrário: “Uma das coisas mais importantes hoje é a pessoa ter uma carreira, ser independente financeiramente, porque o emocional é muito equilibrado com a parte financeira. A pessoa não casa só com amor. Tem que ter independência, financeira e emocional”.

O amor “antigo” que parte da Geração Z parece querer resgatar não era melhor. Era mais compulsório, sustentado por uma estrutura de dependência que mulheres como Marília passaram décadas tentando desmontar. O conservadorismo que avança não é o resgate de um amor perdido. É a tentativa de reconstruir um roteiro cujos custos eram pagos, sobretudo, por quem ali não tinha voz.


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