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Eu de Você

Esse final de semana eu levei minha mãe e meu marido para ver a peça Eu de Você, com idealização e criação de Denise Fraga, José Maria e…

entre-lugares · 2023-11-21 18:56 · 3 claps · 4.4 min read
#resenha #teatro #eu-de-você #tuca
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Eu de Você

Esse final de semana eu levei minha mãe e meu marido para ver a peça Eu de Você, com idealização e criação de Denise Fraga, José Maria e Luiz Villaça. Eu já havia visto a peça uma vez, mas, à pedido de Denise no final do espetáculo, usei do boca-a-boca para encantar e persuadir minha mãe ao mundo encantado do teatro.

A peça, julgo dizer, é sobre a vida, a memória, o porquê de escrever (de contar histórias) e também sobre a saudade, palavra essa tão quista por nós brasileiros que enchemos o peito para falar toda vez que podemos essa só existe na nossa língua portuguesa e que, de fato, toda vez que a gente tenta traduzi-la, algo fica perdido no processo.

A escolha aqui de chamá-la de Denise e não de Fraga, é pela aproximação que a atriz nos proporciona durante a pesa, que começa antes do terceiro sinal, onde Denise dá as boas vindas a quem passa despercebido por ela, sem reconhecer a atriz, procurando seu assento. Ela senta em um banco, conversa com uma senhora, abraça um desconhecido. Aos poucos, as pessoas vão apontando, a percebendo, o barulho da platéia vai diminuindo… Quase fazendo possível ouvir a conversa de Denise conosco. E aos poucos, a ficção vai se tornando em vida… Ou seria o contrário?

Encenando histórias que evocam a lenta perda daqueles que nos criaram, a dolorosa percepção das prisões do dia-a-dia e também o poder do pontapé inicial, do querer, do sonhar… Denise nos enche de encantamentos com sua atuação singela, assim como com perguntas que servem como beliscões — que nos fazem tanto rir quanto chorar.

Em determinado momento, ela comenta como a frase que está estampada em nossa bandeira vem de um filósofo francês positivista, Auguste Comte, onde se lê o Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim. Muito humorada, de forma a nos desarmar, ela brinca que na reunião da escolha da bandeira, provavelmente feita por homens ao redor de uma mesa, alguém teria escolhido deixar o amor de fora, com a justificativa de que amor todo mundo tem. É quando o cerne da peça se revela e ao cessar de risos e aplausos, Denise se volta ao público, nos questionando: e amor, todo mundo tem?

Com a intenção de não estragar mais do enredo da peça, que fica em cartaz no Teatro TUCA em Perdizes até o dia 10 de Dezembro, vou me conter a não comentar muito mais das histórias evocadas por Denise, doadas de maneira tão aberta e vulnerável à peça por pessoas não-atrizes-e-não-atores, dividindo seus tesouros mais preciosos conosco. Mas ainda vou me atentar a comentar somente mais duas situações da peça.

A primeira é que a peça usa do poder da música como mecanismo de comoção e de aproximação da platéia toda vez que possível, é como se a gente estivesse asssitindo a vários personagens cantando no chuveiro, em seus quartos e até mesmo no karaokê. O som que sai de uma pessoa e não nos atravessa, mas sim, resolve bater em nossa porta e dizer oi, posso ficar aqui com você por um instantinho? e que vai embora sem dizer tchau, obrigado pelos biscoitos. O poder da música que faz com que a gente se conecte quase que imediatamente com aquela ideia ali apresentada para nós de forma tão sutil e certeira. E que também nos é apresentado em forma de hits da música moderna, como um mashup maravilhoso de All You Need is Love dos Beatles com Suspicious Minds de Elvis Presley.

A música sempre foi algo que me movimentou e me fez pensar, refletir e ir para lugares que nunca teria chego sozinho; ela tem um papel muito semelhante ao do cinema dentro do meu cerne. E, pelas escolhas do roteiro da peça, pela voz não de cantora profissional de Denise, mas meio que parecia com a nossa, que às vezes erra um tom e se permite emocionar por uma letra cantada em voz alta, a sensação que fica é de que existir em um mundo sem a esperança do poder ou sem a magica da humildade, é existir em um mundo que não vale a pena viver.

E que loucura sentir tudo isso em menos de duas horas de peça, sentado, olhando de maneira fissurada para uma atriz milenar, enxugando as lágrimas com as mãos e não com um lencinho apropriado para aquilo, porque ninguém te avisou sobre o que era a vida, er, digo, a peça e você, por sorte, tinha R$30 reais e tempo livre em uma sexta-feira à noite no meio de Perdizes.

A segunda e última coisa que gostaria de comentar vem ao final da peça, em que Denise faz algo semelhante a uma coisa que eu odiava em meus tempos de catequese, no qual o padre dizia algo semelhante a paz de cristo estar dentro de nós e que o correto era compartilhá-la com aqueles ao nosso redor, mesmo aqueles sendo pessoas totalmente desconhecidas para nós. Veja, agradecer a um estranho e desejá-lo a paz absoluta só porque está escrito em algum livro parece algo mundano de se fazer no mundo em que vivemos e na maneira que tratamos uns aos outros, principalmente se você é uma criança viada não assumida no meio de uma igreja católica.

Mas ali, na peça, foi diferente.

Denise fala algo sobre a felicidade ser um lago e nos aconselha a olhar para o lago (o todo) e para o lado (quem está literalmente ao nosso lado). E nesse dia, eu estava entre minha mãe e meu marido, o que fez tudo ficar ainda mais especial, pois meu lago jamais seria como ele é hoje, sem a ajuda daqueles que sempre estiveram ao meu lado. Estes sim, que doaram tempo, dedicação e afeto a construção do meu lago e de todas os muros, portas e pontes que ligam nossas propriedades umas nas outras, como corações conectados por veias pulsantes, muitas vezes desprotegidas e à mostra, mas revestidos por uma magia que só aqueles que se permitem ser vulneráveis conhecem. Com esses sim, eu quero compartilhar a minha felicidade.

Deixo vocês com minha palavras e, além do boca-a-boca, outro mecanismo do contar histórias, o vídeo:

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