O elefante e a formiga
Recentemente, um amigo, vivendo uma situação bastante complicada, me confessou que as reclamações de coisas pequenas vindas de outras…
O elefante e a formiga
Recentemente, um amigo, vivendo uma situação bastante complicada, me confessou que as reclamações de coisas pequenas vindas de outras pessoas, agora, tinham se tornado ainda menores. Eu entendi imediatamente sobre o que ele estava falando.
Dia após dia, nós, seres perdidos aqui nesse infinito-finito desconhecido, nos ocupamos de pequenas coisas sem importância para evitar olhar e viver o que realmente importa. São pequenos problemas de relacionamento (seja amoroso, familiar, de amizade), reclamações de trabalho, imagem pessoal, dinheiro, e todos os pequenos desejos que não conseguimos alcançar. Ao mesmo tempo, acontecimentos importantes se desdobram bem em frente aos nossos olhos ou dentro de nossos corações, acontecimentos tão imensos que é difícil notar dando uma só olhada, como um Monet em uma galeria.

O jardim do artista em Giverny — Claude Monet — c. 1900
Eu mudei de casa esse mês. Resolvi dividir um apartamento no centro com meu companheiro, e tive a sensação de ver pequenos problemas sumindo de uma só vez. E não foi exatamente como se problemas maiores tivessem aparecido e ofuscado os pequenos. O que acontece é que não existe mais espaço para discussões inúteis que não levam a nada. Não existe espaço para ressentimentos ou desconfianças. Não cabe mais. Nesse apartamento de 49cm², só existe espaço para o que interessa de verdade. Mas esse é só um exemplo.
Aquele meu amigo que citei no início do texto perdeu o pai recentemente. Minha supervisora no trabalho, também. Uma série de pessoas têm perdido parentes e amigos queridos recentemente. Ao mesmo tempo, uma certa parcela da população acredita que seus motivos pessoais para não perder um bar no sábado a noite são mais importantes e inegociáveis.
Nós escolhemos tampar os olhos para o elefante na sala e procurar formigas no chão, porque formigas são mais fáceis de lidar. Até o momento em que não é mais possível ignorar o elefante na sala.

Ants and Elephants — Nathan St. John
É lidar com o elefante que vai fazer com que a nossa visão se expanda um pouco além, o suficiente para viver com mais graça e tranquilidade. Até porque não necessariamente o elefante precisa ser algo negativo. O elefante pode ser tudo de incrível que existe em nossas vidas e que negligenciamos pelos pequenos problemas.
O clichê em questão é real. Desistir de se importar com as pequenas coisas e valorizar o que é verdadeiro. Mas ninguém consegue viver assim 24 horas por dia. Principalmente porque, muitas vezes, é um mistério saber o que merecedor da nossa atenção e o que é só desperdício de esforço e tempo (e saúde mental). Muitas vezes, o elefante parece minúsculo enquanto as formigas se engrandecem.
Reconhecer o que merece ou não a nossa atenção é um treino que dura a vida toda, muitas pessoas alcançam, outras não, mas o que importa é a busca. O caminho até saber distinguir o elefante das formigas (seja o elefante a perda de um ente querido, um apartamento novo, ou lidar com difíceis relações familiares e amorosas) é o que faz com que, aos poucos, o elefante já não seja um problema, enquanto as formigas ainda pinicam. Mas, então, é só esmagá-las. Elas já são pequenas demais agora.
메타데이터
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