← Back to list

Copos, talheres, pratos e panelas

Ele sempre começa a lavar a louça pelos copos, segundo seu pensamento, os copos são os objetos menos engordurados, devido a sua…

Gustavo Alencar · 2020-04-16 15:01 · 96 claps · 5.5 min read
#pandemia #coronavirus #louça #quarentena #processo
Open on Medium ↗
Wiki topics: MIC · Microbiology & Immunology

Copos, talheres, pratos, panelas e a pandemia na pia.

Foto do noticiário www.sensacionalista.com.br que traz a manchete “Frio no país faz com que número de louças sujas na pia seja o maior em 30 anos”

Foto do noticiário www.sensacionalista.com.br que traz a manchete “Frio no país faz com que número de louças sujas na pia seja o maior em 30 anos”

Ele sempre começa a lavar a louça pelos copos, segundo seu pensamento, os copos são os objetos menos engordurados, devido a sua característica de uso, (portar um líquido) essa lógica pode ser verdadeira. Passa para os talheres, sempre lavando as facas primeiro, pra diminuir o risco de acidentes, após esses movimentos chegam os pratos, antes de molhar, sempre joga fora o resto de comida que sobra nos pratos da casa, no dele não, no dele nunca sobra comida. Por fim, as panelas, mais difíceis, enquanto lava os outros objetos as penelas ficam de molho, para ajudar no processo de retirada de gordura, sabão expele gordura, ele viu um experimento quando criança e nunca se esqueceu da gordura espalhando na água quando se pinga uma gota de sabão, sempre achou mágico.

A bucha tradicionalmente verde e amarela, pelo menos nas casas do Brasil, já estão surradas, incontáveis louças foram lavadas, mas enquanto a parte verde da bucha estiver “arranhando” as panelas ele a usa, sente que a bucha desgastada tem mais flexibilidade e pode alcançar aquele cantinho maldito que sempre fica sujo.

A pia tem uma cor amarela desgastada, um dia já foi branca. A casa da qual ele aluga tem uma arquitetura dos anos 40, janelas de madeira, aquelas que se abrem como um abraço onde as namoradeiras ficam debruçadas, há também uma pequena área de entrada com janelas de vidro e aço, portas de madeiras com ornamentos em ferro e aquela “janelinha” pra saber quem é que chega da rua, o portão e o muro baixo facilitam a visualização, essa arquitetura se perde cada vez mais para pequenos prédios amontoados em cubos de 40 metros quadrados, uma pena. A pia está desgastada por estar a pelo menos noventa anos recebendo água, sabão e louça, e a louça sempre precisa ser lavada.

Enquanto lava a louça, a porta da cozinha que dá para uma área de lavanderia externa, deixa um facho de sol entrar, a gata fica sempre na mesma cadeira ao lado da porta, ouvindo atentamente o som das ararinhas, bem-ti-vis e outros pássaros barulhentos, o fundo dá num vão com casas abaixo e é possível enxergar a rua de trás. Ele sempre fica de costas para a porta, ao contrário da gata, que sonha um dia caçar um pássaro, ele sonha um dia que a louça pare de sujar.

Ingênuo, mal sabe ele que a louça suja indica que um prazer foi consumado anteriormente, isso mesmo, um prazer. O prazer de se alimentar, comer, beber e mastigar, o preço desse prazer é a louça, que deve ser limpa, a outra alternativa a limpar a louça é descartá-la, caso ela seja descartável, mas assim não há planeta que aguente.

Os dias tem sido mais longos nesses tempos, o mundo ativou um processo de defesa e está fazendo com que todas as pessoas (ou quase todas) fiquem em casa, ele está em casa, cada dia que passa e cada noite que desce ele percebe que a relatividade do tempo é mais real que qualquer outra coisa. Seu sono em casa pode ser respeitado e o cochilo da tarde começa a ser trocado pela longa noite de sono da madrugada. Mesmo acordado de madrugada suas manhãs não são sonolentas, a louça do jantar sempre o faz companhia, copos, talheres, pratos e panelas. Não é adepto de congelar comida pronta, o prazer de comer acompanha o prazer de cozinhar. Todos os dias se cozinha, nem que seja um lanche. E se acumula louça.

A mulher que te faz companhia junto a louça e a gata, na casa de 90 anos, sempre usa da louça limpa para tomar seu café, depois do prazer dela, ela lava a louça, é sempre assim, depois do prazer de comer vem a louça a ser lavada. É o contrário do trabalho, onde se trabalha para depois ter o gozo. O ser mais discreto dessa casa é a gata preta, rajada, na verdade, ela sempre se coloca na lateral da convivência da casa, ou embaixo do sofá.

O piso frio da cozinha está cada dia mais frio, seus pés calçam meia, em sua roupa nada combina, samba canção com a primeira camiseta do guarda-roupa. A temperatura da água indica mudança climática, a pia amarela surrada é curta e pingos da louça, especialmente dos pratos, chegam a sua camiseta, na altura da barriga, deixando uma marca localizada e gelada. Na noite passada a janta foi pizza, entregue por sua pizzaria preferida, apesar do prazer de cozinhar não estar presente na louça o de comer sempre está, e com isso o acúmulo dos objetos a serem lavados, na ordem correta, segundo ele.

Nos dias mais frios desse período em que o mundo repousa numa quarentena em casa, ele ousa deixar a pia acumular muita louça, as mãos, ferramentas essenciais na lavagem das louças se assustam com a temperatura da água, no Brasil aquecedor de torneira é um luxo, e raro nas casas médias da cidade, com isso a louça se acumula, junto a gordura, os mosquitos e o odor não muito agradável. A porta por onde entra o facho de sol permanece fechada e as gatas se juntam ao pé da mulher que demora a levantar da cama.

Quando a situação fica deplorável, o tempo tende a ajudar, o sol aparece, mas sem a força que ele geralmente expressa num país tropical, a porta permanece fechada e a água continua gelada, mas a tarefa de lavar a louça precisa ser executada, não há mais talheres ou pratos a única panela limpa é pequena demais para assar um pão com manteiga, o prazer de comer fica distante, as comidas “pronta pra comer” estão cada vez menos suprindo a necessidade do prazer da comida real. A louça precisa ser lavada. Não há como ignorar, ela precisa ser encarada de frente.

Separa os copos, os talheres, os pratos e as panelas, ali já haviam xícaras de chá que foram usadas para tomar sucos de laranja, algumas formigas carregam as folhas de um morango da sobremesa do dia sabe-se lá qual, precisa usar a mesa para separar toda a louça, a pia curta não comporta, empilha os pratos, coloca todos os talheres no escorredor do macarrão alho e óleo - esse tava uma delícia. Lembra. Agora com toda louça separada, começa a pegar copo a copo, com a bucha verde e amarela, garfo a garfo, colher a colher, faca a faca, os pratos de todos os tamanhos brincam de Torre de Babel e como na história da torre, tudo ali fala a mesma língua, a sujeira. O trabalho de esmiuçar cada cantinho maldito é compensado com uma esticada nas costas, apesar de pouca idade ele sente dores nas costas. Quando chegam as panelas as mães de toda aquela sujeira e de todo o prazer consumido, os braços pedem ajuda, nessa hora ele percebe que a bucha está velha demais e precisa ser substituída, havia esquecido o prazer de ter uma bucha nova, aperta a bucha na água corrente e adiciona sabão, aperta forte, para ganhar flexibilidade, e começa o serviço. Esfrega, sente, passa a mão, os dedos e enxágua, a pia vai abrindo espaço e o escorredor começa a lotar, é como brincar de tetris, se cada objeto ocupar o melhor lugar, o espaço é suficiente.

O odor vai embora, os mosquitos migram de louça e a pia curta parece extensa, o amarelo desgastado da pia começa a ser visto novamente, e o caminho para um novo prazer começa a ser fervido na leiteira, o pão com manteiga começa a ser cortado com uma faca limpa e descansa sobre um prato raso, o café começa a espalhar seu cheiro através da cafeteira, todo o prazer começa a ser reposto, de louça suja na pia limpa, que logo ele terá que lavar, não há gozo na pia suja, e o processo de limpeza é constante. A gata repousa na cadeira e a porta já está aberta, o sol entra pelo facho e a mordida no pão seguida do gole no café com leite do copo americano é precedido da presença da mulher — Bom dia amor, eu lavei a louça, tem café!

Essa é uma história escrita na quarentena da pandemia mundial do coronavírus, a louça segue suja. Se você gostou, deixe os aplausos (claps) pra eu sentir que tem gente junto lavando louça por ai.


메타데이터
post_id
88627f1063fc
slug
copos-talheres-pratos-e-panelas-88627f1063fc
url
https://medium.com/@alencargu/copos-talheres-pratos-e-panelas-88627f1063fc
canonical_url
https://medium.com/@alencargu/copos-talheres-pratos-e-panelas-88627f1063fc
author_url
https://medium.com/@alencargu
status
ok
fetched_at
2026-07-29 04:11:06