Traços primitivos e civilidade do homem
Geralmente não sou de escrever ao correr da noite. Na verdade, sou adepto da noite como período que se tem como aceitável o ócio…
Traços primitivos e civilidade do homem
Geralmente não sou de escrever ao correr da noite. Na verdade, sou adepto da noite como período que se tem como aceitável o ócio. Entretanto, aqui estou eu para escrever algo que matutou em minha cabeça durante toda esta semana que findará no dia de amanhã.
Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer toda subjetividade deste escrito, que usará referências externas mas em nenhum momento tenho a intenção de impilcar qualquer tipo de impessoalidade no texto. Trata quase de um artigo de opinião.
Enfim, comecemos. Como mencionei, durante a semana ocorreu-me o pensamento acerca da influência do homem primitivo e suas pulsões instintivas. Relacionei isto com a série “Vikings”, outra protagonista desse texto.
Minha leitura atual é “Escritos sobre a guerra e a morte” de Sigmund Freud. Nesse primoroso livro, Freud trata sobre o comportamento humano diante das guerras que ocorrem em seu país. Acerca disso, contextualiza a mente humana da retratada época de forma curiosa: começa discutindo como aqueles que se consideravam “os únicos civilizados”, os europeus, os super-humanos, santos servos de Jesus Cristo chegaram ao estado de brutalidade da guerra.
Freud retrata que os homens europeus tinham a si mesmos como elevados a um “grau superior de moralidade”, espécies de super-humanos, o único povo civilizado habitando a Terra naquele momento. Então, começa a construir o raciocínio de como aquele povo se “elevou” àquele estado, a conclusão é de que com o passar do tempo, por meio da educação e da cultura ambiente europeia, substituíram as más inclinações por inclinações de boa índole. Como se houvesse “erradicação do mal”. Todavia, conclui em contraste que não há erradicação do mal nenhuma, e explica: os humanos têm impulsos instintivos, da raça, algo que ligamos atualmente ao mundo animal, instintos no geral. Estes surgem afim da satisfação de necessidades fundamentais à vida, não sendo bons nem maus. Entretanto, todos esses impulsos são justamente o que a sociedade civilizada somada á moral religiosa classificam como “maus”.
Avançando para a fase seguinte: por serem classificados como “maus” são inibidos em nosso interior até a vida adulta, que é quando se manifestam, por não podermos praticá-los. Assim, são desviados, evitados, viram-se contra si mesmo e essas reações geram transformações nos mesmos, no livro tem-se como exemplo o que era egoísmo virando enorme compaixão. Por isso, raramente alguém é inteiramente “mau” ou inteiramente “bom”, mas sim ora “mau” e ora “bom”.
Posteriormente, Freud explica como e por quais razões essas transformações pulsionais ocorrem. Primeiro, a substituição do egoísmo pelo social acontece porque o homem é escravo do erotismo e tem a necessidade de ser amado, assim aprende a ter o ato de ser amado como uma vantagem e passa a preferir o social ao individual. Mais tarde, o fator externo e mais importante aqui: a cultura exerce coerção sobre nós, sujeitos, pela civilidade, pela moral que se criou enquanto civilização. Prega-se que a única forma de atingir a civilidade é renunciando a satisfação pulsional. A sociedade cobra elevada moral do homem e este, para cumprir com a demanda, deve inibir seus impulsos instintivos “da raça”. Essa inibição retorna mais tarde, visto que os impulsos não somem, mas apenas se fazem presentes, esperando momentos oportunos para se manifestarem.
Nesta lacuna entra a guerra: a guerra se torna o ambiente perfeito para que aqueles mais poderosos, indivíduos de elevado grau de importância, satisfaçam seus impulsos instintivos. A guerra é uma forma de emergir da civilidade e imergir adentro dos originais desejos pulsionais. Ninguém perdeu a moral, apenas inibiram-se da pressão cultural.
Enfim, o exemplo que gosto de dar em conversas é o de cachorros. Sim, isso mesmo, cachorros. Estes, como conhecemos, têm muito clarividentes seus impulsos instintivos: acasalamento como forma de satisfação a uma necessidade corporal, a qualquer momento e em qualquer lugar; o ato de urinar como demarcação de território; constantes conflitos resolvidos por rotineiras brigas de rua, enfim, apenas respondem a seus impulsos instintivos.
Agora, imagine que o cachorro, esta raça que conhecemos, comece a evoluir e atingir a civilidade, e vou além, nessa imposição de civilidade definem que é “mau” responder seus impulsos instintivos. Assim, a forma com que viviam torna-se “incorreta” para sua nova forma, sua civilização, mas os impulsos ainda existem dentro de cada um desses cachorros membros da sociedade. Para então poder fazer parte dela, estes inibem seus próprios desejos instintivos, simplesmente não os conferem. De repente, a grande guerra civil da sociedade dos cachorros emerge e estes saem nas ruas conflitando entre si, provocando mortes e o retorno àquelas brigas de rua anteriores. Enfim, essa guerra foi a forma que tiveram para que pudessem emergir da civilidade e voltar a atender seus impulsos instintivos, satisfazendo-se.
Em suma, esse trama fictício da “sociedade dos cachorros” foi o que nos aconteceu e a guerra é a pausa na civilidade para satisfação de nossas pulsões instintivas.
Em concordância, agora relaciono com a série antes mencionada.
Nesta, é evidente o comportamento quase que primitivo dos chamados vikings em muitas formas, andar desnudos em caso de comemorações no chamado “Grande Salão”, a guerra com forma de lazer, prazer em confrontos físicos, diversão em ver mortes, prazer em disputas de homens enfrentando homens seja por motivos de conquista territorial, conflitos entre reinos, relações entre filhos, disputa por mulheres. Enfim, a lista é vasta.
Quando chegam a Inglaterra, no reino de Wessex, que convida formalmente o reino vizinho com a liderança sendo disputada, o monge Athelstan é capturado pelos ingleses e exerce a função de ser fonte de informação dos nórdicos, após passar anos vivendo com estes na vida viking. Em uma conversa com Athelstan sobre costumes de vida nórdicos, certa rainha profere “Eles são bem mais livres, né?”, e essa frase ecoou como um chamado para a análise em meus ouvidos.
Por que a rainha os enxerga como mais livres, eu lhes pergunto. Mas a resposta é óbvia. Fica claro o contraste entre ingleses e nórdicos no quesito civilidade: os ingleses já estão bem mais mergulhados nesta. Totalmente soterrados pela civilidade, com seus desejos instintivos inibidos á espreita. E então, o prazer da liberdade está ligado a realização dos desejos instintivos? Para a rainha sim. Em parte da rainha, é sufocante ver o modo de vida “livre” nórdico de naturalmente caminhar desnudo, matar por diversão, deitar-se com iguais por diversão e uma satisfação geral simplesmente por satisfazer-se, e mais tarde retornar á civilidade da Inglaterra onde a moral não a permite satisfazer seus próprios instintos.
Por fim, é evidente a diferença de costume, de civilizações mesmo que, os nórdicos também possuíssem seu jeito civilizado — em menor escala — de viver. É também evidente a felicidade estampada no rosto dos “livres” contrastando com a incompreensão pintando o rosto dos “civilizados”, e por fim, evidente a inveja no rosto dos civilizados a ver o modo simples de vida dos “não-civilizados”.
Enfim, quantas mudanças seriam necessárias em nossa sociedade atual para que pudesse ser aceitável satisfazer impulsos instintivos? Quanto “retrocesso” deveria haver? Haveria mais felicidade em atender a esses impulsos? Reflexão interessante.
메타데이터
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