Capazes, mas subestimadas: pessoas com Síndrome de Down enfrentam barreiras no dia a dia
Preconceito e falta de informação restringem possibilidades dos portadores dessa condição

Capazes, mas subestimadas: pessoas com Síndrome de Down enfrentam barreiras no dia a dia
Preconceito e falta de informação restringem possibilidades dos portadores dessa condição
**Isabella Lima, Louise Gabriele e Melissa Lins***
As limitações constantemente atribuídas às pessoas com Síndrome de Down dizem mais sobre a sociedade do que sobre elas. Com acompanhamento adequado e devido acesso a terapias de estímulo, essas pessoas podem apresentar potencial de desenvolvimento amplo. A estudante de Cinema e atriz Valentina Borlenghi, de 19 anos, é um exemplo dessa realidade: com uma rotina que inclui faculdade, atuação, música, leitura e esportes, ela corre atrás dos seus sonhos e acredita que com esforço e dedicação pode fazer tudo. “Eu quero seguir minha vida com todo o esforço que eu tenho”, afirma.
Segundo a médica neurologista Amanda Ferreira de Paula, o desenvolvimento de pessoas com Trissomia do Cromossomo 21 (T21), conhecida como Síndrome de Down, não segue um padrão único e depende de fatores como condições de saúde, ambiente familiar e acesso a estímulos. “O desenvolvimento é muito particular”, explica.
A especialista destaca ainda que a estimulação precoce e o acompanhamento multidisciplinar, com terapias como fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, são fundamentais para que essas pessoas atinjam seu potencial máximo.
Na prática, porém, esse acesso não é garantido a todos. Famílias têm recorrido ao Judiciário após planos de saúde negarem tratamentos essenciais. Em uma decisão de 2025, uma operadora foi condenada por recusar atendimento multiprofissional a uma criança com Síndrome de Down, mesmo com prescrição médica. O Superior Tribunal de Justiça declarou que esse tipo de recusa é abusivo e que o tratamento deve ser garantido de forma ampla e contínua.
Esse cenário evidencia que o desenvolvimento dessas pessoas pode ser limitado não pela condição genética, mas pela dificuldade de acesso aos tratamentos adequados. A trajetória de Valentina reforça esse contraste. Estudante da FAAP, ela atua desde os 14 anos, já participou de peças teatrais, produções audiovisuais e mantém um cotidiano que inclui leitura de autores como Shakespeare, aulas de canto, piano e prática de taekwondo. “A gente não tem tantas limitações como as pessoas pensam”, diz.

A atriz e estudante de Cinema Valentina Borlenghi. Foto: Instagram @valen.borlenghi
A conquista da autonomia é parte importante para Valentina. “Às vezes decidem coisas por mim. Eu quero seguir minha carreira sozinha”, reforça.
A vontade de assumir suas escolhas reflete um processo natural de amadurecimento, comum a qualquer jovem. Nesse percurso, ela também conta com o acompanhamento da psicóloga Nanci Pereira da Costa, evidenciando a importância do suporte especializado no desenvolvimento emocional e na construção da independência, justamente o tipo de acompanhamento que, em muitos casos, ainda é negado ou dificultado por planos de saúde.
O preconceito também aparece como fator limitante. Valentina relata episódios de bullying na infância e afirma que nem sempre se sente incluída.
De acordo com Amanda, a exclusão social pode afetar tanto o desenvolvimento emocional quanto cognitivo.
Embora haja avanços no discurso sobre inclusão, a prática ainda apresenta falhas. A presença de pessoas com síndrome de Down em espaços como universidades e mercado de trabalho não garante, necessariamente, participação plena.
“Eu tento me esforçar para interagir”, resume Valentina, sobre sua experiência na faculdade.”É difícil, mas faço o meu melhor.”
Mais do que inclusão, sua trajetória aponta para a necessidade de rever expectativas. Quando as barreiras são reduzidas, o processo mostra que os limites não estão necessariamente na condição, mas no acesso a oportunidades.
*Reportagem produzida na disciplina Laboratório de Produção Jornalística, oferecida pelo Programa de Desenvolvimento de Competências Profissionais (PDCP) da FAAP. Isabella Lima e Louise Gabriele são alunas de Moda e Melissa Lins é aluna de Animação da FAAP.
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