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A TERRA COBRA — 2026

A Terra Cobra

Bruna Sena · 2026-04-04 05:08 · 0 claps · 9.9 min read
#indigenas #mulher #terra #reforma-agrária #sem-terras
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A TERRA COBRA — 2026

  • A Terra Cobra

Cruzo a cerca do sítio abandonado, seguindo o rumo do cheiro de jaca. Que sorte desse fim de ano cair numa lua minguante. Se a noite estivesse mais clara, ficaria difícil invadir esse lugar sem ser vista, por mais que seja um lugar ermo. Sinto raiva de saber que outro ano acabou, e continuo fodida, sem grana para fazer uma mísera ceia. Não que eu tenha com quem dividir. Desde que saí da minha cidade natal, cortei o vínculo com todos os meus parentes. Não que eles se importem. Se ao menos eu tivesse enriquecido, os desgraçados provavelmente forçariam uma simpatia para o meu lado, tentariam forjar um vínculo familiar inquebrável, falariam do amor incondicional entre pessoas que compartilham a mesma linhagem sanguínea. Mas, não. Aqui estou eu, no auge dos meus 35 anos, pulando a cerca do sítio de outra pessoa, iluminada apenas pelo farol baixo do meu carro, roubando uma jaca para fazer salpicão.

Pego uma jaca verde, perfeita para cozinhar, e recolho os pedaços de uma que já está madura, caída no chão. Não gosto de desperdiçar ingredientes… Junto os pedaços, e com eles vêm as memórias de uma infância passada com a minha Yá, que todos chamavam de velha preta. O cheiro dessa fruta não agrada a todos, eu sei, mas ele sempre me faz lembrar da minha Yá velha preta e da única época em que eu me sentia pertencente a algo bom. Aproveito e colho umas folhas também, mais por hábito do que por fé. Não sou a melhor filha do Odé, e desde que a Yá se foi, sinto que não sou boa em nada. Alguns hábitos não morreram, entretanto.

Volto com uma jaca no colo, e mais uma mochila pesada com os restos que catei, pro meu Voyage 89 preto. A porta só abre pelo lado do passageiro, desde que a chave quebrou na fechadura do lado do motorista. Paguei três mil reais nesse carro porque meu avô dirigia um. E porque era o máximo que eu podia pagar num carro. Ainda precisei pegar um empréstimo. Puxo o banco do passageiro para guardar as coisas no banco de trás, separo apenas a faca para colocar embaixo do meu assento, como de costume. Meu avô era branco. Não tenho muitas memórias dele, só lembro que algumas vezes ele ia na casa da Yá, e isso acabava com o humor dela. Ele usava umas correntes douradas, numa camisa polo semiaberta, que mostrava o peito peludo. E também fumava muito. Foi dele que aprendi o hábito, porque a Yá só fumava no terreiro, enquanto eu acordo seis vezes toda madrugada só para isso. Não lembro se eu gostava dele, acho que não, mas isso não importa, porque ele era o homem mais bem sucedido que eu conhecia, e isso me fazia admirá-lo um pouco. Eles eram os pais da minha mãe.

Mal terminei de prender a mochila e a jaca no banco de trás, quando sinto um arrepio no pescoço, que se espalha pelos meus braços, e a sensação de que tem alguém perto de mim. Será que é algum ladrão? Ou é algo pior? Seguro a faca, torcendo que haja uma oportunidade de reação, e então o vejo em frente ao carro: lindo, imponente, misterioso. A luz do farol baixo realça seus olhos incandescentes. Nunca tive muito contato com a família do meu pai, mas é impossível não reconhecê-los. Eles têm a pele escura, mas diferente da Yá, é uma pele vermelha. O barro era diferente. Os cabelos negros e lisos pelos quais sempre fui elogiada também estavam ali. “Cabelo bom é cabelo de índio”, dizia a Yá. Sou muito mais parecida com eles do que com a minha Yá ou com a minha mãe. Seus olhos pequenos são da cor de um fogo primitivo. Não tenho convivência suficiente com eles para entender claramente o que esses olhos dizem, mas sinto que eles têm milhares de anos. Sua aparência é refinada, e seu rosto estampa a serenidade dos justos. Fecho a porta do passageiro, sem perder a compostura, afinal, não sei de suas intenções e não sou capaz de demonstrar simpatia com quem não conheço. Mesmo que eu saiba quem ele é, eu não o conheço.

Ele fala primeiro, e se aproxima, cauteloso. Por mim, eu entraria no carro e dirigiria para bem longe. Se conseguisse fazer isso, gostaria de fingir não tê-lo visto, ignoraria sua existência. Seria outra similaridade minha com meu pai. Mas tem essa maldita porta desse maldito carro velho. Sinto um calor no peito e um nó na garganta ao ouvir sua voz profunda. Ele não precisa falar alto, porque estou ouvindo-o na minha mente. Ele não faz rodeios, não se apresenta. Nem mesmo me cumprimenta. Desejo ser capaz de fingir simpatia para embaraçá-lo. Penso em dizer, com o tom mais sarcástico que eu conseguir: “Boa noite para você também! Como vai?”, mas sou parecida com eles. Olho em seus olhos, enquanto ele diz que a minha situação é vergonhosa. Não sinto julgamento e nem pena em sua fala, soa como uma atestação, um simples fato. E isso me quebra. Em seguida, vem a proposta, ridiculamente franca, como tudo nele. A promessa daquilo que eu mais desejo: riqueza. A verdadeira riqueza brasileira. Sair dessa desgraça de vida em que preciso roubar jacas porque não tenho terra nem para plantar as minhas próprias jaqueiras. Ele é muito direto — é extenuante continuar me reconhecendo em suas ações -, promete que eu vou enriquecer, que terei terras e dinheiro se aceitar uma missão para matar umas pessoas. Assim, sem meias palavras, sem enfeites, apenas uma proposta absurda e clara. “Mate as pessoas que eu te indicar, e você terá as terras e dinheiro que quer”. Aceito sem fazer manhas ou fingir moralidade.

Minha mão direita está doendo. No frenesi mental que entrei, não percebi que estava apertando demasiadamente a velha faca, com a qual pensei em me defender. Nunca funcionaria contra ele. Relaxo a mão, ele sorri e me entrega uma adaga escura. — Ainda não te apresentaram o aço? — tento usar um tom despretensioso, para disfarçar o encanto com o incrível artefato que ele exibe para mim. — Eu gosto de tradições, achei que você também gostaria. E é bem mais confiável do que isso que você está portando… — Penso que qualquer teimosia de minha parte poderia ser interpretada como um sinal de que estou aberta à interação, e como não estou, apenas pego a — muito linda — adaga de obsidiana negra, com um detalhe de cobra coral no punho, feito em couro. Entramos no meu carro velho, e eu me pergunto se a essa altura da vida ele já dirige máquinas. Pergunto apenas para mim, pois não estou com vontade de conversar com ele. Falar o mínimo, me envolver o mínimo, e com sorte eu consigo não sentir nada. Estranhamente, ele parece entender e também não me pergunta mais nada.

Chegamos no local que ele indica, e fico surpresa, porque é um terreiro de candomblé bem conhecido. Não é noite de xirê, mas será que consigo fazer isso sozinha? Ele devia estar desesperado quando me convidou para esse trabalho. Eu aceitei por desespero. Mas não esperava me sentir tão deslocada. Esse lugar não é para gente como eu. Ouvi dizer que você não consegue nem um ebó por menos de trinta mil reais. Lembro que a minha Yá sempre me dava, de graça, os ebós, boris. Na época, todos esses rituais faziam sentido para mim, e me faziam sentir bem, como se eu fosse protegida, acompanhada e amada. Mas eu era nova, ainda achava que o Axé era uma herança admirável. Eu invejava o que era feito em casas como essa, o tanto de dinheiro e influência que rolava, mas não admirava. Não era o candomblé que aprendi. Não que eu seja purista, nem que eu possa julgar alguém, não sou a melhor filha do Odé, e só me sobraram as tradições que não consegui abandonar por hábito — mesmo que eu tenha o hábito de abandonar. Eu não posso fingir, porém, que esse candomblé não é brasileiro de verdade, mesmo sendo hediondo.

É hipócrita da minha parte pensar em toda a perversidade desse lugar, quando eu estou prestes a fazer o que vou fazer, reflito. Então paro com as considerações e tento silenciar a balbúrdia mental. Ele nota a minha tensão, e placidamente comanda — Eu abro as portas. Seja rápida. — Invado o primeiro quarto, tão logo ele escancara a porta, e vejo um homem grande, branco, gordo e peludo sendo enrabado por um adolescente franzino e marrom. Enfio a faca no olho esquerdo do gordo e o glóbulo ocular vem grudado na ponta. Sou muito rápida, e antes que ele consiga gritar, corto-lhe a jugular, ele cai no chão se debatendo como um porco. O adolescente está em choque e sua reação é lenta, sinto que ele nem sequer cogita gritar. Mesmo assim, rasgo-lhe a garganta e ele cai no chão, um pouco menos turbulento que o parceiro. É estranho eu ser tão boa em matar, sendo que é a primeira vez que faço isso. A primeira vez com humanos, pelo menos. Ou eu posso ter tido sorte de principiante, dadas as circunstâncias em que os dois alvos se encontravam. “Alvos?”, questiono meu pensamento. É, posso chamar assim, afinal, eu estou numa missão. Olho rapidamente ao redor, e é mais normal do que eu pensava. Não sei se é minha mão tremendo, ou se a obsidiana negra está se alimentando.

Saio do quarto e ele está na porta, como se me esperando sair. Oferece-me um lenço branco e fico impressionada em ver que ele possui senso de humor. Ele me pergunta se eu não quero saber quem ele é. — Sei quem você é desde o primeiro instante em que te vi. — Ele sorri com sinceridade, acredito que ficou feliz com meu reconhecimento. Sempre que me contavam suas histórias, eu o julgava um intransigente. Não imaginava que possuía senso de humor, tampouco que era capaz de se emocionar. Recuso o lenço com um balançar da cabeça.

Paramos em frente ao próximo quarto, ele, silenciosamente, abre a porta, e eu observo o quão rápido fiquei confortável com a barbárie, mas me atenho à eficiência. O cheiro de álcool e cigarro invade meus sentidos. E os outros cheiros daquele quarto, ainda mais perturbadores e enjoativos. Vejo três homens adultos. Um, negro com barba grande, está sentado numa cadeira, cheirando uma carreira de pó numa mesa cheia de garrafas — ele parece alto, pode dar trabalho; outro homem, pardo e magro, está desacordado no sofá, com uma garrafa quase vazia em seu colo — fácil. O terceiro, um branco calvo, não parece alto, está com as calças arriadas enquanto recebe um boquete de uma criança ajoelhada no chão, sentado na outra extremidade de um largo sofá preto, de couro falso. Não olho para as inúmeras marcas de queimaduras naquele corpo ainda em desenvolvimento. Espero que eles estejam drogados o suficiente para não tentarem reagir. Corto a garganta da menina, e antes que o corpo dela desabe por completo, já estou em movimento. O homem desacordado no sofá é o mais fácil: um corte preciso na jugular. A queda abrupta do corpo da criança tira o homem branco sem calças de seu torpor; antes que ele reaja, atiro uma das garrafas da mesa em sua direção, e minha mira está sobrenatural. Ele desmaia, e o sangue jorra de sua cabeça, enquanto me volto para matar o homem negro que cheirava a cocaina. Evito pensar na desconcertante sensação de prazer que o sangue quente espirrando em mim está me causando. Não quero pensar em nada, preciso focar em fazer certo. “Se você tem que fazer, faça com excelência”, ouvi do meu avô uma vez, depois de tomar um tapão na cara por fazer “uma porcaria de café” que ele me mandou preparar. Finalizo o serviço furando os olhos e abrindo a garganta do que fora alvejado pela garrafa.

A noite está passando rápido, há quantas horas estou fazendo isso? A sensação é de que passaram segundos, um peso de eras tenta cair sobre meu peito, no entanto, desvencilho-me dele e seguimos para o quarto principal. Sinto uma urgência de pedir permissão para entrar, em vez de invadir, como fiz com os outros. Esse quarto, de repente, pareceu muito importante. Penso em contar para ele a minha necessidade, porém ele se antecipa e bate na porta. Uma mulher excessivamente parecida com a minha mãe, tanto em aparência quanto em idade, abre, despreocupada. Pulo em cima dela e fecho as mãos em volta de seu pequeno pescoço. Emoções se agitam em mim, entretanto, não está na hora. Minhas mãos apertam com mais ênfase na pressa de finalizar. Estou focada e não vou deixar a aparência perturbadora dessa mulher estragar a minha eficácia. Seus olhos transitam entre o homem-serpente ao meu lado, e voltam para mim, buscando reconhecer, perguntando o porquê. Sua confusão invade a minha mente com memórias, eu preciso focar em não falhar. Nesse caos, ouço sua voz sufocada e espremida ainda conseguir pronunciar — Desperta, Orixá! — Porra! Malditas últimas palavras. Sou tomada por um ódio que até então não me possuíra, meus olhos ardem, lágrimas quentes correm de imediato em minha face, quero matá-la, preciso matá-la, e sorrindo respondo entredentes — Tribo errada, velha! — No entanto, minha cabeça está enorme, pesada, imagens de tempos que não sei se estão no passado ou no futuro se misturam a sensações e cheiros, me sinto gigante e imponente, ao mesmo passo em que me sinto vazia e perdida. A Yá estava certa em recusar suspender-me como Ekedi. Embora seja a primeira vez em que sinto o transe de forma tão sufocante e envolvente. Meu corpo vibra, meu coração parece uma bomba relógio, a circulação sanguínea se torna uma represa bruscamente rompida. Sinto vontade de me atirar ao chão e de sair correndo. A velha com a cara idêntica a de minha mãe pergunta, não para mim, mas para quem está me assenhoreando — Mamãe Yemanjá veio em meu favor? — Sua voz soa dengosa e aduladora. As águas em mim se revolvem e eu me sinto ainda maior e mais forte ao responder serenamente — Não. Eu vou tirar a sua vida com minhas próprias mãos, e esta é a minha dádiva final. Yemanjá, de fato, veio hoje, mas saiba que ela veio por mim! — E torno a apertar-lhe o pescoço com tanta intensidade, que seu corpo começa a murchar como um balão, e a sumir, restando apenas uma cabeça pálida com olhos esbugalhados.

Seguro a cabeça por uns instantes e não sinto nada. Nem dor, nem remorso, tampouco tristeza. Olho para o Jurupari ao meu lado, e lhe atiro a cabeça, como se fosse uma bola. Ele a guarda entre tecidos escuros e itens que não consigo identificar. Talvez colecione espólio. Não quero perguntar. — A minha parte está feita. Agora eu quero as minhas terras. –, minha firmeza esvaiu. A adaga escorrega de minha mão, agora tão enegrecida quanto ela. Não consigo olhar em seus olhos de serpente antigos e incandescentes. Não agora. Vou sozinha para o carro, quase correndo, talvez eu esteja correndo. Entro no banco de trás e abraço com força a minha jaca, e então me rendo ao irreprimível choro.

Fim.


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